MULHERES NEGRAS EXIGEM POLÍTICAS PÚBLICAS

Em 1992, no I Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, em San Domingos, na República Dominicana, foi definido o 25 de julho como Dia da Mulher Afro-latino-americana e Afro-caribenha, que no Brasil abreviamos para Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe, com a finalidade de construir um alerta visível para situação em que vivem as mulheres negras da América Latina e do Caribe: opressão de gênero e racial/étnica particulares e que se potencializam.

Pretende-se mudar esta situação exigindo que governos e sociedade reconheçam que o mito da “mulher universal”, o mito da “sororidade entre as mulheres” e o mito da “sororidade entre os negros”, são apenas mitos e não a realidade.Embora se esteja vivendo os primórdios do terceiro milênio, e a luta por transformações nas relações de gênero, de raça/etnia e de classe social (e) tenhamos atingido avanços significativos no final do século XX, de acordo com Maria Noelci Homero, coordenadora da Regional Sul da Rede Feminista de Saúde e da ONG Maria Mulher, ainda é preciso lutar para que as modificações se efetivem. O retrato formulado pelas estatísticas ainda é preocupante, revelando através de número(s) a dura realidade da(s) desigualdade(s). Segundo (os) dados estatísticos as mudanças nas relações sócio-econômica, política e cultural ocorridas principalmente na última metade do século XX foram importantes, mas não realizaram transformações em estruturas importantes como o sexismo, o racismo e a exclusão social.. No Brasil, as mudanças ocorridas no plano político, por exemplo, onde a democracia, aponta para contínuos exercícios do direito de eleger representantes nos três níveis: Federal, Estadual e Municipal, não significa que vivamos em perfeito estado democrático. A democracia pressupõe o efetivo exercício do ir e vir.

Isto não é uma realidade verdadeira para a população afrodescendente. As mulheres negras têm cidadania inconclusa. As mulheres estão em pequeno número nos espaços de representação política não atingindo a cota de 30% estabelecida em lei. No que se refere às mulheres negras o quadro de dificuldades aumenta. Ressalta-se que a situação sócio-econômica, política e cultural das mulheres negras, no geral, ainda é abaixo da linha da pobreza. Possuímos uma baixa escolaridade e estamos em situação de exclusão social.

Nós mulheres negras, neste inicio de século, ainda carecemos de políticas públicas em relação à saúde (tratamento e identificação de doenças específicas, como hipertensão arterial além da anemia falciforme); à saúde mental; ao tratamento de DST/HIV/AIDS; à violência sexual e racial; ao trabalho; à educação e a habitação. Ainda somos agredidas pela violência ideológica que se manifesta na negação da nossa identidade. Sofrendo a imposição dos padrões estéticos brancos. Somos vítimas de exploração sexual e comercial da nossa imagem, principalmente nos meios de comunicação. As adolescentes negras são vítimas de exploração, servindo para nutrir o turismo sexual e tráfico de mulheres.

No mercado de trabalho, as mulheres negras detêm as maiores taxas de desemprego e permanecem mais tempo desocupadas. Chegam a receber rendimentos 55% menor que os salários das mulheres brancas e constituem a maioria das trabalhadoras do mercado informal. Além disso, exercem as ocupações consideradas de menor qualificação, como o de trabalhadora doméstica (56% segundo PNAD, 1999 pesquisa nacional de amostra de domicílios).

Na esfera de representação política, a mulher negra está longe de atingir os espaços institucionais de poder. Na sua grande maioria, está fora da escola, sem nenhum acesso à informação tecnológica. Freqüentam escolas públicas sucateadas e que não têm o menor compromisso com a diversidade cultural e com a promoção da igualdade de direitos.

Para o Fórum de Mulheres Negras do Distrito Federal, mesmo com tantas barreiras, a mulher negra vem se impondo em nossa sociedade. Intensifica-se a luta da negra, pelas questões específicas, juntamente com a luta da mulher pela garantia de direitos e do negro pela igualdade racial. Como avanço, hoje nos movimentos social e sindical (negros/negras, indígenas, feministas, orientação sexual), levanta(m-se) a bandeira de reivindicações específicas, enquanto mulher, organizando-se em fóruns, associações, ONGS e rede. Enquanto são barradas em clubes, hotéis, restaurantes as mulheres negras se mobilizam para ocupar espaços dignos e de decisão no cenário da sociedade brasileira.

mulheresnegrasdf@gmail.com / www.mariamulher.org.br

Jacira da Silva e Eliane Pereira – Fórum de Mulheres Negras do DF
Joelma Cezário – Conturno de Vênus

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Published in: on 25/07/2008 at 17:37  Comments (1)  

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  1. Estão de parabens, pelas informações da mulher negra, sabemos que sofre tripla discriminação, gênero, classe, raça. Precisamos estar atentas pra exigir do poder público, mais políticas públicas, principalmente pra as mulheres negras


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