29 DE AGOSTO – DIA NACIONAL DA VISIBILIDADE LÉSBICA

Pronunciamento de Daniela Marques – militante da Sapataria – na Sessão Solene em homenagem ao Dia Nacinal da Visibilidade Lesbica, dia 29 de agosto, na Câmara Legislativa do DF.
 
O dia de hoje – 29 de agosto – marca o início do primeiro Seminário Nacional de Lésbicas, o SENALE, ocorrido em 1996 na cidade do Rio de Janeiro, reunindo cerca de 100 mulheres lésbicas e bissexuais de todo o país.
 
O SENALE é um marco na história do movimento de lésbicas no Brasil. Surgiu a partir da necessidade de se criar um espaço para discussão das questões específicas de mulheres lésbicas e bissexuais, de forma ampla e democrática, porque em atividades mistas esse espaço era praticamente inexistente. E, não nos iludamos, continua sendo. Sendo assim, o SENALE passou a ser o espaço próprio e legítimo de proposição e deliberação das lésbicas organizadas no Brasil.
 
O que queremos quando nos organizamos e vamos à luta – literalmente – por aquilo que acreditamos? Em que acreditamos, afinal?
 
Acreditamos, acima de tudo, que o mundo à nossa volta pode ser mais justo e eqüitativo. Acreditamos ser possível superar as desigualdades incrustadas na cultura machista, racista e heteronormativa que oprime, desrespeita e violenta mulheres, pessoas LGBT, pessoas negras, crianças, pessoas pobres, e assim por diante.
 
Sabemos que o modelo político e econômico que está colocado já não atende às necessidades da comunidade global no século 21, assim como nunca atendeu às nossas necessidades e desejos. Por toda a nossa existência, tivemos que nos adaptar a um mundo feito por homens e para homens – independente do objeto de nosso amor e desejo ser mulher ou homem! Não é assim a Democracia, por exemplo? Feita por e para homens?
 
Por isso, desde sempre, vimos buscando alternativas para um mundo verdadeiramente possível, com oportunidades de vida justa e digna para todas as pessoas, sem discriminação por orientação sexual, raça, classe ou outro tipo qualquer.
 
Um exemplo dessa busca é a teoria da Economia Política Feminista, desenvolvida durante as últimas décadas. Acreditamos nela e não desistiremos de implantá-la em todos os níveis da sociedade, por acreditarmos que esta é uma alternativa concreta viável. Não nos sentimos contempladas pelas obras do PAC, pela reforma superfaturada da via EPIA ou do viaduto de Águas Claras, e muito menos pela descoberta da camada de petróleo pré-sal.
 
Acreditamos em um sistema público de transporte que seja eficiente, limpo e pontual, com motoristas educados e conscientes, que pratiquem a direção defensiva e não esta que conhecemos – a ofensiva; acreditamos na frota abastecida com biodísel fabricado a partir da mamona ou outro produto complementar da agricultura familiar, gerando distribuição de renda e economizando poluição.
 
Assim, todo o cimento utilizado para a construção de viadutos inúteis e a fina camada de piche que recapeia nossas pistas ano após ano poderiam ser aplicados, muito mais justamente, na construção de casas, escolas, hospitais, pistas de skate, quadras de basquete… E este é só um exemplo, no vasto leque de possibilidades já comprovadas para um desenvolvimento sustentável e justo.
 
Apesar de tudo isso, atuando em linha de frente paralela, ainda em 2008 as lésbicas lutam pelo seu espaço nas esferas de elaboração de políticas públicas, buscando serem consideradas e respeitadas como cidadãs de direitos. Os 508 anos de história do Brasil reservaram às mulheres que amam mulheres um lugar à margem da sociedade, em plena era de globalização e “desenvolvimento social”. Para nós, mulheres lésbicas e bissexuais, não há política de saúde, educação, emprego e renda, cultura, capacitação profissional, nem mesmo de prevenção a DST e Aids – só para citar alguns exemplos de exclusão e desigualdade.
 
No DF, as entidades de lésbicas organizadas promoveram no mês de agosto uma ampla programação de debates políticos e eventos culturais com o objetivo de promover a cidadania e a visibilidade lésbica. Mas a nossa luta continua durante todo o ano, todos os dias, até o dia em que todas as mulheres – lésbicas, bissexuais e heterossexuais – tenham as mesmas oportunidades, o mesmo respeito e o mesmo direito a uma cidadania plena que todas as pessoas.
 
Se você é lésbica ou mulher bissexual, procure os grupos e ONGs organizadas na sua cidade. No Distrito Federal, contamos com duas entidades de lésbicas organizadas, que são a:
 
Associação Lésbica Feminista Coturno de Vênus; e a
 
Sapataria – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais do DF
 
Organize-se!! Exija seus direitos e viva sua liberdade de expressão afetiva e orientação sexual. Acompanhe as programações. Demande que sua deputada ou deputado distrital, que o Governador e todas as Secretarias do GDF façam e regulamentem leis que atendam às suas necessidades.
 
Lembre-se: SUA BOCA É FUNDAMENTAL CONTRA FUNDAMENTALISMOS! Não fique calada, exija seus direitos!!
 
Obrigada, e até domingo na Parada Lésbica!
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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Muito legal esse blog! Não conhecia o grupo Sapataria, encontrei o grupo pesquisando sobre movimentos feministas em comunidades do orkut. Achei muito interessante, e certamente voltarei mais vezes a esse espaço para ler mais sobre o movimento de vocês e me informar sobre o cenário feministas de Brasília.

  2. Tipo…sou do Ceará,adorei a reportagem atraves de uma amiga q me passou o site fiquei por dentro.Muito interessante,todos nós gays,lésbiacas,bisexuais,trans,travestis…temos direitos como os heteros.
    Nossa vida e personalidade depende de cada um e se alguem tem algo contra guarde e cuide da sua vida,sem maltratar e ferir-nos. Na minha cidade não tem ONGs mais acharia muito interessante se tivesse pois minha cidade e aos redores está cheio de pessoas q necessitam de palestras e ajuda sobre esse assunto.

    Obrigada!!

  3. Achava que estava num mundo onde as pessoas evoluissem conforme o tempo, mas deparo com pesar com preconceitos de tds as formas. Certas regras impostas ainda resistem ao passar do tempo. Não só as tendencias sexuais, mas raciais tb. Lidar com diferenças ainda é impossível para um determinado grupo. São pessoas não evoluídas que ainda possuem instinto primitivo…como um bicho, estranha td que é diferente, que foge aos costumes…e reagem de formas mais grotescas.Infelizmente ainda a época da inquisição resiste até hoje.


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