COISAS DE MINHA VIDA LÉSBICA

por Mariana Miranda Tavares

Algumas coisas que vivenciamos ou que temos na vida são resultados de escolhas nossas outras são resultados das famosas “coisas da vida”. Vou chamar de “coisas da vida” aquilo que não escolhemos, mas que é da nossa natureza, da nossa essência, do nosso jeito de ser, ou situações que aconteceram ou que fazem parte da nossa vida sem que tenhamos escolhido isso!

A grande maioria das minhas “coisas da vida” me faz muito feliz, ou me fizeram chegar até aqui e ser quem eu sou! Mesmo aquelas que eu já esqueci ou não vou conseguir esquecer e que são muito tristes, mesmo essas foram fundamentais para a Mariana que me tornei. Posso colocar nesse grupo o meu jeito bagunceiro que garante à minha faxineira uma bela diária, ou o meu jeito brincalhão que muitas vezes me coloca em situações complicadas. Mas tudo isso faz parte de mim.

Também é uma coisa da vida o fato de eu ser homossexual. Sim, não sou eu que escolho por quem eu quero me apaixonar. Se fosse assim eu seria… homossexual… porque com certeza escolheria a Camila Pitanga ou a Jodie Foster. E é isso que efetivamente que me faz homossexual, eu tenho tendência a me envolver afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo que o meu, o feminino.

Mas entre eu ser uma mulher homossexual e ser lésbica existe uma grande diferença. E é nessa diferença que reside não apenas “coisas da vida”, mas essencialmente minhas escolhas. Ser lésbica é definitivamente uma escolha minha! E é uma escolha de todos os dias.

Ser lésbica não é ser sapatão! Ser lésbica não é ser gay! Ser lésbica não é ser homossexual! Ser lésbica não é ser sapa! Ser lésbica é ir além desses rótulos. É antes de qualquer outra coisa ser mulher! Ser lésbica é escolher a porta do armário aberta, escancarada algumas vezes, porque para uma mulher ser lésbica ela precisa escolher isso! Ser lésbica é escolher a verdade e a oportunidade de mudar sua vida e seus caminhos pelo amor, pelo afeto, pelo sexo e pela política.

O fato de uma mulher amar outra pode fazê-la amiga, mãe, filha, avó, neta, prima, tia, sobrinha, madrinha, afilhada e até amante ou companheira. Uma mulher que se relaciona sexualmente com outra pode ser sapatão, sapa, cola velcro, bolacha, gay, homossexual, bissexual e até lésbica. Só a escolha pelos dois caminhos junto com a coragem garante a uma mulher a lesbianidade!

Porque?!, podem me perguntar alguns desavisados. Simples, porque ser lésbica é ser antes de qualquer coisa sujeito político de suas escolhas. Para uma mulher ser lésbica tem que se aceitar e vivenciar sua homossexualidade, abrir as pesadas portas de seus próprios armários e revelar o amor guardado a sete chaves. É claro que não posso ser ingênua ou até mesmo rebelde e dizer que toda lésbica é aquela mulher que sai berrando aos quatro ventos que ama outra mulher. A mulher lésbica é aquela que luta pelos seus direitos, em especial pelo mais sagrado deles: o direito a vida! E luta mesmo no silêncio, ou na beleza de atos singelos como um simples olhar, um toque diferente ou um jeito diferente de dizer que aquela “amiga” é também sua companheira, sua amante, sua mulher.

A mulher lésbica luta do primeiro ao último minuto de seus dias pelo direito ao amor, à vida e à liberdade. A mulher lésbica não ouve, ou responde a cada vez que a desconsideram pelo simples fato de amar outra mulher. A mulher lésbica olha com ternura sua companheira lutar diariamente para manter seu emprego, sua dignidade, sua coragem e sua essência nessa sociedade machista, sexista e heteronormativa. Ela luta com palavras, mesmo quando sabe que “lutar com palavras é a luta mais vã”. A mulher lésbica luta não para entrar de véu e grinalda na igreja, porque um casamento não é apenas um ritual, ela luta pelo direito de acompanhar sua mulher ao médico, de ver seu filho nascer, de poder dizer às pessoas que ama quem ela é.

A mulher lésbica luta todos os dias pelo direito de dormir junto com sua companheira, pelo direito sagrado de ter onde morar quando sua companheira parte e deixa o vazio no seu coração. Luta diariamente não apenas pelo direito a uma casa, a uma família, a um amor, mas essencialmente pelo direito de ser uma mulher lésbica sem que isso signifique ser violentada verbal, social, sexual ou fisicamente. A mulher lésbica luta pelo direito ao simples direito de ser gente, pessoa, cidadã, luta pelo direito de ser vista assim, luta pela visibilidade!

E é por essa luta que o dia 29 de agosto é importante! O dia da visibilidade lésbica não está no calendário apenas para preencher mais um dia, está no calendário para lembrar vidas perdidas, sonhos massacrados, histórias destruídas, pessoas esquecidas que por amor e coragem um dia acordaram e fizeram o que eu um dia também fiz: se olharam no espelho, e no fundo de seus olhos encontram mais um pedaço, mais um pouco de suas “coisas da vida”: o amor por elas e por outras mulheres! Mas o mais importante é que desse encontro elas buscaram a coragem e o amor para lutar e viver e fora das coisas da vida escolheram o que eu também escolhi: eu mesma, uma mulher lésbica!

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