Maluf e Lula: discursos diferentes, mas iguais

Hetero… o quê?

do blog Bota Dentro

Você já ouviu falar do termo ‘heteronormatividade’? Não? Mas, com certeza, em algum momento da sua vida já se viu em uma situação completamente influenciada por ela. Eu explico: este termo é usado para descrever situações nas quais as variações da sexualidade são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas.

Vem daí aquele argumento mais que manjado e combatido pelos gays e pelos simpatizantes: aquela idéia de que os seres humanos recaem em duas categorias distintas e complementares, macho e fêmea, e que relações sexuais e maritais são normais somente entre pessoas de sexos diferentes. Assim, segundo essa norma (que significa esquadro em latim), sexo físico, identidade de gênero e papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa em padrões integralmente masculinos ou femininos, heterossexuais.

Duas declarações publicadas nesta quarta-feira pela imprensa mostram bem o quanto a nossa sociedade é feita para heterossexuais, mesmo quando quem fala não tem a menor intenção de ser preconceituoso. Vejamos: o ex-prefeito e atual deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), mais uma vez candidato à Prefeitura de São Paulo, disparou: “Eu tenho um profundo sentimento cristão. O normal é homem gostar de mulher. Homem com homem não é normal. Não vou dizer que é normal só para ganhar votos de gays”.

Em situação completamente oposta, mas com alguma coisa em comum, está a entrevista concedida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à Agência Brasil, empresa estatal de comunicação. Não é segredo para ninguém que o presidente já fez várias vezes comentários positivos em relação às uniões homoafetivas. E desta vez, ele foi direto no ponto: Presidente, o senhor é a favor do casamento gay?

A resposta: “Eu a vida inteira defendi o direito à união civil. Acho que nós temos de parar com hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária. Constroem uma vida juntos, trabalham juntos e por isso eu sou favorável. Eu acho que nós temos que parar com esse preconceito.”

O problema está no trecho seguinte: “Olha, nós temos que tratar sem nenhuma discriminação a vida que cada um leva dentro de casa, o parceiro que quer ter a mulher ou homem é problema deles. O importante é que sejam cidadãos brasileiros, respeitem a Constituição e cumpram com seu compromisso com a Nação. O resto é problema deles e eu sou defensor da união civil.”

Desculpe, presidente. Mas, eu não quero ser gay só dentro de casa. Esse trecho me lembra aqueles discursos: “Quer dar a bunda em casa? Tudo bem. Só não me vem dar beijinho na rua, tá?”

Tropeço de Lula ou não, eis a influência da heteronormatividade.

Acrescento algo mais aqui. Além de reivindicar o respeito dentro e fora da minha casa, ou seja, da esfera privada, ser lésbica ou gay não é “problema” nosso, é condição, orientação, e até pode ser opção em alguns casos. Agora… problema, não é. Torna-se um problema de saúde pública quando tantas e tantos de nós somos agredid@s violentamente a cada dia, simplesmente porque amamos e nos relacionamos de modo que foge à regra da heteronormatividade.

Definitivamente, já que o Presidente Lula anda se aventurando a dar declarações sobre direitos de homossexuais (parabéns pra ele!!) precisa de uma boa assessoria em assuntos LGBT, alguém que explique essas coisas pra ele, senão vai ser gafe atrás de gafe. Não adianta muito levantar a bandeira em Conferência Nacional, sem saber o que ela representa para cerca de 10% da população brasileira. Essa frase do “é problema de cada um o que faz dentro de casa” ele proferiu também na Conferência Nacional LGBT, no meio de outras pérolas, e muita gente fez cara de limão azedo na platéia, mas era o Presidente apoiando a causa… Obrigada, Presidente! Mas se o apoio não for consciente e consistente, pode até atrapalhar…

Todavia, nem tudo são críticas. O Presidente saiu-se muito bem fazendo o seguinte questionamento:

“Por que os políticos que são contra [a união homoafetiva] não recusam os votos deles, por que o Estado brasileiro não recusa os imposto de renda que eles pagam?”, questionou Lula.

Por quê?

Segundo a Agência Brasil, para o presidente, a sociedade e o Estado brasileiros têm que parar de agir com hipocrisia.

Para nós também, Presidente!

Postado por Jandira Queiroz

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Em época de eleição homofobia NÃO!

    Garotas, o blog ótimo como sempre!
    Beijos.

  2. em época de eleição?
    Homofobia NUNCA!


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