Sophie Scholl

Ela ainda não tinha 22 anos e, frágil e miúda, parecia uma adolescente. Mas, ao se levantar diante de juiz para ouvir a sentença de morte, Sophie Magdalene Scholl era a imagem da guerreira que ousara se erguer contra Adolf Hitler. Por isso, poucas horas mais tarde, havia um tom de respeitosa admiração na voz da carcereira ao avisá-la: Sinto muito, Srta. Scholl,precisamos ir, está na hora da execução”. Os guardas que testemunharam a caminhada da “traidora da Alemanha” rumo á guilhotina ficam impressionados.A prisioneira seguiu de olhos secos, sem um instante de hesitação.Se caminhava com dificuldade, amparada por muletas, era somente por sua perna ter sido quebrada durante o interrogatório da Gestapo.Ia ao encontro do carrasco com a mesma coragem demonstrada no tribunal:”Muitos já morreram por esse governo, chegou o momento de alguém morrer por se opor a ele”.

Ela morreu na tarde fria e ensolarada de 22 de fevereiro de 1943, na prisão de Stadelheim, em Munique.Até quatro dias antes ninguém imaginava que aquela estudante de biologia e filosofia fosse um dos “perigosos agitadores” que a polícia procurava havia seis meses.Com seus colegas da organização clandestina Rosa Branca, ela distribuía panfletos incitando o povo a não se acovardar.O manifesto encontrado com ela ao ser presa, em 18 de fevereiro, dizia: “chegou o dia do acerto de contas-acerto de contas da juventude alemã com o mais abominável tirano que nossa gente jamais foi obrigada a suportar.Crescemos num regime em que todas as manifestações de livre expressão foram brutalmente suprimidas.(…)Para nós só existe uma palavra de ordem:lutar contra o partido!”Contrabandeado pra fora do país, o panfleto se tornou uma arma nas mãos dos aliados-que jogaram milhares de copias sobre a Alemanha ainda em 1943.

A jovem revolucionária conheceu de perto a lavagem cerebral que denunciava. Quando Hitler chegou ao poder ela e o irmão mais velho, Hans, se entusiasmaram com o ideal nacional-socialista. Mas o encantamento deu lugar a indignação depois que Sophie se filiou á Liga de Jovens Alemães. Ela não suportou ver como os nazistas discriminavam suas amigas judias e as mulheres em geral.Hans não lhe dava melhores noticias da Juventude Hitlerista, na qual era submetido a uma brutal disciplina.O rapaz acabou expulso após passar uma temporada na prisão, em 1937,considerado subversivo.Para Sophie, porém, o pior foi ver o pai,Robert Scholl- um político que acreditava na liberdade de opinião-,ser preso, em 1942.Que pais era aquele em que a polícia vinha buscar um homem de bem por ter criticado o governo?Igualmente revoltante era o fato de ele ter sido denunciado pela própria secretária que o ouvira chamar Hitler de “flagelo de Deus e da humanidade”.

Na época, Sophie acabara de realizar um sonho de ingressar na universidade de Munique, onde o irmão cursava medicina, e começava a ter notícias dos horrores nos campos e batalha. Obrigados, como todos os universitários, a trabalhar para o esforço da guerra. Hans e os colegas Jürgen Wittenstein, Alexander Schmorell, Willi Graf e Christoph Probst testemunharam a matança de civis, mulheres e crianças no front oriental. Logo ficou claro pra todos que era preciso agir. O grupo, mais inseparável do que nunca, passou a arrecadar pão para os prisioneiros dos campos de concentração e ajudar a família deles. Com apoio de Kurt Huber, professor de filosofia da universidade, os jovens decidiram que a melhor estratégia- se não a única a seu alcance- era a resistência passiva. Surgia assim a Rosa Branca, e Sophie recebia a missão de providenciar papel, envelopes e selos para fazer chegar ao maior número possível de alemães os manifestos que os amigos escreviam e copiavam às centenas (depois, as milhares), durante a noite, numa maquina estêncil. Tarefa arriscada, já que a única maneira de não levantar suspeitas era comprar pequenas quantidades e, vários lugares e, pra isso, precisava viajar constantemente sem chamar atenção das patrulhas militares. Em pouco tempo, a Alemanha sabia da existência do primeiro grupo organizado de resistência interna ao regime. Os manifestos da Rosa Branca (cinco ao todo) chegavam pelo correio a destinatários escolhidos em listas telefônicas (médicos e intelectuais, principalmente), cada vez mais virulento, pregando inclusive, a sabotagem de fabricas de material bélico cerimônias do partido.

Nas noites de 3,8 e 15 de fevereiro de 1943, empolgados talvez pela recente derrota de tropas nazistas em Stalingrado, Hans, Alex e Willi cometeram a temeridade de pichar os muros das casas de Ludwigstrasse quase vizinha à universidade, acusando Hitler de assassinato em massa. Comparada a isso a missão dos irmãos Scholl quinta-feira, 18, era relativamente segura: durante o horário de aula, deveriam deixar copias do novo manifesto (o sexto, escrito por Kurt Huber) nos corredores da Universidade de Munique e nas portas das salas. Três dias depois, diante do juiz Roland Freisler, do tribunal do povo, Sophie não soube explicar por que resolveu subir no terceiro andar e, lá de cima, jogar os últimos panfletos no pátio interno. Enquanto as folhas de papel flutuavam no ar, o sinal anunciou o fim das aulas e o pátio se encheu de estudantes, que ficaram fascinados com o espetáculo. No meio deles estava o homem que selaria o começo do fim da Rosa Branca: o bedel Jakob Schmidt, membro do partido nazista, que mandou trancar os portões e chamar a Gestapo.

Os irmãos Scoll haviam combinado de se encontrar com Willi e um grupo de amigos naquela tarde. Mas o único que tornaram a ver foi Christoph Probst, que, para sua infelicidade, entregara a Hans o rascunho manuscrito do sétimo manifesto. Era a prova que a polícia de Hitler precisava para também condená-lo a morte por traição. No julgamento, Sophie desafiou o juiz: “O que escrevemos e dissemos é o que muitos acreditam. O senhor sabe que a guerra está perdida. Por que não tem coragem de admitir isso?” Coragem era o que não faltava aos condenados. Tanto que os guardas da prisão, impressionados com a serenidade deles, violaram os regulamentos e permitiram que se encontrassem uma ultima vez. Robert e Magdalene Scholl, impedidos de acompanhar o julgamento dos filhos, também tiveram permissão para se despedir. Sorridente, Sophie aceitou os doces que a mãe levou, rezou com ela e só chorou ao voltar a cela. Antes de ser levada para a guilhotina, garantiu a Else Gebel, uma companheira de prisão: “Minha morte servirá para alertar milhares de alemães. Agora, haverá uma revolta dos estudantes”. Para os guardas e carrascos, avisou: “Suas cabeças serão as próximas a rolar”. A estudante foi a primeira a enfrentar a guilhotina, cuja lâmina caiu mais duas vezes naquele 22 de fevereiro, no pescoço de Hans e Christoph. Nos dias seguintes, um a um, todos os integrantes da Rosa Branca tiveram o mesmo fim. Dois anos mais tarde, morria o juiz que os sentenciara. Ele se encontrava em seu escritório, em Berlim, quando os aliados bombardearam o prédio.

Logo a Alemanha assinava a rendição incondicional e uma profecia começava a se cumprir. A de Robert Scholl ao ser arrastado para fora dos tribunais: “Um dia, eles farão parte da história!” Em 1953, a Universidade de Munique ladrilhou o piso do pátio reproduzindo as folhas do manifesto caídas sobre o mesmo. Em 1964, no 20º aniversário da tentativa de assassinato de Hitler, o governo lançou selos com retrato de Sophie. Além disso, ela virou nome de ruas e de 109 escolas do país e sua vida foi contada em livros, peças de teatro e no filme Uma Mulher contra Hitler, No final de 2005 a maior rede de TV alemã perguntou aos espectadores quem era a mais importante personalidade da Alemanha em todos os tempos. Sophie ficou em quarto lugar e foi primeira mais votada pelos jovens.
Segue abaixo o trailer de Uma Mulher contra Hitler:

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Published in: on 07/10/2008 at 14:52  Deixe um comentário  
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