De T.A.T.U. à Katy Perry

Por Alexandra Martins

De T.A.T.U. à Katy Perry, muita coisa mudou nesses últimos tempos. Menos a velha fórmula de como ganhar dinheiro em cima do público GLS (Gays, Lésbicas e Travestis). A primeira trata-se de uma dupla russa que fez sucesso com letras de músicas e vídeo-clipes onde aparecem se beijando. No começo especulou-se que elas eram realmente um casal lésbico, mas aí tudo veio à tona e elas revelaram que se tratava de uma estratégia de marketing. Já a Katty Perry, nova sensação do momento de acordo com a indústria fonográfica, canta na música I Kissed a Girl, que já beijou uma menina apenas para experimentar. Mais à frente ela diz: It felt so wrong / It felt so right/ Don’t mean I’m in love tonight (Pareceu tão errado/ Pareceu tão certo/ Não quer dizer que eu esteja apaixonada essa noite).

Qualquer semelhança com o mundo real não é mera coincidência. Ultimamente é mais comum vermos em festas meninas que beijam outras meninas apenas por diversão ou mera curiosidade. Para algumas isso não basta de um passatempo enquanto para outras pode significar a maior das descobertas da vida.

Certa vez minha ex-chefe, que já sabia que sou bissexual me perguntou o que achava dessa “modinha lésbica”. Respondi que acreditava não se tratar de uma moda, mas que ao contrários de alguns anos atrás, as meninas mais jovens têm um acesso mais fácil à informações sobre o meio lésbico como: música, direitos, sexo, saúde e pontos de encontro. E lancei a tese de que isso deixaria algumas mais à vontade para experimentar alguma experiência homoerótica possibilitando viver aquilo pelo resto da vida enquanto outras decidem dar um ponto final. Se essas garotas vão continuar beijando outras meninas, aí é outra história. Parafraseando Katty Perry: Nada demais, é inocente.

Eu mesma não estava nada apaixonada na primeira vez que beijei uma pessoa do mesmo sexo. Não queria me casar com ela e nem ter filhos. Ainda mantemos contato, mas raramente nos falamos. Que me desculpem as românticas, mas foi aconteceu por pura curiosidade e para experimentar. Sentia que aquela sensação de dúvida deveria ser abafada em algum momento e então juntei o útil com o agradável: namoro de verão, rápido, fácil e misterioso.

Fico assusta ao ouvir de pessoas mais velhas que essa “moda” seria uma agressão com as mulheres lésbicas porque demonstraria que as relações entre casais do mesmo sexo estão em decadência. Me parece um discurso tão conservador quanto dizer que a criação de leis que beneficiem casais do mesmo seja uma demonstração da decadência da família ou da sociedade. São dois discursos que provêem de espaços bem diferentes, mas que carregam a mesma lógica da racionalização moralista: o novo é perigoso e deve ser eliminado.

Possibilidades de transitar

Toda essa discussão me faz lembrar um filme muito interessante para pensar em mudanças e fluidez dos desejos humanos: Beijando Jessica Stein. A obra trata da história de uma jornalista nova-iorquina que está em seu limite emocional, não conseguindo dormir nem conseguindo sair com alguém no último ano. Após uma farra com boas perspectivas mas que se tornou apavorante, Jessica Stein percebe um anúncio interessante, cujo único porém é estar na seção “Mulher Procura Mulher” de uma revista. Ela decide então responder ao anúncio e marcar um encontro com Helen Cooper (Heather Juergensen), com quem, para sua surpresa, percebe ter um entrosamente instantâneo. Jéssica e Helen vivem juntas por um bom tempo e então Jessica percebe que considera a companheira mais como uma amiga e volta a namorar meninos.

Perdão leitor@s, tive que contar toda história para defender meu argumento de que a possibilidade de experimentar e transitar entre os desejos humanos não deve ser encarada como uma ameaça. Mas como uma construção que questiona a possibilidade das pessoas se respeitarem e se sentirem livres para se assumirem da forma como mais se identificam sejam elas homossexuais, bissexuais ou heterossexuais.

We Kissed a Girl

We kissed a Girl

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  1. Honestamente não sei o que pensar desta “modinha lésbica”. Nunca nem pensei que minha sexualidade, ou a sexualidade em si pudesse virar moda. Se bem que até me aproveito, coloco a música da Katty pra tocar e saio cantando na maior “inocência” do mundo.

    Adora me expressar por meio da música das T.A.T.U também, mas daí pra virar alto transitório.. Não sei…


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