Cresce número de homossexuais assassinados

Raphael Bruno, Jornal do Brasil 1-11-2008

BRASÍLIA – A polêmica envolvendo a expulsão dos estudantes Jarbas Rezende Lima e José Eduardo Góes de uma festa do Centro Acadêmico de Veterinária da Universidade de São Paulo depois da troca de beijos entre os dois reacendeu a discussão em torno da homofobia no Brasil.Segundo entidades de defesa dos direitos homossexuais, até setembro deste ano foram contabilizados 138 assassinatos de gays, lésbicas e travestis. O número já é superior ao registrado ao longo de todo o ano passado, quando 122 assassinatos foram contabilizados. Nesta quinta, os estudantes compareceram à polícia para descrever, em retrato falado, o agressor que os retirou da festa.

O caso foi registrado na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância de São Paulo como “constrangimento ilegal”. Em protesto à expulsão dos dois da festa, colegas dos estudantes e ativistas de direitos homossexuais prometeram realizar, na noite de quinta, um “beijaço” em frente ao centro acadêmico. A Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo já anunciou que pretende acompanhar as investigações.

– Tem que denunciar toda e qualquer forma de discriminação – apóia o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis. – Se fosse um casal heterossexual com certeza não teria ocorrido a mesma reação. É discriminação mesmo. Reconhecemos que a sociedade não está acostumada a demonstrações públicas de carinho entre duas pessoas do mesmo sexo, mas isso só porque ela sempre oprimiu, como pôde, a homossexualidade.

Indignação

O caso na USP gerou indignação, também, entre o Grupo Gay da Bahia (GGB), uma das mais tradicionais organizações não-governamentais de defesa dos direitos homossexuais.

– Como ex-estudante da USP, considero lamentável essa grave demonstração de homofobia partindo da universidade mais qualificada do Brasil, a universidade que acolheu, 30 anos atrás, em 1978, a primeira manifestação pública do recém-fundado movimento homossexual brasileiro, em
plena ditadura militar – criticou Luiz Mott, fundador do grupo e patrono do movimento GLBT brasileiro. – Para que isso não se repita, é fundamental que a reitoria e a direção da faculdade sejam severos na investigação e na punição aos culpados.

O grupo faz um acompanhamento dos casos de assassinatos de homossexuais no Brasil. O número cresce de forma rápida a cada ano. Em 2006, foram 88 casos registrados. Ano passado, já subiu para 122. Até setembro deste ano, foram 135 assassinatos contabilizados. Sete deles em São Paulo. Calcula-se que, nos últimos 15 anos, cerca de 2,8 mil pessoas morreram vítimas da homofobia
no país.

– O pior é que em apenas 5%, 10% dos casos os agressores ou assassinos são devidamente julgados e presos – reclama Toni Reis.

– Muitas vezes não se faz uma investigação adequada. A polícia não está sempre disposta a freqüentar locais GLBT para pegar todas as informações. E muitos casos não são nem denunciados, a família e os amigos têm vergonha, não assumem que a vítima era homossexual.

Centros de apoio

Desde o final de 2005, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), órgão vinculado à Presidência da

Rapaz gay foi espancado em Niterói-RJ (2007) e ainda passou a sofrer perseguição e discriminação via Orkut.

Rapaz gay foi espancado em Niterói-RJ (2007) e ainda passou a sofrer perseguição e discriminação via Orkut.

 República, estabeleceu em todo o país os Centros de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate à Homofobia. Os centros funcionam como órgãos de apoio e denúncia a homossexuais vítimas de agressão ou perseguição, oferecendo, gratuitamente, assistência legal e psicológica. Pelos cálculos da secretaria, em 2008 serão feitos mais de nove mil atendimentos em todo o país.

– Desde quando os centros começaram a funcionar percebemos que tem aumentado bastante a procura – diz Eduardo Santarelo, coordenador do programa Brasil sem Homofobia, da SEDH. – No início, sentíamos que muitos homossexuais vítimas de violência estavam acostumados ao preconceito que sempre sofreram e não procuravam seus direitos na Justiça. Creio que os números
mostram que isso, aos poucos, está mudando.

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