Ódio, visibilidade e amor

humanPor Aline Freitas

Me incomoda quem possui respostas prontas, definições claras, definitivas. Me incomodam as fronteiras, quaisquer que sejam, as assustadoras alfândegas, quanto as identitárias, as dos corpos, as de quem se esforça a demarcar o lugar alheio com vias de garantir seu lugar, o lugar da normalidade. Essa normalidade fétida, essa normalidade fantasiosa, essa normalidade sanguinária.

Muito prazer, meu nome é Aline, e isto agora é tudo o que eu tenho a dizer a meu respeito. Se queres saber então quem sou não me tragas estes conceitos prontos trazidos dos livros rotos, que diz coisas em nome de uma tal ciência… Ou quem sabe na sua compaixão terá pena de mim. Como pode ser assim? Quanta discriminação! Oh! Sofre tanto! Oh! Esta sociedade injusta! Não te aceita, não é mesmo? Mas nem me conheces!! Eu só disse meu nome… Injusta é esta tua cegueira. Nela está toda a nojeira social!

Sim, eu declaro meu ódio. A vida me ensinou a dispará-lo a ter que declarar falsos amores. Disparo meu ódio para não alimentá-lo. E disparo a quem é incapaz de enxergar nossa semelhança. A quem diz aliar-se mas faz sectarizar-se. A quem só me quer como quer ou como pensa que eu sou. Para você, eu sou horrorosa, odiosa, terrível. Porque não finjo, declaro. Te odeio. Mas você é tão meiga! Oh! E inteligente! Isso é raro em uma pessoa como você! Mas nem com a lupa mais pesada e espessa tu serias capaz de me enxergar, não é mesmo? Vês apenas rótulos, letras.

Descarrego todo o ódio para que assim possa amar.

Amar profundamente. Apaixonada e desesperadamente. Amo a quem nada diz e apenas sorri, compartilhando seu segredo silencioso. Amo muito a quem muito diz e para cada palavra uma nova descoberta, um novo universo a me infestar. Amo a quem para mim reclama,
resmunga, e me faz abrir os olhos. Amo a quem me faz enxergar melhor com outros sentidos que não somente a visão. Amo quem tem defeitos. Amo quem é anormal. Amo quem foge das regras, quem ousa. Amo quem erra. E continua a errar tentando acertar.

Amo quem não cria barreiras, amo quem odeia rótulos, como eu. Amo quem pensa diferente de mim, a quem discorda de coisas que eu escrevo e não tem medo de discordar. Amo quem não espera que eu seja mais além do que sou. Tanto quanto amo quem acredita que sou mais além do que sou, sem deixar de entender que sou o quanto quero e posso. Amo quem não me impõe limites para aquilo que desconheces, quanto amo quem sabe que há limites para aquilo que me conheces.

Amo quem sabe que para me conhecer é preciso tempo e
convivência, que não há palavras, categorias ou rótulos que me definam, mesmo que eu mesma ás vezes acabe usando algum.

Amo a quem me vê como humana. Quanto amo o que há de humano em quem eu amo.

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Published in: on 01/02/2009 at 02:44  Comments (1)  
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  1. Uau.


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