o todo-dia de uma negra lesbo-feminista

por Tate em Cotidiana

“a noite não adormece nos olhos das mulheres”

(conceição evaristo)

querida diária,

esse relato é sobre uma quinzena atípica, muito especial. começo a contar ela não numa segunda-feira, mas na quinta 20 de novembro, dia da Consciência Negra. nós do fórum de mulheres negras do df estávamos na praça zumbi dos palmares, conic, brasília, df, batendo tambor, gritando alto, cantando música, demandando que a secretaria de estado implemente a política nacional de saúde integral da população negra.

cotidiana_texto01-falarno brasil, uma das heranças que desde a colonização racista imprime suas marcas social, cultural, simbolicamente em nossas vidas é a falta de acesso a serviços públicos como educação formal, moradia, emprego, saúde. abolição da escravatura foi um nome pomposo escolhido pra mascarar que o estado brasileiro se eximia de qualquer responsabilidade cidadão com relação ao enorme contingente de pessoas seqüestradas de África pra cá.

depois do ato, vim pra casa cuidar de uma dor de cotovelo disfarçada de cólica menstrual cabulosa, com direito a bolsa térmica, chá de louro com cavalinha y muito cariño de uma amiga que veio me trazer. tinha que lavar roupa, arrumar meu quarto, terminar de ler um livro pra apresentar um seminário, planejar a ida a uma escola pública de ensino fundamental em que tenho que fazer estágio de observação – pra “aprender” a ser professora -, acalmar meu coração depois de ter visto, mesmo que rapidão, a mulher que amo, adoro y que não perdoou nossos vacilos.

foi uma quinta turbulenta.

na sexta, dia 21, antes de ir na escola, recebi alguns recados de amig@s1 dizendo que tinham visto o ato pela televisão. minha irmã também tinha visto, mas ela não pode ir porque foi ajudar um amigo com umas coisas… outro recado foi de um amigo meu, que ficou me zuando porque eu tava ‘tocando tamborzinho no conic’. fiquei um pouco triste com isso porque ele fez escolhas que considero muito perigosas pra nossa vida (vida íntima, lascada por um padrão de trabalhar-até-morrer que acaba com a saúde dele, ou vida coletiva, porque esse mesmo padrão é pra alimentar um outro, de consumo, que exaure o planeta em que vivemos) mas não me fazem condená-lo, nem zuá-lo (reclamo, às vezes, é verdade). lembrei de racionais, que a gente sempre escutou juntx: “pode rir, ri mas não desacredita não”. racionais também faz denúncia de racismo. mas aí ele não diz que é tamborzinho… só não fiquei mais triste porque de macho não espero muita coisa não (mesmo sendo esse um macho que é brother).

enfim, depois disso fui pra casa de uma amiga amada que me levou na escola. a irmã dela tinha pegado um cachorrinho da rua porque a vizinhança tava espancando ele. a vizinha da casa da frente tava elogiando ela por isso, então aproveitei pra dizer (pra vizinha) que ia ser mais massa se ela usasse o rodo pra limpar a garagem, ao invés de ficar empurrando a ’sujeira’ (folhas secas basicamente) com a mangueira, esbanjando água doce, potável, limpa, tratada. ela simplesmente me ignorou.

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na escola, não consegui ignorar o racismo, a homo-aversão lesbofóbica, viadofóbica, a misogonia – agora conhecidas como “bulling” (um nome chic que patologiza essas condutas absolutamente baseadas em senso-comum) – o total desinteresse do estado, dxs estudantes, dxs professorxs, da direção, de todo mundo contra todo mundo e contra tudo. a escola pública formal é mesmo uma farsa sinistra de aprendizagem-ensino que mal consegue disfarçar o que faz: preparar mão de obra barata pra trabalho precarizado.

ok.
voltei pra casa muito cansada, à noite já. um frio… várias amigas, comidinha quente, filme na tv: “nunca fui santa” (but i’m a cheerleader), que era meu filme favorito já antes de eu assumir que era sapatão. com direito a lagriminhas no final! depois fomos numa festa de salsa y merengue, fazia tempo que não íamos em ambientes majoritariamente hetero. mas como a gente tava lá, porque a gente tava lá, o ambiente virou sapatão. foi divertido, apesar de caro, apesar dos machos, seus olhares invasivos, apesar da divisão racial y de classe que fica estampada nos espaços de dentro y e de fora da festa,
apesar de…

confesso que às vezes acho difícil me divertir tendo que desligar tantos ‘filtros’. mas deu certo. chegamos em casa bem de madrugada, no dia seguinte íamos ter que acordar cedo pra ir fazer a feira (legumes y verduras orgânicas bem mais baratas que no centro da cidade, onde moramos) pra depois irmos na inauguração da campanha 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra mulheres. o lançamento da campanha foi na cidade estrutural, uma satélite a uns 10km de brasília (o plano piloto) que existe-resiste há quase 20 anos contra a segregação espacial por raça, classe y contra a especulação imobiliária que mandam no df.

é uma cidade com uma história de luta linda, inspiradora, construída em cima de um lixão que, hoje, dá sustento a centenas de famílias, muitas chefiadas por mulheres, que vivem das sobras daquele nosso padrão de consumo exorbitante. outro dia fiquei sabendo que tem um projeto novo lá, de produção de bolsas não-descartáveis a partir de plástico descartadol (saco de arroz, feijão, verdura, sacola de mercado…) pra evitar o uso de sacola descartável no mercado. as bolsas não são só feitas pelas mulheres da comunidade pra depois serem vendidas pras madames y os bacanas (consumo politicamente correto tá na moda…), mas também pra elas mesmas usarem (na estrutural não tem supermercado, tem mercearias y feiras. significa que a maior parte do material que elas reciclam lá vem embalado, fechado, ensacado num material que elas nem usam! eu nunca tinha pensado que democratização da sacolinha de supermercado não existe… qualquer semelhança com ‘alienação do trabalho’ não é mera coincidência).
achei massa a agende escolher a estrutural pra lançar a campanha. tinha muita mulher lá! lindas mulheres negras, não-negras, velhas, jovens, criancinhas, mulheres da comunidade, mulheres catadoras, mulheres tocando tambores, dançando ciranda, subindo no carro de som pra denunciar que o trabalho delas, a ocupação de onde tiram sustento pra suas vidas, tá sendo ameaçada por uma multinacional alemã que, agora, quer se apropriar da seleção-separação-reciclagem do material que amontoa os quintais delas pra ficar ainda mais rica y aumentar o abismo entre os países “do sul” e “do norte”.

no refluxo de muitas coisas estávamos lá, dançando, cantando, batucando, brigando pelo fim de violência contra mulheres. mas também no nosso fluxo: ver mulheres juntas em movimento é uma das coisas que mais me emocionam. fiquei toda arrepiada em vários momentos, com várias falas, com vários contatos. 25 de novembro, terça-feira, é outro marco no meio dessa semana atípica, de 9 dias: dia internacional de combate à violência contra mulheres (que às vezes chamo de “violência sexista”).

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lutar contra a violência sexista estruturante que ancora muitas dessas sociedades ocidentais capitalistas em que vamos lutando pra seguir vivendo inteiras, dignas, não é só questão de vontade: é condição de existência. as violências são físicas-sexuais, morais, psicológicas, patrimoniais, simbólicas… vão desde aquele olhar avassalador com que muitos homens nos agridem ao andarmos na rua, até estupros, assassinatos; mas também são violentas aquelas ditas ‘piadas’ (sobre o desempenho de mulheres no trânsito, por exemplo) ou ‘conselhos’ pra sabermos ser “femininas” (”fecha as pernas, menina”, “isso não é coisa de mocinha”, “tira a mão daí”). por isso ela é estruturante, fundante: atravessa campos simbólicos e físicos pra se alastrar, vai do âmbito mais íntimo ao mais coletivo.

tratar a violência doméstica como uma questão coletiva, social, é um passo indispensável pra mostrar que o combate ao patriarcado tem que se dar em tantas frentes quantas forem as garras de que esse sistema se utiliza pra tentar deixar a gente confinada, pra cercear nosso acesso à liberdade, ao gozo pleno, a nos construir por nós mesmas, à integridade física, a uma vida livre de hematomas.

em alguns estados, além da campanha da agende – que enfatiza, agora, a lei maria da penha – outras organizações-coletivos-grupos tão articulando o 25 de novembro à luta por nossa soberania sexual ou reprodutiva. uma das principais bandeiras dessa luta é pela descriminalização do aborto, além da demanda por abortamentos legais, seguros, cobertos pelo SUS – o que vai garantir a muitas mulheres, em sua maioria negras pobres, a democratização à prática de abortamentos (que são realizados em condições igualmente clandestinas, mas seguras, por mulheres ricas em clínicas ou por médic@s de confiança).

aqui no DF, a semana atípica chegou ao dia 29 de novembro, com a festa WENDANÇA. ela foi organizada pelo Wendo-DF, um coletivo de auto-defesa feminista pra mulheres. é uma prática que já tem umas dezenas de anos, alguns coletivos formados em outros estados do brasil, muitos em outros países, y junta várias técnicas (físicas, de defesa ou combate, mas também simbólicas, como o desenvolvimento da auto-confiança). não vivemos só de lutas rígidas: quando a noite não dorme nos nossos olhos, pode ser sim porque passamos madrugadas acordadas de medo ou raiva. mas muitas vezes é que estamos trepando, fazendo amor, ou sonhando de olhos abertos, comemorando nossas libertações cotidianas com música, dança. enquanto pudermos dançar, faremos revoluções. mas quando não pudermos, acho que é por isso que vamos lutar, também.

esse texto é dedicado a Julia Pelo Meio Cabaret, “o corpo é nosso!

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Published in: on 10/02/2009 at 15:14  Comments (1)  

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  1. lendo o post eu lembrei da minha mãe, porque ela tbm consegue fazer muitas coisas, algumas até ao mesmo tempo… tenho orgulho dela, mulher forte, de fibra que não baixa a cabeça, tanto que qndo ela era casada com meu pai, era ela que mandava em casa… hehe…


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