A batalha sem fim

Escrito por Buck e disseminado na lista SOGI em fevereiro de 2009.Para checar as referências, veja o artigo original em inlgês em
<http://sesw.blogspot.com:80/2009/02/fighting-uphill-battle.html&gt;.

Durante as Negociações de Paris pela Paz que determinaram o fim da Guerra do Vietnã, os negociadores passaram meses para decidir qual seria o formato da mesa. Alguns queriam uma mesa redonda, de modo que ninguém estivesse, aparentemente, no comando. Outros queriam uma mesa tradicional retangular. Enquanto eles seguiam essa discussão a guerra se arrastava e as pessoas morriam.

Às vezes sinto como se nossa comunidade estivesse fazendo exatamente isso. Parece que a cada dois ou três meses me vejo frente a algum grupo ou ativista com um novo nome para nossa comunidade. Houve um tempo em que chamávamos de “Comunidade Gay”, então as lésbicas feministas ficaram bravas e então adotamos “Comunidade de Gays e Lésbicas”. Isso funcionou por um tempo mas aí alguém disse que as pessoas bissexuais precisavam ter maior proeminência, e que se fôssemos mencionar as pessoas bissexuais então era bom não excluir as pessoas transexuais e transgêneras. E assim nos tornamos LGBT. Algumas das feministas ficaram bravas de novo porque o “L” vinha na frente, o que denotava “chauvinismo”, então passamos a ser GLBT. Alguém decidiu
que, sendo assim, precisávamos incluir ainda as pessoas intersexo, e a sigla passou a ser GLBTI. Depois voltamos para o LGBTI. Em seguida alguém decidiu que deveríamos reivindicar o termo “queer”e então viramos uma variedade de coisas: LGBTIQ, GLBTIQ, LGBTQQ (o último Q para “questionáveis”), e LGBTQ? (novamente, mas sem um “q”). As pessoas não-brancos da nossa comunidade decidiram que preferiam ser chamados de AMG, sigla de “amantes do mesmo gênero”, porque para el@s o termo Comunidade LGBTIQQ? era uma “denominação muito branca”.

A Wikipedia disponibiliza uma série fascinante e desagregada das várias iterações sobre seja lá o que somos. Se continuarmos assim, vamos percorrer todo o alfabeto tentando incluir todo mundo. Ah, e ainda nem incluímos as pessoas heterossexuais que nos apóiam. Então pode ser que precisemos colocar um “s” ou um “h” também. Há muitas variantes, incluindo variações que meramente mudam a ordem das letras; mesmo assim, LGBT ou GLBT são os termos mais utilizados e de uso corrente. [13] Ainda que tenham o mesmo significado, “LGBT” pode ter uma conotação mais feminista que “GLBT”, já que coloca o “L” (de lésbicas) em primeiro lugar. [13] Algumas vezes a sigla não inclui pessoas transgênero, e fica reduzido para LGB. [13] [14] LGBT ou GLBT também podem incluir um “Q” adicional para “queer” e/ou “questionáveis” (algumas vezes abreviado por um ponto de interrogação) (por exemplo: “LGBTQ”, “LGBTQQ” ou “GLBTQ?”). [15] [16] [17] Outras variantes podem incluir um “D” para “em dúvida”; “I” para intersexo”; outro “T” para “transexual” ou “travesti”; outro “D”, “DE” ou “2” para pessoas de “duplo-espírito”; um “A” ou “AH” para “aliados heterossexuais”; ou ainda “A” para “assexual”. Em alguns casos, pode-se juntar também um “P” para pansexual ou poliamorosos, e um “O”
para “omnisexual” ou “outro”. [2] [13] [24]. A ordem das letras não foi padronizada; além das variações de posição do “G” ou “L” inicial, as letras que têm uso “menos comum” podem aparecer em quase qualquer ordem. [13]

Essa terminologia variável não representa tipicamente diferenças políticas na própria comunidade, mas aparece a partir de preferências de indivíduos ou grupos. [25] Algumas pessoas consideram os termos “transexual” e “intersexo” como parte do guarda-chuva “transgênero” ainda que muitas pessoas transexuais e intersexo tenham objeções (cada qual por diferentes razões). [13] “AMG” (para “amantes do mesmo gênero”) às vezes é preferido pel@s afro-american@s como uma forma de distingui-l@s do que consideram uma “denominação branca”, no caso as comunidades LGBT. [26] “HSH” (homens que fazem sexo com homens) é usado clinicamente para descrever homens que praticam sexo com outros homens sem se referir à sua orientação sexual. ]27] [28]

Uma frase introduzida já nos anos 2000, “minorias sexuais e de identidade de gênero” (MSIG), usada para englobar todas as letras e siglas numa única definição, ainda não achou o caminho da
popularização. [29] A revista “Anything that moves” (Tudo o que se move) cunhou a sigla FABGLITTER (para caracterizar a Revolução de Gênero, do Fetiche, dos Aliados, dos Bissexuais, dos Gays, das Lésbicas, d@s Intersexo, Transgênero e Transexual – na sigla em inglês), um termo que tampouco foi popularizado. [1]

Minha percepção de tudo isso é que nossa comunidade gasta tempo demais nessa masturbação intelectual. Enquanto gastamos tempo e energia debatendo que grupo de letras e em que ordem elas devem estar para nos referirmos a nós mesmos, nossos inimigos da extrema direita continuam consolidando poder em partes deste país e conseguindo convencer até mesmo os Americanos moderados de que eles devem começar a nos temer.

Eu nunca deixo de me surpreender quando leio sobre reuniões e encontros da comunidade e vejo quanto tempo e energia são desperdiçados em assuntos impertinentes. Sempre há alguém que acha
importante falar sobre os direitos dos animais ou vegetarianismo. Há sempre alguém lembrando às pessoas brancas que somos todos secretamente racistas porque não temos um namorado ou namorada de uma raça diferente. Sempre há uma lésbica feminista protestando quanto ao uso de termos e palavras “patriarcais”. Sempre há uma rainha da festa que se opõe à ideia de nos engajarmos em qualquer relacionamento, pois ao fazer isso estamos tentando “ser como heterossexuais”. Sempre algum ou alguma ambientalista diz que não devemos fazer nenhum protesto público porque placas e panfletos gastam muito papel ou que “custo ecológico” de juntar tanta gente seria enorme.

Não é de admirar que tenhamos conseguido tão poucos avanços. Aprendi ao longo dos anos que a inclinação liberal da nossa comunidade frequentemente nos leva a ter um “Distúrbio ou Déficit de Atenção Ativista”. Não conseguimos nos concentrar nos nossos problemas coletivos e buscar soluções para eles. Como todo mundo precisa ser idealista e “viver [suas próprias] convicções”, nunca temos capacidade suficiente para concretizar projetos.

Como usamos tantos rótulos diferentes a mídia nunca sabe como se referir a nós. Se acabam escolhendo o rótulo errado, indivíduos radicais da comunidade respondem com histeria. Na luta pelo uso da sigla correta – LGBTI, GLBTI, LGBTIQ ou somente comunidade gay – no fim das contas acabamos esquecendo de responder à questão que nos foi perguntada!

Que tal fazer um acordo? Que tal deixar de lado todo esse amontoado de brigas triviais até que consigamos alcançar a equidade neste país. A partir do momento que conseguirmos as proteções que todas as demais pessoas têm, poderemos voltar a caluniar e ficar irritados uns/umas com os outr@s se quisermos, e discutir até o fim dos tempos, os nomes e rótulos.

Por enquanto, contudo, os rótulos não têm utilidade e só confundem as pessoas tanto dentro como especialmente fora da comunidade. Como é mesmo que a maioria das pessoas nos Estados Unidos nos chama? “A Comunidade Gay” ou “A Comunidade de Gays e Lésbicas”? Está ótimo! Sim, é verdade que não menciona toda e qualquer possível variação em termos de sexualidade, mas é fácil de lembrar e é como as pessoas nos conhecem. Não faz sentido gastar energia insistindo em dúzias de iterações diferentes das iniciais das quais às vezes nem nós mesmos temos segurança a respeito.

Que tal concentrar energias minha gente. Temos muito trabalho a fazer. Masturbação intelectual e virtual não vai nos levar até a linha de chegada!

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Published in: on 11/02/2009 at 20:47  Comments (2)  
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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Adorei o post… acho que é bem por ai…
    a diversidade é muita…
    e as soluções são poucas!!

    até coisas básicas… como um rótulo, apenas uma rótulo se fazem tão difíceis.. confunde as pessoas e nada das conquistas serem alcançados!!

  2. Concordo plenamente!
    Gastamos muito tempo definindo rótulos, enquanto há tanto para se fazer… Realmente é um desperdício de energia e de tempo. Sem contar que essas definições sempre restringem, sempre haverá alguém de fora. Penso que é melhor lutar pelo “exorcismo” dos rótulos, mostrando que devemos respeitar as diversas formas de ser e amar das pessoas, sem denominações inúteis e até exclusivistas.


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