calendária feminista versus a imprevisibilidade dos dias

por Tate em Cotidiana

25 Janeiro 2009 as 1:58 am

 

querida diária, “aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia.” essa frase tá na minha cabeça há dias, querendo ser escrita. tentando ser conectada com minha vontade de fazer mais um capítulo desse caderno, essa vez conversando sobre uma calendária feminista. já que começou 2009 – contagem feita pelo calendário gregoriano, cristão, que aceitei meio por solidariedade a muitas pessoas amadas ao meu redor (pra não falar das burocracias que acabam colocando nossa vida em seus labirintos…) –, já que essa coluna é sobre feminismos, pensei que podia ser massa esboçar uma calendária feminista. dando um rolé pelas datas que algumas/uns coletivos e organizações tão planejando, pensando a calendária do confabulando, tentando desenterrar um gás pro ‘ano novo’, e também servindo como recurso de organização dessa diária, como uma rede temática que inspirasse alguns escritos por aqui. então veio 2009 com suas promessas novas tentando vencer aquelas do ano anterior, quebradas ou fracassadas ou decepcionadas. 2008 foi um ano particularmente denso pra mim – muito aprendizado, muito auto-conhecimento, muita partilha, mas muita muita tristeza, muita perda, muitas lágrimas. mas além de querer que 2008 terminasse logo, eu não tinha grandes expectativas pra 2009. nem com a mudança, nem com o final do curso, nem com a oferta de um trampo fera, nem com a retomada das atividades do fórum. fiquei achando que aquele verso de “do fundo do nosso quintal”, que diz “pra quem não desencantou”, não era mais meu y da bornú – era só dela, agora, porque tenho me sentido completamente desencantada. ok, algumas coisas me fizeram pensar muito, como a posse de barack obama nos u$a*, ou o xou dos racionais marcado pra 17 de janeiro. mas pensamento sem movimento… fiquei dias torcendo pro dia 17 chegar logo, que nem as crianças ricas ficam esperando o natal. mas quando chegou eu y ellen tínhamos marcado nossos chás de casa nova, justamente no mesmo final de semana. porque eu achava que ia começar no tal maravilhoso trampo novo (auxiliar de cozinha num restaurante vegetariano) no dia 19, então tava com pressa pra receber as amigas na casa “nova”. não vou mentir que foi dureza escolher entre ficar na festa até o final ou sair na tora, no meio, pra ir nos racionais. mas fiquei em casa. minha mãe tava aqui, várias amigas queridas também… ficamos. teve pagode feminista, comidinhas veganas, sorvete, muitos presentes, afetos, trocas… foi ótimo. me senti num aniversário de 08 anos de idade, nessa mesma casa, quando minha irmã ia fazer 05 e minha mãe, minha tia y meu pai faziam uma festa só pras duas (15 dias de diferença entre o aniversário de uma y de outra). até acontecer o chato. eu tava no quarto “yoko ono” tardão já, improvisando uma cortina com um retalho lilás que comprei em salvador, patches de bandas que não ouço mais com tanta freqüência – crass, disrupt, doom… –, alfinetes tirados de um projeto-de-saia-pra-uma-amiga (minha máquina de costura ainda não veio pra cá), um pedaço de fita plástica imitando laço de cetim, cor: amarela. chega uma de minhas amigas com uma cara péssima. ela, uma pretinha fodida de periferia. a outra, uma branquinha classe média. ela, comunista, sapatão, feminista. a outra com seus clichês agressivos ambulantes: “meu povo tem as coisas porque trabalhou pra isso! o que mais as pessoas negras querem com essas cotas? vocês já conseguiram tudo que queriam!”. eu não tava na sala nessa conversa. nem queria estar. essa casa aqui é uma casa de duas feministas negras, lesbianas. não quero ouvir isso na casa em que moro. não acho que tô, nesse exato momento de minha vida, com alguma capacidade de ter que ter uma conversa tão pesada na casa nova pra onde me mudei pra me afastar de um monte de mágoa, intranqüilidade, neurose, monotema – mesmo sabendo que, apesar de cansar muito, a militância não tem férias… mas gente! era inauguração da casinha nova! 3 horas da manhã! só não me arrependi de ter perdido os racionais porque minha mãe tinha vindo. tinha ficado até tardão com a gente. tinha me ajudado as duas semanas anteriores com a mudança, com coisinhas reutilizadas pra casa – emprestou rodo, vassoura, cabide, trouxe mil caixas, carregou coisa comigo, foi em loja de material de construção me ajudar a comprar coisas… ela é sensacional. mas mesmo assim, até pra ela ia sobrar. porque no dia seguinte, de manhã, minha parceira de casa nova foi acordada com duas vizinhas conversando entre os portões. coisas como “não vou admitir esse tipo de comportamento”, “vou chamar a polícia”, “vou falar com a mãe dela”… a casa não é minha só porque moro nela, mas porque sou legalmente a dona da casa. então, falar com minha mãe nem ia resolver – só tentar me infantilizar. quanto ao comentário da não-admissão, relacionei à bandeira do arco-íris que deixamos pendurada no portão – a mesma vizinhança homofóbica de quando saí daqui, com uns 20 anos. o que me irritou particularmente foi o “vou chamar a polícia”. mais um indício de que no brasil há esse vício em instituições repressoras como única possibilidade de resolução de conflitos, como autoridade de intercessão nas relações entre pessoas… porque no brasil questão racial virou caso de polícia. transporte público virou caso de polícia. tudo é caso de polícia? que tipo de herança ditatorial é essa da qual não conseguimos (ou não queremos) nos livrar? é uma herança-prognóstico? mais um signo de que um sistema que se pensa democrático a partir de delegação de interesses coletivos a instâncias supostamente representativas formadas por cúpulas se afunda na inviabilidade, refletida em ou fundante de nossa incapacidade de gerenciar nossa vida por nós mesmxs? é outra evidência de que nosso modelo de democracia é essencialmente fascistóide, porque nunca abriu mão dos sistemas de repressão y punição primeiramente tidos como método de consolidação de si (pela imposição do medo ao terror se justifica o terrorismo de estado) mas depois, freqüentemente, como ferramenta sempre a mão (pela mera sugestão da ameaça, às vezes realizada, o controle é exercido)? as ferramentas de um poder que é uniforme, mas distribuído em categorias de desamor, racismo, sexismo y lesbofobia, viadofobia, transfobia, gordofobia, classismo, especismo, degradação ambiental, mental, espiritual y íntima – pra colocar algumas – funcionam muito didaticamente. doutrinam por escolas. a novela ensina como sermos românticas, monogâmicas, rivais de outras mulheres. a escola ensina quais conhecimentos são bons y quais não são. a polícia ensina quem deve transitar em que lugar, a que horas, como, com que roupa, com que pele. a igreja ensina que tipo de relação estabelecer com um único sobrenatural legitimado. o estado ensina como não podemos aprender a nos organizar por nós mesmxs. tradições fundamentadas em mitos sem lastro nos ensinam quem matar pra comer, nos convencem de que aquelas pessoas assassinadas ou torturadas não são pessoas, porque são animais, y só animais humanos é que são pessoas não-passíveis de virar comida. são muitas escolas. mas não é surpreendente que mais meninas saibam conjugar o verbo haver no pretérito mais-que-perfeito do que se masturbar, gozar, porque há várias escolas de gramática contra nenhuma de educação sexual pra mulheres. não surpreende que homens brancos saibam mais sobre nossas vaginas do que nós mesmas. não surpreende a surpresa de minha vizinha ao ver que a nova vizinha antiga virou sapatão, só tem amiga sapatão, e elas cantam, dançam, se beijam até de madrugada (o que não é muito surpreendente em festas…). não culpo a vizinha porque culpa é um sentimento formatado pelo cristianismo, mas a responsabilizo por ter feito escolhas que excluem, condenam ou não compreendem as escolhas das outras pessoas. como também me responsabilizo por exclusões do tipo dar uma festa sem chamar nenhuma das vizinhas, além de um casal lesbiano que mora na rua. de qualquer forma, era uma abertura-de-casa pra pessoas amadas, amigas. eu não amo a vizinha, nem sou amiga dela. ia ser massa se tivéssemos uma convivência mais transparente y direta, em que as conversas se estabelecessem por meio de diálogos ao invés de portões, e em que os pedidos de “você pode diminuir o barulho?” fossem feitos sem ameaça de polícia. acho que isso tem a ver com outra daquelas escolas, a do desamor. ou desafeto, se amor tem uma carga muito romântica: a escola que ensina o afeto máximo pelo terror, pela intervenção de instituições, ao mesmo tempo em que ensina o terror pelo afeto. tenhamos medo de amor, de afeto, de carinho, da dádiva. porque é mais fácil ter medo, que depois vai servir de justificativa pra uma decepção quase aguardada: “eu não falei que ela não prestava? eu já sabia. por isso eu nunca consegui confiar nela de verdade”. é bizarro como polícia possa ser tão facilmente relacionada a afeto? acho mais bizarro como vivemos em um pedaço de mundo que consegue separar tão facilmente todas as coisas, compartimentalizando, classificando, categorizando, dissecando. outro vício do pensamento iluminista ocidental: positivismo em todas as práticas, cientificismo como estrutura de análise, rigor asceta como filtro de legitimidade, cartesianismo como sistema de inteligibilidade compreensão (acho ainda mais bizarro que essas coisas estejam todas tão entranhadas na gente que até pra escrever mal delas eu não consiga me libertar de uma forma de escrita que é completamente mergulhada nelas! vou parar de escrever? vou escrever só poemas? vou fazer música, pintar, gritar, espernear, chorar, ou só ficar sorrindo rindo mesmo dando muitas gargalhadas até… cansar? vou deitar pra dormir, sonhar y pensar em nunca mais acordar?) querida diária, sei que esse texto tá louco. sei que fiz uma proposta de escrever uma calendária e acabei fugindo dela. mas sei também que a imprevisibilidade do texto tem a ver com a própria imprevisibilidade da rotina que tento relatar aqui. como estou suficientemente convencida de que cotidiano é uma questão feminista, posso tentar dividir esse convencimento com quem tá lendo isso aqui. mas se não der certo não tem problema nenhum, porque uma diária pode ser válvula de escape, uma tentativa solitária de romper a solidão da escrita, uma tentativa minha de conexão – comigo mesma, com meus desejos, mas também com quem vai ler essas palavras. não tem que ser um tratado dialético linear. porque tenho sentido a vida acontecer em processos, não em hipótese-antítese-síntese. não quero! como ninguém além de mim esperava a calendária feminista, então ela fica pra próxima: já que o ano gregoriano acabou de começar, mesmo pra mim sendo janeiro mais um prelúdio. começar, mesmo, começa em fevereiro. dia 07. o começo do meu retorno de saturno. não sei porra nenhuma de astrologia, mas um planeta que tem bambolês y luas só pode ser especial. como a lua negra do céu que tenho no peito é. esse capítulo confuso, torto, esquisito, reclamão, tem a ver com minha preta. o desafeto dela. a evasão linear. o medo do amor. mas sempre ela, que tava comigo quando abri meus olhos pro céu. é pra ela y pra mim qu

e termino com Andrea Canaan: “EU PROCLAMO: uma guerreira, uma sereia, uma mulher que finalmente se ergue com firmeza, uma mulher que toca seu íntimo e as estrelas no céu. Sou uma mulher que já não é uma criança, uma mulher que se torna inteira e sã. Está feito. Então deixe acontecer.” — * uma pequena homenagem à pouco saudosa cena hardcore do df. especialmente pela Lice, pelo silente, pelo carnissa, pelo barulho, por estarmos juntas.

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. calou a minha boca. me deixou no vácuo de verdade… eu tô pensando a dias escrever isso tudo.. esse moinho nojento ee porco que a gente acordo todo dia pra fazer parte dele…. e eu sei que tá tudo muito estranho em tudo o que eu estou escrevendo mas, eu estou confusa, sentindo aquelas coisas …”vou parar de escrever? vou escrever só poemas? vou fazer música, pintar, gritar, espernear, chorar, ou só ficar sorrindo rindo mesmo dando muitas gargalhadas até… cansar? vou deitar pra dormir, sonhar y pensar em nunca mais acordar?”… tá tudo MUITO confuso. eu não sei COMO descobri esse site/blog, não sei quem vai ler isso aqui, se é você que escreveu, se é as outras leitoras… não sei. só queria manter contato, porque tenho aquela fome antiga e chichê de empurrar para os meus braços e abraços, todos que, de alguma forma, me encantam e me deixam mais puras, mais neutras, mas Thaís-Thaís!
    bom dia!

    • Olá, Thaís!

      Que bom que achou nosso blog!!
      Este texto maravilhoso que postamos aqui é de uma super-mulher-negra-lésbica-feminista, chamada Tate. Somos de Brasília e, apesar de ela não compor a Sapataria, é uma super parceira, sempre, e super amiga tb!

      O endereço dela para contato vc pode achar na coluna que ela escreve no leskut. Já ouviu falar no leskut? É um orkut só para bis e lés! Entre lá e ache a Tate!

      Continue nos visitando… De onde vc é?
      Beijos e tudo de bom!


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