eu inventei, / aqui nessa ponte entre / poeira-de-estrela e barro, / essa minha mão (Lucille Clifton)

11 Fevereiro 2009 as 9:00 pm

por Tate em Cotidiana

 

oi querida diária!
a flores costumava dizer que sou uma das pessoas mais internéticas que ela conhecia. porque eu abria meus imeios 297 vezes por dia, era daquelas metida a saber como as coisas funcionam, daquelas que, se não arrumam as paradas, pelo menos tentam, antes de chamar “o técnico” ou alguém que saiba mais. reaprendi isso no hardcore, mas já tinha aprendido com minha mãe: “quem quer, faz. quem não quer, manda fazer”.

cotidiana_01_tipiti-mandiocasemana passada fui na casa de minha vó y ouvi ela falar isso também. é importantíssimo falar de minha vó aqui nesse texto porque ela é meu exemplo seminal uterino de faça-você-mesma: esse ano, daqui a algumas semanas, ela vai fazer 72 anos. tirou carteira de motorista aos 64, e ela usa muito o carro dela principalmente pra ir na chácara onde planta coisas como mandioca. com essa mandioca que ela mesma planta y colhe, depois de preparar o terreno – capinar, adubar com a compostagem que faz lá na mesma chácara, com as cascas y bagaços de frutas ou verduras que consome em casa (ela nem chama de compostagem, chama de adubo mesmo) –, ela faz tapioca. algumas pessoas chamam de beiju. aquele disco fino, branco, frito que você come com manteiga creme vegetal, geléia ou melado de cana. ela usa um tipiti pra fazer da mandioca polvilho, farinha, tucupi. com o polvilho, faz a tapioca. óbvio que é a mais gostosa do mundo!

mas também quero deixar óbvio que o “quem quer, faz…” não é absoluto. porque:

– às vezes você não quer fazer mas quer o feito. então vai contar com outras pessoas. se a gente escolhe entender autonomia como precisar do maior número possível de pessoas, o faça-você-mesma vira um conceito mais ampliado,em que comunidade é indispensável. lembro da kollontai fazendo uma previsão de futuro em que, em termos de liberdade tecnológica – era sobre o que conversávamos -, uma pessoa ia ter a maquinazinha que faz o teclado funcionar, aí a vizinha de frente ia ter a conexão entre o teclado ao monitor, o vizinho do lado ia ter a máquina de tirar fotos, a oficina de confecção dos absorventes de panoou ia ser na lojinha de produtos orgânicos que comercializa a produção do bairro, já a vizinha da casa da esquina seria aquela que tem a maquinazinha de impressão… e aí pra fazer um simples zine sobre “como fazer absorventes de pano” ia ser uma tarefa de muitas.

cotidiana_02_abiossorventeem termos menos minimalistas, já que hoje estamos pagando os preços – ambientais, sociais, culturais – de uma tentativa de automação tecnológica individualizante (com uma única máquina fazendo quase-tudo só com você) como projeto de humanidade (é um dos pilares do modo de produção capitalista, em que se vende essa idéia do sujeito universal indepentente, atomizado), como dá pra combinar uma idéia de faça-você-mesma a uma de autonomia que não sejam pra deixar a gente cada vez mais isolada, distante? essa automação tem tudo a ver com as demandas de tempo criadas pelo próprio sistema de consumo/produção de bens e serviços em escala não-humana. admito que é muito confortável poder comprar o sister outsider, da audre lorde, na versão original – em inglês – sem sair de casa, só com um conjunto de tecnologias virtuais: internet, cartão de crédito. chega rápido, também. mas sempre me pergunto: qual é a real necessidade da pressa? ela, pra mim, é mais uma das necessidades inventadas do sistema.

cotidiana_03_audre-lordeem termos tecnológicos acho que consigo explicar essas necessidades inventadas melhor. quando comecei a usar internet, há cerca de 10 anos, os computadores tinham HD de, no máximo, 64 MEGABYTES. hoje você vai comprar um PC novo e ele tem 250 GIGABYTES de memória. antes não tinha isso de baixar 300 filmes no PC, guardar tudo ali, ou uma coleção de mp3 com 579 mil músicas. antes, também, as pessoas não tavam no frenesi do youtube nem dos tocadores portáteis de mp3 com os quais tem gente que não vive mais. confesso que antes dessas modernidades eu não vivia sem um toca-fitas portátil… me lembro direitinho de como eu fazia pra ouvir a mesma música repetidas vezes: voltava a fita com caneta bic, pra não acabar a pilha. mas agora uma computadora tem a memória RAM com mais mega do que há 10 anos tinha uma computadora no espaço de armazenagem de arquivos! precisa? sinceramente, acho que não precisa. então até a demanda é inventada (até ou principalmente!). o sistema de produção das sociedades tecnocratas ocidentais tem essa outra característica marcante: inventar necessidades pra, em seguida, apresentar o maravilhoso pacote de produtos que vão, por um tempo determinado (e também determinadamente breve, o que é conhecido como obsolescência programada), supri-las. quem quer, tem que querer isso aqui. adquirível por tantos dinheiros… uma versão nova do “quem quer, faz”, é o “quem quer, compra feito”.

– mas outras vezes você quer y não tem como fazer, então você pede pra alguém que possa, saiba ou queira. o intermédio dessa relação – se dinheiro, se brodagem sororidagem, se dádiva – também merece uma comentada. algumas coisas me fazem pensar com cuidado nisso, talvez até com alguma preocupação. quando conheci os sistemas operacionais livres (gnu/linux, com suas diversas distribuições), eu quis parar de usar software proprietário. pra mudar o sistema da minha máquina, contei com a ajuda de um cara que era meu amigo na época. como era um sistema que a maioria das pessoas com quem eu tinha mais contato não usava, comecei a procurar outras pessoas que usavam. isso é muito comum entre pessoas que usam software livre, e é uma das coisas mais legais também: tem muita troca de informação, muitas páginas com dicas, tutoriais… uma outra característica dessas comunidades é o faça-você-mesmx. ainda não tem tanta formação técnica (formal, institucionalizada) em software livre como tem em proprietário, então a coisa foi criada e desenvolvida, e continua sendo, mais na base do se joga. além de resultar em não haver muitxs técnicxs formadxs pra quem você possa ligar na hora de um problema, pra contratar um serviço, resulta em que as pessoas se acostumam a fazer as coisas meio-que sozinhas. porque ok, tem as páginas, tem os tutoriais, tem os fóruns, tem até alguém no seu msn te dizendo como começar, passando alguns links, mas na semana passada eu liguei pra 13 números de assistência técnica a computadores que achei no classificado de um jornal local mas só UMA PESSOA dava assistência em gnu/linux.

cotidiana_08_sororidadecotidiana_04_debianwomen1

eu mesma fiz, por um tempinho, um blogzinho pra postar as descobertas no meu sistema. porque a distribuição que eu usava não era toda automática, como há algumas (inclusive uma pra qual tô migrando agora), então a máquina (o hardware) tinha que ser informado de algumas coisas que aconteciam lá. tipo, que eu tinha colocado um cd de música. não era mais “difícil”, só não era automático. e eu queria aprender a fazer as coisas. por isso escolhi esse sistema. mas depois de um tempo fiz umas bobagens na máquina, o sistema deu pau de instalação, e resolvi instalar um mais automático. desses que fazem tudo sozinhos. você põe o cd na leitora y já aparece um ícone dele na área de trabalho diversão, ou uma caixinha de diálogo perguntando se você quer executar como cd de música, copiar os arquivos ou o quê. enfim, quando eu não quis mais aprender a fazer tudo na máquina (porque tava numa onda de aprender outras coisas: costurar, plantar, traduzir, editar vídeos…), depois de um pau no sistema, resolvi instalar o que é chamado de “distribuição amigável”. acho bem estranho relacionar “amigável” a “automático”, mas se você for pesquisar sobre isso vai achar esses termos.

o faça-você-mesmx se assemelhando a faça-sozinhx gera uma espécie de problema entre algumas pessoas usuárias/desenvolvedoras de sistemas operacionais livres porque cria essa mística de que tudo tem que ser feito pela própria pessoa. lembra um certo purismo, também. mas acho interessante tentar fazer uma leitura disso como prática anti-capitalista, se o capitalismo é o reino da automação. y contra-culturas me atraem! mas não dá pra ver isso de prismas únicos ou totalizantes, porque – e agora quero voltar a uma das questões centrais nesse relato, diária – acho também que essa idéia de “podemos fazer tudo por nós mesmxs” pode compartilhar daquela perigosa ilusão capitalista da auto-suficiência individualista. repito: autonomia é uma prática coletiva. como a liberdade, que existe melhor se compartilhada. insisto nisso porque, pro movimento de liberação libertação de mulheres, uma das questões centrais diz respeito a serviço doméstico y precarização do trabalho público. em um começo de um feminismo (os ocidentais brancos, pós-revolução industrial) a demanda mais importante era acesso do mercado de trabalho às “mulheres”. a crítica feita pelo movimento de mulheres negras foi avassaladora: “quem são, afinal, essas mulheres de que vocês falam? porque nós mulheres nunca paramos de trabalhar, desde que fomos seqüestradas de nossas nações Africanas”. o preço pago pela liberação feminina branca foi a precarização do trabalho de mulheres negras, ou seu confinamento a tarefas domésticas em lares trocados, pelas brancas, por trabalho público. então essa liberação foi libertária? acho que não, hein.

cotidiana_05_afrofeminismoaí você pode se perguntar: mas o que isso tem a ver com computador? um monte de coisa, se a gente ainda tá falando sobre execução de determinados serviços e as implicações dela nas relações entre as pessoas. principalmente se eu preciso da ajuda de um cara pra fazer alguma coisa no meu computador. conheço algumas mulheres que trabalham com software livre, mas conheço mais caras. como tem mais caras em áreas tecnológicas que mulheres. isso não é coincidência nem determinismo biológico, mas resultado de um processo histórico de um sistema de relação (o patriarcado) que atribui papéis fixantes a pessoas lidas como mulheres ou homens. então o bróder vai lá em casa reinstalar meu sistema, e como ele é bróder não vamos estabelecer uma relação comercial pra mediar a troca. mas como há uma troca, combino com ele de fazer um almoço, por exemplo. eu cozinho bem (e sem crueldade!). gosto de cozinhar, além de achar importante que vegetarianxs saibam cozinhar. sou parceira no avental radical: lugar de feminista também é na cozinha. mas é impossível deixar de pensar que, afinal, estamos realizando tarefas determinadas antes de nós: homens nas máquinas, mulheres nas panelas.

é muito chato ficar fazendo coisas na obrigação porque isso significa alguma coisa, mas tenho esse vício de militância. além dele, acredito mesmo que nossas ações podem causar impactos no imaginário, criar outros mundos, ou pelo menos criar possibilidades de novos mundos. acho que isso é uma crença que de algumas formas se liga com o que costumo ouvir de muitas amigas, que dizem que:
– não gostavam de dirigir mas aprenderam, e não só a dirigir mas dirigir bem, porque querem calar a boca de quem faz “piada” sobre mulheres e falta de habilidade no trânsito;
– não sabiam nada de encanamento mas aprenderam pra poder cuidar da própria casa, instalar chuveiro, arrumar pane elétrica (e gente! isso é muito sapatão! rarrarrarrarra);
– não queriam depender de homem pra fazer nada nem agüentavam mais ser enganadas pelos “técnicos”, então aprenderam um pouquinho de mecânica;
– queriam mesmo é fazer letras, mas como tinha essa idéia de que mulher nenhuma faz física, prestaram vestibular pra isso e tão concluindo o curso etc.

cotidiana_06_lesbianasem mundos lesbianos essas coisas são até meio clichês, porque tudo que é considerado função de macho, quando executado por uma mulher, torna ela, automaticamente, uma mulher-macho. também conhecida como sapatão. pra mim, deixando o estigma de lado, escolhendo vê-lo como possibilidade de identificação, de comunidade, de exemplos, uma idéia possível de compreender a lesbiandade não é exclusivamente sobre como laços afetivos, sexuais, políticos, amorosos com outras mulheres, mas também como idéia, projeto y prática de ruptura com os homens e o poder coercitivo que exercem, herdado pelo patriarcado. herança que, seja maldita ou bem-quista, é aceita. a lesbiandade é tanto lindamente radical, subversiva y contra-cultural quanto é uma prática faça-você-mesma autônoma y libertadora. tem a ver com reinventar nosso modo de nos relacionar conosco mesmas em um mundo que diz, cabulosamente, que as mulheres são rivais entre si, que são burras, que não conseguem fazer nada sozinhas. tem a ver com reinventar o jeito de nos amarmos, de nos conhecermos, de nos masturbarmos, de treparmos, de fazer pornografias que não sejam manuais de estupro – como costuma ser a pornografia tradicional. tem a ver com rejeitar a maldade mais sinistra do patriarcado, que é roubar de nós nossa autonomia, a capacidade de vivermos juntas precisando da gente mesma, sem aceitar essa mentira cretina de que precisamos de homens pra amar, pra nos amar, nos conhecer, nos penetrar (simbólica y sexualmente, quando o sexo tiver penetração. que não é o sexo em si!).

eu queria começar a escrever sobre pornografia feminista, mas isso tem tanta conversa que merece uma diária só pra si. derrepentemente posso fazer uma série faça-você-mesma, uma trilogia: tecnologias cibernéticas (que é mais ou menos o assunto mais falado nesse texto aqui), tecnologias do sexo (pra falar sobre pornografia feminista lesbiana como uma contra-tecnologia pedagógica, combativa àquelas pedagogias sexuais patriarcais), tecnologias culinárias (pra falar sobre o avental radical, com algumas receitas veganas deliciosas). fica pra próxima vez, então. acho que tava devendo, já, uma calendária feminista, mas isso fica resolvido com o link. y como essa diária já ta bem enorme, termina por aqui. como comecei essa página com um trecho em que Lucille Clifton fala sobre nossas reinvenções, vou terminar com o poema inteiro. é muito bonito y inspirador:

cotidiana_07_lucille_clifton

Lucille Clifton

você não vai celebrar comigo?

você não vai celebrar comigo
o que moldei num
modo de viver? não tive modelos.
nascida na bibilônia
nascida não-branca e mulher
o que eu vi pra ser, além de mim mesma?
eu inventei,
aqui nessa ponte entre
poeira-de-estrela e barro,
essa minha mão; vem celebrar
comigo que todo dia
alguma coisa tentou me matar
e fracassou.

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Published in: on 16/02/2009 at 19:36  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Gostei do blog, existe um feed?

    • Cara da informática, como fazemos para colocar um feed?
      Ajude-nos, e haverá!!
      Obrigada pela visita, volte sempre.
      Jandira

  2. […] SAPATARIA wrote an interesting post today on eu inventei, / aqui nessa ponte entre / poeira-de-estrela e barro, / essa minha mão (Lucille Clifton)Here’s a quick excerpt … antes, também, as pessoas não tavam no frenesi do youtube nem dos tocadores portát… […]


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