MILK – Vida real na tela

Aguinaldo Silva fala sobre a importância de Harvey Milk, político gay vivido por Sean Penn
Publicada em 15/02/2009 às 09h24 em http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/02/13/aguinaldo-silva-fala-sobre-importancia-de-harvey-milk-politico-gay-vivido-por-sean-penn-754403998.asp

Aguinaldo Silva

Sean Penn em Milk, de Gus Van SantBelos tempos aqueles em que cada um de nós tinha uma causa, e todas elas, mesmo as mais pessoais, tinham a ver com o futuro e a salvação do mundo: as mulheres queimavam sutiãs, os gays brigavam – às vezes de modo literal – pelo reconhecimento do fato elementar de que tinham direitos, e os negros aprendiam aos tropeções a ter orgulho da raça, sem imaginar que, 30 anos depois, todo aquele esforço lhes daria como prêmio a ascensão ao poder máximo de um afrodescendente.

Éramos a última grande novidade do século: as minorias atuando. E o auge dessa verdadeira farra foi em 1978. No Brasil, vivíamos sob uma ditadura. Dos ventos de liberdade que sopravam pelo resto do mundo nos chegava apenas uma leve brisa. Mesmo assim nos refrescávamos.

Naquele ano, um grupo de jornalistas, do qual eu participava, fundou o jornal gay “Lampião da Esquina”, cujos passos iniciais foram dados à maneira das guerrilhas: da impressão na Rua do Livramento à distribuição num galpão da Rua da Relação, tudo era feito meio na clandestinidade, às escondidas, por debaixo do pano.

Lembro-me do modo como confrontávamos os jornaleiros, no galpão da distribuição, na tentativa de convencê-los a expor o que eles chamavam de “o jornal dos viados”. Éramos insistentes e, embora eles manifestassem o seu horror pela “causa” que representávamos, no fim sempre nos entendíamos.

Assim, as bancas do Centro da cidade aderiram primeiro à novidade, mas três meses depois de lançado o “Lampião” já podia ser visto em exposição até mesmo nos redutos mais conservadores do Rio.

Éramos, com toda a honra, afrontosos e malditos. Chegaríamos a ser processados, é claro; mas não por distribuir material pornográfico, e sim pela Lei de Imprensa, o que comprovava o quanto a nossa luta havia progredido. Já não éramos mais um bando de homossexuais, e sim um grupo de jornalistas enfrentando a ditadura e transgredindo.

Tínhamos a impressão de que passaríamos como um rolo compressor sobre os defensores “da moral e dos bons costumes” e afinal conquistaríamos nosso lugarzinho neste mundo.

Foi aí, no auge deste nosso sentimento de absoluta esperança, que lá em São Francisco, nos Estados Unidos, mataram Harvey Milk. Estávamos a fechar mais um número do jornal quando Francisco Bittencourt, um dos editores, entrou e nos deu a notícia em prantos. Dias antes, acontecera um atentado a bomba contra a sede de outro jornal alternativo que era nosso vizinho de prédio. Ninguém morrera, mas então pensáramos: e se fôssemos nós a próxima vítima?

Mas não fomos nós, foi Harvey Milk, que vivia num país de regime aberto e democrático e que, de todos os gays notórios de então, era o nosso grande ídolo.

poster de campanhaEx-hippie desbundado, figurinha carimbada de Nova York, Milk se mudara para São Francisco e lá, finalmente, descobrira a sua vocação – a política. Em poucos anos tinha sido eleito supervisor (ou o que chamamos aqui no Rio de “prefeitinho”) do distrito de Castro, onde os gays se concentravam. Opositor das leis defendidas pelos radicais de direita Anita Bryant e James Briggs, os quais queriam proibir que os homossexuais tivessem até mesmo o direito ao emprego, ele começava a se destacar nacionalmente e parecia ter um brilhante futuro pela frente quando foi assassinado por um político rival dentro do seu gabinete.

É dessa história que fala “Milk”, o filme de Gus Van Sant que estreia no Brasil na próxima sexta-feira (veja o trailer do filme abaixo). À maneira dos filmes políticos então em voga, com laivos documentais que se refletem até no granulado da imagem e na câmera sempre nervosa, o cineasta – um dos mais inquietos e controversos deste verdadeiro cemitério de elefantes no qual vem se tornando Hollywood – nos remete de volta, com toda a fidelidade possível, à efervescência – e à ingenuidade – daquela época.

Sim, porque se trata de uma história de época. Apenas 30 anos se passaram. Mas, enquanto assistia ao filme, eu pensava em “Gladiador”, ou em histórias ainda mais remotas: será que foi tudo assim tão difícil? E, se foi, como então conseguimos ir tão longe?

Sim, porque hoje, a não ser em países de fundamentalismo religioso ou político, os homossexuais ostentam livremente seus direitos. Mas o fato é que talvez isso não fosse possível sem a luta de Harvey Milk em Castro Street e, mais ainda, sem o seu sacrifício.

É disso que o filme de Van Sant nos fala: do valor do sacrifício. Obcecado pela sua luta, Harvey perde tudo – amigos, amantes, a própria vida. Em troca, dá à minoria da qual fazia parte uma ponte para o futuro.

Mas, se estou falando do ato político que o filme de Van Sant representa, não posso deixar de dedicar pelo menos algumas linhas ao próprio filme. E dele só posso dizer que me pareceu “antigo”, mas no bom sentido. Pois resgata uma linguagem, um gênero de filmes que teve o seu auge na própria década em que viveu Harvey Milk e que andava esquecido.

É fácil perceber que Van Sant viu esses filmes todos antes de escolher que caminho seguiria em “Milk”. Por isso eu disse que ele é “de época”: ele nos remete ao calor da hora e nisso conta com a fundamental ajuda de Sean Penn, esse ator magistral, aqui num dos seus melhores – e mais “realistas” – trabalhos. Sem esquecer a colaboração de luxo de Josh Brolin como o rival político de Milk.

Este pode não ser o melhor filme de Gus Van Sant (há quem prefira “Gênio indomável” ou, no outro extremo, “Elefante”). Mas não creio que nenhum dos candidatos ao Oscar este ano seja mais inovador e inquietante que “Milk”.

Gus aqui é mais Van Sant que nunca, como mostra a cena da morte de Milk, quando ele, agonizante, vê através das janelas os cartazes da ópera “Tosca” no teatro ali em frente. É assim que o cineasta dá um fecho brilhante à
grande ópera que foi a vida do seu personagem.

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Published in: on 16/02/2009 at 03:00  Deixe um comentário  
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