Atrás do Afoxé só não vai quem já morreu!

Por Tate em Cotidiana
27 Fevereiro 2009

cotidiana04-luana_alves

diária,

informações toscas, rápidas, devidas à falta de acesso estável à internet. vim pra pernambuco durante o carnaval, com um projeto externo de filmar feministas negras: um registro de quem somos, o que estamos fazendo, quais nossos sonhos, desejos y planos pra destruir o patriarcado, y um projeto íntimo de superar uma ferida emocional com relação à cidade que tínhamos escolhido, eu y a preta, na época em que éramos um casal, pra morar.

acontece que era CARNAVAL. eu, desinformada que sou, só descobri que olinda/recife têm o maior carnaval popular DO MUNDO quando cheguei aqui. que susto. de ruim: muita gente gringa – com suas disposições coloniais toscas – muita sujeira, muita pobreza, muito sexismo, racismo a dar com vara. de lindo: muita festa, muita música negra, muita gente preta na rua, muita afirmação racial combativa, positiva, ancestral, resistente, muitas mulheres na luta y na folia (ao mesmo tempo!).

meio que sem querer encontramos um centro de referência da mulher – márcia dangremon, no centro de olinda. foi na noite em que chegamos, haveria um show do paulinho da viola ali perto. paulinho da viola é o único macho desconhecido que admito gostar publicamente, apesar de ter sim músicas machistas, como descobri infelizmente ouvindo um disco da clementina de jesus que é da mãe de floriana – “ana amélia” anotado de caneta azul no vestido da clementina. assim ninguém dá balão nos discos dela.

o centro é, basicamente, de combate à violência contra mulheres. dirigido por uma mulher negra maravilhosa – será que posso citar nomes? como tem a ver com a prefeitura, não vou registrar -, com uma equipe mista de mulheres negras ou não-negras, algumas que me pareceram entendidas (as pessoas se referem às sapatonas assim, aqui), ele funciona 24 com assistência jurídica, educacional, social y psicológica a mulheres em situação de violência sexista (conjugal ou doméstica como foco principal, se entendi bem).

elas iam fazer, dali a 2 dias, um arrastão de carnaval pelo fim da violência contra mulheres. ganhei uma camiseta no ato, que foi uma caminhada pelas ladeiras da belíssima olinda com uma banda tocando marchinhas clássicas de carnaval. era lindo porque, no caminhar do ato, muitas mulheres iam se juntando ao bloco. o carnaval aqui é assim, os blocos saem pela rua y as pessoas vão colando.

num outro dia fui à praia, uma mais afastada que não tivesse tubarões. fiquei meio bolada com isso por estar menstruada, porque mesmo estando com minha copa de luna, sei lá, vai que vaza né? enfim, fomos a um lugar chamado pontal de maracaípe. onde o rio encontra o mar! pense num lugar lindo, diária! é lá.

só que, de novo, muita gente gringa, muito playboy, muita sujeira, muito crescimento urbano desordenado, capitalismo voraz, poluição exacerbada… gente, cadê as escolas populares de permacultura y bioconstrução? isso é urgente! mas não, o que se vê é uma casona amarelinha y roxa, aparentemente muito bonitazinha, mas que joga o esgoto ali direto no “rego”. rego, eu aprendi com duas lindas olindenses adeptas do xangô – lindas mesmo. uma delas é fotógrafa! se tiver tempo, peço umas fotos dela pra ilustrar esse capítulo -, é como se chama o esgoto que fica a céu aberto.

enfim, muitas pousadas, muita placa em inglês, tudo muito caro, uns passeios absurdos até o lugar em que ficam cavalos-marinhos (y éguas marinhas, por supuesto), porque aí pegam as/os cavalxs marinhxs num vidrão pra mostrar pro gringo. aí o gringo bate palma, tira foto, dá um tapa na bunda da mulher negra que tá com ele, e gera divisas pro nosso país. “o brasil está vazio na tarde de domingo, né. olha o sambão, aqui é o país do futebol”. y todas essas bobagens.

eu só tenho orgulho de ser brasileira quando vejo meu prato de arroz, feijão y farofa. farofa de cebola. arroz integral. feijão roxo (que outras pessoas chamam de carioca), mas pode ser preto também (que devia ser chamado de carioca, afinal, é típico no rio de janeiro), desde que temperado pela mãe Fátima. receita de vó antônia. nunca consegui aprender, mas é simples que só: alho, sal, óleo, pimenta do reino. o processo tem suas mandingas, mas não é nada de secreto. só que o meu não fica igual.

em recife tudo tem vaca (ou boi) morto: charque. feijão com charque. arroz com charque. farofa com charque. é chato comer vegetarianamente aqui, se você quer comprar pronto. mas os mercados são baratos. eu trouxe de casa um pacote de arroz cateto, outro de lentilha, porque vim decidida a fazer a desintoxicação macrotiótica. como não sou macrobiótica nem devo nada disso a ninguém, tenho comido umas besteiras de vez em quando, mas basicamente tenho comido arroz com coco (aproveitando que tenho tomado muita água de coco). tá massa, tá ótimo, é uma delícia.

a dona da casa em que estamos hospedadas, querida Sônia Brasil, acha que eu tô passando fome, que ando comendo mal. ela é muito, muito querida mesmo. recebeu a gente emergencialmente – a outra casa em que íamos ficar furou -, mas com muito carinho, solicitude, alegria, conversas maravilhosas, uma cama de colchão duro. ela também ficou meio passada quando me viu dormindo no chão. isso não dei conta de explicar pra ela, como rolou com a dieta.

tatu, quando você voltar, vamos fazer a desintoxicação juntas. não é aquele sofrimento que imaginamos. é massa, poxa. a gente adora arroz integral.

muitas saudades das amigas. esse relato tá todo desencontrado porque as meninas tão prontas pra gente ir pra praia. então tô escrevendo nas coxa… mas numa dessas noites recebi uma ligação, de brasília, de uma guria que precisava de ajuda pra um assunto de muita importância. entendi na hora o que era. com a cpi do aborto, tá muito mais difícil do que já era, porque até falar por telefone é perigoso. eu tava em recife, duas das minhas parceiras pra vida tão fugidas pela américa do sul, as outras também tão sem contatos. senti saudade de vocês, amadas. alice, flores, tatu, flá, danú, luana, porra. que me deram chão. abrigo, amor, ombro, cuidado, compartilha, dádiva, segurança, comunidade-feminista-24-h-por-dia-onde-veganismo-tem-a-ver-com-feminismo-y-vice-versa.

sempre sinto saudade da luana. mas às vezes sinto mais. quando é esse tipo de saudade junta, então, é aterrador.

tô com medo de muitas coisas. essa viagem tá sendo uma loucura em termos de ficar pensando muito comigo mesma sobre minhas escolhas, minhas rupturas, meus laços, os afetos perdidos, os afetos mantidos, os afetos desesperados, os planos, o que fazer pra me sustentar, o que fazer pra não sustentar modos de vida racistas, sexistas, especistas, exploratórios, que exaurem a vida íntima, a vida compartilhada, a vida sequer imaginada (gente, o fundo do mar é outro mundo! a floresta é um sonho! eu nem fui lá mas eu sei. eu sinto.), a vida mais limpa, digna, sustentável y linda pela qual a gente tanto luta.

tenho me sentido tão conectada comigo mesma que dá medo. queria poder falar sobre isso com vocês. queria ouvir como vocês tão se conectando. como vocês tão. queria ouvir a voz de vocês, abraçá-las, sorrir juntas. sentar na varanda enquanto vocês fumam y ficar rindo da meia de llama da lou, que tem estampada uma llama usando uma meia de llama que tem estampada uma llama usando uma…

tenho sonhado muito com vocês. inclusive com quem eu não queria mais sonhar, nem encontrar. tenho olhado horas pro mar. reafirmei minha promessa pra Iemanjá, então meu cabelo tá essa coisa enorme, louca, sem corte aqui. encontrei Iansã. foi cabuloso! duas horas de chuva torrencial! TORRENCIAL! água que não acabava, enchendo a rua como um rio. na noite dos afoxés. meu corpo entendeu. separado, assim, da mente. agora elxs tão com essa mania de separação. isso é que dá, 500 anos de patriarcado colonial racista anti-transe. então minha cabeça era eu mesma, mas meu corpo não. dançava com os afoxés!

eu entendi que isso é que é carnaval. depois, vendo de relance o desfile das escolas de samba do grupo A do rio de janeiro, eu senti pena. pena de quem perde o lastro. pena de quem não tá saindo na rua batendo tambor porque tem uma ligação com uma casa de santx. pena de quem não viu o encontro dos maracatus. também embaixo de chuva! rainhas y reis vestidxs com panos nobres, não é fantasia não, gente. é 209 anos de Maracatu Elefante, o Rei mesmo disse: isso que você tá vendo não é uma fantasia, eu sou Rei!

então você dança. como nunca imaginou que sabia! então você entende que você tá conectada porque é preta, porque ali é uma rua onde pessoas pretas como sua bisavó foram vendidas, escravizadas, assassinadas. agora a rua é lavada com duas horas de chuva. Eparrei, Oyá!. mas a memória disso ninguém apaga. nem quer apagar. porque carnaval é uma festa da gente preta se lembrar com festa de nunca esquecer o que chorou. y seguir cantando!

aí quando o paulinho da viola, noites antes, cantou “a razão porque trago um sorriso / e não corro / é que andei levando a vida / quase morto / quero fechar a ferida / quero estancar o sangue / e sepultar bem longe / o que restou da camisa / colorida que cobria / minha dor / meu amor eu não esqueço / não se esqueça por favor! / que eu voltarei depressa / tão logo a noite acabe / tão logo esse tempo passe / para beijar você”, eu chorei.

chorei por amar a lou. por estar aqui sem ela na minha vida. por estar aqui. por ser quem eu sou. uma mulher negra sapatão aprendendo mais coisa do que imaginava que podia. y que segue dançando

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Published in: on 28/02/2009 at 13:08  Deixe um comentário  

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