Nós mulheres merecemos uma vida sem violências

(fevereiro de 2009, carnaval em recife)

diária querida,
tomei um tapa na cara.
não viajei pra recife pra apanhar. acho que nenhuma mulher vai a lugar algum, ou fica em qualquer canto, pra apanhar (não gosto de generalizações mas acho que essa cabe). vim pra cá pra descobrir o maior carnaval popular do mundo, pra conhecer mulheres especiais, pra registrar feministas negras num vídeo de memória, pra fazer as pazes com meu coração partido, pra entrar no mar y pedir uma benção de Iemanjá.
vim pra conhecer os afoxés, pra dançar ao som do batuque, pra conhecer rainhas y reis de maracatu. vim pra ficar 2 horas embaixo de chuva esperando a cerimônia da Noite dos Tambores Silenciosos, que começava à meia-noite y, quando começou, rapidamente comecei a bolar, tive que ser arrastada pra dentro de um lugarzinho, tive que fazer um esforço mental gigante pra resistir ao transe porque ali não era um lugar muito apropriado.
vim pra ver mulheres tocando atabaques, vim pra andar atrás da percussão pelas ruas lindas de olinda, apesar do tanto de sujeira deixada no chão por “foliões/ãs” – se tirar o sexismo y a sujeira do carnaval, ele sobrevive? -, com suas casinhas coloridas. até a casinha amarela que eu tinha imaginado pra morar com a lou eu vi! velhas pernambucanas nas janelas, nas portas dançando ao som do batuque, entrando no bloco y dançando pela rua… foi pra isso que eu vim.
vim pra ver uma pernambucana querendo dançar quando o cara queria que ela fosse embora. vim e vi ele empurrando ela. vi e fui empurrá-lo de volta, gritando com uma força que eu nem sabia que tinha e que, de novo, me lembrou luana (até quando?), quando ela vinha me contar que tinha dado um soco num macho escroto no ônibus que ficou falando merda pra ela. e eu ficava “eita, lou, como você arruma essa coragem? acho que eu não ia conseguir!”
mas eu consegui. gritei com ele, que tava empurrando a mulher negra que queria dançar. ele veio pra cima de mim. ele veio com tanta raiva que me deu mais raiva ainda. então gritei mais, empurrei ele de volta, falei o que consegui no meio do barulho dos afoxés, da chuva, da conversa de todas as pessoas que tavam ali também mas decidiram não se intrometer. ele veio pra cima de mim e me deu um tapa na cara.
um cara de uns 20 y poucos, que tava perto, foi pra cima dele, então a partir daí virou uma briga de machos. eu tremendo de raiva. mas a mulher negra dançando!, como queria, na chuva, com os afoxés. deve ter durado uns 3 minutos a cena toda, ela deve ter ficado dançando uns 2 minutos. não tem como medir quantos minutos de dança alegre y liberta de uma mulher valem o tapa na cara de outra. ainda mais depois de pensar que, chegando em casa, ela ia apanhar dele.
porque depois da dança curta ela entrou com ele no ônibus. eu fiquei ali meio pasmada com tudo, meio orgulhosa de mim mesma, completamente puta de raiva ouvindo os disparates que o pai do cara que comprou a minha briga dizia pra ele: pra que vocês foram se intrometer? ainda com muita raiva, gritei de volta que uma tia minha tinha apanhado até a morte justamente porque o segurança do estacionamento resolveu não se intrometer.
lembrei também da luíza, que conheci lá no margarida – o programa do HRAN que atende mulheres em situação de violência doméstica -, dizendo uma vez que ela tava no meio da rua quando o marido a alcançou y começou a espancá-la. ela ficou gritando desesperada por socorro, mas o máximo que recebeu foi um vizinho fechando a janela pra não ver a cena. a luíza é uma mulher de mais de 50 anos, pequena, magra, fala baixinho…
mas ela disse que, depois do que passou, nunca deixou de se intrometer em briga nenhuma. “eu posso até apanhar junto, mas parto pra cima”. obrigada, luíza. isso me deu uma força gigante num dia que tinha começado lindamente, numa manhã de praia, em que eu fiquei horas no mar conversando com Iemanjá, declarando pro universo meus desejos y planos, minhas disposições… uma manhã que terminou abençoada por uma chuva de Iansã, assim que saí do mar.
Eparrei, Oyá.
eu passei o dia inteiro meio poliana depois dessa chuva na praia. com o coração novo. finalmente respirando sem aperto. até dormi à tarde, coisa que nunca acontece, um sono pesado de 2 horas cheio de sonhos. o que rolou à noite não serviu pra manchar meu coração de mágoas, não de novo. nunca mais! mas serviu pra me ajudar a nunca esquecer: os homens criados nessa cultura serão sempre potenciais espancadores, estupradores, assassinos.
a misoginia é parte fundante dessa sociedade. foi a partir de misoginia y racismo que a febre do capitalismo fabril consolidou o patriarcado que já tinha se erguido na caça medieval às bruxas (pra localizar mais perto). foi a partir de separação entre cultura y natureza, colocando os machos brancos do lado da cultura (dominadora) y as mulheres pretas y demais pessoas não-brancas do lado da natureza (a ser dominada), que essa merda toda se estabeleceu. isso é um pouco do que me deixa mais amarga, mas também é o que me dá um gás fodido pra lutar todos os dias até que isso acabe.
ou pra que, pelo menos, a gente viva de forma inteira apesar y contra y desde isso. pra dançar na chuva o tempo que quisermos!

 
Por Tate Ann
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Published in: on 28/02/2009 at 13:10  Deixe um comentário  

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