Fora da história: negras não tem espaço na literatura contemporânea

Da UnB Agência.

De 1.245 personagens catalogadas, apenas 34 são mulheres negras. Em 70% das vezes, ocupavam papéis como domésticas e prostitutas

Camilla Shinoda
Da Secretaria de Comunicação da UnB

Pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, coordenado pela professora Regina Dalcastagnè, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas, revelou um capítulo sombrio da literatura brasileira contemporânea produzida no período entre 1990 e 2004: a quase ausência da representação de mulheres
negras nos romances publicados pelas três maiores editoras do país, Companhia das Letras, Rocco e Record. De um total de 1.245 personagens catalogadas em 258 obras, apenas 2,7% são mulheres negras.

Nas poucas vezes em que apareceram nas páginas dos romances, em aproximadamente 70% dos casos, as negras ocupavam posições como empregadas domésticas e profissionais do sexo. Outros papéis recorrentes são a de escrava, dona de casa e bandida.

“Lamentavelmente, esses dados não surpreendem. Vivemos em um país de forte tradição escravocrata, em que a imagem da mulher negra ainda é marginalizada”, diz a professora do departamento de Sociologia da UnB e subsecretária de planejamento da Secretaria Especial de Política para as Mulheres, Lourdes Bandeira.

SILÊNCIO – “Elas não só são representadas em papéis subalternos, como ocupam posições subalternas no enredo”, afirma Regina. A pesquisa detectou que em apenas três vezes a mulher negra foi protagonista da história e somente em uma foi narradora.

Para Marina Farias Rebelo, mestranda do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, a presença de apenas uma mulher negra como narradora traduz grande significado. “A mulher negra não fala, ela é falada”, ressalta. Em seu estudo, ela compara a literatura com o rap como lugar de expressão para esse grupo. “No rap, a mulher negra
reivindica a voz para si, elas cantam a sua mensagem, coisa que não acontece na literatura”, explica.

Lourdes Bandeira acredita que o fato de existir só uma narradora negra em quase 15 anos de publicações demonstra que essa figura é silenciada. “Os escritores brasileiros estão tirando delas o direito do uso da palavra. Com isso, a mulher fica mantida no anonimato”, destaca.

A professora Regina reforça a importância de ser dona do seu próprio discurso. “Quando ums personagem fala, ela adquire poder, faz com que o leitor siga pela perspectiva da mulher negra”, afirma.

ELITE CULTURAL – O estudo produzido na UnB também revelou que mais de 70% dos autores catalogados eram homens, brancos, de classe média, com nível superior e heterossexuais. “É uma ilusão que a literatura seja um objeto artístico muito crítico. Ela é produzida por uma elite branca, que reflete suas representações, assim como o cinema, o teatro”, afirma Regina.

“É um segmento social predominantemente masculino que não está atento as mudanças sociais e ainda mantém valores de certo menosprezo à mulher negra”, completa subsecretária de planejamento da Secretaria Especial de Política para as Mulheres.

A mestranda Marina Farias adverte que a intenção da pesquisa não é censurar os escritores, mas sim fazer com que eles reflitam sobre perspectivas sociais diferentes. “Não queremos policiar ninguém. Defendemos o direito de cada um escrever o que quer, mas queremos que isso seja feito de forma responsável.”

De acordo com a professora Dione Moura, da Faculdade de Comunicação, existe uma produção emergente que traz um desejo de transformação dessa realidade. Dar voz a isso, diz ela, ajudaria a mudar os números apresentados pela pesquisa. “É preciso fortalecer as produções alternativas que têm voz de igualdade. Editais públicos e programas governamentais seriam um bom meio de se fazer isso”, aponta.

O OUTONO DA VIDA

As mulheres mais velhas também estão pouco presentes nas páginas da literatura brasileira contemporânea. Segundo a pesquisa do grupo da professora Regina Dalcastagnè, do universo de 1.245 personagens catalogadas, apenas 40 eram mulheres em idade mais avançada. O dado chamou atenção da pesquisadora Susana Moreira de Lima, também integrante do grupo de estudo, que escreveu a tese de doutorado “O outono da vida: trajetórias do envelhecimento feminino em narrativas brasileiras contemporâneas”.

Em seu estudo, Susana adotou uma amostra composta por 12 contos, uma novela e dois romances, escritos entre 1960 e 2003, em que mulheres velhas eram as protagonistas. “A idosa não tem voz na nossa literatura. Em três dos textos elas foram narradoras, mas apenas em um era uma narradora forte”, esclarece a pesquisadora. Todas as obras nessa situação foram escritas por mulheres.

Os estereótipos da velhice, como a debilidade física e o corpo deteriorado foram explorados. Mas nos textos de escritoras, o assunto era melhor problematizado, por meio de críticas que subverteram esse olhar inquisidor da sociedade à mulher com mais idade. Outro tema que foi associado à idade avançada em todos os momentos foi a solidão.

Todos os textos e fotos podem ser utilizados e reproduzidos desde que a fonte seja citada.
Agência.

http://www.secom.unb.br/unbagencia/unbagencia.php?id=1310

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