A camisa que o Papa veste

Saiu no Jornal da Tarde (SP), no domingo (29/03).

Maria Cristina Pimenta
DOUTORA EM SAÚDE COLETIVA E COORDENADORA GERAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA INTERDISCIPLINAR DE AIDS (ABIA)

A recente declaração do papa Bento XVI de que a promoção do uso e a distribuição de preservativos não contribuem para o controle da epidemia de HIV/aids, mas, sim, para o seu crescimento, não tem embasamento científico.

Existem inúmeros estudos no Brasil e no mundo sobre a eficácia dos preservativos na prevenção das doenças sexualmente transmitidas (DSTs), inclusive na Organização Mundial da Saúde (OMS) e no Programa das Nações Unidas (PNUD). Todos comprovam cientificamente que o uso do preservativo é o método mais eficaz para impedir a transmissão do vírus durante uma relação sexual, bem como demonstram os resultados positivos da aplicação de estratégias de prevenção que promovem o uso da camisinha.

Os estudos clínicos das “novas tecnologias preventivas” – como a vacina anti-HIV, os microbicidas e as terapias de profilaxia pré-exposição – ainda estão em andamento e não são conclusivos. Enquanto isso, o uso correto e consistente do preservativo permanece como método principal de prevenção da transmissão do HIV e de outras DSTs como, por exemplo, a sífilis e a hepatite B.

Os dados do Ministério da Saúde mostram que temos hoje aproximadamente 630 mil pessoas infectadas pelo HIV no País e que 200 mil estão em tratamento. Caso o Brasil não tivesse adotado uma política de prevenção e assistência integral que incluísse a promoção do uso e acesso gratuito ao preservativo durante as últimas décadas, teríamos hoje, de acordo com as estimativas realizadas por especialistas do Banco Mundial no início dos anos 90, duas vezes mais o número de infectados. A estimativa era de que no ano 2000 o Brasil tivesse aproximadamente 1 milhão e 200 mil pessoas infectadas.

Claro que a promoção do uso da camisinha não deve ser uma ação isolada, mas combinada com informação sobre formas de redução de risco de infecção, promoção à saúde, serviços de diagnóstico e tratamento e ações de combate ao estigma e à discriminação de pessoas que vivem com HIV e aids.

A camisinha sempre deve estar presente nas ações preventivas, já que sabemos que existem outras formas de transmissão do HIV, mas que a principal forma é a via sexual.

Assim, não podemos aceitar que em pleno século 21 ainda existam posições ideológicas e barreiras religiosas que dificultem e impeçam as políticas de saúde pública consistentes e com dados cientificamente comprovados, como o uso do preservativo. São essas posições que contribuem para o crescimento desenfreado da epidemia e para a morte de milhões de pessoas. É lamentável que a Igreja Católica não tenha evoluído com a historia e a ciência do povo a que pertence.

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