POLÍTICAS SEXUAIS E JUSTIÇA AMBIENTAL: O SEPARATISMO LÉSBICO NA REGIÃO RURAL DE OREGON

mountaingrove2-m

 

RESUMO PRELIMINAR1

MORTIMER-SANDILANDS, Catriona. Sexual Politics and Environmental Justice: Lesbian Separatists in Rural Oregon. In: STEIN, Rachel (ed.). New Perspectives on Environmental Justice: Gender, Sexuality and Activism. New Jersey: Rutgers University Press, pp. 109-126, 2004.

  

UM IDÍLIO RURAL? OS PRIMEIROS IMAGINÁRIOS SOBRE A NATUREZA

 

·         O separatismo lésbico teve início em 1974, quando três mulheres compraram 23 acres de terra e fundaram a primeira comunidade. A retórica inicial desse grupo afirmava que a cultura masculina era exemplificada pelas cidades, e de que o deslocamento da mulher rumo à uma “novo” espaço – uma natureza que ainda não tenha sido submetida a cultura masculina – poderia facilitar a surgimento de uma nova cultura lésbica. Havia o desejo de criar uma existência lesbiana que articulasse estas idéias sobre a natureza e os princípios políticos do separatismo.

 

·         Essas mulheres queriam se desmembrar das instituições patriarcais, desenvolvendo uma existência tão auto-suficiente quanto possível nestas novas terras. Queriam tomar decisões coletivas sobre a terra, transformando os privilégios financeiros de classe média numa solidariedade entre mulheres típica das classes operárias. Elas queriam praticar a não monogamia, removendo a noção de “propriedade” de suas vidas sexuais e emocionais, e compartilhar todas as formas de trabalho. Elas queriam cultivar orgânicos, ter uma vida simples, mudar a cultura de consumo, e engajar num estilo de vida ecológico. Queriam incluir a espiritualidade e práticas rituais em suas vidas, incluindo a veneração aos corpos e ciclos da mulher. Parte do desejo pelo separatismo era baseado na idéia de que estas terras permitiriam que as mulheres pudessem ser elas mesmas, e por outro lado, um espaço de experimentação no qual as mulheres pudessem se tornar algo a mais. Essas pessoas acreditavam que as mulheres precisavam ter o tempo, o espaço e os recursos necessários para desenvolver sua própria cultura.

 

·         Apesar dessas comunidades terem alcançado um pico de prosperidade, chegando a serem conhecidas coletivamente como “A Trilha das Amazonas”, vários desses grupos desenvolveram diversos conflitos e lutas internas (decorrentes de problemas financeiros, interpessoais, de adaptação física, etc) que levaram a um declínio destas culturas.

 

PRINCÍPIOS DA ECOLOGIA SEPARATISTA

 

·         O meio ambiente em que se situava estas comunidades é caracterizado por um clima relativamente ameno devido as altas latitudes, capaz de proporcionar uma agricultura perene ao longo de todo o ano, um solo relativamente pobre que necessita de arranjos criativos de tecnologias de enriquecimento do solo, e verões secos marcados por escassez de água. As montanhas proporcionavam uma forte sensação de isolamento e privacidade somente possível devido a configuração das paisagens, oferecendo assim uma grande liberdade sexual lesbiana.

 

·         As paisagens de fato tiveram uma influência profunda no modo como o separatismo lésbico se tornou uma cultura política-ecológica localizada. Em primeiro lugar, a filosofia separatista incluia uma certa filosofia da natureza e proporcionava uma conscientização acerca das relações entre a paisagem e o ecológico que foi aumentando ao longo dos anos. Em segundo lugar, os rigores físicos da vida no campo intensificaram os conflitos, mas também trouxeram formas particulares de contato com os processos naturais, interações estas que criaram uma “nova” experiência com a natureza. Em terceiro lugar, a terra em si tornou-se um fator de coerção que manteve as pessoas da comunidade juntas mesmo depois que a ideologia separatista se desfez; na ausência da utopia, as realidades da sobrevivência vieram ocupar um papel importante na vida coletiva. A partir destas interações natureza-cultura, um conjunto sofisticado de princípios e práticas sociais e ecológicas emergiram. Embora atualmente nem todos estes princípios sejam compartilhados por todas as mulheres, a autora acredita que eles são elementos reconhecíveis da identidade coletiva destas comunidades.

 A – Abertura das terras rurais para todas as mulheres pela transformação das relações de propriedade

 

·         As políticas de separativismo rural foram fundadas sobre a idéia de que a terra deve ser acessível para tantas mulheres quanto possível. Assim, a terra deve ser adquirida e disponibilizada inclusive para aquelas mulheres que, de outra forma, não teriam esse acesso (remoção dos privilégios de classe e raça), e também é preciso remover o critério da propriedade privada da possibilidade de uma vida rural. Em muitos casos, essas “terras de mulheres” eram como Parques Nacionais Lesbianos.

 B – Libertar o campo da reprodução e produção patriarcal capitalista

 

·         A filosofia separatista reinvidicava a libertação da sujeição das mulheres ao capital e aos homens ao permitir que as mulheres escolhessem um modo de vida livre de ambos e vivessem uma existência rural auto-suficiente com outras mulheres. Em outro nível, o separatismo também reinvidicava mudanças nas formas pelas quais o campo é dominado pelo capitalismo através dos interesse das grandes corporações, da exploração dos trabalhadores na agricultura, dos efeitos da agricultura química, e a perda massiva de diversos conhecimentos tradicionais sobre processos agriculturais e naturais. As práticas agrícolas de subsistência e outras relações de vida com a terra foram e são organizadas segundo fortes princípios de não violência.

 C – Feminilização e reaculturação da paisagem, simbolicamente e fisicamente

 

·         A resistência do separatismo rural é fortemente orientado por uma reinterpretação do gênero e da natureza, através de uma vivência entre mulheres e para mulheres capaz de permitir a expressão de novas formas de gênero. Os elementos utópicos das articulações iniciais do separatismo não eram apenas ideológicos no sentido de um futuro ecológico somente possível se as mulheres governassem o mundo, eram também saltos imaginativos que abriam o mundo para a possibilidade de se vivenciar de outra forma o gênero e a natureza. Deste modo, além das mudanças físicas proporcionadas por práticas de sobrevivência e de uma agricultura de baixo impacto, haveria uma tendência à feminilização da organização estética das paisagens. Algumas destas intervenções são óbvias: plantações em formato de vulva, altares para as deusas em locais estratégicos, preferência por construções arredondas, simples e de baixo custo, etc. Para estas comunidades a natureza é como um lugar ou ator, e não um “outro” que deve ser domesticado ou temido, mas uma amiga, uma irmã, uma amante. Esta incorporação da natureza na cultura lésbica não era apenas física, mas espiritual, metafórica, e criativa, onde praticamente todas as mulheres escreviam poemas sobre a natureza, alguns dos quais foram publicados.

 D – Desenvolvimento de uma abordagem holística e de gênero para a experiência física com a natureza

 

·         Muitas mulheres demonstraram uma compreensão complexa de como a reorganização da divisão sexual do trabalho transforma a experiência de vida no campo, e portanto das percepções sobre a natureza. Cada mulher participava em múltiplas formas de trabalho e acreditavam que muito de seus conhecimentos sobre a terra derivavam do trabalho físico, da produção criativa e da reflexão espiritual, que foram e são interpretados como parte de uma vida integral com a natureza. Algumas destas mulheres sentiam tornar-se mais facilmente lésbicas no campo do que seria possível na cidade, na compreensão de que suas identidades como lésbicas estão ligadas com a transcendência de seus papéis de gênero e que estes papéis são mais facilmente rompidos no campo.

 E – Experienciando a natureza como um parceiro erótico

 

·         Para algumas mulheres uma das formas mais importantes pelas quais o campo molda suas identidades é através das articulações entre o erotismo sexual e os elementos da natureza rural. Assim, algumas se apropriaram ativamente da idéia de “natural” como um ideal normativo para a sexualidade lésbica rural – considerado tradicionalmente como “anti-natural” em nossas sociedades – e portanto passaram a cultivar a noção de que o sexo entre mulheres é belo justamente por ser natural, e de que a “natureza” lesbiana é uma “arte” contrária às convenções estéticas que insistem em interpretá-las como uma vergonha ou perversão. Para outras mulheres, elas não estavam descobrindo uma sexualidade “natural” num espaço natural primitivo,mas criando ativamente uma sexualidade lesbiana neste tempo e espaço. Deste modo as comunidades poderiam desenvolver experimentos como a não-monogamia e o sexo não-possessivo, ainda que isto em si não gerasse uma revolução sexual, mas certamente inspiraria a vivência das várias possibilidades eróticas como uma parte importante da vida nas paisagens separatistas.

 F – Politizando a ruralidade e a identidade lésbica rural

 

·         O último princípio diz respeito ao compromisso em politizar a identidade e o espaço rural. O desenvolvimento das reflexões e práticas iniciadas no debate entre as feministas espiritualistas e as políticas feministas radicais leva a sustentar concepções como a idéia de que somente através do enclave de comunidades constituídas apenas por mulheres no campo é possível reunir uma “energia psíquica politizada”; de que as lésbicas são as únicas ou as pessoas mais adequadas para resistir a devastação do ambiente rural através da criação de uma esfera pública rural lesbiana; ou de que a intimidade da relação com a natureza é um aspecto central da identidade destas pessoas que faz com que estas mulheres se sintam tendo pouco em comum com as lésbicas urbanas.

 

 

CONCLUSÕES: SEPARATIVISMO ECOLÓGICO, JUSTIÇA AMBIENTAL QUEER

 

·         O separatismo lésbico na região rural de Oregon é uma forma de tradição atual e sitiada de resistência. A autora sugere que esta forma de cultura lesbiana não apenas demonstra as inter-secções contextualmente específicas das relações de poder entre a orientação sexual e a ecologia (e suas inter-relações com as questões de raça, classe e gênero), mas também a importância da politização dessas conexões, visando a compreensão e transformação das relações socioecológicas.

 

·         Catriona sugere que as políticas culturais da justiça ambiental tomam forma e ressonância em contextos muito particulares (como o encontrado na “Trilha das Amazonas”). Assim, somente nestes locais é possível identificar políticas transformadoras de justiça ecocultural. Algumas das realizações políticas e culturais destas comunidades são: 1) a desconstrução da heterossexualização de certas narrativas, 2) a criação de experimentos sociais, e 3 ) de construção de uma esfera pública lesbiana.

·         A desconstrução da heterossexualização de certas narrativas é evidenciada quando estas mulheres mudam intencionalmente os discursos essencialistas através dos quais o campo, a natureza pastoral, é heterossexualizada na cultura da América do Norte, rompendo com isso imaginários como a concepção de que toda cultura gay é urbana e toda cultura rural é hetero. Lésbicas rurais que publicamente se assumem como queer e campesinas e possuem uma consciência muito forte sobre a importância de suas presenças coletivas, desmantelam este tipo de articulação. Além disso, elas subvertem as compreensões tradicionais sobre a ruralidade ao praticar formas alternativas de famílias, comunidades, e propriedade.

 

·         Além disso, estas mulheres tem vivenciado suas vidas como uma forma de “experimento” que resultou numa cultura híbrida de feminismo lesbiano e de conhecimento ecológico local, o que tem implicações normativas.

 

·         Para a autora a experiência de Oregon demonstra a importância da construção de uma esfera pública lesbiana para a negociação entre as identidades sexuais e ecológicas, e do potencial democrático das políticas de justiça ambiental. Assim, as negociações em curso na cultura lesbiana rural incluem uma variedade de discordâncias definitivas sobre a natureza e as políticas ecológicas, como por exemplo o mérito relativo do conhecimento científico sobre as florestas versus uma compreensão animista das árvores como seres que experienciam prazer e dor, ou o mérito relativo de uma visão mais materialista do capitalismo agrário versus uma perspectiva mais espiritualista sobre a importância do empoderamento das mulheres no campo.

 

·         Por fim, Catriona cita que muitas dessas mulheres sustentam a compreensão de que se Gênero é uma relação social, práticas separatistas que são estrategicamente essencialistas são relações sociais que transformam o Gênero.

 

1Elaborada por Sandra Michelli da Costa Gomes, bióloga e analista ambiental, e-mail: sandra_michelli@hotmail.com

Nota: Este post é apenas uma parte do texto de Sandra Michelli Gomes. Para ver na íntegra: http://sandramichelli.wordpress.com/

Anúncios
Published in: on 14/04/2009 at 12:06  Deixe um comentário  
Tags: , , ,

The URI to TrackBack this entry is: https://sapatariadf.wordpress.com/2009/04/14/politicas-sexuais-e-justica-ambiental-o-separatismo-lesbico-na-regiao-rural-de-oregon/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: