Entrevista com Anita Costa Prado – Criadora da personagem lésbica Katita

Anita Costa Prado é paulistana, formada na área contábil pela Faculdade de Educação Campos Salles. Organizou para a Sociedade de Cultura Latina o livro Infância Desfavorecida e publicou Meandros da Inveja e Catarse de Cartomante. Criou a Katita em 1995; a personagem teve suas tiras publicadas no livro Katita, Tiras sem preconceito (Marca de Fantasia, 2006), obra responsável receber no 23º Prêmio Angelo Agostini os troféus de Melhor Escritora e Melhor Lançamento de 2006. Anita participou ainda de diversas antologias poéticas, obteve premiações em concursos literários e atua na elaboração de cartilhas institucionais e criação de personagens de Quadrinhos portadores de necessidades especiais.Biografia encaminhada pela escritora e com base na disponível no Bigorna.net

01 TdRQuem é Anita Costa Prado?

Anita Costa Prado: Em termos profissionais, uma professora de contabilidade que não atua na área, preferindo letras, ao invés de números. Em termos pessoais, uma vegetariana tímida, indignada com injustiças praticadas no cotidiano, defensora dos animais e com muitos defeitos. No que se refere a quadrinhos especificamente, uma roteirista de histórias variadas, embora sempre associada a personagem mais polêmica, .

02 TdR Com relação às HQs (o qual é nosso foco), quais histórias variadas são essas? Já sabia que escrevia sobre outros coisas, mas sempre vejo seu nome associado a Katita mesmo…

A.C.P. Fiz trabalhos com diversos desenhistas; tenho HQs antigas com o Tarcílio Dias Ferreira, como “O Céu dos Políticos”, uma crítica com pinceladas de terror. Fiz até uma HQ sobre reencarnação com o Laudo, só para exemplificar resumidamente pois foram trabalhos e parceiros variados. : Atualmente faço algo chamado RPQ (roteiro poético em quadrinhos). Poesias minhas são roteirizadas e o desenhista (geralmente Ronaldo Mendes) transforma em HQ. Nos últimos anos no entanto, pelo sucesso e polêmica da personagem, sou associada sempre a Katita. Já aceitei o que é inegável e dificilmente vai mudar: posso fazer mil HQs e criar mil personagens mas sempre serei lembrada como a pessoa que criou a Katita. Os outros trabalhos ficarão em plano secundário ou no circuito restrito dos fanzines.

03 TdR – Então vamos seguir a tendência contrária: vamos falar primeiro do não tão conhecido e depois abordamos a Katita! Esses seus roteiros RPQ, atualmente estão sendo publicados onde? Até hoje só foram desenhados pelo Ronaldo Mendes? Se não, quem mais? Desde quando os produz?  

A.C.P. Sou essencialmente escritora e poetisa; comecei a ter contato com desenhistas para ilustrarem meus trabalhos. Henry Jaepelt foi um desses contatos na época; faz um bom tempo. A ilustração de poesias valorizava o texto e com o passar do tempo houve uma junção que fez a ilustração se transformar em quadros, de acordo com a quadra poética. Assim, naturalmente foi nascendo o roteiro poético em quadrinhos. Além de fanzines impressos, o Zine Brasil e o site Bigorna divulgaram dois RPQs : Fome Fatal e Lá de Riba, ambos em parceria com o Ronaldo Mendes e em preto e branco. Agora, tenho a intenção de roteirizar a poesia Suástica Satânica com alguém que eu nunca tenha trabalhado e preferencialmente em cores digitalizadas, para divulgação na internet.

 

 

04 TdR Então acabou que sua “migração” para as HQs foi algo espontâneo e não calculado, certo? Mas, além de Katita, há mais trabalhos essencialmente em quadrinhos? Anita poetisa é publicada onde?

 

A.C.P.Exatamente. Foi algo natural. Fiz tiras com portadores de necessidades especiais com o , bem como algo de combate ao tabagismo; participo de salões de humor geralmente com desenhos do Ronaldo, além de HQs. antigas espalhadas em fanzines. Também fiz um roteiro de uma HQ para os personagens Roko-Loko e Adrina-Lina, do , publicada no álbum “Born To Be Wild“. Atualmente tem um desenhista desenvolvendo uma HQ mais longa, com temática adolescente mas ainda não vou citar o nome pois não sei se terá continuidade; ele não entrou mais em contato…

05 TdR Bacana! Dá para perceber que é uma pessoa engajada em lutas sociais. Já que é vegetariana e partidária dos Direitos dos Animais, já criou algo para contribuir com este ponto de vista? Katita é vegetariana?

A.C.P.Gosto de defender o que acredito e tento combater injustiças; a escrita é uma das minhas ferramentas. Sinto que preciso fazer muito mais do que faço. Elaborei o roteiro, ainda inacabado, de uma personagem cujo lema é : Ela não come animais, sua força vem dos vegetais. Quanto a Katita, no livro era não era vegetariana. Felizmente a garota evoluiu e no gibi já mostra claramente ser vegetariana. Iniciante, é bem verdade… :

06 TdR Então você mostra essa evolução da personagem? Existe uma diferença de abordagem da Katita em livro e em quadrinhos? Por que migrar?

A.C.P. Sim e quero continuar mostrando essas mudanças; quem sabe até na escolha da profissão. Marca de Fantasia
Decidi publicar um gibi de forma independente para ter um produto mais acessível em termos financeiros. Tentei contactar algumas editoras de médio e grande porte; como não obtive retorno satisfatório, arregacei as mangas e produzi de maneira alternativa. O livro e o gibi da Katita são de quadrinhos; a diferença é que o livro tem um acabamento gráfico excelente. As publicações da editora são caprichadas. As diferenças mais acentuadas no conteúdo, podem ser vistas no teor das tiras que no gibi são um pouco mais ousadas.
Atualmente a Katita é vista como uma garota que estuda pedagogia; posso futuramente mostrá-la em dúvida e optando quem sabe, pela educação física.

07 TdR E por que mudar de editora? A Marca não satisfez?

A.C.P – Pelo contrário; tive e tenho orgulho de ter sido publicada pela Marca de Fantasia. O lançamento da segunda edição ampliada do livro “Tiras Sem Preconceito“, em junho desse ano, é animador. É uma editora conceituada que lança edições de qualidade mas tem um alcance limitado as vendas via internet. Quando o livro foi lançado, recebi uma quantidade absurda de e-mails querendo saber onde poderiam comprar o gibi em sua cidade/estado mas a editora não tem pontos de venda nem distribuidora.. : Quando eu explicava que a venda era via internet/correio, mediante depósito bancário, a maioria desistia da compra pois buscava a facilidade de encontrar o gibi na banca da esquina.

08 TdR E isso foi resolvido como?

A.C.P. – Muitas vendas não foram efetuadas, ou seja, não foi resolvido. Aqui em São Paulo, vendo aqui e ali, além da Livraria HQ Mix que é meu melhor ponto de venda da capital. Fora da cidade, só em Atibaia, uma pousada GLS chamada Porto X, revende publicações e camisetas da Katita. As vendas então, continuam focadas na internet, como no site Bodega do Leo ou pelo meu e-mail. No site da editora Marca de Fantasia, a primeira tiragem do livro está esgotada e eu só tenho dois exemplares disponíveis. No mês de fevereiro, recebi uma quantidade de pedidos bem acima do normal, tanto do livro como gibi mas isso se deve a algumas matérias sobre a personagem que saíram na época. Divulgação é essencial. :

09 TdR Fora a questão de distribuição, quais as principais dificuldades (ou facilidades, se houver) que percebe hoje no mercado editorial de quadrinhos brasileiros?

A.C.P. – As dificuldades vão da tarefa de encontrar uma editora que aposte no trabalho e isso não se limita a publicação pois é só o primeiro passo. Deveria haver um suporte maior na divulgação. Eu particularmente, tenho contato com pessoas que sempre publicam uma nota, artigo ou uma entrevista em sites e jornais que alavancam as vendas mas muita gente é publicada e seu trabalho não acontece, por não ter sido trabalhado no sentido de propagar o lançamento. Por outro lado, percebo que a união está fortalecendo o mercado brasileiro de quadrinhos, sem que para isso seja necessário um vínculo com uma grande editora. Conquistar novos leitores é uma atitude a mais para fortalecer esse mercado; os leitores da Katita são em sua maioria, pessoas que não tem o hábito de ler quadrinhos mas podem ser tornar novos leitores a partir dela. :

10 TdR – Você tem a característica, como nos disse, de transitar por dois entre dois “mundos”, o dos quadrinhos e o da poesia. Quais as principais diferenças entre eles e como os co-relaciona?

A.C.P. Antes de citar as diferenças, vou dizer o que é igual: a dificuldade. Nos dois universos, existem reclamações no que se relaciona a publicação e distribuição. Na questão pessoal, poetas são sonhadores e geralmente tem na poesia uma das ligações com a literatura, apreciando também romances, contos e crônicas. Nos eventos poéticos, noto também uma forte ligação teatral e uma participação feminina expressiva. Nos quadrinhos, vejo muitos rapazes acanhados, tímidos e nem sempre abertos as outras formas de expressão artística. Quanto as mulheres, são minoria e pouco visíveis, embora exista um estilo de quadrinhos que atrai muitas garotas. Pesquisando gente que faz e que gosta de mangá, notei um número considerável de garotas. A ligação entre ambos é a sensibilidade: quem gosta de ler ou fazer quadrinhos é tão sensível quanto o poeta que coloca no papel o que tem dentro de si. :

11 TdR E quais são seus projetos para 2009 e além?

A.C.P. Em junho, começarei a divulgação da segunda edição do livro.
:
Finalmente conhecerei pessoalmente meu editor, pois no dia 13 de junho o Henrique estará na Ponto de Leitura, um local altamente democrático da prefeitura paulistana, onde as pessoas podem ler jornais, livros e quadrinhos gratuitamente e ocorrem palestras de autores. Até o final do ano quero lançar o novo gibi que já está pronto e com uma capa belíssima.
 

12 TdR – Você mencionou a Katita ser divulgada em uma pousada GLS. Como é o diálogo da personagem com esse público? E com o público hétero?

A.C.P. : Dentro do universo GLS, atualmente chamado de LGBT, existe um diálogo saudável e um respeito mas no início havia resistência por parte de algumas lésbicas que achavam a Katita com uma postura machista; outras criticavam o visual feminino e levemente sensual da personagem, mas isso foi superado. As garotas lésbicas modernas que gostam de assistir The L Word (seriado lésbico americano, sucesso também no Brasil) por exemplo, adoram o jeito da Katita e querem mais é que ela paquere e beije muuuuuito. A verdade é que nos últimos anos, a personagem vem cativando héteros, homos, homens e mulheres de forma semelhante e percebo isso nos pedidos que vão além das publicações. Querem camisetas, adesivos, sugerem bonecas da Katita e uma série de produtos, mas sou uma formiguinha e não consigo atender a todos os desejos. Vários homens héteros escrevem pedindo que a Katita tenha uma namorada fixa; parecem incomodados com o fato dela estar livre, leve e solta, fazendo suas investidas em garotas interessantes. Faço em pequena escala camisetas e adesivos e quem sabe um dia os fãs da personagem vão poder vê-la nas lojas de brinquedos, nos camelôs e em tudo quanto é canto.

13 TdR Então esse lance das investidas da Katita observei mesmo, aliás, isso é bastante presente na tira. Esse aspecto sexual da personagem (não da orientação, mas a frequência do tema) não acaba estigmatizando tanto a homossexualidade (como algo que leva as pessoas a só pensarem em sexo) quanto a personagem? O que acha disso?

A.C.P.As investidas são frequentes, propositalmente. Por outro lado, existem tiras da Katita com pilhas de livros, mostrando que ela gosta de estudar, outras tantas firmam o posicionamento da personagem contra o tabagismo e demais vícios; grande variedade também foca em atitudes e comentários contra todo tipo de preconceito (inclusive contra anões, como é frisado no personagem Naninho). Isso sem contar com várias alfinetadas com teor político. Em nenhuma tira a Katita é vista na cama com outra mulher, porém só o fato de estar passando suas cantadas juvenis, deixa algumas pessoas indignadas. Não se mostra a imagem de alguém que vive somente na busca vã pelo sexo, embora os retrógrados queiram associar homossexualidade a promiscuidade, mas isso é mais relacionado aos homens gays. As lésbicas tem fama de serem românticas e extremamente apegadas, com intuito veloz de morarem juntas; tem até uma piadinha muito conhecida que diz: Sabe o que uma lésbica diz no primeiro encontro? estou apaixonada por você. E sabe o que ela leva no segundo encontro? as malas.” Decididamente esse não é o perfil da Katita. (risos)

14 TdR Já chegou a pensar em um álbum com histórias longas da Katita? O que lhe impede de desenvolver algo assim?

A.C.P.Já pensei sim e inclusive fiz um ensaio sobre o assunto, com uma HQ publicada no fanzine Katita Gosta de Mulher. : No entanto, não é algo que me motiva muito pois gosto da Katita com sua sacada rápida, característica fundamental da tira.Histórias longas, bem como a Katita em uma animação são casos a se pensar já que são sugestões constantes dos leitores.

15 TdR Interessante! Bom Anita, acredito ser tudo por agora. Agradeço a entrevista e deixo o espaço aberto para que, caso ache necessário, comentar algo que seja relevante e tenha ficado de fora. Muito obrigado.

A.C.P.Eu é que agradeço pela oportunidade de exposição, Matheus. Para finalizar, quero simplesmente indicar dois sites voltados à comunidade LGBT, para que as pessoas conheçam melhor o universo do qual a Katita faz parte: :

www.dykerama.com / www.mixbrasil.com.br

Matheus Moura, no Blog  

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Published in: on 17/04/2009 at 21:28  Comments (1)  
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One CommentDeixe um comentário

  1. Muito boa a entrevista e o trabalho de anita, eu só não citaria uma pessoa de caráter tão baixo como este sr. Henry Jaepelt.
    Conhecidíssimo por sua falta de caráter e por tratar mal os fanzineiros que tenham publicações mais humildes, deixando de enviar seus trabalhos a estes por considerar seus rabiscos importantes demais
    para aparecer em zines mais simples, também conhecido por criar intrigas entre fanzineiros e colocá-los uns contra os outros, além de falsificar artes alheias e espalhá-las pelos correios.
    henry jaepelt é produto de uma era passada, onde sua mente ultrapassada ainda tinha espaço para dizer e propagar suas idiotices e besteiras não é a toa que em mais de 20 anos desenhando ainda se pergunte, quem é esse fulano?


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