CIDADANIA ATACADA – Homofobia latente

Saiu hoje (30/04) no Correio Brasiliense

Pesquisa sobre como a diversidade sexual é tratada nos livros didáticos e em dicionários brasileiros revela que o preconceito permanece forte nas escolas. Termos pejorativos reforçam discriminação
Renata Mariz

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press – 16/8/05
“São expressões usuais, mas que reafirmam preconceitos. E um dos maiores problemas da homofobia é a banalização”
Tatiana Lionço, doutora em psicologia e coordenadora da pesquisa

Mais que fórmulas matemáticas, datas históricas, composições químicas ou regras gramaticais, os livros didáticos, a cada ano, introduzem em seu conteúdo discussões da atualidade. É assim com o racismo, a questão indígena, a desigualdade de gênero ou os direitos das pessoas com deficiência. O mesmo movimento, entretanto, não ocorreu ainda com o tema da diversidade sexual. Apesar de o debate sobre homofobia ter se fortalecido na sociedade, análise de uma amostra de 67 livros, escolhidos entre os 98 mais distribuídos pelo Ministério da Educação às escolas públicas brasileiras, apontou que nenhuma obra trata do assunto. Por outro lado, em 25 dicionários usados em sala de aula, foram encontrados termos considerados pejorativos.

A conclusão é do estudo Qual a diversidade sexual dos livros didáticos brasileiros?, realizado entre 2007 e 2008 pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis) com financiamento do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde. O resultado do levantamento, divulgado ontem, se transformou em um livro, que será distribuído pela pasta. Na avaliação da doutora em psicologia Tatiana Lionço, que coordenou a pesquisa, o dado mais preocupante é a ausência do debate. “Verificamos o silêncio sobre a diversidade sexual e a naturalização da heterossexualidade, mas não há homofobia”, explica. Quanto aos dicionários, a pesquisadora destaca termos pejorativos, que num sentido mais amplo de interpretação podem ser considerados homofóbicos.

Alguns exemplos estão em verbetes como lésbica, cujo significado vem acompanhado de termos como sapatão e mulher-macho. Travesti aparece comumente como farsante, homem que se veste de mulher, entre outras definições. “São expressões usuais, mas que reafirmam preconceitos. E um dos maiores problemas da homofobia é a banalização”, afirma Tatiana. A socióloga Vera Simonetti, coordenadora da ONG Ecos – Comunicação em Sexualidade, critica a forma como geralmente o tema aparece na escola. “Quando o assunto se torna visível, com frequência é pela via da chacota, do desprezo, da violência. A verdade é que toda a instituição — funcionários, professores, alunos — não sabe como agir diante da homossexualidade de um integrante da comunidade escolar”, diz ela.

Sem influência
Um dos mitos que precisa ser derrubado, segundo Lula Ramires, mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP), onde defendeu tese sobre a homofobia no ensino médio, é o de que falar de diversidade sexual influencia a criança e o jovem. “Como se alguém pudesse se tornar gay ou lésbica por sugestão de terceiros”, ironiza. Segundo ele, uma medida que pode ajudar a introduzir o tema na sala de aula é a qualificação dos docentes. “Muitos dizem que nunca trataram do assunto na faculdade, que não sabem abordar”, conta Ramires, que por meio da ONG Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor (Corsa) já deu capacitação a professores na área.

O treinamento desses profissionais faz parte de uma estratégia do Ministério da Educação (MEC), de acordo com a assessoria de imprensa. Segundo a pasta, cerca de 20 mil professores já foram formados ou estão em fase de capacitação. A ideia é dar suporte, em 2009, a 13.360 docentes dentro do programa Rede de Educação para a Diversidade. Além disso, está em curso um outro projeto encampado pelo ministério, o Escola sem Homofobia. No início deste mês, foi publicada uma resolução pelo Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação estabelecendo diretrizes para a produção de material didático que aborde a diversidade sexual.

Não há receita de bolo, avisa Ramires, quando o assunto é como levantar o tema da diversidade sexual nas escolas. Mas Vera destaca o que pode ser um bom começo. “Uma maneira de trabalhar, inicialmente, o assunto com os alunos é questionar imediatamente após surgir uma brincadeira sobre algum colega que tenha um jeito diferente de ser. Mesmo que seja só uma piadinha”, recomenda a socióloga. Segundo ela, a atitude discriminatória parte, muitas vezes, do próprio professor. “Há estudantes que se queixam por serem chamados em classe por quem deveria zelar pelo respeito a todo mundo, a educadora e o educador, de bambi, em plena sala de aula, na frente de todo mundo”, critica.
Leia: artigo sobre a pesquisa
Um exemplo de correção

Em meio aos 67 livros didáticos analisados, apenas um tratou do tema da diversidade sexual, ainda que de forma superficial e indireta, em duas páginas de exercícios. A obra, utilizada por alunos da 7ª série, conta a história do filme Billy Elliot, em que um garoto decide, contra a vontade da família, dançar balé. Aos alunos, são dirigidas perguntas sobre a reação de parentes e conhecidos, o contexto social em que o personagem vivia, a diferenciação entre atividades tidas como masculinas e femininas. Tatiana Lionço, que coordenou o levantamento, não questiona a abordagem, mas ressalta o número ínfimo — uma publicação, com um exercício apenas — de livros abordando a temática.

Quanto ao melhor momento de começar a trabalhar o assunto em sala de aula, a socióloga Vera Simonetti, coordenadora da ONG Ecos – Comunicação em Sexualidade, é direta. “Pode parecer ousado mas, uma educação baseada na igualdade de gênero tem que começar, na verdade, desde bem criancinha. Quantas creches não dividem brinquedos em brinquedos de menina e de menino, isso é coisa de menina, isso é de menino? Esse trabalho teria que ser dirigido não só às criancinhas, como também às pessoas que ficarão com as criancinhas durante o horário escolar”, afirma a especialista.

Silêncio
Para Tatiana, existem contextos, nos livros didáticos, propícios para a discussão da diversidade sexual, mas que não são aproveitados. “As peculiaridades das famílias modernas, por exemplo, aparecem em modelos chefiados pela mulher, pelos avós. Ou seja, esse seria um tópico onde poderia se trabalhar o tema da diversidade sexual, mas o que vemos é um silêncio”, diz a pesquisadora.

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Published in: on 30/04/2009 at 21:26  Deixe um comentário  
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