Poesia não é luxo

por Tate em Cotidiana

para las mujeres, la poesía no es un lujo. es una necesidad vital. ella define la calidad de la luz bajo la cual formulamos nuestras esperanzas y sueños de supervivencia y cambio, que se plasman primero en palabras, después en ideas y, por fin, en una acción más tangible. la poesía es el instrumento mediante el que nombramos lo que no tiene nombre para convertirlo em objeto del pensamiento.

Audre Lorde em Poesia não é luxo

faz quase um mês que publiquei a querida diária anterior a essa aqui.

não ando escrevendo muito, a não ser na minha diária *verdadeira*, que é secreta. as aulas na unb voltaram. a unb é um desses ditos centros de excelência em ensino que ensinam as coisas de um jeito só, diferente do meu. deve ser fácil ser excelente quando você só faz essa mesma coisa, além de desvalorizar o que é feito de outro jeito.

quando entrei lá, em 2004, na primeira turma de estudantes negrxs cotistas, eu já imaginava como ia ser. mas antecipar o sofrimento não significa necessariamente adivinhá-lo, então me formar tá sendo mais difícil do que eu pensava. (nota mental: parar de antecipar sofrimentos. aprendi isso mais uma vez no fim de semana passado, dessa vez com uma delegada)

01tuapeleplantaresolvi escrever minha monografia sobre escrita de mulheres de cor. o branco é uma cor sim, mas “feministas de cor” se apropriaram dessa expressão inclusive como denúncia de que o branco se finge transparente, se finge referência além da diferença: é o Um absoluto, espelho que reflete aquilo que chama de outro – mas só pode ser reflexo torto1.

então resolvi escrever isso dentro da academia porque preciso sobreviver. sobre, herdeira do latim super, tem a ver com “além”, além de!, então vamos pensar nisso assim, rompendo com a idéia-padrão de sobrevivência significando subvivência: aquelas pessoas esmolando nas ruas pra sobreviver acabam sendo condenadas a só subviver (aquém) com o troco da cerveja que a gente dá (eu não bebo cerveja, mas gosto dessa alegoria) – quando dá.

(quando eu tava em recife vi uma frase pintada num muro: o que sobra na sua casa falta na minha. não é dar esmola, é compartilhar.)

há uma luta de classes ruidosa onde a gente mora. nesse país. eu não tenho orgulho de ser brasileira. talvez se fosse jamaicana eu ia entender o que é ter orgulho de um lugar em que se nasce, mas lá tem uma homofobia institucionalizada que me faria colocar isso em perspectiva. por isso gosto de dizer que sou da nação rubro-negra. faz uns meses que voltei a ser flamenguista. pra me divertir um pouco, vendo os jogos. mas também pra fazer essa piada do pertencimento nacional. a vandana shiva fala uma coisa linda sobre pátria y nação. pátria é pater, poder patriarcal, lei rígida. nação é mater, matrilinearidade, continente de partilha. a única hora em que acho legalzão ser brasileira é quando tem arroz, feijão y farofa de cebola. se o arroz for cateto, melhor.

qualquer porcaria enlatada, dentro de plástico, que a gente não conhece quem fez. faz uns meses que não cozinho. ser vegetariana sem cozinhar é chato pra mim… porque moro com duas amigas que comem carne – o que não é necessariamente o problema, porque – comem de um jeito que acho ruim:

eu até como comida na rua. costumo gostar quando como. não me importo em comer porcaria, sou a rainha da fritura. mas todo dia é foda. todo dia eu gosto de comer é arroz integral, verdura orgânica, fruta de manhã. mas geralmente tenho comido pão com qualquer coisa ou uma verdura única que cozinhei há 2 dias. tá foda. não estou me cuidando.

02estrelasmas tenho me sentido bem melhor. a amargura foi embora do meu coração. enchi minha cabeça de flores. me apaixonei por uma outra pele preta. estar apaixonada pode ser ótimo, dá um gás pra viver, acordar sorrindo, me dá chão y forro emocional pra enfrentar com combatividade coisas como: debate sobre violência contra mulheres na associação das donas de casa de uma satélite violenta.

também tem que fiquei mais platônica, porque a amargura foi embora mas as marcas ficaram. como quando a Sethe mostra sua árvore de cicatrizes plantada nas costas, naquele livro da toni morrison. amada. quem não leu leia logo, antes que 2012 chegue.

minha fé – que é meu jogo de cintura – é que os machos escrotos sejam lavados da humanidade. mas desde criança eu sonho mesmo é que copacabana tá sendo retomada pelo mar. os prédios de granfino virando ruínas em que as ondas batem até o térreo, aquele térreo de sofá chique que fica na frente do corredorzinho que leva até o elevador de serviço pras pretinhas entrarem, fazerem o trabalho “delas”, y irem embora de volta pro subúrbio. agora é só areia, abandono, entardecer. meus sonhos são assim, com o sol baixo ou noite já. sub também é afixo aprendido no latim; me acho uma imprestável sabendo todas essas merdas em latim enquanto não sei nada em bantu, yorubá ou kibundo. mas hoje aprendi uma coisa: njila é caminho. agora, em qual idioma? até tatuagem em latim eu tenho, mas não consigo lembrar o idioma de njila.

isso é que me fez encher os olhos de brilho pela primeira vez com a audre lorde. “as ferramentas do sinhô nunca vão derrubar a casa-grande”. era um livrinho de capa azul chamado “sister outsider”, que peguei alguns anos depois com minha amada orientadora denise botelho em versão espanhola: la hermana, la extranjera.

é tipo minha bíblia.

porque con objeto de sobrevivir, aquellos para quienes la opresión es tan genuinamente norteamericana como la tarta de manzana, siempre nos hemos visto obligadxs a ser buenxs observadorxs y a familiarizarnos con el lenguaje y las maneras del opresor, y a veces incluso a adoptarlos para lograr una ilusoria protección. siempre que se plantea la necesidad de entablar una supuesta comunicación, quienes se benefician de nuestra opresión nos piden que compartamos con ellos nuestros conocimientos. dicho de otro modo, enseñar a los opresores cuáles son sus errores es responsabilidad de lxs oprimidxs. yo soy la responsable de educar a los profesores que desprecian la cultura de mis hijxs en el colegio. las personas Negras y del Tercer Mundo son responsables de educar la gente blanca para que reconozca nuestra humanidad. de las mujeres se espera que eduquen a los hombres. de las lesbianas y los gays que eduquen al mundo heterosexual. los opresores conservan su posición y eluden la responsabilidad de sus propios actos. y hay una sangria continua de energías a las que se podría dar mejor uso si se dirigieran a la redefinición de nuestro propio ser y a la planificación realista de los medios para modificar el presente y construir el futuro.

em espanhol mesmo, porque não é mais só a língua do colonizador. é uma das línguas da américa latina, essa de que fazemos parte (”nós, brasileirxs”) mas de que nos afastamos com uma dada barreira cultural. uma que se tentou hegemônica, matou idiomas indígenas, matou idiomas negros, mas que é falada mais lindamente na boca dos povos indígenas y negros. é como a ellen sempre diz, quando vamos a um bar ou boate que “não” é lgbt: oxi velha, é bar de sapatão sim, porque eu sou sapatão e eu estou aqui. mas a gente sabe que temos que declarar isso. criar espaços nossos. como mulheres. como mulheres negras. como mulheres negras lésbicas. muita coisa foi roubada da gente, mas nosso sorriso não. nem nossa vontade de sonhar. o tao do desejo (rarrarrarra, essa é minha piada favorita). daqui pra quando eu morrer, aprendo línguas lindas, vivas, coloridas. quando chegar esse dia, não vou mais precisar escrever em português, mesmo que esse aqui todo zuado, num portal lesbiano. sabe o que eu queria, diária? que as tecnologias tecnocratas acabassem logo, aí a gente ia ter tempo de se reconectar àquelas que são boas, limpas, úteis, que interessam, que são agradáveis, lindas, que são de toque: pele, contato, telepatia.

03nosmeusolhoscada vez mais hippie. é isso aí. não quero ser assimilada não. escrever em moldes acadêmicos de fórmulas engessantes. porque las herramientas del amo nunca desmontan la casa del amo.

el futuro de la Tierra puede depender de la capacidad de las mujeres para identificar y desarollar nuevas definiciones del poder y nuevos modelos de relación entre las diferencias. las viejas definiciones no han sido beneficiosas para nosotras ni para la tierra que nos sustenta. los viejos modelos, aun hábilmente retocados para imitar el progreso, siguen condenándonos a incurrir en una repetición camuflada de las relaciones de siempre, del sentimiento de culpa de siempre, del odio, la recriminación, los lamentos y la desconfianza.

pues llevamos incorporadas las viejas pautas que nos marcan unas expectativas y unas formas de respuesta, las viejas estructuras de opresión, y todo esto tendremos que modificarlo a la vez que modificamos las condiciones de vida que son consecuencia de dichas estructuras. pues las herramientas del amo nunca desmontan la casa del amo.
(…)

todo cambio comporta un crecimiento y el crecimiento puede ser doloroso. mas al mostrar nuestro ser mediante la lucha y el trabajo compartidos con aquéllas a quienes definimos como diferentes y a las que, no obstante, nos unen unos objectivos comunes, vamos consiguiendo perfilar mejor la definición de nosotras mismas. ésta puede ser la vía de supervivencia para todas las mujeres, Negras o blancas, mayores o jóvenes, lesbianas o heterosexuales.

(trechos do artigo Edad, raza, clase y sexo: las mujeres redefinen la diferencia)

df, núcleo bandeirante, 07 de abril de 2009. terça-feira de chuva, lua crescente caminhando pra nova… 4 dias pro aniversário da flores.

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Published in: on 07/05/2009 at 19:30  Deixe um comentário  

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