“quem trabalha como eu tem que feder” (carolina de jesus)

cotidiana07_destaquepor Tate em Cotidiana

querida diáia,

hoje arrumei meu quarto. depois de passar semanas só maquiando (o famoso “enfia tudo no armário”), decidi arrumar os livros, os papéis, todas as armadilhas espalhadas pelo chão, decidi varrer y passar pano. toda vez que varro o quarto lembro de um ex-camarada chamado paulo henrique. militávamos juntxs em alguns coletivos do df lá pelos 2002-2007, até ele ter feito uma escolha, que eu jamais aceitei, por manter laços de sexo/gênero em detrimento dos de raça (em outras palavras, foi traíra fodido, escolhendo acobertar um outro homem, ao invés de escolher minha amizade). enfim, lembrei dele não por causa da trairagem, mas por causa de uma frase que ouvi ele dizer, num momento em que ficamos muitos dias próximxs (época da prisão das meninas depois da invasão policial na casa das pombas), numa dessas horas de trabalho doméstico: “tem gente que varre melhor do que eu passo pano!”

fiquei muito tempo pensando nessa frase, como pensei hoje, tentando entender qual era o segredo de uma boa varredura. varrer a casa, das tarefas domésticas, não é minha preferida; não acho, mesmo, que eu varra muito bem – sempre tenho que passar o bom pano úmido pra finalizar a coisa com finesse (rerrerrerre, tô escrevendo engraçado hoje). trabalho doméstico é uma coisa pesada. é um serviço cotidiano. quase entediante. quando não tem divisão de tarefas, fazer sozinha me deixa triste. quase tão triste quanto estar tudo bagunçado, sujo, fora do lugar, ou entulhado como lixo esperando ser levado embora. o lixo é uma das invenções mais autônomas da humanidade. mas não é do lado bom da autonomia, não aquele de “depender do maior número possível de pessoas”, é o lado difícil (no sentido de sua produção). na outra casa em que morávamos tatu, flores, eu y outras mulheres itinerantes tinha um cartaz na área de serviço: O LIXO NÃO VAI EMBORA SOZINHO.

morar com elas duas é uma experiência de vida diária, mesmo agora que não moramos mais juntas. não só por causa do tipo de compartilhamento que tínhamos, mas porque as coisas que aprendemos juntas – ou que aprendi vivendo com elas – ficam repercutindo até hoje na minha vida. ok, faz “só” 4 meses que mudei, mas penso nelas todos os dias – geralmente com relação a algum aspecto de vida doméstica, o que é feminista pra caralho buceta porque, afinal, foram as feministas que começaram com aquela gritaria de que “o pessoal é político”. Primeiro eu morava com a florys num cafofo muito xique, apelidado de casa roxa por causa da cor que colocamos nas paredes da sala. foi antes dela casar com a tatu. lá era mais fácil dividir as tarefas porque éramos basicamente nós duas. a síndica era uma mulher chata que tinha uma cachorrinha preta, mas que era chata também. a gente morava em cima do bar de uma velhinha negra chamada antonia, que não servia as pessoas: você mesma ia lá no freezer pegar sua cerveja. era o máximo.
depois, quando mudamos pra casa da tatu, algum tempo antes de elas se casarem, outras pessoas ou já moravam lá ou iam se mudar pra lá. o segundo era o caso de uma outra companheira que a gente tinha, que era pra mim uma grande referência de militância feminista. no primeiro dia em que ela foi pra lá, apareceu no quarto que ia ser meu, enquanto eu tava arrumando, pra perguntar “como é que varria”. ela nunca tinha feito isso antes. não é difícil imaginar que ela é uma mulher branca, né? meu incômodo com isso acabou marcando nossa convivência de maneira carregada pelo resto do tempo em que moramos juntas, até que terminamos por cortar relações. eu tava numa época muito irritada, de não ter tolerância alguma com especialmente certos tipos de representação de opressão, y era particularmente ofensivo pra mim, uma mulher negra, morar com uma branca que não fazia nada de serviço doméstico, mas se beneficiava pelo que eu – mais as outras duas, brancas como ela – fazia, como comida.

comida, pra mim, sempre significou dádiva. não sou da filosofia “quem cozinha não lava”, mas acho que a dádiva é mais mágica quanto mais troca tem envolvida nos processos. então era muito chato, depois de cozinhar aquela comida vegana linda, amiga, ritualística, dividida por nós 3 não só na hora de comer mas no preparo – eu, tatu y flores quase sempre cozinhávamos juntas –, ver que a única parte compartilhada entre todas as moradoras era a de comer, porque a louça toda ia, como a produção, ficar pra quem tinha feito. sei lá. nunca conversei com a outra mulher branca, em questão, sobre nossa convivência doméstica. eu simplesmente fui parando de falar com ela. então esse relato é completamente parcial, mesmo. nem pra omitir o lado dela eu sirvo, já que nunca perguntei.

é parte da história do feminismo negro o questionamento dos custos da liberação das mulheres brancas. quem pagou por essa liberação? quem ocupou os lugares domésticos que as mulheres brancas abandonaram pra ingressar no mercado público de trabalho? como apagar a indiscutível herança que essas relações trouxeram de herança colonial do período declaradamente escravocrata das diversas histórias diaspóricas no que virariam os países do continente latino americano?

nisso tudo eu penso enquanto lavo a louça.

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feminismo não é só uma bandeira de luta pra ser erguida em atos públicos ou manifestações no congresso; se o feminismo que escolhemos não é uma ferramenta de escrutínio de nossas próprias vidas, de nosso cotidiano mais secreto; se não dá conta de juntar discurso a prática; se não dá conta de fazer do cuidado com as relações um modo de andar pelo mundo; se não revoluciona a maneira como nos relacionamos com nossa menstruação; se não tem uma agenda anti-racista, anti-homofóbica, que combata o especismo, que questione o capitalismo y suas tecnocracias; que não seja monolítico e não dê conta de perceber sua precariedade/vulnerabilidade, a necessidade de estar sempre se renovando, se ampliando, se refazendo, se desmontando pra nascer de outras formas; se vai cultivar o fosso inventado entre matéria y espírito pra nos deixar perdidas… então, é feminismo mesmo?

a mentalidade colonial tem que parar de dominar nossas mentes y corações.
minha conclusão, sobre o comentário do cara sobre quem falei no começo do texto, é mais imediata que esses questionamentos: tem gente que varre melhor do que ele passa o pano porque ele é um macho muito acomodado em seu trono de privilégios, que excluem trabalho doméstico. com a tatu aprendi uma outra coisa – y com outras mulheres também, como a lice, minha parceira da vida inteira!, minha mãe, minha irmã, outras feministas declaradas ou secretas… – muito valiosa: pensar feminismos como projetos políticos de libertação amplos significa incluir em nossas agendas homens cheios de privilégios, desde os que não sabem varrer, não querem aprender, até os estupradores (que, pra algumas mulheres como eu, são todos eles – pelo menos em potencial).

a frase que escolhi pra dar título pra esse pedaço de diária, que vai de 18 a 25 de abril, é do livro “quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus. uma escritora negra que era catadora de lixo na favela do Canindé, em São Paulo. num dos trechos do livro ela responde essa frase, “quem trabalha como eu tem que feder”, a uma pessoa granfina que tá passando por ela na hora em que ela tá trabalhando, y que reclama que ela fede. além disso, também tem me perturbado muito essa idéia de assepsia total, de cheirinho de alvejante significando limpeza, o horror do cheiro de suvaco, de buceta, a mania de chuca pra fazer sexo anal… no próximo corpuscrisis, que vai ser agora entre 11 y 13 de junho, vamos fazer uma oficina de sexo anal pra mulheres. prazer anal é um direito, mas acaba virando tabu por fatores como: experiências descuidadas que terminam em tragédia, y a tal invenção da idéia de limpeza TOTAL de todos os orifícios. mas, como de costume, isso fica pra uma próxima diária.

pra terminar essa, acho importante agradecer às pessoas que têm comentado coisas legais na coluna, e às que não comentam coisas que acho necessariamente legal, tem outras coisas que eu poderia dizer, como “atenção às coisas lidas, quando saem de mim elas querem dizer exatamente o que dizem. do que vocês escolhem fazer com isso não sou eu quem tem que tomar conta”… tenho um pouco de medo dessa apropriação conservadora, quando não reacionária, de discursos menos conservadores, ou progressistas até, que serve pra justificar conservadorismo: não quero ficar mergulhando numa discussão sobre política democrática representativa, escolha de representantes legais, mas sim, toquei nesse assunto no texto passado; só que como isso pode ter aberto portas pra algumas pessoas acharem que eu tava falando de política de governo, e, ainda por cima, reclamando de políticas de governo? o governo do atual presidente tem falhas como todos os governos democráticos precisam ter pra se manter funcionando, e sustentar suas estruturas de poder, mas acho leviano e perverso o tipo de crítica feita como “esse governo não faz nada pela educação do país”. como assim, se esse governo é responsável por uma secretaria de políticas públicas pra mulheres, galera? que vai se tornar um ministério. esse governo ouviu uma demanda histórica do movimento negro e criou a Seppir, Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. esse governo aprovou uma lei específica pra ensino de cultura africana y afro-brasileira nas escolas. ok, é o mesmo governo que repensou o IPI na época do dia das mães, atrelando sim a idéia de maternidade à de cuidado com a casa (porque os preços de eletrodomésticos, como máquina de lavar e geladeira, caíram), e isso é uma merda, é tiro no pé, é desrespeito com a própria idéia da SPM, então vamos mesmo falar mal dele. mas vamos também fazer coisas? nos organizar em coletivas? fazer controle social das políticas públicas? participar das pré-conferências de promoção da igualdade racial no DF? parar de achar que essa democracia em que se escolhe alguém pra decidir por nós dá certo? aí sim, ok, a gente conversa sobre o que falta em termos de política de governo, políticas de estado, Y POLÍTICAS AUTÔNOMAS QUE FAÇAMOS NÓS MESMAS.

psiu! no meio da escrita desse texto, combinei de almoçar com um amigo, que tava insistindo muito pra gente se encontrar. eu não queria sair de casa, como sempre (aquário com ascendente y lua em peixes é uma combinação peculiar, junte a isso uma cabeça regida por Iansã y Omolu… pronto. 3 dias sem sair de casa é só alegria pra mim). depois de uns dias combinando y recombinando, combinamos que ia ser aqui. ele veio. tocou a campainha. quando fui abrir a porta, vi um cabelinho liso com corte faça-você-mesma y uma descoloração velha… era a flores. do lado dela, o amigo. do outro lado, a tatu. elas chegaram, depois de 4 meses de uma viagem chile-peru-bolívia-argentina, fazendo surpresa pras amigas! inclusive pra flá, que ganhou de aniversário de mim y ellen um “vale-gringas-na-sua-festa”. foi um aniversário com casamento lesbiano surpresa, dando continuidade à longa tradição feminista de casamentos lesbianos em datas internacionais como 08 de março y 25 de abril.

me sinto mais em casa só por estarmos juntas de novo. bem-vindas, gringas. amo vocês.

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Published in: on 08/05/2009 at 18:59  Comments (1)  

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  1. Maravilhoso o texto. Tem uns pontos de opiniões fortíssimos, adorei.


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