FLOR TRISTE E BALDIA

Segue o texto de Jean Whyllys do www.bloglog.com.br/jeanwyllys

” O travesti Andréia Albertini (André Luís Ribeiro Albertini, seu nome em registro civil), de apenas 22 anos, morreu esta semana em um hospital público de Mauá, interior de São Paulo, vítima de pneumonia e de meningite. A imprensa sensacionalista e também a chamada “imprensa séria” noticiaram este fato aparentemente banal e sem valor
jornalístico (afinal, a gente sabe que as imprensas só se interessam por mortes de travestis quando estas são decorrentes da violência urbana e, portanto, reforçam o estereótipo do travesti como um personagem do submundo do crime e do sexo). Por que noticiaram? Porque Andréia Albertini protagonizou, ano passado, um escândalo envolvendo o jogador Ronaldo, o “fenômeno”. Mas, não só por este motivo (vocês vão saber quais os outros ao final da leitura).

Ano passado, no auge do escândalo, eu escrevi, neste espaço, o seguinte: “Mas, por que é mesmo que estou falando de herói, santo, ordem vigente, elite que lucra com ela e bem-estar coletivo? Ah, lembrei: não se preocupem aqueles que estão desnorteados e sem lugar no mundo porque descobriram que o herói nacional; o santo que faz milagres em
campo com a bola ou se martiriza em nome da seleção; o ídolo de milhões de pessoas; o sonho de consumo de mulheres; a referência de sucesso para homens; o garoto-propaganda de marcas pouco ou nada interessadas em diversidade cultural e sexual; enfim, não se preocupem aqueles que estão sem norte porque descobriram que este suposto santo é, na verdade, humano, demasiadamente humano como todos nós (sujeito também a erros, deslizes ou ‘pecados’) depois que souberam que ele, o fenômeno, foi acusado de trepar com travestis e de cheirar cocaína num
hotel barato. Não se preocupem: já já, o mito será defendido e
// sustentado em nome do status quo e de quem ganha com ele e, principalmente, em nome daqueles que correm o risco de perder sua referência moral e existencial; não se preocupem, o mito será protegido e sairá perdendo apenas aquele que historicamente sai perdendo e é representado de maneira negativa”.

Infelizmente o (curto) tempo me deu razão. Andréia perdeu feio: agonizou sozinha em um hospital público. Ingênua, despreparada e, principalmente, deslumbrada, ela disse “sim” aos apelos de jornais, sites e programas de tevê sensacionalistas e até da indústria do pornô sem sequer desconfiar de que a exploração de sua imagem era parte de
um processo que a destruiria.

O noticiário de sua morte está longe ser algo do tipo “homenagem pela existência relevante”, como a que se tem prestado a Michael Jackson. A notícia de sua morte é, sim, uma gargalhada do sistema, que riu por último; uma pá de cal sobre seu cadáver pobre. Não bastou à imprensa dizer que Andréia morreu: ela fez questão de frisar que o travesti
morreu de AIDS.

Meus caros, não se enganem. Não se deixem enganar. Não há qualquer traço de boa intenção ou de prestação de serviço na exposição pública do laudo médico que atesta que Andréia Albertini morreu em decorrência da AIDS. O que há por trás desta exposição é aquela ideologia que quer associar e/ou circunscrever a AIDS apenas à comunidade de homossexuais. Por trás da exposição do laudo, está a idéia de que a doença foi um castigo para Andréia, por sua transgressão (e de que a AIDS, por extensão, é um castigo sobre a “comunidade licenciosa” da qual ela fazia parte: a comunidade dos homossexuais). Esta é a lição de todas as matérias que noticiaram a morte do travesti: apresentar a
doença como castigo imposto não apenas a indivíduos, mas também a todo um grupo, por sua transgressão, frouxidão moral e devassidão.
//
Porém, pior que esta ideologia nociva veiculada pelas matérias de jornais foi o fato de a torcida organizada do Flamengo ter mandado, para o velório de Andréia, um coroa de flores assinada por “Ronaldo Gorducho” como um último debique. Que gentalha é esta capaz de rir diante da dor dos outros?! É fácil se fazer de engraçado quando a dor
está longe. A morte dos outros é nada. A morte só nos inspira dor e angústia quando nos ameaça ou atinge nossos familiares e amigos. Por isso a torcida organizada do Flamengo fez piada com a morte de Andréia e muitos – muitos mesmo – riram dela. Se para o defunto a piada é nada, para sua mãe e amigos, a piada é mais que um desrespeito e que
uma ofensa à dignidade humana: é um dedo sujo numa ferida aberta.

Descanse em paz, Andréia. A você, minhas flores tristes e baldias!

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Published in: on 15/07/2009 at 10:46  Comments (1)  
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  1. As vezes a vida é mesmo só este monte de inverdades e injustiças , e ás vezes não…Como tudo…

    Para curar nossas dores: silêncio, paciência e tempo? Não aceito esta passividade! Vamos sim denunciar, dizer o mal que as pressões sociais de estarmos enquadrados no que os OUTROS acham normal, nos causam…

    Para curar nossas dores : denúncias,ações abrangentes e pressa, muuuita pressa.

    Não dá mais para ver os jovens sendo ridicularizados no metrô, na escola ou em qualquer outro lugar porque estão de mãos dadas, ou porque se olham com ternura!

    Basta! Há mais de um século que gritamos basta! Ou nos escutam ou nos escutam…Não há outro meio…


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