onde você guarda seu racismo?*

Copiando de: cotidiana, número 13: auto-ajuda feminista y dicas de beleza parte 01.

diária querida,

inventei de publicar semanalmente, agora, ao invés de a cada quinzena.

ando bem ocupada – envolvida em 4 coletivos, com um emprego de 8h/dia, o máximo de créditos no meu semestre de formatura, mudança de casa, mudança de estação… por dentro ando um turbilhão de pensamentos/sentimentos/emoções-conflituosas/saudades-pegajosas/resoluções-difíceis/presenças-fantásmicas(fantásticas!), mas por fora ando bem tranqüila como todo mundo anda dizendo, e muito bonita.

bonita como sempre, porque entendi que boniteza é um tipo de destino. algumas pessoas ficam chocadas com minhas afirmações contundentes sobre mim mesma, uma altíssima auto-estima, me sinto muito gostosa e interessante e inteligente e maravilhosa e tem gente que realmente se espanta em me ouvir dizer isso, afinal, sou uma mulher gorda, que não se depila, que veste roupas com combinações lindamente esdrúxulas (muito calculadas, que sou bem vaidosa), cheia de tatuagem tosca; e afinal sou uma mulher negra – todxs sabemos que a negritude tem sido forçada a andar do lado da contra-beleza, e já escrevi sobre isso (na dicionária da confabulando).

é por isso mesmo que acredito e sinto, do fundo de meu coração negro como o coração negro que tenho tatuado no peito, do fundo de meu útero vermelho, do fundo de minha cabeça que às vezes dói de pensar, do fundo de minhas veias mas também em toda minha superfície, do fundo de meu coração cheio de saudade da minha amor, minha preta, o que sinto transbordantemente que é justamente porque a negritude tem sido o lugar por excelência da abjeção que afirmar e celebrar minha beleza contundentemente, escandalosamente, sensual e sensorialmente é ação direta contra o patriarcado racista .

quem se incomoda que se enxergue. e se veja maravilhosa também.

mulheres todas que somos, vivemos num regime patriarcal secular que tenta sufocar qualquer expressão de felicidade plena e liberdade que exerçamos. mulheres todas que somos, se não nos achamos lindas como ferramenta de luta contra esse patriarcado, o que vai nos restar pra acharmos de nós mesmas?

passei muito tempo achando que minha pele era feia, que meu corpo gordo era feio, que minha voz era feia, que o que eu pensava era feio, que o que eu sentia era feio e errado. aí eu lembro de baby suggs, recontada pela melhor contadora de histórias de todos os tempos: toni morrison. tem uma pregação que baby suggs, escravizada liberta e pregadora, faz no meio do bosque. o livro é “amada” (beloved, de 1987):

“Aqui”, ela disse, “nesse lugar mesmo, somos carne; carne que chora, gargalha; carne que dança descalça na grama. Amem isso. Amem isso com força. Porque lá eles não amam sua carne. Eles desprezam ela. Eles não amam seus olhos; eles arrancariam eles assim que pudessem. Amam menos ainda a pele de suas costas. Lá eles esfolam vocês. E oh, gente minha, eles não amam suas mãos. Essas eles só usam, amarram, acorrentam, decepam e largam vazias. Amem suas mãos! Ame elas. Levantem elas e beijem elas. Toquem outras pessoas com elas, batam palmas com elas, esfreguem elas no rosto, porque eles também não amam elas não. Vocês têm que amá-las, vocês! E não pensem que eles adoram a boca de vocês. Eles, lá fora, eles vão vê-la quebrada e vão quebrá-la de novo. O que você fala com ela eles não vão prestar atenção. O que você grita com ela eles não vão ouvir. O que você coloca nela para nutrir seu corpo, eles vão arrancar e te dar as sobras no lugar. Não, eles não amam sua boca. Vocês têm que amá-la. É da carne que estou falando aqui. Carne que precisa ser amada. Carne que precisa descansar e dançar; costas que precisam de apoio; ombros que precisam de braços, braços fortes é o que eu digo. E oh, gente minha, lá fora, me escutem, eles não amam seu pescoço livre e ereto. Então amem seu pescoço; ponham uma mão nele, façam carinho e toquem ele e o mantenham firme. E todas as suas vísceras, que eles iam usar como lavagem pra porcos se pudessem, vocês têm que amá-las. O fígado escuro, escuro – ame ele, ame ele, e o coração cansado e pulsante, amem ele também. Mais que os olhos ou os pés. Mais que os pulmões que ainda vão sorver ar livre. Mais que seu útero segurador de vida e as partes íntimas que plantam vida, me escutem agora, amem seu coração.”

cotidiana13_02_toni-morrison

auto-estima não é conversa fiada de revista feminina. é questão de sobrevivência, é ação direta contra o racismo e a misoginia, é uma arma de guerra!
nessa semana vai ser votada a ação de inconstitucionalidade das cotas que o dem ajuizou no stf. estou apreensiva mas “durmo pronta pra guerra”. salve, racionais.

nessa semana a programação do Mês da Visibilidade Lésbica de Brasília ficou pronta. estou cansada e muito satisfeita. salve, aliança sapataria e coturno.
nessa semana eu comecei cantando e acordei sorrindo. meu coração sabe porquê. é um motivo que faz rir mas também tem feito chorar. e como fico mais bonita rindo, vamos lá retomar as gargalhadas. salve, minha amor. pra você, meu olhar de infinito.

psiu. agradeço às pessoas que postaram comentários que nos permitem conversar e debater sobre racismo e ação afirmativa pro enfrentamento dele no brasil, mas às pessoas que tentam esconder a perversidade do racismo afirmando que ele não existe e querem resolver um problema racial com um disfarce raso de pobreza, galera, isso não resolve nem o racismo nem a pobreza. é contra essas vozes da dissimulação que estendo a minha. “fraternidade universal” porra nenhuma, eu quero é sororidade negra, respeito às particularidades… eu sei contra quem minha voz se eleva. cada qual que aprenda a dirigir a sua contra quem incomoda. oras!

* Por Tate, integrante da Sapataria – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais do DF

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Published in: on 24/08/2009 at 11:44  Comments (1)  
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  1. Ai,posso copiar?Tudo isso grita em mim.
    Vivo num mundo cheio de muros e correntes,de gente presa e acorrentada,e das minhas atrativas belezas, só eu sei..Posso publicar,com os devidos créditos e links?
    Agradeço muito.


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