Omissão: organizações de mulheres discordam de alterações no III PNDH

Quinta-feira, 18 de Março de 2010 20:32

Nota à Imprensa

Jornadas Brasileiras pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro retificam informação sobre diálogo do Ministro Paulo Vannuchi com movimentos de mulheres

Ontem (17/03) a Agência Brasil divulgou, e a grande mídia repercutiu, a notícia de que o Governo decidiu alterar diversos pontos do Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, assinado por ministros/as e pelo presidente Lula, em dezembro de 2009. É sabido que tais alterações significam ceder a pressões de setores posicionados na alta hierarquia da estrutura de poder vigente: ruralistas, grandes empresas da área de Comunicações e episcopado.

A reportagem inclui a seguinte afirmação:

“Para tratar da alteração do programa, Paulo Vannuchi se reuniu com os ministros da Saúde, José Gomes Temporão e do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel; com o ouvidor agrário nacional, Gercino José da silva Filho, com a secretária especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire; com a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e com 11 organizações do movimento feminista”.

É verdade que o ministro Vannuchi recebeu em audiência, no dia 24 de fevereiro, representantes de 14 – e não 11 – organizações. Mas o grupo estava composto, para além de feministas, de organizações dos movimentos de mulheres, ONGs com trabalho no campo dos direitos reprodutivos e lideranças do movimento pelos direitos humanos.

É verdade que, nesta audiência, o Ministro insistiu que os movimentos que defendem a legalização do aborto participassem do esforço conciliatório de revisão do texto em questão.

Mas não é verdade que as modificações no texto do III PNDH, agora anunciadas, sejam resultado de qualquer negociação com estas organizações, como sugere o texto da referida matéria. Não houve acordo com relação a qualquer modificação, e muito menos com relação a abrir mão do texto que justifica com a autonomia das mulheres sobre o próprio corpo, na recomendação pela revisão da lei que pune o aborto.

A proposta do Ministro Vannuchi foi recusada formalmente, em carta eletrônica a ele enviada em 15 de março, com cópia para sua assessoria direta. A carta está assinada por 66 organizações (ver lista abaixo) e afirma:

“Esperamos assim, que seja mantido o texto do III PNDH em sua integralidade e nos dispomos a um novo encontro com o Ministro, caso necessário”.

Esta posição se justifica pelos seguintes pontos:

– O texto do III PNDH relativo ao abortamento foi saudado como expressão da vontade política das mulheres organizadas, e reflete o posicionamento e ansiedades da sociedade civil organizada.

– O III PNDH não é um documento isolado construído pela SEDH; quaisquer alterações em seu texto devem ser discutidas coletivamente com os movimentos de direitos humanos e os setores do governo que participaram de sua construção e redação, sob pena de ser ilegítima e antidemocrática.

– O compromisso com a autonomia e a liberdade sexual e reprodutiva das mulheres é fator fundamental para a construção da democracia, que tem nos espaços das conferências um canal de participação da sociedade civil, inclusive de representações da Igreja Católica; não é democrático que o Governo recepcione e atenda às demandas de um segmento que corre por fora deste processo. Aliás, isso significa deslegitimar os instrumentos democráticos instituídos em seu próprio governo, como as conferências de políticas públicas que reúnem milhares de representantes da população brasileira organizada.

A carta enviada ao ministro, em 15 de março, termina com a seguinte frase:

“… o Brasil foi vanguarda durante a construção das Plataformas de Cairo e de Beijing. Por isso, espera-se que durante o ano de BEIJING +15 possamos alcançar patamares mais expressivos nos marcos normativos que sinalizam os rumos que o país deverá tomar num futuro próximo, e que posicionem o Brasil como liderança no respeito aos direitos humanos das mulheres. É exatamente o que a comunidade internacional e o movimento de mulheres esperam de nosso país neste momento”.

Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro

18 de março de 2010

Assinam esta NOTA e a carta enviada ao ministro Vannuchi em 15 de março de 2010: Jornadas Brasileiras pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro/ Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos/ Movimento Nacional dos Direitos Humanos/ Associação Brasileira de ONGS/ Articulação de Mulheres Brasileiras/ Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras/ Católicas pelo Direito de Decidir-Brasil/ Centro Latino-americano de Sexualidade e Direitos Humanos/ Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher–Brasil/ Fórum de Mulheres do Mercosul/ Liga Brasileira de Lésbicas/ Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia/ Movimento de Adolescentes do Brasil/ Rede de Homens pela Equidade de Gênero/ Rede de Mulheres no Rádio/ Rede Jovens Brasil Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos/ Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos/ Relatoria de Saúde da Plataforma pelos Direitos Humanos Econômicos Sociais e Culturais/ Secretaria Nacional de Mulheres Trabalhadoras da CUT/ União Brasileira de Mulheres/ Comissão de Cidadania e Reprodução/ Ipas Brasil/ AGENDE (DF)/ Associação Cultural de Mulheres Negras (RS)/ Associação Lésbica Feminista Coturno de Vênus (DF)/ Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (DF)/ Bamidelê Organização de Mulheres Negras da Paraíba/ Casa da Mulher Catarina (SC)/ Casa da Mulher 8 de Março (TO)/ Centro da Mulher 8 de Março (PB)/ CACES (RJ)/ CFEMEA (DF)/ CEPIA (RJ)/ Coletivo Feminino Plural (RS)/ Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde (SP)/ Coletivo Leila Diniz (RN)/ Coletivo de Pesquisas sobre Mulher da Fundação Carlos Chagas (SP)/ Criola (RJ)/ Cunhã Coletivo Feminista (PB)/ Ecos Comunicação em Sexualidade (SP)/ Fórum de Mulheres Cearenses (CE)/ Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense (PA)/ Fórum de Mulheres de Pernambuco (PE)/ Fórum de Mulheres de Salvador (BA)/ Grupo Curumim Gestação e Parto (PE)/ Grupo de Mulheres Negras Malunga (GO)/ Grupo de Teatro Loucas de Pedra Lilás (PE)/ Grupo Feminista Autônomo Oficina Mulher (GO)/ Grupo Transas do Corpo (GO)/ ANIS (DF)/ IMAIS (BA)/ Instituto Papai (PE)/ Instituto Patrícia Galvão Comunicação e Mídia (SP)/ Jovens Feministas de São Paulo (SP)/ Maria Mulher Organização de Mulheres Negras (RS)/ Mídia Radical (DF)/ Movimento de Mulheres do Nordeste Paraense (PA)/ Movimento do Graal no Brasil (MG)/ Movimento Popular da Mulher/ Mulheres em União (MG)/ Mulheres Jovens Trocando Idéias (MG)/ MUSA (BA)/ MUSA (MG)/ Núcleo de Juventude do CEMINA e REDEH (RJ)/ Núcleo de Pesquisa em Gênero e Masculinidades da UFPE/ REDEH (RJ)/ Rede de Mulheres Negras (PR)/ SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (PE)/ Themis Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero (RS).

Paula Viana
Secretaria Nacional das Jornadas Brasileiras pelo Direito ao Aborto Legal e SeguroGrupo Curumim
Rua Pe. Capistrano, 118
B. Campo Grande – Recife – PE
81 8863 1243
81 3427 2023
paulaviana@grupocurumim.org.br

JOÃO, JOSÉ, ZECA E RAIMUNDO QUE SE CUIDEM!

Marcha Mundial das Mulheres debate trabalho doméstico e de cuidados


“João, João, cozinha o seu feijão. José, José, cozinha se quiser. Zeca, Zeca, lava sua cueca. Raimundo, Raimundo, limpa esse chão imundo”. Essas palavras de ordem ecoaram nesta quarta-feira (dia 10) entre as duas mil militantes da Marcha Mundial das Mulheres que estão fazendo uma caminhada de luta e formação de Campinas a São Paulo. Hoje, elas andaram 14 quilômetros de Valinhos a Vinhedo, sob o sol forte da manhã.

Os gritos de luta chamando João, José, Zeca e Raimundo tratam de forma bem-humorada de um tema discutido pela Marcha Mundial das Mulheres na tarde anterior, no primeiro dia de atividades de formação da 3ª Ação Internacional no Brasil, ainda em Valinhos. As caminhantes se dividiram em quatro rodas de conversa para debater o trabalho doméstico e de cuidados, a partir de quatro questões-guia: como você vê o trabalho doméstico e de cuidados? Como essa realidade de apresenta na casa de cada uma? Mudou algo nesta rotina depois que você começou a participar do movimento feminista? Como imagina que encontrará sua casa quando você retornar após o dia 18?

Sônia, pescadora na Bahia, contou que na beira do rio São Francisco a mulher trabalha muito mais que o homem. “Enquanto ela limpa o peixe, prepara comida, cuida de menino, o marido está na rede dormindo”, afirmou a militante. Para ela, o machismo parece vir de nascença: Sônia ajudou a criar nove irmãos e nenhum deles tinha qualquer participação nos trabalhos domésticos. “Tive sete filhos, mas nunca deixei de fazer nada por causa deles nem do marido, porque eu ganhava meu próprio dinheiro.Quando eu me preparava para sair e meu marido reclamava que estava com dor de cabeça, eu dizia logo para ele tomar um comprimido e pronto. Que mais eu posso fazer? Não sou médica!”, gracejou a pescadora.

Neusa, do Rio Grande do Sul, lembrou que as pessoas tendem a naturalizar a responsabilidade das mulheres pelo trabalho doméstico e pelos cuidados com os familiares, sem perceber que essa obrigação é socialmente imposta. Fabiana, do Rio Grande do Norte, concordou e acrescentou que também, de forma quase inconsciente, muitas mulheres reproduzem a divisão sexual do trabalho na criação dos filhos. A mineira Sueli deu um depoimento que reforçou a triste ironia de a opressão sexista estar arraigada nas próprias oprimidas: ela contou que durante a faculdade, mesmo quando já morava só, tinha dificuldade de passear nos fim-de-semana, porque desde pequena aprendeu que sábado era dia de faxina.

“Além da divisão igualitária do trabalho doméstico entre homens e mulheres, nossa luta é também para que haja mais serviços públicos, como creches gratuitas de qualidade. Assim homens e mulheres poderão trabalhar e estudar”, defendeu Iolanda, militante de São Paulo. Ela afirmou ainda que “não existe libertação individual, toda libertação é coletiva”.

As discussões nos grupos sobre trabalho doméstico e de cuidados, de fato, mostraram que a autonomia das mulheres se fortalece quando o processo de sua conquista é coletivo. Genoveva, militante da Marcha no Rio Grande do Norte, por exemplo, enfrentou opressão do marido logo que eles se casaram. “Ele, que se virava só, deixou de fazer qualquer atividade na casa. Mas eu fui trabalhar fora, entrei para o movimento de mulheres e, aos poucos, a postura dele está mudando. Hoje cedo ele já me telefonou para perguntar como está a Marcha, para demonstrar solidariedade”, alegrou-se a militante.

Marcha na estrada

Nesta segunda manhã de caminhadas, foram as baianas quem puxaram a abertura da Marcha pela rodovia Anhanguera, entre Valinhos e Vinhedo. Com batuques, declamação de poesia e muita música, a delegação da Bahia não se deixou vencer pelo cansaço de enfrentar 14 quilômetros a pé, debaixo de um sol escaldante.

As duas mil mulheres que já estão em Marcha novamente acordaram cedo, às 4h. Tão cedo que alguns vizinhos do Parque da Uva, em Valinhos, incomodaram-se com o barulho do carro de som. Adriana e Leilane, do Rio Grande do Norte, responsáveis pela Rádio da Marcha, foram gentilmente avisadas pela Guarda Municipal de que precisariam interromper a programação até às 6h, quando termina o chamado horário de silêncio. Mas neste horário, conforme o planejado, a Marcha já estava novamente na rua.

Outras mil militantes, até o dia 18, também participarão da caminhada entre Campinas e São Paulo. Nesta tarde, haverá dez painéis temáticos: sobre economia solidária e feminista; saúde da mulher e práticas populares de cuidado; sexualidade, autonomia e liberdade; educação não sexista e não racista; mulheres negras e a luta anti-racista; mulheres indígenas; a mídia contra-hegemônica e a luta feminista; a mercantilização do corpo e da vida das mulheres; prostituição; mulheres, arte e cultura. Amanhã, a Marcha irá para Louveira, onde à tarde as militantes debaterão o trabalho das mulheres e autonomia econômica, com a presença da socióloga Helena Hirata.

BBB10: Cultura de massa e sexualidade

Cultura de massa e sexualidade

Ao ser perguntado por um dos participantes do Big Brother Brasil sobre o que representavam os 77 milhões de votos da eliminação do programa de 23/02/2010 – em que estavam “no paredão” um gay, uma lésbica e um homem heterossexual machista – o jornalista Pedro Bial, apresentador da atração, respondeu: “Eu não sei”. O Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM) buscou conversar com diferentes pessoas – pesquisadores, militantes e telespectadores do programa – para entender como o programa mobilizou tão amplamente a sociedade nesse episódio que excedeu outras eliminações.

Na análise de muitos, o resultado – a saída de Angélica, a protagonista lésbica –reafirmou a vigência de valores conservadores acerca da sexualidade entre o público que assiste o programa da TV Globo. Certamente deu pano para a manga e rendeu diversas manifestações

A escolha dos participantes desta décima edição do BBB, iniciado em janeiro, por si só já apontou para uma intensa polarização entre visões de mundo, ao juntar um gay “mais feminino”, uma drag queen, uma jovem lésbica assumida, um homem heterossexual já conhecido do público como misógino e homofóbico, mulheres heterossexuais sensuais, uma intelectual que se afirmava discrepante do modelo hegemônico de beleza magra e um negro de cabelos afro-étnicos. A separação destes em “grupos” (“coloridos”, “sarados”, “belos” e “ligados”) de antemão prenunciava o tipo de polarização a ser estimulada. A nova lógica implementada cumpre o papel de estratégia para ampliar os índices de audiência, objetivo último de um produto midiático comercial.

Contudo, o “paredão”, formado pela tríade de elementos tão diversos, provocou polêmicas que captaram a imaginação do público e levantou diversas questões. Este paredão, que logo vai ser esquecido pelo de hoje à noite (02/03/2010), confrontou a possibilidade de permanência no jogo de uma mulher lésbica (eliminada com 55% dos votos) com a do jogador cuja personalidade vem expressando uma performance agressiva e ambiguamente discriminatória – veja-se a interdição de se conversar sobre certos assuntos no horário das refeições em troca do rapaz (chamado Dourado) se refrear na emissão de arrotos. A “pequena ética” do grupo, como afirmou Pedro Bial em uma de suas aparições, parece agradar a uma enorme variedade de fãs que resolveram dar um basta ao respeito à diversidade sexual. Dourado parece emergir como modelo do machão heterossexual, destemido, “autêntico”, que “não leva desaforo para casa”.

Em e-mails e telefonemas, o CLAM buscou entender o que parte da audiência entende ou o que se pode ler entre imagens, votos e falas:

Uma editora carioca, assídua telespectadora do programa, afirmou não ter visto qualquer manifestação de homofobia na decisão do público. Afinal, segundo ela, a votação do gay também “emparedado” foi muito baixa e a polarização mostrou que havia muita gente disposta a “detonar” a participação de Dourado. A telespectadora atribui o resultado final ao fato de Angélica ter se envolvido em fofocas de “leva e traz”, o que comprometeu sua popularidade.

Para muitas ativistas lésbicas, porém, o que está por trás da saída da moça é, sim, a lesbofobia. Segundo essas vozes, o problema da personagem foi demonstrar o desejo por outra mulher em pleno programa (outra participante), causando um incômodo no público, o qual tem sido mascarado por outras críticas a ela, como a chamar de “fofoqueira” ou “encrenqueira”. “Ela desafiou a virilidade masculina do homem brasileiro, ao tentar se ‘intrometer’ em uma relação heterossexual, expressando seu desejo pela namorada de um outro participante. Vivemos em uma sociedade androcêntrica e, por conseguinte, falocêntrica”, avalia Jandira Queiroz, assistente de projetos do Observatório de Sexualidade e Política (SPW).

Na análise de Jandira, a moça desafiou a heteronormatividade e o patriarcado, especialmente por encarnar um tipo de lésbica não masculinizada, mas extremamente feminina. “A lésbica bonita e feminina incomoda muito mais. O homem heterossexual ainda entende a lésbica masculinizada, sem entender como ela se construiu ou o quanto esta imagem foi construída como uma forma defensiva de se colocar no mundo”, alinhava a ativista Gilza Rodrigues, presidente do Grupo de Conscientização Homossexual Arco-Íris, entidade responsável pela Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, segunda maior do mundo em número de participantes.

Para muitas das pessoas ouvidas, o resultado era esperado, considerando o padrão brasileiro de uma sociedade repleta de preconceitos. “A maneira que a homossexualidade feminina veio sendo tratada no programa – referida através de estereótipos masculinos, com a clara intenção de ridicularizar a sua orientação sexual, reforçando as concepções tradicionais de gênero e sexualidade – denota o quanto a questão de gênero perpassa a orientação sexual na experiência cotidiana dos sujeitos.

Com base nessas premissas, sua exclusão do programa leva, sim, a que se possa pensá-la como produto da dominação simbólica. Sua eliminação reforça a idéia de que a mulher não pode impunemente violar as regras de seu estilo de gênero tradicional, tampouco a orientação heterossexual. As lésbicas, mais ainda do que as mulheres heterossexuais, ‘precisam saber o seu lugar’, parece ser a mensagem transmitida com a eliminação da moça”, analisa a historiadora e mestre em Política Social Rita Colaço, responsável pelo blog “Comer de Matula”, dirigido a lésbicas, gays, travestis e transexuais.

Porém, se a eliminação da participante lésbica era esperada, como explicar a permanência de alguém que se assume como “o machão da casa”, afirma que homens heterossexuais não contraem HIV e diz que homossexualidade é opção? Na opinião da psicóloga Vanessa Leite, pesquisadora do CLAM, o relativo sucesso do personagem se ancora na saudade de uma “masculinidade perdida”. “Não existem outros homens heterossexuais que se posicionem como ele no programa. Ele ocupa um lugar no imaginário social do “macho ideal”: autoritário, homofóbico e misógino”, diz ela.

“Ele é um exemplo do machismo no Brasil, mas é apenas a ponta de um iceberg que ainda associa os homossexuais à Aids e que trata a mulher como objeto. A suástica que ele carrega tatuada no corpo já demonstra o que ele pensa em relação à diversidade. Sua manutenção no programa sinaliza que, em parte, a sociedade comunga com as suas opiniões. Isso é preocupante, uma vez que pode vir a prejudicar o trabalho de visualização de direitos e de cidadania realizado por diversas organizações da sociedade civil brasileira”, afirma o ativista Cláudio Nascimento, Superintendente de Direitos Coletivos, Individuais e Difusos da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro.

Outras vozes fazem coro com Nascimento. “Por sua elevadíssima audiência, o programa pode tanto contribuir para o esclarecimento a respeito de visões preconceituosas e estigmatizadoras, quanto para contribuir justamente para o seu reforço, estimulando personalidades violentas e com dificuldades em se relacionar com a alteridade, como está parecendo ser o caso nesta versão do programa”, salienta Rita Colaço.

“Programas como o Big Brother Brasil, como qualquer cultura de massa, formam opinião, podendo trazer conseqüências tanto positivas quanto negativas. As discussões que são geradas pelas atitudes das pessoas podem tanto diminuir quanto reforçar preconceitos”, diz a jornalista Daniela Novais, que se define como lesbofeminista e atua como articuladora e mobilizadora política no LesBiBahia, articulação autonomista de lésbicas e mulheres bissexuais baianas que discute agenda política e demandas para o movimento em prol dos direitos das lésbicas.

Segundo o jornalista paulista João Marinho, administrador do blog “Gospel LGBT: homossexualidade sem preconceito”, o problema é que, “desde o começo, a emissora ‘marcou’ a sexualidade dos ‘coloridos’ como sua principal característica e diferencial de ‘grupo’. Os grupos da casa não foram formados naturalmente, foram ‘impostos’ pela produção por características que esta considerara como diferenciais. Por esse motivo, quaisquer outras características individuais dos participantes foi ‘mascarada’ – e parece que quase tudo que acontece com eles se remete àquele diferencial. No caso dos coloridos, a sexualidade. Com isso, a emissora gera polêmica e audiência, mas não é possível apontar que a homossexualidade tenha sido o motivador principal da eliminação da moça, especialmente num programa que já teve um homossexual como vencedor”.

O gay em questão foi o professor universitário Jean Wyllys, vencedor da quinta edição do programa. Porém, parece que gays discretos (como Jean) ou menos discretos e mais femininos (como dois dos atuais participantes, que demonstram bons índices de “aceitação” junto ao público) ganham mais facilmente a empatia do público, razão apontada por muitos como um dos motivos da vitória de Wyllys, que se “assumiu” dentro da casa. Por sua vez, João Marinho particularmente não vê como positiva a exposição dos homossexuais nesta edição em particular.

“Seria interessante se a emissora tivesse incluído participantes assumidos, mas não interferisse diretamente na formação dos grupos dentro da casa. Isso, sim, discutiria o preconceito de forma positiva. Não foi o que aconteceu. De certa forma, os ‘coloridos’ – e não apenas eles, mas todos os demais – foram ‘segregados’, ‘marcados’ por uma característica sua, e isso começou a pautar os diálogos, as manifestações de preconceito por parte de outros participantes, e a visão de que somos ‘seres à parte’. Por que uma pessoa não pode ser, por exemplo, ao mesmo tempo ‘sarada’ – um outro ‘grupo’ da casa – e ‘colorida’? Ao evidenciar a sexualidade como característica tão diferencial, talvez com a justificativa de trazer o diálogo, a emissora, na verdade, acaba por reforçar gays e lésbicas como pessoas ‘não-pertencentes’, excluídas de outros grupos por sua sexualidade. Isso é bem negativo”, conclui o jornalista.

Nessa busca de opiniões acerca dos participantes, o comentário da antropóloga Paula Lacerda centra-se na análise da dinâmica do programa – muito intensa – o que faz com que vários episódios façam, desfaçam e reconstruam a imagem dos candidatos: “No início do programa, Dourado compartilhou, com um outro participante, a encarnação do ‘forte e rude’. No entanto, só este último não foi estigmatizado e objeto de discriminação pelo grupo trancafiado na casa”, diz. Ela não entende por que Dourado encarne o signo pleno da discriminação contra a diversidade sexual dentro do BBB10. Para a antropóloga, a cena armada por outro participante depois que a namorada (aquela, por quem a participante lésbica se sentiu atraída) supostamente o chamou de gay (ou bissexual?) foi a grande homofobia desse programa. “Não bastasse a revolta desencadeada com a brincadeira, ele considerou um problema adicional o fato da namorada ter conversado sobre isso justamente com um dos colegas gays”.

Há um outro tipo de público que acompanha as vicissitudes do programa sem necessariamente assisti-lo: são os fãs dos blogs e comentários on line. Segundo a antropóloga e professora do Museu Nacional Adriana Vianna, o que parece estar havendo é a vitória da “tosquice” e uma reação das pessoas a não torcer pelos participantes “só” pela sua orientação sexual, antepondo-se ao que parece “politicamente correto”.

Não resta dúvida, as cenas de homofobia se inserem em muitos planos e cenas do programa e a magia dessa discriminação, tal e qual outras formas de preconceito, é fazer parecer que elas não são efeito de uma moralidade heteronormativa, mas sim de características dos indivíduos. Como a de Marcelo Dourado, que ressalta a máxima cavalheiresca de que ele não bate em mulher. A questão, assinala um fisioterapeuta gay, é que “ele não deveria bater em ninguém – nem homem, mulher, cachorrinho etc…”

IMS/UERJ – R. São Francisco Xavier, 524, 6º Andar, BL E-20550-013-Rio de Janeiro-RJ-Brasil-Tel:(21)2568-0599

Verdadeir@s urubus?

A jornalista Ana Carolina Moreno faz uma análise da cobertura jornalística de nossos tempos, os interesses e desinteresses que norteiam as manchetes, e o que fazer com isso.

Do blog Trezentos

Os verdadeiros urubus

Aconteceu mais de uma vez, durante o ano de 2007, quando eu fui repórter de geral em um jornal local. Acontecia geralmente quando me mandavam cobrir algo para as páginas que levavam a palavrinha “polícia” no cabeçalho. Mas sempre acontecia quando os envolvidos eram da classe média para cima.

Foram mais de 150 reportagens, mas um dos casos mais marcantes foi a morte de um pai e dois filhos (três policiais) quando um grupo de homens tentou assaltar a chácara deles, no interior de São Paulo. Foram feitos reféns, sabiam que seriam mortos se os criminosos descobrissem sua profissão e acabaram reagindo e morrendo. A cena era das mais tristes que já vi com meus próprios olhos, ainda que, infelizmente, não tenha sido a mais triste de todas: uma grande sala de velório com três caixões, um ao lado do outro, separados por um metro e meio. O pai no meio, os filhos nas pontas.

Eu não queria estar ali. Eu queria estar seguindo as várias pautas que, no fim, acabaram na gaveta depois que eu me demiti. Histórias sobre urbanismo, mobilidade urbana, os estudos que estava fazendo com os dados da Comissão Municipal de Direitos Humanos para debater o acesso da população aos direitos básicos, uma compilação sobre as ONGs que recebiam dinheiro do município, a investigação do possível envolvimento de fiscais da prefeitura no suborno de camelôs. Eu queria ajudar às velhinhas que ligavam no jornal pedindo ajuda para conseguir que a CDHU lhes pagasse finalmente o dinheiro do terreno que havia expropriado. Ou o senhor que fiscalizava o posto de saúde perto da sua casa e denunciava que os medicamentos ficavam expostos ao sol.

Mas me mandaram cobrir o triplo assassinato com requintes de crueldade, heroísmo e drama familiar.

Cheguei ao cemitério antes de qualquer outro jornalista. Éramos eu, o motorista do jornal, que precisou ficar no carro, e uma multidão de “parentes e amigos” entre aspas, composta em sua maioria por curiosos que estavam à tôa, moravam ali perto e queriam ver com os próprios olhos a tragédia. Carpideiras e carpideiros em igual porcentagem.

Não entrei na sala do velório nem só porque não era necessário, mas também porque ela estava abarrotada. Eu, com meu metro e cinqüenta e cinco, subi na ponta dos pés para observar o comportamento das pessoas e descobrir quem eram os parentes ou amigos próximos o suficiente para fornecer informações precisas, mas distantes o suficiente para estar emocionalmente apto para a tarefa de contar brevemente alguns detalhes sobre as três vítimas (a parte mais importante do crime). E sair de lá o mais rápido possível, rumo à delegacia para conseguir o resto dos detalhes da investigação.

Atrás de mim, me pergunta um homem:

– Você é jornalista?
– Sim. (Não preciso fingir que sou carpideira nem “parente ou amiga”, nao estava ali investigando ninguém.)
– De que jornal?– Jornal Tal.
– Conheci um repórter policial que trabalhou lá. O nome dele é Fulano. Você o conhece?

– Já ouvi falar. Ele era de antes da minha época.
– Pois ele era repórter policial. Mas, ao contrário de você, ele era ético.

Eu era novata, mas esperta o suficiente para saber que a única resposta era “o senhor tem o direito de ter sua opinião, eu só estou fazendo o meu trabalho”. Poderia ter perguntado onde está escrito que todas aquelas pessoas estavam ali unicamente porque conheciam os mortos e vieram velar por eles. Ou tê-lo processado por difamação e o obrigado a provar onde, no código deontológico do jornalismo, está escrito que é proibido entrar no cemitério ou até na sala do velório ou qualquer outra norma que eu, ali longe e quieta, estivesse transgredindo. Ou perguntado o número exato de histórias de velórios que este amigo dele contou nas muitas mesas de bar.

Mas o que eu queria mesmo é dizer que eu estava ali contra a minha vontade simplesmente porque amanhã, as pessoas que, como ele, compram o meu jornal, vao querer ler sobre esse caso. E que, se ele não conhecesse esse pai e esses filhos, ou se estivesse longe do cemitério para ver o caso com os próprios olhos, era por culpa dele que eu estaria ali, contra a minha vontade, tendo que escrever sobre o triste fim desse pai e de seus filhos. No fim, chegou outro repórter e, como fazemos nessas situações, nos juntamos, esperamos até encontrar quem poderia falar conosco, e saímos de lá o mais rápido possível para continuar nosso trabalho.

Quem me mandava para esses lugares era o pauteiro. A tarefa do pauteiro é passar a pauta para o repórter no começo do dia, para que a matéria, no fim do dia, estivesse na página e o jornal fosse comprado. Se o jornal não é comprado, os anunciantes não anunciam, e o jornal perde receita, e o jornal fecha. E o jornal é comprado principalmente porque tem fotos insinuantes de mulheres, páginas e páginas de esportes, insultos ao partido político que você nao gosta e elogios ao que você tem seu voto… E casos chocantes como o dos três policiais, um pai e dois filhos, assassinados ao tentarem reagir a um assalto. Como o empresário que havia perdido a mulher num acidente de avião e morreu em outro acidente de avião, um jatinho particular. Ou o fato de o quarto sucessor ao extinto trono brasileiro estar no vôo que caiu na costa brasileira.

Talvez eu deva ter mais tolerância com o senhor que tentou me humilhar no cemitério que as pessoas que agora tentam humilhar quem está cobrindo o acidente aéreo da vez. Afinal, ele pode muito bem ter sido amigo do pai ou de um dos filhos, estava revoltado com a tragédia e descontou em mim sem querer. Mas aposto que você leu sobre esse caso. Ou pelo menos se lembra do acidente bizarro em que caiu o pneu do ônibus e matou um homem que estava no ponto esperando a condução. Pois é, também me mandaram cobrir essa pauta.

Um acidente aéreo tem mais destaque que o acidente de ônibus da equipe do Sertaãozinho por dois motivos, um válido e outro inválido: os acidentes ganham importância de acordo com o número de mortos, e de acordo com o envolvimento de pessoas da classe dominante. O motivo válido quem provoca são as circunstâncias. A culpa do motivo inválido é toda sua, classe dominante. Porque é você que compra o jornal, e é para você que os jornalistas escrevem.

Você, que está pouco se lixando para assuntos muito sérios, mas depois tenta mobilizar a blogosfera com uma campanha contra a operadora de telefonia que te tratou mal.

Você, que sabe o nome do único tripulante do avião que tinha nacionalidade brasileira. Que criticou a futura notícia que fariam com os passageiros que iam pegar esse vôo, mas por vários motivos se salvaram. E que depois leu essa notícia do começo ao fim. Sinto dizer, mas os jornalistas, nesse caso, não são os urubus. Você é o urubu que terceiriza o trabalho da busca pelos detalhes sórdidos que tanto te atraem. Está na hora de todo mundo começar a assumir sua responsabilidade.

Quer solucionar esse problema? A palavra-chave é uma só: boicote. Não compre o jornal. Leia pela internet só as notícias sobre política, cultura e, vá lá, pode ler sobre o seu time de futebol. Mas não clique na manchete do jornal. Faça com que o quadro com as notícias mais lidas do seu portal preferido esteja limpo do nome “Air France”. Durante a rodinha no bebedouro, se alguém mencionar o acidente, mude de assunto, em vez de repetir o que acabou de ler, muitas vezes com algum dado errado (porque rigor jornalístico só se aplica a jornalistas, os fofoqueiros estão isentos, certo?).

Faça com que os jornais tenham que se redesenhar e repensar seu conteúdo. Para que a próxima novata que chegue ao jornal e proponha uma pauta que investigue para onde foram todas as pessoas despejadas de terrenos privados, mas abandonados, pela Prefeitura, no último ano, nao tenha que escutar dos chefes a seguinte resposta: “fizemos um extenso focus group com assinantes do jornal e eles disseram que nao se interessam pelos problemas habitacionais da classe baixa”.

Eu me demiti para salvar a minha alma. Para poder dormir à noite. Por culpa das 90% de pautas que o leitor me forçava a cobrir, abandonei os 10% de pessoas que eu realmente ajudei. Como a esposa de um pintor que foi assassinado em uma chacina supostamente praticada por policiais, porque estava fora de casa na hora errada. Pai de sete filhos, o mais velho tinha 12 anos e por pouco não morreu junto.

Também me enviaram ao velório do pintor (chacina é coisa de pobre, mas rico adora ler sobre elas). Uma sala minúscula, abarrotada de gente, com muito menos “parentes e amigos” entre aspas, porque todos naquele bairro já tiveram um parente ou amigo morto dessa forma e já não necessitam de detalhes sórdidos. Quando eu me preparava para ir embora, a esposa do pintor me pegou pelo braço e disse: “muito obrigada por vir até aqui, vocês são as únicas armas que nós temos”.

A sorte das esposas dos pintores é que nem todos os jornalistas são tão fracos como eu.

—–

Atualização: escrevi esse texto após um impulso, e só depois descobri que meu amigo Yassuda (blogueiro e publicitário) havia publicado um com a sua perspectiva sobre os urubus. Acho que, no fim, eu e ele pensamos de maneira igual, e muita gente que comentou aqui também: todos, produtores e consumidores de informação, temos responsabilidade pela lama em que vivemos hoje. Como não posso responder sozinha se vamos todos dar as mãos para sairmos juntos da pocilga, antes de descobrir que se trata de areia movediça, vou simplesmente mudar a categoria desse texto de “jornalismo” para “utopias”.

Estréia Festival FEMINA no Rio de Janeiro

image001

Lesbecause – Por Salete Maria da Silva

Do blog CORDELIRANDO, de Salete Maria.
lesbecause
Let me see se apre(e)ndi
A língua da mulher gay
Deixe-me ver se (ab)sorvi
O tal do verbo to say:
Seio you, seio me, seio we
Lesbecause let me see
Em junho tem happy day

Por causa das lesbianas
Agora sou poliglota
Lésbicas ou pubianas
Já não as acho idiotas
Os lábios roçam as bocas
As bocas parecem loucas
Sedentas, mudam de rotasPor causa das lesbianas
É feita a tal discussão
Se Marias vão com Anãs
Por que chamar sapatão?
Preconceito dê no pé!!
O chato é ter chulé
Amor não faz calo, não

Por causa das lesbianas
A luta por igualdade
Impõe teses mais humanas
Requer a diversidade
Só a sociedade viva
Não hetero-normativa
Permite a felicidade

Por causa das lesbianas
Fala-se de peito aberto
Bonecas de porcelana
Não se pode ver de perto
Quanta historia mal contada
Quanta mulher mal amada
Por causa “do jeito certo”

Por causa das lesbianas
La vulva! Esquerda! Volver!
Enganam-nos qual iguanas
Estranha e dócil: por quê?
“Tímida e espalhafatosa”
Exposta e misteriosa
Na seca aprende a chover

Por causa das lesbianas
Minh’arte usa outro tom
Qual as culturas ciganas
Que exibem múltiplo som
Profanamente sagradas
Linguagens são agregadas
Colando lábio e batom

Por causa das lesbianas
Nem só a cultura é oral
Abaixo as falas tiranas
“Pedra é pedra, pau é pau”
Não “é o fim do caminho”
Lesco-lesco e roçadinho
Sugerem outro final

Por causa das lesbianas
As “águas de março” vêm
Lavadas pelas baianas
Do jeito que só faz bem
No oito do mês de festa
Abra-se mais que uma fresta
Pra Ela falar também

Por causa das lesbianas
Escrevo mais um cordel
Dedicado às Fulanas
Com registro em papel
Exorto-as a amar
Bem como a comemorar
A vida embaixo do Céu

Em face da Lesbecause
Falo em direitos iguais
Não só pra mexer no mouse
(Mas pra fazer muito mais)
É que se fez nossa mão
Nossa boca e coração
Nossa língua e nossos ais

Em nome da causa delas
Façamos uma Parada
Pra expor nas janelas
Em letras arroxeadas:
Nenhum direito a mais!
A menos também jamais!
Esta é a grande sacada

Só beijou?

O Mix Brasil traz essa semana uma nota sobre o novo single da cantora lésbica texana e orgulhosa Jen Foster, “I don’t just kissed her”.

Jen Foster

**********************************************
Se Kate Perry tem uma música relatando a experiência (fictícia, diga-se de passagem), de quando beijou uma mulher, a cantora assumidamente lésbica Jen Foster (foto) lançou neste mês um single em que narra a casquinha que tirou de uma moça hétero. E, ao contrário de Perry, Foster não fica só no beijinho.

Na canção “I Didn’t Just Kissed Her” (“Eu não apenas a beijei”), a texana Jen Foster provoca a nova queridinha do pop com um refrão tão grudento quanto o hit de Kate Perry: “Eu não só a beijei. Fomos até o fim e eu gostei”.

Jen Foster não é muito famosa fora dos EUA. Com forte influência do rock, a cantora descreve problemas do cotidiano, além de problemas que remetem à sua orientação sexual, como rejeição por parte pais e preconceito.

***********************************************

“I Didn’t Just Kissed Her” está disponível no MySpace da cantora e bem que poderia ser traduzida nas aulas de inglês da Fundação Educacional, como reparação à homofobia no caso do Prof. Marcio Barrios, além de tantas outras que sabemos acontecer todos os dias.

Published in: on 23/03/2009 at 11:38  Deixe um comentário  

Fora da história: negras não tem espaço na literatura contemporânea

Da UnB Agência.

De 1.245 personagens catalogadas, apenas 34 são mulheres negras. Em 70% das vezes, ocupavam papéis como domésticas e prostitutas

Camilla Shinoda
Da Secretaria de Comunicação da UnB

Pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, coordenado pela professora Regina Dalcastagnè, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas, revelou um capítulo sombrio da literatura brasileira contemporânea produzida no período entre 1990 e 2004: a quase ausência da representação de mulheres
negras nos romances publicados pelas três maiores editoras do país, Companhia das Letras, Rocco e Record. De um total de 1.245 personagens catalogadas em 258 obras, apenas 2,7% são mulheres negras.

Nas poucas vezes em que apareceram nas páginas dos romances, em aproximadamente 70% dos casos, as negras ocupavam posições como empregadas domésticas e profissionais do sexo. Outros papéis recorrentes são a de escrava, dona de casa e bandida.

“Lamentavelmente, esses dados não surpreendem. Vivemos em um país de forte tradição escravocrata, em que a imagem da mulher negra ainda é marginalizada”, diz a professora do departamento de Sociologia da UnB e subsecretária de planejamento da Secretaria Especial de Política para as Mulheres, Lourdes Bandeira.

SILÊNCIO – “Elas não só são representadas em papéis subalternos, como ocupam posições subalternas no enredo”, afirma Regina. A pesquisa detectou que em apenas três vezes a mulher negra foi protagonista da história e somente em uma foi narradora.

Para Marina Farias Rebelo, mestranda do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, a presença de apenas uma mulher negra como narradora traduz grande significado. “A mulher negra não fala, ela é falada”, ressalta. Em seu estudo, ela compara a literatura com o rap como lugar de expressão para esse grupo. “No rap, a mulher negra
reivindica a voz para si, elas cantam a sua mensagem, coisa que não acontece na literatura”, explica.

Lourdes Bandeira acredita que o fato de existir só uma narradora negra em quase 15 anos de publicações demonstra que essa figura é silenciada. “Os escritores brasileiros estão tirando delas o direito do uso da palavra. Com isso, a mulher fica mantida no anonimato”, destaca.

A professora Regina reforça a importância de ser dona do seu próprio discurso. “Quando ums personagem fala, ela adquire poder, faz com que o leitor siga pela perspectiva da mulher negra”, afirma.

ELITE CULTURAL – O estudo produzido na UnB também revelou que mais de 70% dos autores catalogados eram homens, brancos, de classe média, com nível superior e heterossexuais. “É uma ilusão que a literatura seja um objeto artístico muito crítico. Ela é produzida por uma elite branca, que reflete suas representações, assim como o cinema, o teatro”, afirma Regina.

“É um segmento social predominantemente masculino que não está atento as mudanças sociais e ainda mantém valores de certo menosprezo à mulher negra”, completa subsecretária de planejamento da Secretaria Especial de Política para as Mulheres.

A mestranda Marina Farias adverte que a intenção da pesquisa não é censurar os escritores, mas sim fazer com que eles reflitam sobre perspectivas sociais diferentes. “Não queremos policiar ninguém. Defendemos o direito de cada um escrever o que quer, mas queremos que isso seja feito de forma responsável.”

De acordo com a professora Dione Moura, da Faculdade de Comunicação, existe uma produção emergente que traz um desejo de transformação dessa realidade. Dar voz a isso, diz ela, ajudaria a mudar os números apresentados pela pesquisa. “É preciso fortalecer as produções alternativas que têm voz de igualdade. Editais públicos e programas governamentais seriam um bom meio de se fazer isso”, aponta.

O OUTONO DA VIDA

As mulheres mais velhas também estão pouco presentes nas páginas da literatura brasileira contemporânea. Segundo a pesquisa do grupo da professora Regina Dalcastagnè, do universo de 1.245 personagens catalogadas, apenas 40 eram mulheres em idade mais avançada. O dado chamou atenção da pesquisadora Susana Moreira de Lima, também integrante do grupo de estudo, que escreveu a tese de doutorado “O outono da vida: trajetórias do envelhecimento feminino em narrativas brasileiras contemporâneas”.

Em seu estudo, Susana adotou uma amostra composta por 12 contos, uma novela e dois romances, escritos entre 1960 e 2003, em que mulheres velhas eram as protagonistas. “A idosa não tem voz na nossa literatura. Em três dos textos elas foram narradoras, mas apenas em um era uma narradora forte”, esclarece a pesquisadora. Todas as obras nessa situação foram escritas por mulheres.

Os estereótipos da velhice, como a debilidade física e o corpo deteriorado foram explorados. Mas nos textos de escritoras, o assunto era melhor problematizado, por meio de críticas que subverteram esse olhar inquisidor da sociedade à mulher com mais idade. Outro tema que foi associado à idade avançada em todos os momentos foi a solidão.

Todos os textos e fotos podem ser utilizados e reproduzidos desde que a fonte seja citada.
Agência.

http://www.secom.unb.br/unbagencia/unbagencia.php?id=1310

8 de março no Dedo de Moça

NÃO PERCA!

Sessão solene vai homenagear defensoras dos direitos femininos

Da Agência Câmara

Sessão solene para comemorar Dia Internacional da Mulher e homenagear as vencedoras do Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz, 2008.

Sessão solene para comemorar Dia Internacional da Mulher e homenagear as vencedoras do Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz, 2008.

A Câmara e o Senado realizam na quinta-feira (5) uma sessão solene conjunta para comemorar o Dia Internacional da Mulher (8 de março). Na ocasião, será entregue o Diploma da Mulher Cidadã Bertha Lutz às mulheres que se destacaram na defesa dos direitos femininos. Bertha Lutz foi a segunda mulher deputada da história do Brasil: eleita suplente em 1934, assumiu em 1936.

A Câmara também realiza, no dia 11 de março, um ato solene no qual será entregue o Diploma Carlota Pereira de Queirós (em alusão à primeira deputada brasileira, eleita em 1934). Na mesma ocasião, será lançada a página Mulheres no Parlamento, no site da Câmara.

Exposições
A história da luta das mulheres pelo reconhecimento de seus direitos será lembrada na exposição “As Conquistas da Mulher”, que poderá ser visitada no corredor de acesso ao Plenário. A exposição tratará de fatos considerados significativos desde o início do século 20, período mais efervescente das conquistas femininas.

Os painéis relacionados à saúde, por exemplo, vão abordar o período anterior ao surgimento das políticas específicas para a saúde da mulher, quando o único diferencial era a gestação, e as inúmeras novas diretrizes desenvolvidas hoje pelo poder público.

Representantes da bancada Feminista no Congresso Nacional - 2008.A exposição também vai mostrar a legislação que trata dos direitos da mulher e apresentar as 46 deputadas em atuação hoje. A abertura da mostra ocorrerá na quarta-feira (4), às 15 horas.

Já o Gabinete de Arte, que funciona na Presidência da Câmara, vai exibir 13 quadros de artistas brasileiras. São obras do acervo da Casa e também cedidas de acervos particulares.