FSM: Subsídios ao debate

I – Carta de Princípios do Fórum Social Mundial

O Comitê de entidades brasileiras que idealizou e organizou o primeiro Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre de 25 a 30 de janeiro de 2001, considera necessário e legítimo, após avaliar os resultados desse Fórum e as expectativas que criou, estabelecer uma Carta de Princípios que oriente a continuidade dessa iniciativa. Os Princípios contidos na Carta, a ser respeitada por tod@s que queiram participar desse processo e organizar novas edições do Fórum Social Mundial, consolidam as decisões que presidiram a realização do Fórum de Porto Alegre e asseguraram seu êxito, e ampliam seu alcance, definindo orientações que decorrem da lógica dessas decisões.

1. O Fórum Social Mundial é um espaço aberto de encontro para o aprofundamento da reflexão, o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências e a articulação para ações eficazes, de entidades e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo, e estão empenhadas na construção de uma sociedade planetária orientada a uma relação fecunda entre os seres humanos e destes com a Terra.

2. O Fórum Social Mundial de Porto Alegre foi um evento localizado no tempo e no espaço. A partir de agora, na certeza proclamada em Porto Alegre de que “um outro mundo é possível”, ele se torna um processo permanente de busca e construção de alternativas, que não se reduz aos eventos em que se apóie.

3. O Fórum Social Mundial é um processo de caráter mundial. Todos os encontros que se realizem como parte desse processo têm dimensão internacional.

4. As alternativas propostas no Fórum Social Mundial contrapõem-se a um processo de globalização comandado pelas grandes corporações multinacionais e pelos governos e instituições internacionais a serviço de seus interesses, com a cumplicidade de governos nacionais. Elas visam fazer prevalecer, como uma nova etapa da história do mundo, uma globalização solidária que respeite os direitos humanos universais, bem como os de tod@s @s cidadãos e cidadãs em todas as nações e o meio ambiente, apoiada em sistemas e instituições internacionais democráticos a serviço da justiça social, da igualdade e da soberania dos povos.

5. O Fórum Social Mundial reúne e articula somente entidades e movimentos da sociedade civil de todos os países do mundo, mas não pretende ser uma instância representativa da sociedade civil mundial.

6. Os encontros do Fórum Social Mundial não têm caráter deliberativo enquanto Fórum Social Mundial. Ninguém estará, portanto autorizado a exprimir, em nome do Fórum, em qualquer de suas edições, posições que pretenderiam ser de tod@s @s seus/suas participantes. @s participantes não devem ser chamad@s a tomar decisões, por voto ou aclamação, enquanto conjunto de participantes do Fórum, sobre declarações ou propostas de ação que @s engajem a tod@s ou à sua maioria e que se proponham a ser tomadas de posição do Fórum enquanto Fórum. Ele não se constitui portanto em instancia de poder, a ser disputado pelos participantes de seus encontros, nem pretende se constituir em única alternativa de articulação e ação das entidades e movimentos que dele participem.

7. Deve ser, no entanto, assegurada, a entidades ou conjuntos de entidades que participem dos encontros do Fórum, a liberdade de deliberar, durante os mesmos, sobre declarações e ações que decidam desenvolver, isoladamente ou de forma articulada com outros participantes. O Fórum Social Mundial se compromete a difundir amplamente essas decisões, pelos meios ao seu alcance, sem direcionamentos, hierarquizações, censuras e restrições, mas como deliberações das entidades ou conjuntos de entidades que as tenham assumido.

8. O Fórum Social Mundial é um espaço plural e diversificado, não confessional, não governamental e não partidário, que articula de forma descentralizada, em rede, entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo.

9. O Fórum Social Mundial será sempre um espaço aberto ao pluralismo e à diversidade de engajamentos e atuações das entidades e movimentos que dele decidam participar, bem como à diversidade de gênero, etnias, culturas, gerações e capacidades físicas, desde que respeitem esta Carta de Princípios. Não deverão participar do Fórum representações partidárias nem organizações militares. Poderão ser convidados a participar, em caráter pessoal, governantes e parlamentares que assumam os compromissos desta Carta.

10. O Fórum Social Mundial se opõe a toda visão totalitária e reducionista
da economia, do desenvolvimento e da história e ao uso da violência como meio de controle social pelo Estado. Propugna pelo respeito aos Direitos Humanos, pela prática de uma democracia verdadeira, participativa, por relações igualitárias, solidárias e pacíficas entre pessoas, etnias, gêneros e povos, condenando todas as formas de dominação assim como a sujeição de um ser humano pelo outro.

11. O Fórum Social Mundial, como espaço de debates, é um movimento de idéias que estimula a reflexão, e a disseminação transparente dos resultados dessa reflexão, sobre os mecanismos e instrumentos da dominação do capital, sobre os meios e ações de resistência e superação dessa dominação, sobre as alternativas propostas para resolver os problemas de exclusão e desigualdade social que o processo de globalização capitalista, com suas dimensões racistas, sexistas e destruidoras do meio ambiente está criando, internacionalmente e no interior dos países.

12. O Fórum Social Mundial, como espaço de troca de experiências, estimula o conhecimento e o reconhecimento mútuo das entidades e movimentos que dele participam, valorizando seu intercâmbio, especialmente o que a sociedade está construindo para centrar a atividade econômica e a ação política no atendimento das necessidades do ser humano e no respeito à natureza, no presente e para as futuras gerações.

13. O Fórum Social Mundial, como espaço de articulação, procura fortalecer e criar novas articulações nacionais e internacionais entre entidades e movimentos da sociedade, que aumentem, tanto na esfera da vida pública como da vida privada, a capacidade de resistência social não violenta ao processo de desumanização que o mundo está vivendo e à violência usada pelo Estado, e reforcem as iniciativas humanizadoras em curso pela ação desses movimentos e entidades.

14. O Fórum Social Mundial é um processo que estimula as entidades e movimentos que dele participam a situar suas ações, do nível local ao nacional e buscando uma participação ativa nas instâncias internacionais, como questões de cidadania planetária, introduzindo na agenda global as práticas transformadoras que estejam experimentando na construção de um mundo novo solidário.

Aprovada e adotada em São Paulo, em 9 de abril de 2001, pelas entidades que constituem o Comitê de Organização do Fórum Social Mundial, aprovada com modificações pelo Conselho Internacional do Fórum Social Mundial no dia 10 de junho de 2001.

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II – Histórico do processo FSM

Conforme define sua Carta de Princípios, o Fórum Social Mundial é um espaço internacional para a reflexão e organização de todos os que se contrapõem à globalização neoliberal e estão construindo alternativas para favorecer o desenvolvimento humano e buscar a superação da dominação dos mercados em cada país e nas relações internacionais.

O Fórum Social Mundial (FSM) se reuniu pela primeira vez na cidade de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, Brasil, entre 25 e 30 de janeiro de 2001, com o objetivo de se contrapor ao Fórum Econômico Mundial de Davos. Esse Fórum Econômico tem cumprido, desde 1971, papel estratégico na formulação do pensamento dos que promovem e defendem as políticas neoliberais em todo mundo. Sua base organizacional é uma fundação suíça que funciona como consultora da ONU e é financiada por mais de 1.000 empresas multinacionais. Leia o texto de Francisco Whitaker e veja mais detalhes sobre a origem do FSM.

O Comitê Organizador do FSM 2001 foi formado por oito entidades brasileiras: Abong, Attac, CBJP, Cives, CUT, Ibase, MST e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Foi criado também um escritório, em São Paulo (Brasil), que, desde 2000 até os dias de hoje, apóia e dá suporte ao processo FSM, ao Conselho Internacional (CI) do FSM e suas comissões e aos comitês organizadores dos eventos anuais do FSM. Além de integrarem o CI e suas comissões, as oito entidades conformam atualmente o chamado Coletivo Responsável pelo Escritório do FSM no Brasil.
FSM2001
O FSM 2001, realizado em Porto Alegre (Rio Grande do Sul), Brasil, entre 25 e 30 de janeiro de 2001, contou com a participação de aproximadamente 20.000 pessoas, das quais cerca de 4.700 eram delegadas de diversas entidades abrangendo 117 diferentes países. A imprensa também esteve bastante presente com 1.870 credenciados. Clique aqui e veja mais detalhes sobre a memória do evento.

No FSM 2001, as diversas atividades – conferências, seminários, oficinas – se desenvolveram em torno de quatro eixos temáticos:

– A Produção de Riquezas e a Reprodução Social;
– O acesso às Riquezas e a Sustentabilidade;
– A Afirmação da Sociedade Civil e dos Espaços Públicos;
– Poder Político e Ética na Nova Sociedade.

A realização desse primeiro Fórum evidenciou a capacidade de mobilização que a sociedade civil tem frente a uma metodologia caracterizada pela garantia da diversidade e co-responsabilidade no processo de construção do evento. Após o sucesso do primeiro evento, avaliou-se a necessidade de continuidade do FSM. Em busca disso, o Comitê Organizador do FSM propôs o estabelecimento de uma Carta de Princípios de maneira a garantir o FSM como um espaço e processo permanente de busca de construção de alternativas em âmbito mundial. Para tornar possível a articulação do processo FSM em nível internacional, constituiu-se em 2001 o Conselho Internacional (CI) do FSM, integrado por redes temáticas, movimentos e organizações que acumulam conhecimento e experiência na busca por alternativas à globalização neoliberal. O CI passou a ser uma instância política e operacional contribuindo tanto na definição dos rumos estratégicos do FSM, quanto na mobilização e em outras atividades de caráter organizativo. A criação do CI expressa a concepção do Fórum Social Mundial de se constituir como um espaço democrático e aberto de encontro que favoreça a construção de um movimento internacional aglutinador de alternativas ao pensamento único neoliberal.

A ação do Conselho Internacional favoreceu uma maior interlocução entre as organizações, tanto em nível nacional quanto internacional e apoiou a organização de comitês de mobilização nacionais, de fóruns temáticos e regionais, assim como dos eventos globais de 2002, 2003 e 2004.

FSM 2002
O FSM 2002 foi realizado em Porto Alegre entre os dias 31 de janeiro e 05 de fevereiro, com a presença de 12.274 delegados/as representando 123 países. A imprensa compareceu com 3.356 jornalistas, sendo 1.866 brasileiros e 1.490 estrangeiros de 1066 veículos. O número de participantes superou todas as previsões com a estimativa de mais de 50.000 pessoas ao todo. Com os mesmos eixos temáticos do primeiro fórum, foram feitos 96 seminários, 27 conferências e 622 atividades autogestionadas (isto é, seminários e oficinas organizados pelas entidades participantes do FSM). Clique aqui e veja mais detalhes sobre a memória do evento.

FSM 2003
O FSM 2003, realizado também em Porto Alegre, entre os dias 23 e 28 de janeiro de 2003, atraiu cerca de 100 mil pessoas do mundo inteiro. Cerca de 20 mil delegados/as, de um total de 123 países participaram do evento. A esse número devem ser acrescentados ainda os participantes do Acampamento da Juventude (cerca de 25 mil), jornalistas da mídia nacional e internacional (mais de 4.000) e participantes individuais que, em 2003, tiveram acesso à quase todas as atividades realizadas.

Em 2003, no núcleo de atividades organizadas foram realizadas no total 10 conferências, 22 testemunhos, 4 mesas de diálogo e controvérsia e 36 painéis. Somente esse núcleo de atividades reuniu um total de 392 conferencistas de diversos países, número mais que três vezes superior ao de 2001, que trouxe um total de 104 conferencistas de redes, organizações e movimentos sociais do mundo inteiro. No eixo de atividades autogestionadas, houve um salto de cerca de 400 no FSM2001 para cerca de 1.300 em 2003. Essas atividades se realizaram em torno dos seguintes eixos amplos:

– Desenvolvimento democrático e sustentável
– Princípios e valores, direitos humanos, diversidade e igualdade
– Mídia, cultura e alternativas à mercantilização e homogeneização
– Poder político, sociedade civil e democracia
– Ordem mundial democrática, luta contra a militarização e promoção da paz

Clique aqui e veja mais detalhes sobre a memória do evento.

FSM 2004
Em 2004, pela primeira vez, o Fórum Social Mundial foi realizado fora do Brasil. A decisão foi tomada pelo Conselho Internacional como parte do processo de construção da internacionalização do FSM. O local escolhido foi Mumbai, na Índia e a data: de 16 a 21 de janeiro de 2004.

Durante 2003, houve a constituição de diversas instâncias indianas responsáveis pela preparação local do FSM 2004: Conselho Geral Indiano (IGC), Comitê Indiano de Trabalho (IWC), Comitê Organizador Indiano (IOC), Comitê de Organização de Mumbai (MOC).

O FSM 2004 contou com a presença de 74.126 participantes, representados por 1653 organizações de 117 países. Do total, 60.224 eram indianos. No Acampamento Intercontinental da Juventude, foram registradas 2.723 inscrições.

Mais de 800 voluntários de 20 países participaram do FSM 2004. No total, houve 180 intérpretes e tradutores de Argentina, Brasil, Índia, EUA, França, Espanha, Reino Unido, Bélgica, Suíça, Sri Lanka, Tailândia, Indonésia, Japão, Coréia e Palestina. Interpretação e tradução foram providenciadas de graça durante o Fórum por uma rede internacional chamada Babels. Cerca de 3.200 jornalistas representados por 644 órgãos de imprensa, vindos de 45 países fizeram a cobertura do FSM.

O programa de atividades sob a responsabilidade do Comitê Organizador Indiano apresentou 13 eventos em diferentes formatos: painéis, mesas redondas, conferências e reuniões públicas. Uma novidade na metodologia do processo FSM foi a inclusão, no programa, de grandes atividades autogeridas pelas organizações inscritas no FSM, como painéis, conferências e mesas redondas. No total, foram organizados 35 eventos desse porte. Atividades autogeridas menores, como seminários, oficinas, reuniões, etc, tiveram presença marcante no FSM: houve 1.203 eventos.

As atividades foram organizadas em torno dos seguintes eixos temáticos:
– Militarismo, guerra e paz
– Informação, conhecimento e cultura
– Meio ambiente e economia
– Exclusão, direitos e igualdade

Eixos transversais:
– Globalização imperialista
– Patriarcado
– Regimes de castas e racismo e exclusões sociais
– Sectarismo religioso, políticas de identidade e fundamentalismo (comunalismo)
– Militarismo e paz

Durante os seis dias do FSM, mais de 1.500 artistas, poetas, dramaturgos, escritores e cineastas participaram ativamente com seus trabalhos culturais. Foram apresentadas 150 peças de teatro de rua. Houve também um festival de filmes com mais de 85 títulos sobre os principais temas do FSM. Clique aqui e veja mais detalhes sobre a memória do evento.

FSM 2005
Em 2005 a edição mundial do FSM voltou para Porto Alegre e foi realizada entre os dias 26 e 31 de janeiro. Foi constituído um Comitê Organizador Brasileiro formado por 23 organizações, subdivididas em oito GTs (Grupos de Trabalho) abertos: Espaços, Economia Popular Solidária, Meio Ambiente e Sustentabilidade, Cultura, Tradução, Comunicação, Mobilização e Software Livre (articulado com o GT de Comunicação). Mais tarde, um nono GT foi criado: Programa.

A construção da programação seguiu uma nova metodologia, que buscou ampliar a convergência, multiplicar os diálogos durante o evento e evitar a repetição desarticulada de atividades sobre o mesmo tema. O programa do encontro foi constituído a partir das atividades autogestionadas propostas pelas organizações participantes do FSM 2005.

A nova metodologia, aprovada pelo Conselho Internacional em abril de 2004, teve como primeiro passo prático a realização de uma Consulta Temática, um questionário amplamente divulgado que buscou identificar que lutas, questões, problemas, propostas e desafios as diversas organizações que participam do processo FSM consideram importante discutir no FSM 2005 e que atividades tinham a intenção de organizar em Porto Alegre. Da análise das respostas pelas comissões de Metodologia e Conteúdo do Conselho Internacional, resultaram 11 espaços temáticos que organizaram todas as atividades propostas para o FSM 2005:

01. Afirmando e defendendo os bens comuns da Terra e dos povos – Como alternativa à mercantilização e ao controle das transnacionais
02. Arte e criação: construindo as culturas de resistência dos povos
03. Comunicação: práticas contra-hegemônicas, direitos e alternativas
04. Defendendo as diversidades, pluralidade e identidades
05. Direitos humanos e dignidade para um mundo justo e igualitário
06. Economias soberanas pelos e para os povos – Contra o capitalismo neoliberal
07. Ética, cosmovisões e espiritualidades – Resistências e desafios para um novo mundo
08. Lutas sociais e alternativas democráticas – Contra a dominação neoliberal
09. Paz e desmilitarização – Luta contra a guerra, o livre comércio e a dívida
10. Pensamento autônomo, reapropiação e socialização do conhecimento (dos saberes) e das tecnologias
11. Rumo à construção de uma ordem democrática internacional e integração dos povos

Foram identificados também 5 eixos transversais:
01. Emancipação social e dimensão política das lutas
02. Luta contra o capitalismo patriarcal
03. Luta contra o racismo
04. Gênero
05. Diversidade

Na marcha que marcou o início do FSM 2005, estiveram presentes mais de 200 mil pessoas. No total, foram 155 mil participantes cadastrados, sendo 35 mil integrantes do Acampamento da Juventude e 6.823 comunicadores. Cerca de 6.872 organizações de 151 países estiveram envolvidas em 2.500 atividades no Território Social Mundial. As maiores delegações foram as do Brasil, da Argentina, dos Estados Unidos, do Uruguai e da França. Os dias de maior pico foram 29 e 30 de janeiro: 500 mil pessoas circularam no Território Social Mundial, de acordo com estimativas da Brigada Militar.

Cerca de 3.100 voluntários colaboraram na realização do encontro, em áreas como tradução, cultura, comunicação, logística e serviços, manutenção de redes e construções etc. Participaram 533 intérpretes (Babels) de 30 países. Dezesseis idiomas foram traduzidos durante o V FSM: português, inglês, francês, espanhol, árabe, japonês, hebraico, alemão, italiano, coreano, guarani, hindi, quechua, uolof (África), bahasa (Indonésia), russo e libras (linguagem brasileira de sinais). Clique aqui e veja mais detalhes sobre a memória do evento.

FSM 2006: policêntrico
A edição do FSM em 2006 foi policêntrica, ou seja, ocorreu de forma descentralizada, em diferentes lugares do mundo. Três cidades sediaram o FSM 2006: Bamako (Mali – África), entre 19 e 23 de janeiro de 2006, Caracas (Venezuela – América) e Karachi (Paquistão – Ásia), entre 24 e 29 de março de 2006. A edição de Karachi, originalmente, estava planejada para acontecer simultaneamente ao evento venezuelano. Porém, devido ao terremoto que atingiu o país em outubro de 2005, sua realização foi adiada por dois meses.

Como nos anos anteriores, a programação do FSM policêntrico foi construída de maneira participativa, conforme recomendações metodológicas gerais do Conselho Internacional (clique aqui para ler sobre a metodologia do FSM 2006), como a realização de consultas para a construção das grades temáticas de cada evento. Cada evento policêntrico teve sua própria metodologia e programação. Na programação, grande ênfase foi dada às atividades autogestionadas, ou seja, propostas por organizações participantes do VI FSM, que realizaram as inscrições em um site único para os três eventos (www.wsf2006.org).

Para o evento de Caracas, foi organizada uma consulta temática entre maio e final de julho de 2005. Seus resultados foram analisados em uma reunião do Conselho Hemisférico Américas, realizada entre 14 e 17 de agosto, em Caracas (Venezuela), que levou à definição de seis eixos temáticos e dois transversais. Nos casos de Bamako e Karachi, a consulta teve como ponto de partida uma lista de temas pré-definida pelas instâncias desses respectivos fóruns. Clique nos links abaixo e veja os eixos temáticos de cada um dos eventos policêntricos:

– FSM 2006 policêntrico capítulo Américas e II Fórum Social Américas
– FSM 2006 policêntrico – Karachi, Paquistão – Ásia
– FSM 2006 policêntrico – Bamako, Mali – África

FSM 2007
O primeiro FSM mundial no continente africano foi realizado entre os dias 20 e 25 de janeiro de 2007, em Nairóbi, Quênia. A metodologia de construção do FSM 2007 foi marcada pela realização de uma consulta ampla sobre ações, campanhas e lutas em que estão envolvidas as organizações participantes do FSM (ver no site: http://consultation.wsf2007.org/). A partir dessa consulta, realizada entre junho e agosto de 2006, foram definidos os nove objetivos gerais em torno dos quais foram organizadas as diversas atividades do FSM 2007. Veja a seguir quais foram eles:

1. Pela construção de um mundo de paz, justiça, ética e respeito pelas espiritualidades diversas
2. Pela libertação do mundo do domínio das multinacionais e do capital financeiro
3. Pelo acesso universal e sustentável aos bens comuns da humanidade e da natureza
4. Pela democratização do conhecimento e da informação
5. Pela dignidade, diversidade, garantia da igualdade de gênero e eliminação de todas as formas de discriminação
6. Pela garantia dos direitos econômicos, sociais, humanos e culturais, especialmente os direitos à alimentação, saúde, educação, habitação, emprego e trabalho digno
7. Pela construção de uma ordem mundial baseada na soberania, na autodeterminação e nos direitos dos povos
8. Pela construção de uma economia centrada nos povos e na sustentabilidade
9. Pela construção de estruturas políticas realmente democráticas e instituições com a participação da população nas decisões e controle dos negócios e recursos públicos

Outra característica da metodologia do FSM 2007 foi a definição de um quarto dia de atividades voltado para a apresentação e socialização das propostas de ações resultaram das reflexões durante as atividades autogestionadas realizadas nos dias anteriores. Ver a íntegra da nota informativa sobre o quarto dia.

Processo FSM em 2008

O Conselho Internacional do Fórum Social Mundial definiu que, em janeiro de 2008, não haverá um evento centralizado do processo FSM. O que vai haver é uma semana de mobilização e ação global, marcada por um dia de visibilidade mundial em 26 de janeiro de 2008. Leia a íntegra do chamado para um Dia de Mobilização e Ação Global. Fóruns locais, regionais, temáticos também estão programados ao longo do ano.

Nesse sentido, as diversas organizações, redes, movimentos sociais e coletivos que participam do processo FSM são convidadas a planejar ações, encontros, reuniões, marchas e outras atividades que se inscrevam no marco dessa jornada de mobilização em 2008 e respeitando a Carta de Princípios do Fórum Social Mundial.

Uma ferramenta específica para a visibilização dessas ações e atividades em todo o mundo está em construção e será lançada em torno do mês de outubro 2007.

Veja mais informações sobre o processo FSM em 2008 na seção “Como participar”.

Origens do FSM
Veja o histórico do processo Fórum Social Mundial contado por Francisco Whitacker (membro do Conselho Internacional do FSM) no programa Grandes Cursos da TV Cultura, do dia 8 de janeiro de 2004 aqui.

Eventos paralelos
Antecedendo o evento ou paralelamente ao Fórum Social Mundial, ocorrem diversas outras atividades como o Fórum de Autoridades Locais, o Fórum Parlamentar Mundial, o Fórum Mundial de Juízes, o Acampamento Intercontinental da Juventude, o Forunzinho Social Mundial (2002 e 2003) entre outros.

Fóruns sociais regionais e temáticos
Dentro do processo FSM, foram realizados diversos fóruns temáticos e regionais, discutidos no âmbito do Conselho Internacional do FSM, como os fóruns sociais europeu, mediterrâneo, Américas, asiático, africano, pan-amazônico, e temáticos na Argentina, Colômbia e Palestina. Esses fóruns são parte do processo de internacionalização do FSM e enraizamento e vêm sendo realizados desde o final de 2001. Clique aqui e veja a agenda completa desses fóruns.

Fóruns sociais pelo mundo
A realização do Fórum Social Mundial inspirou a multiplicação de diversos eventos de âmbito local, regional ou temático, no mesmo espírito do FSM e com metodologia similar. Clique aqui e veja a relação desses eventos, que não são de responsabilidade do Conselho Internacional ou do Coletivo Responsável pelo Escritório do FSM no Brasil, mas que, em muitos casos, engajam diversas organizações e movimentos sociais, que estão envolvidas no processo FSM ou que participaram de alguma ou várias de suas edições.

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III – FSM 2009 na Pan-Amazônia

A Pan-Amazônia será o território da 9ª edição do Fórum Social Mundial. Durante seis dias, Belém, a capital do Pará, no Brasil, assume o posto de centro de toda a região para abrigar o maior evento altermundista da atualidade que reúne ativistas de mais 150 países em um processo permanente de mobilização, articulação e busca de alternativas por um outro mundo possível, livre da política neoliberal e todas as formas de imperialismo.

Composta por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, além da Guiana Francesa, a Pan-Amazônia é conhecida pela riqueza da maior biodiversidade do planeta e pela força e tradição dos povos e das entidades que constroem um movimento de resistência na perspectiva de um outro modelo de desenvolvimento.
Em reunião do Conselho Internacional (CI) do FSM, realizada entre 30 de março de 3 de abril, em Abuja, Nigéria (África), ficou decidido que o FSM 2009 Amazônia será realizado no período de 27 de janeiro a 1º de fevereiro de 2009, na cidade de Belém, Pará, Brasil, um dos países que compõem a Pan-Amazônia. Além da data e a arquitetura do Fórum, a reunião sinalizou a decisão de que o território do FSM 2009 será constituído pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).

Muito mais de um território para abrigar o FSM a Amazônia, representada por seus povos, movimentos sociais e organizações, será protagonista no processo e terá a oportunidade de fazer ecoar mundialmente suas lutas, além de tecer alianças continentais e planetárias.

A escolha da Pan-Amazônia
O Conselho Internacional do FSM, composto por cerca de 130 entidades, escolheu a Pan-Amazônia para sediar o FSM 2009 em reconhecimento ao papel estratégico que a região possui para toda a Humanidade. A região é uma das últimas áreas do planeta ainda relativamente preservada, em um espaço geográfico de valor imensurável por sua biodiversidade e que agrega um conjunto amplo e diverso de movimentos sociais, centrais sindicais, associações, cooperativas e organizações da sociedade civil que lutam por uma Amazônia sustentável, solidária e democrática, articuladas em redes e fóruns, construindo esse amplo movimento de resistência na perspectiva de um outro modelo de desenvolvimento.

O FSM 2009 Amazônia será guiado por três diretrizes estratégicas:
• ser efetivamente um espaço onde se constroem alianças que fortalecem propostas de ação e formulação de alternativas;
• ser hegemonizado pelas atividades auto-gestionadas;
• e possuir um claro acento pan-amazônico.
Esse esforço e demanda da Pan-Amazônia foram reconhecidos e abraçados pelo CI e o resultado será uma das grandes novidades do FSM em sua 8ª edição, um dia inteiro dedicado à temática panamazônica – O Dia da Pan-Amazônia. Nesse dia, os testemunhos, painéis, conferências, discussões, marchas e alianças entre os povos da Pan-Amazônia e o mundo também compreenderão a 5a edição do Fórum Social Pan-Amazônico (FSPA).

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IV -Fórum Social Pan-Amazônico – Memória

O Fórum Social Pan-Amazônico foi o primeiro Fórum Regional criado dentro da grande constelação do FSM.
Por Luíz Arnaldo Campos (Conselho Pan-Amazônico)

No documento intitulado “Por que o I Fórum Social Pan-Amazônico?”, a Coordenação Executiva Provisória do I FSPA, após resgatar a importância do movimento de Seattle e o I FSM, recentemente realizado, em Porto Alegre, elencou os seguintes motivos:

” Para acumular o conjunto de análises, estudos, pesquisas, informações em geral sobre a realidade amazônica; para fazê-lo acessível ao conjunto das organizações populares, movimentos sociais, entidades e organismos da própria região amazônica, mas também para o Brasil e o mundo. Para informar das lutas, para alimentar as lutas. Para criar a mais densa rede de solidariedade, articulação e coordenação dessas organizações amazônicas com o Brasil e o mundo. Para elaborar calendário de lutas , ações e transformações do povo trabalhador amazônico. Para nos coordenarmos e participarmos das lutas com os povos do mundo.”
O I FSPA

O I FSPA foi realizado entre os dias 25 e 27 de janeiro de 2002, no campus da Universidade Federal do Pará, em Belém, Brasil. Recebeu cerca 1.000 (mil) participantes vindos de Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana Francesa, Colômbia e Brasil além de delegações da Itália, França, Catalunha, Palestina, Canadá. Na noite de abertura foi realizada uma conferência intitulada “Depois de Gênova – Os Caminhos do Movimento para uma outra Globalização”, que recolheu e projetou os ensinamentos da batalha de Gênova, durante a reunião do G8, ocorrida em 2001.
No dia seguinte foi a vez das conferencias seguidas de debates que tiveram como temas: Internacionalização da Amazônia e Resistência dos Povos; Ecossistemas Amazônicos e Alternativas de Desenvolvimento; Amazônia Multiétnica e Multicultural. No último dia foram realizadas 59 oficinas autogestionadas sobre temáticas pan-amazônicas, além da primeira reunião do Conselho do Fórum Social Pan-Amazônico e a cerimônia de encerramento. Como fruto do I FSPA foi organizado o Seminário Vozes da Amazônia, apresentado durante dois dias no interior do II Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.
Na declaração final do I FSPA foi destacado que: “No decorrer do 1º FSPA ficou clara a necessidade e a vontade de todos os participantes de construir um movimento pan-amazônico, capaz de enfrentar o neoliberalismo e fazer da Amazônia uma terra livre, justa e solidária; Um movimento múltiplo e exuberante como a própria floresta! Um movimento que faça da unidade na diversidade a sua força e as sua esperança!”
No mesmo documento foi convocada uma reunião aberta e movimentos, entidades e organizações pan-amazônicas, na cidade de Benjamin Constant, localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, com o objetivo de “…preparar o 2.o FSPA e discutir as atividades e iniciativas para desenvolver o movimento pan-amazônico.”

Encontros Preparatórios

Realizado nos dias 24, 25 e 26 de maio de 2002, em Benjamin Constant (Brasil) e Letícia (Colômbia), o Encontro Preparatório para o II Fórum Social Pan-Amazônico foi um marco na história do FSPA.
A própria realização do evento, num local tão distante dos grandes centros, simbolizou a vontade de fazer do FSPA um ponto de encontro e articulação das entidades e movimentos de base da Pan-Amazônia. Devido à várias contingências a reunião foi composta apenas por representantes de Brasil e Colômbia (entidades da Venezuela, Guiana Francesa, Bolívia e Equador, enviaram saudações e apoiamentos), mas entre os presentes estavam o Conselho – Geral da Tribo Ticuna, Conselho Indígena do Valle do Yavaray, Associación de Cabpclos Indígenas del Trapecio, Associación de Cabildos Indígenas del Amazonas, Organização Torú Ma”u, FASE, CUT, GTA, MST e diversas organizações populares da calha do Solimões. Neste encontro decidiu-se pela realização do II FSPA, em janeiro de 2003, em Belém, tendo como eixo geral – a luta contra a Alca” – e se aprovou a realização de duas atividades que passariam a ser marca registrada do Fórum Social Pan-Amazônico: os Encontros Sem-Fronteiras e as Caravanas Fluviais e Terrestres. No último dia o encontro transladou-se para o auditório do campus da Universidad Nacional de Colômbia – campus de Letícia- onde foi realizado o Ato por Justiça , Direitos e Paz. Paz na Colômbia, Agora!

Os Primeiros Encontros Sem – Fronteiras

De acordo com a decisão do Encontro Benjamin Constant- Letícia , foram realizados três Encontros Sem-Fronteiras em preparação ao II FSPA.

Alto Solimões
O Encontro do Alto Solimões ocorreu entre os dias 14 e 16 de dezembro de 2002, em Benjamin Constant, com a participação de entidades, movimentos e representações de povos indígenas do Brasil e Colômbia. O Encontro teve como pauta: Conjuntura Nacional e Internacional da Amazônia; Modelos Alternativos de Desenvolvimento para a Amazônia, Grandes Projetos na Amazônia;Amazônia Multi-étnica e Multi-cultural; e Cidadania e descentralização política na Amazônia.
Além disso o Encontro decidiu pelo – apoio ao movimento internacional do Fórum Social Mundial, de luta contra o modelo neoliberal e em favor da construção ,possível e necessária de um outro mundo onde as pessoas e a natureza não sejam tratadas como mercadoria.

Grande Savana
O Encontro da Grande Savana ocorreu nos dias 20 e 21 de dezembro de 2002, na Comunidade dos Indígenas Pemón de Waramasén, dentro dos limites do Município de Santa Elena de Uairén (Venezuela). O encontro teve como pauta entre as delegações brasileiras e venezuelanas: Luta contra a Alca, Desenvolvimento Sustentável; Saúde e Condições de Vida; Direitos, Autodeterminação e Autogestão Indígenas; Negociações internacionais sobre mudanças climáticas; Plano Colômbia.

Planalto das Guianas
O Encontro do Planalto das Guianas, se deu durante a Caravana Fluvial Macapá-Belém, na qual contou com Delegados do Brasil e Guiana Francesa. A pauta foi o problema migratório e principalmente a luta de libertação da Guiana do domínio francês.
O II FSPA
Realizado sob o lema – Toda a América Contra a ALCA -, o evento se realizou entre os dias 16 e 19 de janeiro de 2003, em Belém do Pará, com dez mil participantes do Brasil, Guiana Francesa, Suriname, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e,Bolívia, além de amigos da Europa, América Central , América do Norte, Ásia e África. Foi organizado em torno de três eixos e diversos subtemas, desdobrados em várias mesas de discussão:

Eixo I – Construir a Soberania Popular par Defender a Soberania Nacional
Subtemas – Soberania Econômica, Social e Ecológica; Integração Além das Fronteiras
Eixo II – Água, Terras e Florestas para Sustentar os Povos do Campo e da Cidade
Subtemas – Gestão Sustentável e Popular do Território; Economia Popular X Globalização
Eixo III – Identidades Amazônicas e a Construção da Unidade Latinoamericana.
Subtemas – Identidades e Direitos, Utopias e Projetos de Sociedade; Utopias e Democracia

O II FSPA foi pela “Marcha dos Povos contra a Alca”, seguida por um grande ato público e é lembrado como o primeiro FSPA a ter uma vasta programação cultural, espalhada por diversos pontos da cidade, interagindo com a população. Realizado ao mesmo tempo que o Congresso da Cidade (instância de democracia participativa da Prefeitura de Belém, na época) o II FSPA notabilizou-se por uma marcante presença popular nos seminários, debates e nas mais de 80 oficinas autogestionadas. Outra marca foram as caravanas fluviais e terrestres de Letícia, Boa Vista e Macapá com destino a Belém. A cerimônia de encerramento foi dedicada à luta do povo palestino.
Na sua declaração final, o II FSPA afirmou – O II Fórum Social Pan-Amazônico partiu de um consenso: Toda a América Contra a Alca.
“Durante o encontro aprofundamos nossa compreensão de que sem a soberania do povo, em todos os níveis, inclusive a alimentação não existe uma verdadeira soberania nacional. Por isso ficamos ao lado da autodeterminação dos povos indígenas, dos direitos das comunidades tradicionais, contra o Plano Colômbia e contra a instalação de bases estadounidenses em nosso território. Comemoramos as vitórias democráticas do Brasil e do Equador, nos solidarizamos com a Revolução Bolivariana, repudiamos os intentos golpistas da Venezuela e afirmamos que a Guiana deve se libertar do jugo colonial francês ….. Também conversamos sobre nós mesmos, nossas múltiplas identidades,ao mesmo tempo singulares e plurais que fazem parte de um mosaico comum: a América, o novo mundo, o continente da esperança que hoje vivencia importantes experiências democráticas em variados níveis que vão do local ao nacional. Estamos convencidos de que estas experiências devem ser ampliadas cada vez mais,instituindo o direito de cidadãos e cidadãs onde hoje impera a barbárie dos monopólios de todos os tipos ” (Trecho da declaração)

Reunido após o encontro, o Conselho Pan-Amazônico decidiu que a sede do III Fórum Social Pan-Amazônico deveria ser Ciudad Guayana, na Amazônia Venezuelana e ampliou sua composição para entidades e movimentos que mesmo não localizados na Pan-Amazônia possuem uma prática solidária com a luta dos nossos povos. Desta forma foram incorporados ao Conselho, a Central de Trabalhadores de Cuba, o Instituto Martin Luther King (Cuba) e o Fórum Mundial das Alternativas. Reconhecendo estímulo proporcionado pelo II FSPA, meses depois foram criados o Fórum Social da Selva Central (Peru) e o Fórum Social Guyanes (Guiana Francesa).
O III FSPA
Realizado de 4 a 8 de fevereiro de 2004, em Ciudad Guayana, o III FSPA foi aberto com um grande ato público, com a participação estimada de 40 mil pessoas, com a participação de Hugo Chávez (presidente da República Bolivariana de Venezuela) e Edmilson Rodrigues (prefeito de Belém e anfitrião das duas edições precedentes do FSPA).
Convocado sob o lema – Paz, Soberania e Igualdade, o III FSPA tinha definido como:
Objetivo geral – propiciar um espaço de encontro para o impulso e a aliança dos diversos setores de ação coletiva da Pan-Amazônia e de toda América;
Objetivos específicos – ampliar a participação e reflexão em cada país, entidades, movimentos sociais e organizações do povo. Fortalecer e desenvolver relações entre o Fórum Social Pan-Amazônico e outras instâncias continentais.
Neste III FSPA a instância celebrativa do Fórum ganhou mais força com a cerimônia do Encontro das Águas e a programação foi composta de mesas-redondas, oficinas e seminários e de uma abrangente programação cultural. Para Ciudad Guayana convergiram caravanas fluviais e terrestres de Belém, Manaus e Boa Vista. Compareceram delegações do Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Guiana Francesa e Venezuela, além de delegações da Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos e Itália.
Na declaração final do III FSPA foi afirmado: “Fala a voz do Continente Pan-Amazônico, a voz de todas as línguas do mundo. Temos muitos compromissos com este continente. Repudiamos a guerra, Queremos a Paz, a igualdade e a justiça. Queremos que nosso mundo seja como um arco-íris, por isto trazemos uma bandeira e temos a alma cheia de bandeiras. Os povos presentes no III Fórum Social Pan-Amazônico nos reconhecemos como herdeiros das Glórias Pátrias e assumimos a consigna de Bolívar : Unamo-nos e seremos invencíveis. Este será o rumo para conseguir a Paz, a Soberania e Igualdade.”
O IV FSPA
Realizado em Manaus, de 18 a 22 de janeiro de 2005, o IV FSPA reuniu 7 mil participantes de duzentas organizações pan-amazônicas. Foi precedido pela segunda edição dos Encontros Sem-Fronteiras do Alto Solimões e da Grande Savana (que desta vez além da Venezuela e Brasil, incorporou também uma representação da Guiana Francesa) e de um seminário preparatório, em Belém. As caravanas fluviais partiram de Belém, Letícia e de cidades/comunidades na calha dos rios Solimões, Negro e Madeira.
Aberto com uma grande marcha, o IV FSPA teve como lema: Diversidade, Soberania e Paz, temas se desdobraram em conferencias, mesas-redondas e seminários, além das oficinas autogestionadas e uma vasta programação cultural. No interior do IV FSPA foram também realizados Encontros dos Movimentos Populares de Afro-descendentes; Ambientalistas; Ativistas pela Paz; Comunicadores; Educadores; Homossexuais; Juventude; Movimentos Anti-Colonialistas; Mulheres; Povos Indígenas; Terceira Idade; Trabalhadores Rurais; Campesinos; Agricultores Familiares e Ribeirinhos; Trabalhadores Urbanos e Movimentos Culturais.
Dois momentos marcantes foram: a manifestação pública em solidariedade a independência da Guiana Francesa e o apoio dos delegados à ocupação da sede local da Funai pelos representantes de vários povos indígenas .
Na Carta dos Participantes se declarou: “No IV FSPA avançamos na construção de alianças, redes de solidariedade e fortalecimento dos movimentos sociais comprometidos com a busca de alternativas que deverão assegurar às gerações do futuro de nossos países e comunidades vida digna com respeito à soberania, autonomia, diversidade em todos seus aspectos (sociais,culturais, de recursos de biodiversidade dentre outros) e paz, com prevalência da democracia, respeito aos direitos humanos e utilização de todos os recursos necessários para se por fim à violência contra nossos povos”
A Retomada
Na reunião do Conselho Pan-Amazônico, após o IV FSPA, aprovou-se consensualmente Caiena, capital da Guiana Francesa, como sede do V FSPA, em 2007 e marcou-se nova reunião para o mês de março para se decidir sobre o local de realização do V FSPA. Esta reunião porém não ocorreu e o Conselho Pan-Amazônico não conseguiu se rearticular.
Agora, a realização do Fórum Social Mundial Amazônia 2009, em Belém do Pará, abre uma grande oportunidade para a retomada deste movimento que queremos aproveitar com a realização no interior do FSM, do V Fórum Social Pan-Amazônico e a reconstituição do Conselho Pan-Amazônico, com base nas entidades, movimentos, representações de povos dos nove países pan-amazônicos e de todos aqueles que são solidários e lutam em defesa dos povos da Pan-Amazônia.
A grande vitória e reconhecimento do Conselho Internacional do FSM foi o segundo dia do FSM 2009 dedicado exclusivamente à temática Pan-Amazônia. Nesse dia, em 28 de janeiro de 2009, o dia da Pan-Amazônia também será o V FSPA e terá como tema – 500 anos de resistência, conquistas e perspectivas afro-indígena e popular.

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V – O movimento de Seattle e O povo de Porto Alegre

O movimento de Seattle, gênese do Fórum Social Mundial
Fonte: Caros Amigos, edição nº 53, agosto de 2001.
Por: Fernando Evangelista
Bandeira em punho e pé na estrada.
E lá estão eles, sonhando em voz alta. Lá estão eles, provocando o poder e a polícia, rompendo o cerco da amnésia e da resignação. Vieram sem convite ou receio, cortando esquinas e fronteiras. Estão em marcha, vão pelo mundo, resistindo e se rebelando, desobedecendo a ordem e o silêncio. Mas quem são esses? Quem são essas pessoas que carregam nas camisetas e nos corações figuras de Guevara, Gandhi e Zapata? Quem são esses que picham muros com palavras de ordem dos anos 60? Quem são esses que, nessa altura do campeonato, depois de tudo, depois do muro, vêm protestar contra o capitalismo? Quem são esses que têm a audácia de questionar a palavra e a história oficiais? A imprensa os chama de “Povo de Seattle”. Mas eles, integrantes do grande movimento antiglobalização, preferem o título de “Povo de Porto Alegre”.
A última ação desses insurgentes aconteceu em Gênova, cidade do norte da Itália, nos dias 19, 20 e 21 de julho. Foi lá, durante a reunião do G-8, o Grupo dos Oito, formado pelos países mais industrializados do planeta. Mesmo com todo o sistema de repressão nas fronteiras, mesmo com o bloqueio das estradas, mesmo sob a ameaça de encontrar as estações de trem fechadas, eles chegaram. O Povo de Porto Alegre estava lá. Eram mais de 150.000 pessoas, todas juntas, empurradas e espremidas pelo vento da história, história feita assim, do lado de fora da mesa de decisões.
Do lado de dentro, sob a proteção da lei e do poder, decidindo o destino do mundo: George Bush (Estados Unidos), Tony Blair (Inglaterra), Jean Chrétien (Canadá), Jun’ichiro Koizumi (Japão), Gerard Schroeder (Alemanha), Jacques Chirac (França), Vladimir Putin (Rússia) e Silvio Berlusconi (Itália). Todos eles, com exceção de Bush, ficaram hospedados no European Vision, um dos mais caros e luxuosos navios do mundo, construído especialmente para o encontro. Os 250 milhões de dólares gastos com o navio foram justificados em nome da “segurança mundial”.
O G-8 se reúne todos os anos e tem por objetivo decidir as “linhas políticas de intervenção global”. Para muitos, os reais autores dessas decisões são o Banco Mundial (BM), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e, desde 1995, a Organização Mundial do Comércio (OMC). Há semanas, a imprensa européia alertava para uma possível guerra. E ela aconteceu: Carlo Giuliani, italiano de 23 anos, é morto pela polícia, mais de quinhentas pessoas ficam feridas e outras 126 são presas. Um relatório das autoridades de Gênova indica a destruição de 83 carros, 41 lojas, 34 bancos, nove postos do correio, dezesseis postos de gasolina. Um prejuízo superior a 6 milhões de dólares. O tempo passa e a lista aumenta. E foram só três dias. “É o caos, é o inferno”, diz o genovês Benedetto Salermo, de 67 anos. “Todas as tardes venho a essa praça, mas agora…” A frase é interrompida. Dois grupos avançam de direções opostas. A rua é ocupada. De uma esquina, a polícia dispara bombas de gás lacrimogêneo, do outro lado os manifestantes lançam pedras e molotovs. Depois do susto e da correria, salvo por uma pequena “rua de emergência”, Salermo pergunta e responde. “Sabe de que lado eu estou nessa batalha? Estou do lado da justiça, do lado desses meninos que têm coragem, que sacrificam a própria vida por aquilo em que acreditam.”
Mas nem tudo é idealismo em Gênova. A violência, sem fim ou limite, vai surgindo pelas esquinas da cidade. No centro, Cristina Valucci, de 43 anos, tenta impedir que alguns manifestantes quebrem vitrines de lojas. Recebe um soco no rosto e cai. No chão, sem defesa, é agredida por chutes e bastões. “Mas quem fez isso?”, pergunta uma jornalista francesa, que não acredita no que vê. “Esse é o povo que prega um novo mundo?”
Eles não param. Vão quebrando tudo o que encontram pela frente. Vestem-se de preto, têm os rostos cobertos por passamontanhas e são conhecidos como os Black Bloc. Estima-se que sejam mais ou menos mil os componentes desse grupo. Vêm de todas as partes. São americanos, gregos, ingleses, espanhóis, italianos e alemães. Fazem parte do movimento antiglobalização? Sim, apesar das suspeitas de que muitos desses “radicais” sejam, na verdade, infiltrados da própria polícia. Pretendem um mundo novo? Não. Têm a ideologia da destruição como método e a violência como passatempo. “Antes de nós, os protestos eram terrivelmente monótonos”, disse Colin Clyde, integrante do grupo Black Bloc, no dia em que foi condenado a um ano de liberdade vigiada pelos estragos feitos em Seattle.
O problema, como aponta o brasileiro Luiz Felipe Ricco, de 29 anos, que participou das manifestações em Gênova, “é que a violência desses anarquistas, que são pouquíssimos, queima o filme da grande maioria do movimento. O que vai sair nos jornais amanhã? É essa passeata pacífica ou vidros quebrados e carros incendiados?” A violência dos Black Bloc era um dos maiores temores do Povo de Porto Alegre. Para os principais meios de comunicação, a Itália foi palco de uma guerra e nada além. Tudo ficou resumido à plástica e ao impacto de uma cidade mergulhada no caos. Todo o processo de debate, palestras e propostas, realizado no Fórum Público (fórum alternativo), foi ignorado.
Mas a violência não vem assinada apenas pelos Black Bloc. Há outros protagonistas. Um deles, como de costume, é a polícia, a força da ordem, programada para ver qualquer tipo de manifestação democrática como um delito e não como um direito. Uma polícia despreparada, que mata em legítima defesa do poder. Uma polícia que é, de certa forma, vítima de um sistema, como define Eduardo Galeano, “acostumado a ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa”. Como disse o pai de Carlo Giuliani, o manifestante assassinado, “o verdadeiro culpado pela morte de meu filho não foi o policial de 20 anos que apertou o gatilho. Dele tenho pena porque sei que ele nunca mais vai esquecer o que aconteceu. O verdadeiro culpado é quem manda pessoas despreparadas e cheias de pânico enfrentar uma guerrilha urbana”.
Uma política equivocada, num sistema equivocado. É esse exatamente o centro das discussões. Mas, se o povo de Porto Alegre ainda não conseguiu abalar as estruturas do sistema, já conseguiu, com sucesso, colocar em xeque a legitimidade dessa política.
Cidade blindada, mas as janelas se abriram…
Perplexidade. Raiva. Angústia. Medo. Revolta. Essas eram algumas definições e sentimentos dos genoveses com relação ao G-8. A cidade foi bloqueada, blindada. Muros foram construídos para proteger o Palácio Ducal, sede do encontro. O maior centro histórico da Europa parecia uma grande prisão de luxo. Para entrar ou sair, os moradores precisavam mostrar documentos e credenciais. Durante três dias ficaram sem gás de cozinha. A “zona vermelha”, que fechou Gênova, ocupou uma área de 4 quilômetros quadrados.
“A democracia”, diz o genovês Enzo Sanfilippo, de 46 anos, “nos dá o direito de manifestação; nós podemos dizer não. Mas são eles, os donos do poder, que dizem como e onde devemos dizer não. Blindar uma cidade é um absurdo sem tamanho, uma provocação.” Para Piccolo Carmine, 52 anos, “o G-8 foi uma grande publicidade para Gênova. A cidade foi toda reformada para receber os chefes de Estado. Reconstruíram igrejas, pavimentaram estradas, restauraram obras de arte. O G-8 trouxe muito dinheiro para a cidade. Gerou muitos empregos”. Vale lembrar que Carmine disse isso no dia 19, antes dos Black Bloc, antes da polícia e todo o prejuízo provocado pela violência. Quem acompanhou a Passeata dos Imigrantes, um dia antes do início do encontro oficial, não poderia imaginar que a cidade seria transformada num campo de batalha.
A Passeata dos Imigrantes, que reuniu mais de 50.000 pessoas, foi um banho de água fria para quem esperava sangue, brigas e janelas quebradas. Como definiu o jornal L’Unità, fundado por Antonio Gramsci, foi uma manifestação “gigante, formidável, pacífica, bonita”. Era um desfile de cores, faixas e poesias. Tinha de tudo. Drag queens, mágicos, malabaristas. Apareceu até um cachorro militante, que carregava com os dentes uma faixa avisando: “Amanhã será guerra”. A cada 5 metros, gritos de ordem em italiano, francês, alemão, português… Gritos contra as multinacionais, os transgênicos, o FMI, Busch, Berlusconi. Tudo misturado, tudo em harmonia. Mas isso foi no começo da passeata. Depois, as coisas foram acalmando, as pessoas foram ficando em silêncio. Para os brasileiros, acostumados com Fla-Flu, samba, dança, gestos e discursos inflamados, a Passeata dos Imigrantes começava a ficar com gostinho de cortejo funerário.
Mas na avenida Carlo Bargino, no edifício de número 13, as coisas começaram a mudar. Quando ninguém mais gritava, cantava, ninguém mais soltava palavrões ou piadas para os chefes do mundo, depois de muitas ruas e esquinas sob prédios vazios e janelas fechadas, uma senhora bem velhinha foi à sacada e expôs, com orgulho e um sorriso largo, um retrato de Che Guevara. A multidão calada pareceu ter sido despertada de uma só vez . A marcha parou e as 50.000 pessoas ovacionaram aquela senhora solitária, com o retrato do Che nas mãos. De repente, sem que se entendesse, as janelas foram se abrindo. Os edifícios foram acordando. E as pessoas iam às janelas, mostravam roupas, jogavam água para os manifestantes, abanavam lenços. Tudo isso em resposta ao pedido de Berlusconi para que não se pendurassem roupas nas janelas durante o G-8, “porque não era estético”.
No dia seguinte, na Passeata de Desobediência Civil, quando os chefes de Estado chegaram, a cidade foi tomada pela violência. O grupo Black Bloc acordou cedo e fez tudo o que se sabe. Mas a marcha aconteceu, apesar das bombas de gás lacrimogêneo, dos molotovs e de todo o resto. Dessa vez eram mais de 150.000 pessoas. No final, o grande ato, tão esperado: romper, ultrapassar a zona vermelha. “Fazer isso é lutar contra o moinho. Eles têm as armas, nós só temos os escudos”, diz Luiz Felipe Ricco. A conseqüência foi lógica : muita gente ferida.
A algumas ruas dali, um grupo de manifestantes cerca um jipe da polícia. Um deles tem um extintor de incêndio nas mãos. Ameaça lançá-lo contra os policiais. A resposta vem certeira. Um tiro na cabeça. A pessoa cai. Os policiais, não satisfeitos, passam com o jipe por cima do corpo de Carlo Giuliani. Uma câmara de vídeo registra todas essas cenas. E as cenas ganham o mundo. O rosto de Giuliani transforma-se no símbolo dos acontecimentos em Gênova.
No dia 21, acontece a Passeata Internacional das Massas. Os ânimos estão exaltados. A violência não cessa. Vira a noite. A cada hora, novos boletins com mais presos, mais feridos, mais destruição. O grito agora é um só: “Assassinos! Assassinos!” Os destinatários: a polícia, o G-8, o poder oficial. A passeata segue. As pessoas erguem faixas pedindo paz. Muitas têm as mãos pintadas de branco. A maioria que marcha é pacifica, não quer violência, quer o diálogo, quer ser ouvida. E eles caminham, sem quebrar vitrines, sem destruir carros, sem lançar pedras contra a polícia. Mas a força paramilitar não faz distinção e avança e bate. Joga gás lacrimogêneo no meio de uma passeata pacífica. “Eu não acredito, eu não acredito. Eles estão jogando gás. Os Black Bloc estão do outro lado. Nós não fizemos nada”, diz uma manifestante. Não é só gás que a polícia joga, como conta a italiana Lourdes Bianchini, de 32 anos: “Estávamos caminhando, voltando de maneira pacífica para nosso alojamento, e a polícia veio em nossa direção. Aí eu pensei: agora, eles vão me matar. Por sorte, encontrei uma pensão aberta e me escondi lá dentro”.
A televisão mostra uma cena chocante. Um garoto sentado, sem armas e sem fazer nenhuma provocação, é atacado pela polícia. Recebe golpes de cassetete, chutes, pancadas na cabeça, nas costas, no rosto, depois disso tudo, é arrastado pelo cabelo e preso. “Por quê? Por quê?”, é a pergunta silenciosa e sem resposta das pessoas que viram as cenas da barbárie daqueles três dias. Pela noite, a maioria dos manifestantes deixa a cidade. Mas não é o fim. O golpe final vem pela madrugada, vem comandado pelas forças da ordem. A polícia invade a sede do Genova Social Forum, onde muitos manifestantes dormem. Entram destruindo tudo. Batem e roubam materiais fotográficos, fitas de vídeo, qualquer coisa que sirva de registro, de testemunho, de lembrança. “Fizemos isso para prender os integrantes do Black Bloc”, justifica o chefe de polícia. É, mas a lembrança não se apaga. Mesmo que eles tivessem roubado todos os filmes, todas as fitas, todas as anotações, todos os testemunhos, a história de Gênova não será esquecida. Porque não está no texto de jornal ou num documentário de cinema, ela está além, está com as 150.000 pessoas que foram lá, para lutar por “outro mundo possível”.
Gênova 2001, o recado da juventude (continuação)

Quem é e o que pretende o Povo de Porto Alegre?
Muitas publicações apontam as manifestações em Seattle, em dezembro de 1999, como o marco inicial da campanha antiglobalização. Mas elas são mais antigas, como argumenta o professor de política econômica Mario Pianta, no jornal La Repubblica (10/7/2001): “A raiz desse movimento está no final do século 19, quando ganha força a sociedade civil. Naquela época, como hoje, a política perde competência e capacidade de representação frente aos fenômenos globais. Mas os grupos que vemos hoje nasceram na metade dos anos 60”. Pianta lembra que o primeiro Fórum Alternativo aconteceu em Londres, em 1984, durante a reunião do G-7. Outro grande encontro aconteceu em Berlim, em 1988, contra a reunião do FMI. Nessa ocasião, mais de 100.000 pessoas foram às ruas protestar contra “os grandes do mundo”.
Nada disso é novidade, rebate o professor Marco Revelli, teórico do movimento operário. “Marx já havia previsto a capacidade do capital de unificar o espaço e transformar o mundo em um só mercado.” Revelli considera as manifestações de 1968 “o primeiro grande movimento global”. Por sua vez, Bernard Cassen, diretor do Le Monde Diplomatique e presidente das associações contra o neoliberalismo, ATTAC, argumenta que as ações de 1968 nada têm em comum com o movimento atual. “Porque, naquela época, a revolta estava em pleno acordo com o capitalismo e o consumismo. Havia uma crença no progresso, hoje isso não existe mais.” O cantor Manu Chao, símbolo do movimento, no jornal Il Manifesto (21/7/2001), diz: “Fazer comparações é sempre perigoso. Só sei que muitos daqueles que participaram das manifestações de 1968 agora estão do outro lado da barricada. Gênova é oportunidade única para dizer não a uma ditadura que nos diz em que mundo devemos viver. E o faz de um modo violento, nos obrigando a um suicídio coletivo. A nossa força? Eles são oito, nós 200.000”.
Quando a polêmica esquenta, todos correm para ouvir a autora do livro No Logo, considerado a grande bíblia do movimento. Todos recorrem a Noami Klein, jornalista canadense de 31 anos. Isso mesmo, uma das maiores autoridades do assunto é uma menina de 31 anos. Para ela, “esses protestos de hoje surgem no começo dos anos 90. Só que os mass media nunca perceberam. O New York Times escreve que a manifestação nasceu do improviso. Para eles parecia assim, porque os grandes meios de comunicação ignoraram por dez anos a cobertura de qualquer forma de protesto”.

Se é difícil traçar as origens do movimento, mais complicado ainda é a identificação dos seus principais representantes. Todos os dias, os jornais, televisões e rádios italianos buscam personagens, rótulos e slogans para o movimento. Um povo formado por ambientalistas, indígenas, sindicalistas, anarquistas, agricultores, estudantes, religiosos etc. Na linha de frente dessa gente rebelde e insistente, surgem alguns nomes e exemplos: subcomandante Marcos, líder zapatista; José Bové, o camponês mais famoso do mundo e inimigo número um dos transgênicos; João Pedro Stedile, um dos coordenadores do MST; Noam Chomsky, lingüista norte-americano; Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação; Muhammad Yunus, idealizador do Grameen Bank, o banco dos pobres; Jeremy Rifkin, economista e filósofo; e, claro, a bela e requisitada Noami Klein. É evidente que os nomes vão muito além disso. O movimento dos não-globais é, na verdade, a reunião de muitas organizações espalhadas pelo mundo unidas por três pilares:
1 – Objetivos em comum: o movimento, além de divergências e antagonismos, tem muitas bandeiras em comum. Por exemplo, a exigência do cancelamento das dívidas dos países pobres, a proteção do meio ambiente, com a aplicação e ampliação do Protocolo de Kyoto, que prevê a redução na emissão de poluentes, a modificação das regras do comércio internacional, com a limitação do “poder do capital global” e a denúncia contra o superpoder das multinacionais.
2 – Inimigos em comum: instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Organização para Coope-ração e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Organização Mundial do Comércio ( OMC) são os principais alvos do movimento.
3 – A Internet: o movimento tem um meio de comunicação “global” que oferece instrumentos de luta, debate e formação nunca antes imaginado. A rede é a grande alma do movimento. Talvez uma das melhores representações do espírito do Povo de Porto Alegre esteja numa historinha contada no livro Sopravvivere al G-8, de Filippo Nanni, Alessandra d’Asaro, Gerardo Greco. Uma pequena história. História real e antiga. História que se repete e se esquece: Seattle era um chefe indígena. Em 1854 recebeu uma proposta do governo de Washington: a terra dos índios em troca de uma reserva. O homem branco, respondeu Seattle, trata sua mãe, a terra, e seu pai, o céu, como coisa que se possa comprar, saquear, vender como ovelhas ou pérolas. O seu apetite devorará a Terra, a transformará num deserto.
Da Inglaterra a Gênova
“Um circo itinerante de anarquistas” foi a definição do premiê britânico, Tony Blair, quando viu a praça de Gotemburgo repleta de pessoas dispostas a manifestar o dissenso, em junho deste ano. E “o circo”, apesar da polícia, do governo, apesar dos Black Bloc, continua a ser montado, visitado e transformado. Em maio de 1998 estava na Inglaterra durante a reunião do G-8. Mais de 70.000 pessoas desfilaram pacificamente pelas ruas exigindo o cancelamento do “débito internacional”. Depois da marcha, pela noite, alguns manifestantes, com paus e pedras, quebraram vidros de carros e vitrines de lojas. A imprensa, como de costume, deu mais atenção ao “estardalhaço dos vândalos”.
No ano seguinte, 1999, a marcha antiglobalização passou pela Alemanha, Holanda, Mônaco, Itália e, em novembro, na mais forte das manifestações, foi a vez dos Estados Unidos, na cidade de Seattle. Durante cinco dias, um confronto direto entre a polícia e manifestantes atraiu a atenção da mídia mundial. A “batalha” aconteceu durante a terceira conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Desse ato contra a globalização participaram 1.387 entidades não-governamentais. Gente suficiente para incomodar os “donos do mundo”. Depois de Seattle, como uma bolsa de resistência, insistindo e apanhando, enfrentando amnésias históricas e a indiferença consentida, um poder popular e global foi ganhando fôlego e adeptos. Em 2000, a marcha do movimento antiglo-balização foi à Suíça, Tailândia, retornou aos Estados Unidos, foi à Argentina, Suíça, Japão, Austrália, República Tcheca, Coréia e França. No começo de 2001, enquanto Davos, nos Alpes suíços, estava sitiada pela polícia para garantir a realização do Fórum Econômico Mundial, Porto Alegre, nos pampas, abria suas portas para o debate e para as propostas de “um novo mundo possível”. O Fórum Social Mundial, realizado em fevereiro, no sul do Brasil, foi o grande passo para a legitimação do movimento. Ao lado do rótulo da contestação, surge de maneira forte e definitiva a capacidade de propor alternativas e soluções. “Quando soube do encontro no Brasil, percebi que o movimento era de fato uma coisa boa. Os embates de Seattle foram importantes para dar visibilidade ao movimento, os debates de Porto Alegre foram importantes para dar credibilidade”, define o italiano Mauro Semenzato, de 25 anos. Da mesma forma pensa o subcomandante Marcos: “Agora não se trata mais de dizer não às coisas. Mas construir formas diversas de confronto e debate”. Em seguida, os rebeldes antiglobalização foram à Itália e depois, lado a lado, em marcha, com os índios zapatistas na sua entrada triunfal na Cidade do México. Depois foi a vez de Canadá, Argentina, África do Sul, Havaí, Espanha, Suécia e agora Itália.
Mas a história não pára. Dias depois do G-8, protestos contra a violência policial surgem por toda a Itália. A marcha dos rebeldes vai a Milão, Bolonha, Florença, Palermo, Nápoles e Gênova. E é só o começo. Agora, além das imagens de Che, Gandhi, Luther King, Sandino, Zapata, Marcos, o movimento carrega nas faixas e camisetas um outro nome: Carlo Giuliani, o jovem assassinado pela polícia.

Somos Todos Clandestinos

Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês nos empurraram
Com os enlatados dos USA, de 9 às 6.
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.
Renato Russo

“Somos todos clandestinos!”, gritam os rebeldes de Gênova. Gritam para a polícia que protege a “zona vermelha”, zona reservada, espaço proibido. Os clandestinos querem seguir caminho, passar fronteira. Mas a ordem, armada até os dentes, diz não. A “zona vermelha” separa os donos do mundo do resto do mundo, os protege da violência e do terrorismo. E a vida segue, com muitas grades sendo criadas, muitos muros construídos. Uns caem, outros permanecem. A história continua.
E onde há muros, para desgosto da ordem oficial, aparecem ventos tentando derrubá-los. Um dia o vento é calmo, no outro, rebelde. Num, diz sim, no outro, sem que se espere, quebra normas e rompe cercas. Um dia está na Europa, outro no Brasil. Às vezes enfrenta ditadores oficiais, outras muitas, democracias de fachada. Às vezes é silencioso e submisso, outras vezes teimoso e inconseqüente. Um dia cala, no outro grita. E o vento está sempre lá. Está no México, com os indígenas de Chiapas, que tentam romper a “zona vermelha” da amnésia e da submissão, imposta à força, a peste e a bala. Está no Brasil, nas escolas e nos exemplos de coragem e dignidade do MST. Está nos latifúndios ocupados, que hoje produzem alimento e esperança. Está na luta do povo tibetano, na Palestina, na Irlanda do Norte, na selva colombiana…
Está no caminho dos trabalhadores, estudantes, sindicalistas, ambientalistas, anarquistas, agricultores, insurgentes, pessoas comuns, sonhadores anônimos. Gente espalhada pelo mundo, gente que forma o grande movimento que quer uma outra globalização. A globalização do conhecimento, da informação, da arte, da cultura. Gente que não concebe um mundo onde mais de 800 milhões de pessoas passem fome. Que não aceita um mundo onde, como lembra Frei Betto, “apenas quatro homens, todos dos EUA, possuam uma fortuna pessoal superior à riqueza somada de 42 nações subdesenvolvidas, que abrigam cerca de 600 milhões de pessoas!” Um mundo onde todos os dias morrem de fome 30.000 crianças.
Essa gente, movida pelo vento, vento das contradições, está sonhando, está dizendo pelos quatro cantos : “Sim, nós acreditamos num outro mundo e juntos vamos construí-lo”. Gente que retoma, com coragem, as palavras de Salvador Allende, presidente chileno deposto por golpe de Estado: “Sim, vale a pena morrer pelas coisas sem as quais não vale a pena viver”.
Gente que, além de contestar, propõe. Que, além de conhecer a história, quer transformá-la. Gente que compartilha das palavras do pai de Carlo Giuliani: “Não existe nada que valha a vida de um garoto. Não existe nada que possa devolvê-la a nós. Por isso desejamos paz e condenamos a violência. Desejamos que os sentimentos de paz, de tolerância, de solidadariedade, sejam os valores autênticos, para que a absurda morte de Carlo não seja ainda mais absurda e mais inútil”.
Fernando Evangelista (fevbrasil@libero.it) é jornalista.
Dirigiu o documentário Reações em Marcha, sobre o MST

Frases
“Os governos devem prestar contas a dois tipos de eleitores: aos cidadãos que votam e ao ‘senado virtual’, composto pelas multinacionais. O senado virtual é um grupo restrito de investidores capaz de governar nações via fluxos de capitais, através das oscilações da bolsa e de regular as taxas de interesse (…) Um tempo eram os ditadores, agora são os tiranos privados. Fazem o mesmo dano, com a diferença de que esses não têm responsabilidade publica.”
(Noam Chomsky, La Repubblica, 2/7/2001)

“Sem se deixar esmagar pelo peso das questões individuais, tenho certeza de que vocês vão se comprometer a promover uma cultura da solidariedade, que permita soluções concretas para os problemas que mais afetam nossos irmãos.”
(Papa João Paulo II, em carta enviada
aos chefes de Estado durante o G-8)

“Finalmente um novo mundo é possível. Finalmente nós voltamos às ruas. É hora de dizer basta e estamos dizendo. Hasta la victoria siempre.”
(Don Adrea Gallo, durante as manifestações em Gênova)

“Por fidelidade ao Evangelho, estaremos ao lado dos Tute Bianche e diremos não ao G-8.”
(Silvano Piovanelli, ex-primaz de Florença,
revista Altreconomia, agosto, 2001)

“Deus também sonha. E ninguém pode nos proibir de sonhar um mundo que seja diferente daquele que os grandes sonham para nós.”
(Padre Zanotelli, revista Nigrizia, julho, 2001)

“Se há diálogo, não há violência.”
(Renato Ruggiero, ministro do Exterior da Itália,
La Repubblica, 22/6/2001)

“Não se dialoga com pistolas apontadas na cabeça.”
(Genoa Social Forum, rede de associações que se opõe ao G-8, em resposta ao ministro Renato Ruggiero)

“Quem protesta não é amigo dos pobres.”
(George W. Bush, presidente dos Estados Unidos)

Algumas organizações do Movimento Antiglobalização e os sites

Rede Lilliput (www.retelilliput.org), organização italiana, rigorosamente não-violenta, com forte participação da Igreja Católica. Suas principais campanhas são contra a pobreza e a dívida dos paises pobres, propõe políticas públicas que garantam a seguridade alimentar. Reúne cerca de 25.000 pessoas.
ATTAC (http://attac.org/), organização trasnacional com origem na França, que propõe a adoção de uma taxa sobre as transações financeiras.

Genoa Social Forum (Gsf) (http://www.genoa-g8.org), organização criada para coordenar as manifestações contra o G-8 em Gênova.

Tute Bianche (www.tutebianche.org), um dos grupos mais ativos do movimento antiglobalização. Conta mais de 10.000 integrantes. Firmou uma declaração de “guerra contra os culpados da injustiça e da miséria”. Tem como porta-voz o ativista político Luca Casarini.

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VI -Notícias do PSTU

No “outro mundo”, a opressão de sempre
(http://www.pstu.org.br/opressao_materia.asp?id=2998&ida=18)

Wilson H. Silva, da redação do Opinião Socialista e membro da Secretaria Nacional de Negros e Negras do PSTU

Para muitos dos que participam do Fórum Social, o evento em si seria uma espécie de microcosmo do tão falado “outro mundo” que embala os sonhos dos que acreditam na possibilidade de humanizar o capitalimo.

Por cinco dias, não é raro cruzar com gente festejando a diversidade, a convivência pacífica de povos que, “lá fora”, vivem em conflito e, particularmente, a circulação, em oficinas e corredores, de maravilhosos projetos e idéias para reformar o mundo.

Este ano, até mesmo o “banimento” de bebidas produzidas por multinacionais virou motivo de orgulho para muitos, mesmo que para isto fossem obrigados a fechar os olhos diante das centenas de trabalhadores informais que vendem os mesmos produtos fora dos portões.

Para além do fato de que as tais idéias e práticas viram letra morta quando confrontadas com a realidade, há um aspecto que serve como lamentável exemplo do quão falaciosa é esta ilusão de um “outro mundo possível”: a reprodução, no interior do FSM, das mais asquerosas formas de opressão.

Violência sexual e racismo
Desde a primeira edição do FSM, o Acampamento da Juventude foi marcado por inúmeros casos de roubo, o que, no mínimo, sempre arranhou a tão celebrada solidariedade que deveria imperar no evento. Este ano, contudo, o Acampamento foi tristemente conhecido por um motivo muito mais grave: uma enxurrada de denúncias de estupros ou tentativas de assédio e de violência sexual.

As organizações feministas presentes falaram em mais de 40 denúncias e a situação chegou a tal ponto que houve protestos no Acampamento e foi criado o grupo Brigada Lilás, para defender as mulheres.

O machismo, contudo, não foi a única forma de opressão que circulou livremente pelo FSM. O racismo também deixou suas asquerosas marcas em dois episódios que também geraram protestos do movimento negro, particularmente dos que estavam participando do Fórum de Hip Hop.

No primeiro, dois negros foram expulsos de um bar por um racista que afirmou que “o dinheiro de gente como eles não servia em seu estabelecimento”. No segundo, três jovens falantes de espanhol despejaram insultos racistas contra duas mulheres negras. Quando um homem negro se aproximou para defendê-las, os três partiram para a agressão física. O caso foi registrado na delegacia – onde, diga-se de passagem, o grupo de negros que foi registrar o B.O. foi recebido com o seguinte comentário: “Lá vem o arrastão!”.

Desnecessário dizer que a presença de um grande número de gays, de lésbicas, de transexuais e de transgêneros também é alvo, freqüente, de agressões verbais e preconceito.

Um mundo sem opressão, só se for socialista
Motivo de surpresa e espanto para aqueles que acreditam na eliminação, por decreto e por boas intenções, das mazelas do capitalismo, estes episódios são exemplos cabais de algo que a parcela majoritária dos presentes ao FSM recusa-se a aceitar: outro mundo, inclusive no que se refere à eliminação de toda forma de opressão, só será possível com o fim do capitalismo.

Os milhares de ativistas que participaram do FSM e as pessoas e setores agredidos devem tirar lições desta história. A ineficácia das “ações” do FSM é prima-irmã da perpetuação da opressão no evento. O mundo com que sonhamos só será real com a ação direta e independente de trabalhadores, jovens e todos que são marginalizados.

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VII – ‘O feminismo foi derrotado’, diz professora da USP

Para Maria Elisa Cevasco, conquistas das feministas ficaram aquém das ambições de 68.

Dolores Orosco Do G1, em São Paulo

“O feminismo foi derrotado”. Tal constatação, feita em pleno ano em que se completam quatro décadas da emblemática queima de sutiãs pelas feministas em maio de 68, é da professora Maria Elisa Cevasco, de 56 anos. Doutora em Letras e professora de Estudos Culturais da Universidade de São Paulo, ela viveu a efervescência do movimento feminista e é com decepção que chega a essa conclusão.

“O feminismo só seria possível em uma outra sociedade, regida por valores humanos e não mercadológicos”, opina Maria Elisa, autora do livro “Dez lições sobre estudos culturais” e que atualmente edita o romance com toques feministas “Cartas a Legba”, de Susan Willis.

Para a professora, as mulheres do movimento dos sem-terra são muito mais símbolos do feminismo do que a cantora Madonna. “As celebridades têm aqueles rostos cheios de botox. É uma mesmice que se apresentam como novidade”.

O G1 conversou com a professora sobre feminismo e cultura pop. Confira:

G1 – Em 68 as feministas queimaram sutiãs em praça pública, como um símbolo do fim da repressão masculina. O movimento conseguiu alcançar suas metas nos últimos 40 anos?

Maria Elisa Cevasco – O feminismo foi derrotado. Os fundamentos daquela época pressupunham um mundo diferente. Um dos slogans do feminismo americano era “seja realista, exija o impossível”, ou seja, a reivindicação era por uma mudança radical. O feminismo só seria possível em uma outra sociedade, regida por valores humanos e não mercadológicos, como temos hoje.

G1 – Então o feminismo foi uma utopia?
Maria Elisa – O movimento teve uma série de conquistas, mas ficou muito aquém do que poderia ter sido. Não estou dizendo que foi em vão. Hoje, violência doméstica é considerada crime, por exemplo. Mas a revolução feminista propunha um avanço efetivo: tanto no aspecto político, quanto comportamental. Por isso o movimento era o máximo! Infelizmente, muita coisa ficou perdida nestas quatro décadas.

G1 – O que ficou pelo caminho?
Maria Elisa – Faltou mudar o mundo! E isso era uma coisa totalmente possível nos anos 60… Naquela época havia um choque central, duas linhas diferentes de pensamento. E a vencedora transformou o mundo em um lugar onde o que mais importa é o consumo, a sociedade do espetáculo na qual as pessoas estão cada vez mais burras. Não dá para ser feminista num mundo assim. Soa ultrapassado.

G1 – O que a senhora acha da maneira como a mulher é retratada nas letras do funk carioca?

Maria Elisa – A gente não pode ter preconceito. Uma mulher ser chamada de cachorra não é nada anormal. Na área do erotismo e da sedução não acho que é necessário ser politicamente correto e criar censuras. É uma área que não dominamos, porque tem a ver com o inconsciente, com o desejo.

G1 – Em que área a senhora acha que a discrepância entre homens e mulheres é mais evidente?
Maria Elisa – Nas relações amorosas. As mulheres ainda ficam esperando os homens ligarem no dia seguinte. O livro “Cartas a Legba” fala de uma mulher que fez parte do movimento feminista e agora tem mais de 60 anos. Em suas cartas é possível perceber que ela tomava para si a iniciativa da conquista, era uma sedutora explícita. E veja só, até hoje isso é considerado escandaloso. Os homens ainda têm medo de embarcar no assédio feminino.

G1 – Ícones femininos sexualizados da cultura pop como Madonna, Britney Spears ou Sharon Stone não contribuem para que as mulheres sejam mais assertivas no jogo da conquista?

Maria Elisa – Elas são ícones de sexualidade como espetáculo, não como vida real. Atualmente erotismo é um show de superficialidade. A Madonna é um exemplo disso. Não tenho nada contra o sexo pelo sexo. Sou a favor do sexo pelo prazer. O que não concordo é com este apelo sexual para chamar atenção, escandalizar e transforma-lo em algo superficial e efêmero. Madonna é um refluxo do movimento dos anos 60, da liberdade torta, feita para mostrar na televisão.

“Todas essas famosas que a gente vê nas capas de revistas têm aqueles rostos cheios de botox. É uma mesmice que se apresenta como novidade”

G1 – Quem são as mulheres-ícones do feminismo hoje?
Maria Elisa – Entre essas celebridades que estão na mídia não consigo lembrar de nenhuma. Todas essas famosas que a gente vê nas capas de revista têm aqueles rostos cheios de botox. É uma mesmice que se apresenta como novidade. Na minha opinião, as esposas dos sem-terra são mulheres admiráveis. Elas estão envolvidas em uma causa, criam seus filhos em meio a uma luta por um mundo de mais igualdade e justiça. Elas sim são as heroínas feministas atuais. Mais do que a Madonna ou a Britney Spears. A vida é justamente o que não passa na televisão.

G1 – E a Hillary Clinton? Ela tem chance de se tornar umas das mulheres mais poderosas do mundo…

Maria Elisa – Mas a Hillary Clinton não vai representar a chegada da mulher ao poder. Do que vale uma mulher que toma o poder e quer agir como um homem? Os discursos dela parecem pautados na idéia de que “eu posso fazer o que os homens fazem na política”. Então qual o diferencial dela? Seria melhor se introduzisse neste mundo tão masculino um jeito novo e mais humano de se fazer política. Os americanos vão votar em um homem chamado Hillary.

Publicado on 22/01/2009 at 10:21  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Que cartiha pequena

    • Oi Gustavo!
      Obrigada pela sua visita. Já que é pequena a cartilha, aproveite! rsrsrs…


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