BBB10: Cultura de massa e sexualidade

Cultura de massa e sexualidade

Ao ser perguntado por um dos participantes do Big Brother Brasil sobre o que representavam os 77 milhões de votos da eliminação do programa de 23/02/2010 – em que estavam “no paredão” um gay, uma lésbica e um homem heterossexual machista – o jornalista Pedro Bial, apresentador da atração, respondeu: “Eu não sei”. O Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM) buscou conversar com diferentes pessoas – pesquisadores, militantes e telespectadores do programa – para entender como o programa mobilizou tão amplamente a sociedade nesse episódio que excedeu outras eliminações.

Na análise de muitos, o resultado – a saída de Angélica, a protagonista lésbica –reafirmou a vigência de valores conservadores acerca da sexualidade entre o público que assiste o programa da TV Globo. Certamente deu pano para a manga e rendeu diversas manifestações

A escolha dos participantes desta décima edição do BBB, iniciado em janeiro, por si só já apontou para uma intensa polarização entre visões de mundo, ao juntar um gay “mais feminino”, uma drag queen, uma jovem lésbica assumida, um homem heterossexual já conhecido do público como misógino e homofóbico, mulheres heterossexuais sensuais, uma intelectual que se afirmava discrepante do modelo hegemônico de beleza magra e um negro de cabelos afro-étnicos. A separação destes em “grupos” (“coloridos”, “sarados”, “belos” e “ligados”) de antemão prenunciava o tipo de polarização a ser estimulada. A nova lógica implementada cumpre o papel de estratégia para ampliar os índices de audiência, objetivo último de um produto midiático comercial.

Contudo, o “paredão”, formado pela tríade de elementos tão diversos, provocou polêmicas que captaram a imaginação do público e levantou diversas questões. Este paredão, que logo vai ser esquecido pelo de hoje à noite (02/03/2010), confrontou a possibilidade de permanência no jogo de uma mulher lésbica (eliminada com 55% dos votos) com a do jogador cuja personalidade vem expressando uma performance agressiva e ambiguamente discriminatória – veja-se a interdição de se conversar sobre certos assuntos no horário das refeições em troca do rapaz (chamado Dourado) se refrear na emissão de arrotos. A “pequena ética” do grupo, como afirmou Pedro Bial em uma de suas aparições, parece agradar a uma enorme variedade de fãs que resolveram dar um basta ao respeito à diversidade sexual. Dourado parece emergir como modelo do machão heterossexual, destemido, “autêntico”, que “não leva desaforo para casa”.

Em e-mails e telefonemas, o CLAM buscou entender o que parte da audiência entende ou o que se pode ler entre imagens, votos e falas:

Uma editora carioca, assídua telespectadora do programa, afirmou não ter visto qualquer manifestação de homofobia na decisão do público. Afinal, segundo ela, a votação do gay também “emparedado” foi muito baixa e a polarização mostrou que havia muita gente disposta a “detonar” a participação de Dourado. A telespectadora atribui o resultado final ao fato de Angélica ter se envolvido em fofocas de “leva e traz”, o que comprometeu sua popularidade.

Para muitas ativistas lésbicas, porém, o que está por trás da saída da moça é, sim, a lesbofobia. Segundo essas vozes, o problema da personagem foi demonstrar o desejo por outra mulher em pleno programa (outra participante), causando um incômodo no público, o qual tem sido mascarado por outras críticas a ela, como a chamar de “fofoqueira” ou “encrenqueira”. “Ela desafiou a virilidade masculina do homem brasileiro, ao tentar se ‘intrometer’ em uma relação heterossexual, expressando seu desejo pela namorada de um outro participante. Vivemos em uma sociedade androcêntrica e, por conseguinte, falocêntrica”, avalia Jandira Queiroz, assistente de projetos do Observatório de Sexualidade e Política (SPW).

Na análise de Jandira, a moça desafiou a heteronormatividade e o patriarcado, especialmente por encarnar um tipo de lésbica não masculinizada, mas extremamente feminina. “A lésbica bonita e feminina incomoda muito mais. O homem heterossexual ainda entende a lésbica masculinizada, sem entender como ela se construiu ou o quanto esta imagem foi construída como uma forma defensiva de se colocar no mundo”, alinhava a ativista Gilza Rodrigues, presidente do Grupo de Conscientização Homossexual Arco-Íris, entidade responsável pela Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, segunda maior do mundo em número de participantes.

Para muitas das pessoas ouvidas, o resultado era esperado, considerando o padrão brasileiro de uma sociedade repleta de preconceitos. “A maneira que a homossexualidade feminina veio sendo tratada no programa – referida através de estereótipos masculinos, com a clara intenção de ridicularizar a sua orientação sexual, reforçando as concepções tradicionais de gênero e sexualidade – denota o quanto a questão de gênero perpassa a orientação sexual na experiência cotidiana dos sujeitos.

Com base nessas premissas, sua exclusão do programa leva, sim, a que se possa pensá-la como produto da dominação simbólica. Sua eliminação reforça a idéia de que a mulher não pode impunemente violar as regras de seu estilo de gênero tradicional, tampouco a orientação heterossexual. As lésbicas, mais ainda do que as mulheres heterossexuais, ‘precisam saber o seu lugar’, parece ser a mensagem transmitida com a eliminação da moça”, analisa a historiadora e mestre em Política Social Rita Colaço, responsável pelo blog “Comer de Matula”, dirigido a lésbicas, gays, travestis e transexuais.

Porém, se a eliminação da participante lésbica era esperada, como explicar a permanência de alguém que se assume como “o machão da casa”, afirma que homens heterossexuais não contraem HIV e diz que homossexualidade é opção? Na opinião da psicóloga Vanessa Leite, pesquisadora do CLAM, o relativo sucesso do personagem se ancora na saudade de uma “masculinidade perdida”. “Não existem outros homens heterossexuais que se posicionem como ele no programa. Ele ocupa um lugar no imaginário social do “macho ideal”: autoritário, homofóbico e misógino”, diz ela.

“Ele é um exemplo do machismo no Brasil, mas é apenas a ponta de um iceberg que ainda associa os homossexuais à Aids e que trata a mulher como objeto. A suástica que ele carrega tatuada no corpo já demonstra o que ele pensa em relação à diversidade. Sua manutenção no programa sinaliza que, em parte, a sociedade comunga com as suas opiniões. Isso é preocupante, uma vez que pode vir a prejudicar o trabalho de visualização de direitos e de cidadania realizado por diversas organizações da sociedade civil brasileira”, afirma o ativista Cláudio Nascimento, Superintendente de Direitos Coletivos, Individuais e Difusos da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro.

Outras vozes fazem coro com Nascimento. “Por sua elevadíssima audiência, o programa pode tanto contribuir para o esclarecimento a respeito de visões preconceituosas e estigmatizadoras, quanto para contribuir justamente para o seu reforço, estimulando personalidades violentas e com dificuldades em se relacionar com a alteridade, como está parecendo ser o caso nesta versão do programa”, salienta Rita Colaço.

“Programas como o Big Brother Brasil, como qualquer cultura de massa, formam opinião, podendo trazer conseqüências tanto positivas quanto negativas. As discussões que são geradas pelas atitudes das pessoas podem tanto diminuir quanto reforçar preconceitos”, diz a jornalista Daniela Novais, que se define como lesbofeminista e atua como articuladora e mobilizadora política no LesBiBahia, articulação autonomista de lésbicas e mulheres bissexuais baianas que discute agenda política e demandas para o movimento em prol dos direitos das lésbicas.

Segundo o jornalista paulista João Marinho, administrador do blog “Gospel LGBT: homossexualidade sem preconceito”, o problema é que, “desde o começo, a emissora ‘marcou’ a sexualidade dos ‘coloridos’ como sua principal característica e diferencial de ‘grupo’. Os grupos da casa não foram formados naturalmente, foram ‘impostos’ pela produção por características que esta considerara como diferenciais. Por esse motivo, quaisquer outras características individuais dos participantes foi ‘mascarada’ – e parece que quase tudo que acontece com eles se remete àquele diferencial. No caso dos coloridos, a sexualidade. Com isso, a emissora gera polêmica e audiência, mas não é possível apontar que a homossexualidade tenha sido o motivador principal da eliminação da moça, especialmente num programa que já teve um homossexual como vencedor”.

O gay em questão foi o professor universitário Jean Wyllys, vencedor da quinta edição do programa. Porém, parece que gays discretos (como Jean) ou menos discretos e mais femininos (como dois dos atuais participantes, que demonstram bons índices de “aceitação” junto ao público) ganham mais facilmente a empatia do público, razão apontada por muitos como um dos motivos da vitória de Wyllys, que se “assumiu” dentro da casa. Por sua vez, João Marinho particularmente não vê como positiva a exposição dos homossexuais nesta edição em particular.

“Seria interessante se a emissora tivesse incluído participantes assumidos, mas não interferisse diretamente na formação dos grupos dentro da casa. Isso, sim, discutiria o preconceito de forma positiva. Não foi o que aconteceu. De certa forma, os ‘coloridos’ – e não apenas eles, mas todos os demais – foram ‘segregados’, ‘marcados’ por uma característica sua, e isso começou a pautar os diálogos, as manifestações de preconceito por parte de outros participantes, e a visão de que somos ‘seres à parte’. Por que uma pessoa não pode ser, por exemplo, ao mesmo tempo ‘sarada’ – um outro ‘grupo’ da casa – e ‘colorida’? Ao evidenciar a sexualidade como característica tão diferencial, talvez com a justificativa de trazer o diálogo, a emissora, na verdade, acaba por reforçar gays e lésbicas como pessoas ‘não-pertencentes’, excluídas de outros grupos por sua sexualidade. Isso é bem negativo”, conclui o jornalista.

Nessa busca de opiniões acerca dos participantes, o comentário da antropóloga Paula Lacerda centra-se na análise da dinâmica do programa – muito intensa – o que faz com que vários episódios façam, desfaçam e reconstruam a imagem dos candidatos: “No início do programa, Dourado compartilhou, com um outro participante, a encarnação do ‘forte e rude’. No entanto, só este último não foi estigmatizado e objeto de discriminação pelo grupo trancafiado na casa”, diz. Ela não entende por que Dourado encarne o signo pleno da discriminação contra a diversidade sexual dentro do BBB10. Para a antropóloga, a cena armada por outro participante depois que a namorada (aquela, por quem a participante lésbica se sentiu atraída) supostamente o chamou de gay (ou bissexual?) foi a grande homofobia desse programa. “Não bastasse a revolta desencadeada com a brincadeira, ele considerou um problema adicional o fato da namorada ter conversado sobre isso justamente com um dos colegas gays”.

Há um outro tipo de público que acompanha as vicissitudes do programa sem necessariamente assisti-lo: são os fãs dos blogs e comentários on line. Segundo a antropóloga e professora do Museu Nacional Adriana Vianna, o que parece estar havendo é a vitória da “tosquice” e uma reação das pessoas a não torcer pelos participantes “só” pela sua orientação sexual, antepondo-se ao que parece “politicamente correto”.

Não resta dúvida, as cenas de homofobia se inserem em muitos planos e cenas do programa e a magia dessa discriminação, tal e qual outras formas de preconceito, é fazer parecer que elas não são efeito de uma moralidade heteronormativa, mas sim de características dos indivíduos. Como a de Marcelo Dourado, que ressalta a máxima cavalheiresca de que ele não bate em mulher. A questão, assinala um fisioterapeuta gay, é que “ele não deveria bater em ninguém – nem homem, mulher, cachorrinho etc…”

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Amiga GAY???

fantasticoO Fantástico – revista eletrônica semanal da Rede Globo – veiculou ontem matéria sobre a discriminação que algumas mulheres sofrem por terem amigas lésbicas. Mais uma vez, a Globo presta um desserviço denominando de gays as mulheres que amam, desejam e se relacionam afetivo-sexualmente com mulheres. A companheira Daniela Marques, da Sapataria, escreveu um comentário a respeito da matéria e enviou à produção. Leia abaixo.

Para assistir à matéria do Fantástico, clique aqui.

Em relação à matéria “Amiga Gay” vinculada no Fantástico no último domingo, considerações:

1. Se a matéria se tratava de mulheres lésbicas que têm amigas héteros, a chamada do quadro – assim como a intervenção de Patrícia Poeta – foi equívocada e deveria ser AMIGA LÉSBICA e não Amiga Gay e estas referências a “ser amiga de uma MULHER LÉSBICA”, não mulher gay. Primeiro pq mulheres que se relacionam com mulheres são lésbicas e não gays – termo utilizado a homens homossexuais; pra além disso, existe toda uma luta diária e constante em se reconhecer a mulher lésbica como uma sujeita-própria-de-sua-história-e-reconhecimento, a se contar o que foi a mobilização da mudança do nome da Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, realizada este ano com a presença e reconhecimento do presidente Lula, para Conferência Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.LÉSBICAS NÃO SÃO GAYS e vice-versa.

2. A imagem recortada da novela – “A senhora não é lésbica, não pode deixar que falem mal de você assim”, defende a personagem Mariana, filha de Catarina – pretendeu-se a quê? Porque o ficou pro meu entendimento e ao entendimento de amigas heteros e lésbicas que viram a matéria foi que o termo/o ser lésbica como uma desqualificação, uma ofensa… O QUE NÃO É!!! Esta edição foi um desserviço. Se não se é lésbica, não há problema em negar que seja, assim como não há problema em sê-lo. O fato do meu afeto ser voltado pra mulheres, tais como eu não me ofende, desqualifica ou deve ser desculpa pra eu ser discriminada, agredida ou coisa que o valha.

3.E o mais grave dos desserviços da matéria, a declaração: “Com certeza, é melhor fingir não ser. Se eu fosse homossexual, eu não daria na cara assim como a gente deu”, afirma Karina Pagani, atriz. Mulheres lésbicas namoram tal qual outras pessoas – sejam estas héteros ou homossexuais – namoram não na distância e na “sem-gracesa” das atrizes. Mas não houve nada mais grave do que falar que é melhor fingir não ser, argh………….Eu e mais milhões de mulheres,nobres guerreiras, damos a cara a tapa (às vezes, literalmente) diariamente – seja em espaços privados ou públicos – pra poder viver nossos amores com outras mulheres e para superar e combater o leviano julgamento de quem fala que meu afeto é errado, anormal, doente, munido de qualquer discurso preconceituoso e tacanho como o que foi declarado; eu não posso ser enclausurada numa caixa porque as pessoas se preocupam e se chocam mais com o beijo que eu dou na minha namorada, do que com a violência que mata Elóas Brasil afora e balas perdidas que nos atigem dia-a-dia. POUPEM-ME!

4. O Fantástico perdeu uma grande oportunidade de falar sobre o Projeto de Lei 122 que criminaliza a Homofobia e está em tramitação no Congresso, esbarrando no preconceito tacanho dos legisladores, que inventam 1001 desculpas pra não aplicar sanções mais rigídas a motivações de discriminação sexual, que chegam a gerar crimes de ódio, infelizmente recorrentes, pelo simples fato de ser lésbica, gay, travestis ou transexual. A aprovação deste é emergencial porque o meu afeto não pode ser motivo pra quererem me limar, me matar,me esconder; eu não posso correr risco de morte porque sou mulher, negra, lésbica. Aqui mesmo no Distrito Federal estamos a tempos esperando a regulamentação da Lei Maninha(Lei 2615) – para o qual o governador Arruda faz vista grossa – que prevê sanções a todo preconceito motivado por orientação sexual. A lei Maria da Penha, também, é uma lei inovadora que protege a mulher, inclusive prevendo proteção a possível violência doméstica entre casal de lésbicas. Então se é pra ser de utilidade pública, mobilizem e publicizem a vigência e emergência destas leis, mas não respaldem a intolerância, porque ela não foi tão despercebida assim…

A vinculação de qualquer matéria deve ser pensada, observada e cuidada e ainda mais numa questão que polemiza tanto, ainda…ninguém estabelece vínculos, amizades buscando saber da orientação de fulano ou ciclano,ou seja, ninguém apresenta currículos ou cartas de referência para estabelecer amizades e talvez por isso eu não consiga classificar minhas amigas lésbicas, minhas amigas héteros, meus amigos gays, minhas amigas bissexuais, etc…são todas e todos meus amig@s.

25 de novembro: ABL e D’Ellas lembram FannyAnn Eddy

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HOMOFOBIA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO: parte II

O Estado de São Paulo resolveu dar hoje, quase 20 dias depois do ocorrido, uma matéira na página A19. A Sapataria já havia divulgado denúncia da estudante da USP Iara Vianna na semana seguinte ao lamentável episódio, que aconteceu no dia 10 de outubro.

Gays vão à polícia contra discriminação em festa na USP

O caso já repercute na Cidade Universitária e para sexta-feira alunos da FFLCH marcaram um beijaço

William Glauber, de O Estado de S. Paulo

Robson Fernandjes/AE

Foto: Robson Fernandjes/AE

SÃO PAULO – Um episódio de intolerância à orientação sexual na Universidade de São Paulo (USP) virou caso de polícia nesta terça-feira, 28. Os estudantes de Letras José Eduardo Góes, de 18 anos, e Jarbas Rezende Lima, de 25, registraram na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) um boletim de ocorrência contra o Centro Acadêmico de Veterinária por constrangimento ilegal e lesão corporal. Os rapazes foram expulsos de uma festa da entidade porque se beijavam.

O caso repercute no câmpus e para sexta-feira alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) marcaram um beijaço. Nas comunidades de Letras e Veterinária, no Orkut, há listas de discussão sobre a polêmica, em tom de protesto e chacota.

No dia 10 de outubro, durante um “happy hour”, como os alunos se referem à festa agitada por funk, quando meninos e meninas sobem em palcos para dançar e também se beijar, o DJ interrompeu o som por volta de 1h30, as luzes foram acessas e o casal gay, repreendido. “O DJ ficou apontando. Acredito que um casal heterossexual não teria sido tão exposto e agredido”, afirma Lima. “Em segundos, um cara nos arrancou de lá.” A balada foi encerrada.

Os rapazes estavam acompanhados de mais quatro amigos heterossexuais. O bate-boca continuou do lado de fora. “A maioria dos alunos apoiou o DJ, que também é presidente do CA”, conta Góes. “Ele disse que pararia a festa se fossem um homem e uma mulher. Sempre vi rapazes beijarem meninas. Fomos ameaçados de processo por atentado ao pudor.” Góes afirma não ter havido excesso.

A Guarda Universitária foi chamada, mas, segundo os estudantes, os funcionários disseram que nada poderiam fazer. Góes e Lima, com o BO, afirmam que vão solicitar audiência na reitoria para questionar a conduta dos profissionais no trato com o público gay. A reitoria e a direção da Faculdade de Veterinária foram procuradas, mas, por causa do feriado do Dia do Servidor, não foram localizadas.

A direção do Centro Acadêmico Moacyr Rossi Nilsson informa que a festa foi interrompida porque os garotos exageraram no beijo. A entidade rebate a acusação de homofobia e diz que há estudantes homossexuais que freqüentam a entidade e nunca foram discriminados. Na semana passada, o CA procurou os rapazes para resolver o “mal-entendido”, mas não foi possível acertar um horário.

O estudante de doutorado em Literatura e membro do Corsa, uma ONG LGBT, Dário Neto, lamenta o episódio. Ele acompanhou os rapazes na Decradi. “O inquérito policial agora vai avaliar o caso. Com o BO, vamos solicitar uma comissão processante na Secretaria de Justiça, com base na Lei 10.948”, explica. A lei, estadual, pune administrativamente casos de homofobia.

O assessor de Defesa e Cidadania da Secretaria de Justiça, Dimitri Sales, explica que a entidade pode ser punida até com multa.

“O Estado tem poder de polícia. Quando virar processo, ouviremos as partes. A secretaria forma um juízo e aplica sanção ou isenta”, afirma. Em relação ao caso da USP, ele afirma que a homofobia é estrutural no País. “O preconceito está em todos os lugares, até em espaço de produção do conhecimento. A homofobia precisa ser combatida.”

Maluf e Lula: discursos diferentes, mas iguais

Hetero… o quê?

do blog Bota Dentro

Você já ouviu falar do termo ‘heteronormatividade’? Não? Mas, com certeza, em algum momento da sua vida já se viu em uma situação completamente influenciada por ela. Eu explico: este termo é usado para descrever situações nas quais as variações da sexualidade são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas.

Vem daí aquele argumento mais que manjado e combatido pelos gays e pelos simpatizantes: aquela idéia de que os seres humanos recaem em duas categorias distintas e complementares, macho e fêmea, e que relações sexuais e maritais são normais somente entre pessoas de sexos diferentes. Assim, segundo essa norma (que significa esquadro em latim), sexo físico, identidade de gênero e papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa em padrões integralmente masculinos ou femininos, heterossexuais.

Duas declarações publicadas nesta quarta-feira pela imprensa mostram bem o quanto a nossa sociedade é feita para heterossexuais, mesmo quando quem fala não tem a menor intenção de ser preconceituoso. Vejamos: o ex-prefeito e atual deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), mais uma vez candidato à Prefeitura de São Paulo, disparou: “Eu tenho um profundo sentimento cristão. O normal é homem gostar de mulher. Homem com homem não é normal. Não vou dizer que é normal só para ganhar votos de gays”.

Em situação completamente oposta, mas com alguma coisa em comum, está a entrevista concedida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à Agência Brasil, empresa estatal de comunicação. Não é segredo para ninguém que o presidente já fez várias vezes comentários positivos em relação às uniões homoafetivas. E desta vez, ele foi direto no ponto: Presidente, o senhor é a favor do casamento gay?

A resposta: “Eu a vida inteira defendi o direito à união civil. Acho que nós temos de parar com hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária. Constroem uma vida juntos, trabalham juntos e por isso eu sou favorável. Eu acho que nós temos que parar com esse preconceito.”

O problema está no trecho seguinte: “Olha, nós temos que tratar sem nenhuma discriminação a vida que cada um leva dentro de casa, o parceiro que quer ter a mulher ou homem é problema deles. O importante é que sejam cidadãos brasileiros, respeitem a Constituição e cumpram com seu compromisso com a Nação. O resto é problema deles e eu sou defensor da união civil.”

Desculpe, presidente. Mas, eu não quero ser gay só dentro de casa. Esse trecho me lembra aqueles discursos: “Quer dar a bunda em casa? Tudo bem. Só não me vem dar beijinho na rua, tá?”

Tropeço de Lula ou não, eis a influência da heteronormatividade.

Acrescento algo mais aqui. Além de reivindicar o respeito dentro e fora da minha casa, ou seja, da esfera privada, ser lésbica ou gay não é “problema” nosso, é condição, orientação, e até pode ser opção em alguns casos. Agora… problema, não é. Torna-se um problema de saúde pública quando tantas e tantos de nós somos agredid@s violentamente a cada dia, simplesmente porque amamos e nos relacionamos de modo que foge à regra da heteronormatividade.

Definitivamente, já que o Presidente Lula anda se aventurando a dar declarações sobre direitos de homossexuais (parabéns pra ele!!) precisa de uma boa assessoria em assuntos LGBT, alguém que explique essas coisas pra ele, senão vai ser gafe atrás de gafe. Não adianta muito levantar a bandeira em Conferência Nacional, sem saber o que ela representa para cerca de 10% da população brasileira. Essa frase do “é problema de cada um o que faz dentro de casa” ele proferiu também na Conferência Nacional LGBT, no meio de outras pérolas, e muita gente fez cara de limão azedo na platéia, mas era o Presidente apoiando a causa… Obrigada, Presidente! Mas se o apoio não for consciente e consistente, pode até atrapalhar…

Todavia, nem tudo são críticas. O Presidente saiu-se muito bem fazendo o seguinte questionamento:

“Por que os políticos que são contra [a união homoafetiva] não recusam os votos deles, por que o Estado brasileiro não recusa os imposto de renda que eles pagam?”, questionou Lula.

Por quê?

Segundo a Agência Brasil, para o presidente, a sociedade e o Estado brasileiros têm que parar de agir com hipocrisia.

Para nós também, Presidente!

Postado por Jandira Queiroz

AIDS: Qual sua atitude?