BBB10: Cultura de massa e sexualidade

Cultura de massa e sexualidade

Ao ser perguntado por um dos participantes do Big Brother Brasil sobre o que representavam os 77 milhões de votos da eliminação do programa de 23/02/2010 – em que estavam “no paredão” um gay, uma lésbica e um homem heterossexual machista – o jornalista Pedro Bial, apresentador da atração, respondeu: “Eu não sei”. O Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM) buscou conversar com diferentes pessoas – pesquisadores, militantes e telespectadores do programa – para entender como o programa mobilizou tão amplamente a sociedade nesse episódio que excedeu outras eliminações.

Na análise de muitos, o resultado – a saída de Angélica, a protagonista lésbica –reafirmou a vigência de valores conservadores acerca da sexualidade entre o público que assiste o programa da TV Globo. Certamente deu pano para a manga e rendeu diversas manifestações

A escolha dos participantes desta décima edição do BBB, iniciado em janeiro, por si só já apontou para uma intensa polarização entre visões de mundo, ao juntar um gay “mais feminino”, uma drag queen, uma jovem lésbica assumida, um homem heterossexual já conhecido do público como misógino e homofóbico, mulheres heterossexuais sensuais, uma intelectual que se afirmava discrepante do modelo hegemônico de beleza magra e um negro de cabelos afro-étnicos. A separação destes em “grupos” (“coloridos”, “sarados”, “belos” e “ligados”) de antemão prenunciava o tipo de polarização a ser estimulada. A nova lógica implementada cumpre o papel de estratégia para ampliar os índices de audiência, objetivo último de um produto midiático comercial.

Contudo, o “paredão”, formado pela tríade de elementos tão diversos, provocou polêmicas que captaram a imaginação do público e levantou diversas questões. Este paredão, que logo vai ser esquecido pelo de hoje à noite (02/03/2010), confrontou a possibilidade de permanência no jogo de uma mulher lésbica (eliminada com 55% dos votos) com a do jogador cuja personalidade vem expressando uma performance agressiva e ambiguamente discriminatória – veja-se a interdição de se conversar sobre certos assuntos no horário das refeições em troca do rapaz (chamado Dourado) se refrear na emissão de arrotos. A “pequena ética” do grupo, como afirmou Pedro Bial em uma de suas aparições, parece agradar a uma enorme variedade de fãs que resolveram dar um basta ao respeito à diversidade sexual. Dourado parece emergir como modelo do machão heterossexual, destemido, “autêntico”, que “não leva desaforo para casa”.

Em e-mails e telefonemas, o CLAM buscou entender o que parte da audiência entende ou o que se pode ler entre imagens, votos e falas:

Uma editora carioca, assídua telespectadora do programa, afirmou não ter visto qualquer manifestação de homofobia na decisão do público. Afinal, segundo ela, a votação do gay também “emparedado” foi muito baixa e a polarização mostrou que havia muita gente disposta a “detonar” a participação de Dourado. A telespectadora atribui o resultado final ao fato de Angélica ter se envolvido em fofocas de “leva e traz”, o que comprometeu sua popularidade.

Para muitas ativistas lésbicas, porém, o que está por trás da saída da moça é, sim, a lesbofobia. Segundo essas vozes, o problema da personagem foi demonstrar o desejo por outra mulher em pleno programa (outra participante), causando um incômodo no público, o qual tem sido mascarado por outras críticas a ela, como a chamar de “fofoqueira” ou “encrenqueira”. “Ela desafiou a virilidade masculina do homem brasileiro, ao tentar se ‘intrometer’ em uma relação heterossexual, expressando seu desejo pela namorada de um outro participante. Vivemos em uma sociedade androcêntrica e, por conseguinte, falocêntrica”, avalia Jandira Queiroz, assistente de projetos do Observatório de Sexualidade e Política (SPW).

Na análise de Jandira, a moça desafiou a heteronormatividade e o patriarcado, especialmente por encarnar um tipo de lésbica não masculinizada, mas extremamente feminina. “A lésbica bonita e feminina incomoda muito mais. O homem heterossexual ainda entende a lésbica masculinizada, sem entender como ela se construiu ou o quanto esta imagem foi construída como uma forma defensiva de se colocar no mundo”, alinhava a ativista Gilza Rodrigues, presidente do Grupo de Conscientização Homossexual Arco-Íris, entidade responsável pela Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, segunda maior do mundo em número de participantes.

Para muitas das pessoas ouvidas, o resultado era esperado, considerando o padrão brasileiro de uma sociedade repleta de preconceitos. “A maneira que a homossexualidade feminina veio sendo tratada no programa – referida através de estereótipos masculinos, com a clara intenção de ridicularizar a sua orientação sexual, reforçando as concepções tradicionais de gênero e sexualidade – denota o quanto a questão de gênero perpassa a orientação sexual na experiência cotidiana dos sujeitos.

Com base nessas premissas, sua exclusão do programa leva, sim, a que se possa pensá-la como produto da dominação simbólica. Sua eliminação reforça a idéia de que a mulher não pode impunemente violar as regras de seu estilo de gênero tradicional, tampouco a orientação heterossexual. As lésbicas, mais ainda do que as mulheres heterossexuais, ‘precisam saber o seu lugar’, parece ser a mensagem transmitida com a eliminação da moça”, analisa a historiadora e mestre em Política Social Rita Colaço, responsável pelo blog “Comer de Matula”, dirigido a lésbicas, gays, travestis e transexuais.

Porém, se a eliminação da participante lésbica era esperada, como explicar a permanência de alguém que se assume como “o machão da casa”, afirma que homens heterossexuais não contraem HIV e diz que homossexualidade é opção? Na opinião da psicóloga Vanessa Leite, pesquisadora do CLAM, o relativo sucesso do personagem se ancora na saudade de uma “masculinidade perdida”. “Não existem outros homens heterossexuais que se posicionem como ele no programa. Ele ocupa um lugar no imaginário social do “macho ideal”: autoritário, homofóbico e misógino”, diz ela.

“Ele é um exemplo do machismo no Brasil, mas é apenas a ponta de um iceberg que ainda associa os homossexuais à Aids e que trata a mulher como objeto. A suástica que ele carrega tatuada no corpo já demonstra o que ele pensa em relação à diversidade. Sua manutenção no programa sinaliza que, em parte, a sociedade comunga com as suas opiniões. Isso é preocupante, uma vez que pode vir a prejudicar o trabalho de visualização de direitos e de cidadania realizado por diversas organizações da sociedade civil brasileira”, afirma o ativista Cláudio Nascimento, Superintendente de Direitos Coletivos, Individuais e Difusos da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro.

Outras vozes fazem coro com Nascimento. “Por sua elevadíssima audiência, o programa pode tanto contribuir para o esclarecimento a respeito de visões preconceituosas e estigmatizadoras, quanto para contribuir justamente para o seu reforço, estimulando personalidades violentas e com dificuldades em se relacionar com a alteridade, como está parecendo ser o caso nesta versão do programa”, salienta Rita Colaço.

“Programas como o Big Brother Brasil, como qualquer cultura de massa, formam opinião, podendo trazer conseqüências tanto positivas quanto negativas. As discussões que são geradas pelas atitudes das pessoas podem tanto diminuir quanto reforçar preconceitos”, diz a jornalista Daniela Novais, que se define como lesbofeminista e atua como articuladora e mobilizadora política no LesBiBahia, articulação autonomista de lésbicas e mulheres bissexuais baianas que discute agenda política e demandas para o movimento em prol dos direitos das lésbicas.

Segundo o jornalista paulista João Marinho, administrador do blog “Gospel LGBT: homossexualidade sem preconceito”, o problema é que, “desde o começo, a emissora ‘marcou’ a sexualidade dos ‘coloridos’ como sua principal característica e diferencial de ‘grupo’. Os grupos da casa não foram formados naturalmente, foram ‘impostos’ pela produção por características que esta considerara como diferenciais. Por esse motivo, quaisquer outras características individuais dos participantes foi ‘mascarada’ – e parece que quase tudo que acontece com eles se remete àquele diferencial. No caso dos coloridos, a sexualidade. Com isso, a emissora gera polêmica e audiência, mas não é possível apontar que a homossexualidade tenha sido o motivador principal da eliminação da moça, especialmente num programa que já teve um homossexual como vencedor”.

O gay em questão foi o professor universitário Jean Wyllys, vencedor da quinta edição do programa. Porém, parece que gays discretos (como Jean) ou menos discretos e mais femininos (como dois dos atuais participantes, que demonstram bons índices de “aceitação” junto ao público) ganham mais facilmente a empatia do público, razão apontada por muitos como um dos motivos da vitória de Wyllys, que se “assumiu” dentro da casa. Por sua vez, João Marinho particularmente não vê como positiva a exposição dos homossexuais nesta edição em particular.

“Seria interessante se a emissora tivesse incluído participantes assumidos, mas não interferisse diretamente na formação dos grupos dentro da casa. Isso, sim, discutiria o preconceito de forma positiva. Não foi o que aconteceu. De certa forma, os ‘coloridos’ – e não apenas eles, mas todos os demais – foram ‘segregados’, ‘marcados’ por uma característica sua, e isso começou a pautar os diálogos, as manifestações de preconceito por parte de outros participantes, e a visão de que somos ‘seres à parte’. Por que uma pessoa não pode ser, por exemplo, ao mesmo tempo ‘sarada’ – um outro ‘grupo’ da casa – e ‘colorida’? Ao evidenciar a sexualidade como característica tão diferencial, talvez com a justificativa de trazer o diálogo, a emissora, na verdade, acaba por reforçar gays e lésbicas como pessoas ‘não-pertencentes’, excluídas de outros grupos por sua sexualidade. Isso é bem negativo”, conclui o jornalista.

Nessa busca de opiniões acerca dos participantes, o comentário da antropóloga Paula Lacerda centra-se na análise da dinâmica do programa – muito intensa – o que faz com que vários episódios façam, desfaçam e reconstruam a imagem dos candidatos: “No início do programa, Dourado compartilhou, com um outro participante, a encarnação do ‘forte e rude’. No entanto, só este último não foi estigmatizado e objeto de discriminação pelo grupo trancafiado na casa”, diz. Ela não entende por que Dourado encarne o signo pleno da discriminação contra a diversidade sexual dentro do BBB10. Para a antropóloga, a cena armada por outro participante depois que a namorada (aquela, por quem a participante lésbica se sentiu atraída) supostamente o chamou de gay (ou bissexual?) foi a grande homofobia desse programa. “Não bastasse a revolta desencadeada com a brincadeira, ele considerou um problema adicional o fato da namorada ter conversado sobre isso justamente com um dos colegas gays”.

Há um outro tipo de público que acompanha as vicissitudes do programa sem necessariamente assisti-lo: são os fãs dos blogs e comentários on line. Segundo a antropóloga e professora do Museu Nacional Adriana Vianna, o que parece estar havendo é a vitória da “tosquice” e uma reação das pessoas a não torcer pelos participantes “só” pela sua orientação sexual, antepondo-se ao que parece “politicamente correto”.

Não resta dúvida, as cenas de homofobia se inserem em muitos planos e cenas do programa e a magia dessa discriminação, tal e qual outras formas de preconceito, é fazer parecer que elas não são efeito de uma moralidade heteronormativa, mas sim de características dos indivíduos. Como a de Marcelo Dourado, que ressalta a máxima cavalheiresca de que ele não bate em mulher. A questão, assinala um fisioterapeuta gay, é que “ele não deveria bater em ninguém – nem homem, mulher, cachorrinho etc…”

IMS/UERJ – R. São Francisco Xavier, 524, 6º Andar, BL E-20550-013-Rio de Janeiro-RJ-Brasil-Tel:(21)2568-0599

Anúncios

Marcha contra o racismo da mídia

PARTICIPE!Ato contra a intolerância da imprensa brasileira às questões que envolvem gênero e etnia nesta sexta-feira (26), em DF

A CUT-DF e as entidades do Movimento Social Negro convocam o conjunto da classe trabalhadora a participar de manifestação contra a intolerância da imprensa brasileira às questões que envolvem gênero e etnia. O ato será no dia 26 de junho, sexta-feira, às 9h, com concentração no Colégio Sagrado Coração de Maria (SCRN 702/702 Norte – W3 Norte).

A grande mídia, em geral, tem se posicionado contra políticas afirmativas como as cotas raciais no ensino e no serviço público, o tratamento dado ao Estatuto da Igualdade Racial em discussão no Congresso Nacional desde 2006, o decreto 4.887 que regulariza as terras quilombolas e da lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africanas e das populações negras brasileiras nas escolas de todo o país.

A mesma mídia que não tem interesse em pautar as questões do movimento negro, fez um grande lobby para derrubar recentemente a obrigatoriedade do diploma de jornalismo no STF, com o objetivo de precarizar salários e o mercado de trabalho destes profissionais.

Fonte: CUT-DF

Audiência Pública sobre a Conferência Nacional e Distrital de Comunicação

do portal da Câmara Legislativa, Brasília — DF

Clique na imagem para saber como participar

Clique na imagem para saber como participar

Dep. Érika Kokay convoca Audiencia Pública para encaminhar Conferência Distrital e Nacional.

Pela primeira vez no Brasil, uma Conferência Nacional de Comunicação vai ser realizada. Durante os dias 1 a 3 de dezembro, em Brasília, toda a sociedade civil terá a oportunidade de formular propostas para o conjunto das políticas de comunicação, numa tentativa de democratizar um dos setores mais monopolizados do País.

No entanto, precisamos garantir que a etapa distrital seja realizada. Estamos mobilizados em torno da Comissão Distrital Pró Conferência de Comunicação e contamos com você na Audiência Pública sobre a Conferência, hoje (23 de junho de 2009), às 19h, na Câmara Legislativa.

Junte-se a nós nesta luta pela Democratização da Comunicação!

O quê: Audiência Pública sobre a Conferência Nacional e Distrital de Comunicação

Quando: 23 de junho, às 19h.

Onde: Câmara Legislativa do DF: SAIN Parque Rural. Por trás do supermercado Extra do fim da Asa Norte.

Contato: Comissão Distrital Pró-Conferência de Comunicação – Mayrá Lima: 61-96846534

MAIS: O QUE A CONFERÊNCIA DE COMUNICAÇÃO TEM A VER COM VOCÊ?

O que a Conferência de Comunicação tem a ver com você? Quando assistimos televisão ou ouvimos o rádio não sabemos que qualquer canal só pode veicular determinado conteúdo porque tem uma concessão pública. Mas o que significa ser uma concessão pública? Significa que os canais de televisão e rádio pertencem ao povo brasileiro e que para que uma empresa queira explorá-lo comercialmente precisa de autorização do estado, que é quem toma conta dos bens coletivos do povo. Em outras concessões públicas, como transporte coletivo, por exemplo, todo o serviço prestado é voltado ao interesse do cidadão e quando ele não funciona todo mundo pode reclamar para que o serviço mude! No caso das TVs comerciais, como Globo, SBT, Record, Band e Rede TV , que de acordo com a lei deveriam veicular principalmente conteúdos educativos, culturais, artísticos e informativos, isso simplesmente não acontece! Eles fazem o que querem com a programação televisiva e o cidadão não tem a chance nem de avaliar, nem de reclamar para que as coisas mudem. Além disso, há uma śerie de irregularidades cometidas por esses canais, que muitas vezes violam direitos humanos e a própria lei que regulamenta seu funcionamento. A Conferência traz a chance da sociedade dizer como devem funcionar essas concessões públicas.

Outra questão importante: você tem internet em casa? Na escola? No Telecentro? Num mundo em que cada dia mais a informação é parte fundamental da vida, a internet torna-se um recurso de primeira necessidade. Ter acesso à informação e se comunicar são direitos da cidadã e do cidadão. É dever do Estado garantir que todo mundo possa acessar e produzir conteúdos para se informar e se comunicar. Como garantir esse acesso? Como garantir condições para que os cidadãos possam distribuir os conteúdos que produzem? Esses também são debates que passam pela Conferência.

O futuro também já chegou. É celular que toca música, é computador que passa filme, é televisão que vai virar computador. Nesse encontro de tecnologias, que chamamos de convergência, ninguém sabe ao certo de que forma podemos utilizar todas essas inovações a serviço de cidadãs e cidadãos, garantindo o acesso universal ao conhecimento, e à produção de conteúdo. Como organizar todo o caminho que vai da produção de conteúdo, passando pela forma como ele será distribuído e recebido é outro tema sobre o qual os participantes da I Conferência Nacional de Comunicação.

E isso é apenas uma pequena amostra do que será discutido na I Conferência Nacional de Comunicação. A imagem da mulher na mídia, o controle social sobre o que é veiculado, direitos de resposta, legislação, práticas, participação…

Portanto, a I Conferência Nacional de Comunicação é um momento em que toda a sociedade se reúne para definir as diretrizes e ações que o poder público (prefeitos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais, ministros, presidente, juízes, promotores, etc) deve ter como prioridade no setor de Comunicação. É um momento muito especial de participação popular na definição das políticas públicas. Por isso é fundamental se inteirar e participar de todas as atividades relacionadas à Conferência na sua cidade. Procure a Comissão Estadual de onde você mora e participe!

CLIQUE AQUI PARA SABER MAIS SOBRE A I CONFERÊNCIA NACIONAL DE COMUNICAÇÃO!

Verdadeir@s urubus?

A jornalista Ana Carolina Moreno faz uma análise da cobertura jornalística de nossos tempos, os interesses e desinteresses que norteiam as manchetes, e o que fazer com isso.

Do blog Trezentos

Os verdadeiros urubus

Aconteceu mais de uma vez, durante o ano de 2007, quando eu fui repórter de geral em um jornal local. Acontecia geralmente quando me mandavam cobrir algo para as páginas que levavam a palavrinha “polícia” no cabeçalho. Mas sempre acontecia quando os envolvidos eram da classe média para cima.

Foram mais de 150 reportagens, mas um dos casos mais marcantes foi a morte de um pai e dois filhos (três policiais) quando um grupo de homens tentou assaltar a chácara deles, no interior de São Paulo. Foram feitos reféns, sabiam que seriam mortos se os criminosos descobrissem sua profissão e acabaram reagindo e morrendo. A cena era das mais tristes que já vi com meus próprios olhos, ainda que, infelizmente, não tenha sido a mais triste de todas: uma grande sala de velório com três caixões, um ao lado do outro, separados por um metro e meio. O pai no meio, os filhos nas pontas.

Eu não queria estar ali. Eu queria estar seguindo as várias pautas que, no fim, acabaram na gaveta depois que eu me demiti. Histórias sobre urbanismo, mobilidade urbana, os estudos que estava fazendo com os dados da Comissão Municipal de Direitos Humanos para debater o acesso da população aos direitos básicos, uma compilação sobre as ONGs que recebiam dinheiro do município, a investigação do possível envolvimento de fiscais da prefeitura no suborno de camelôs. Eu queria ajudar às velhinhas que ligavam no jornal pedindo ajuda para conseguir que a CDHU lhes pagasse finalmente o dinheiro do terreno que havia expropriado. Ou o senhor que fiscalizava o posto de saúde perto da sua casa e denunciava que os medicamentos ficavam expostos ao sol.

Mas me mandaram cobrir o triplo assassinato com requintes de crueldade, heroísmo e drama familiar.

Cheguei ao cemitério antes de qualquer outro jornalista. Éramos eu, o motorista do jornal, que precisou ficar no carro, e uma multidão de “parentes e amigos” entre aspas, composta em sua maioria por curiosos que estavam à tôa, moravam ali perto e queriam ver com os próprios olhos a tragédia. Carpideiras e carpideiros em igual porcentagem.

Não entrei na sala do velório nem só porque não era necessário, mas também porque ela estava abarrotada. Eu, com meu metro e cinqüenta e cinco, subi na ponta dos pés para observar o comportamento das pessoas e descobrir quem eram os parentes ou amigos próximos o suficiente para fornecer informações precisas, mas distantes o suficiente para estar emocionalmente apto para a tarefa de contar brevemente alguns detalhes sobre as três vítimas (a parte mais importante do crime). E sair de lá o mais rápido possível, rumo à delegacia para conseguir o resto dos detalhes da investigação.

Atrás de mim, me pergunta um homem:

– Você é jornalista?
– Sim. (Não preciso fingir que sou carpideira nem “parente ou amiga”, nao estava ali investigando ninguém.)
– De que jornal?– Jornal Tal.
– Conheci um repórter policial que trabalhou lá. O nome dele é Fulano. Você o conhece?

– Já ouvi falar. Ele era de antes da minha época.
– Pois ele era repórter policial. Mas, ao contrário de você, ele era ético.

Eu era novata, mas esperta o suficiente para saber que a única resposta era “o senhor tem o direito de ter sua opinião, eu só estou fazendo o meu trabalho”. Poderia ter perguntado onde está escrito que todas aquelas pessoas estavam ali unicamente porque conheciam os mortos e vieram velar por eles. Ou tê-lo processado por difamação e o obrigado a provar onde, no código deontológico do jornalismo, está escrito que é proibido entrar no cemitério ou até na sala do velório ou qualquer outra norma que eu, ali longe e quieta, estivesse transgredindo. Ou perguntado o número exato de histórias de velórios que este amigo dele contou nas muitas mesas de bar.

Mas o que eu queria mesmo é dizer que eu estava ali contra a minha vontade simplesmente porque amanhã, as pessoas que, como ele, compram o meu jornal, vao querer ler sobre esse caso. E que, se ele não conhecesse esse pai e esses filhos, ou se estivesse longe do cemitério para ver o caso com os próprios olhos, era por culpa dele que eu estaria ali, contra a minha vontade, tendo que escrever sobre o triste fim desse pai e de seus filhos. No fim, chegou outro repórter e, como fazemos nessas situações, nos juntamos, esperamos até encontrar quem poderia falar conosco, e saímos de lá o mais rápido possível para continuar nosso trabalho.

Quem me mandava para esses lugares era o pauteiro. A tarefa do pauteiro é passar a pauta para o repórter no começo do dia, para que a matéria, no fim do dia, estivesse na página e o jornal fosse comprado. Se o jornal não é comprado, os anunciantes não anunciam, e o jornal perde receita, e o jornal fecha. E o jornal é comprado principalmente porque tem fotos insinuantes de mulheres, páginas e páginas de esportes, insultos ao partido político que você nao gosta e elogios ao que você tem seu voto… E casos chocantes como o dos três policiais, um pai e dois filhos, assassinados ao tentarem reagir a um assalto. Como o empresário que havia perdido a mulher num acidente de avião e morreu em outro acidente de avião, um jatinho particular. Ou o fato de o quarto sucessor ao extinto trono brasileiro estar no vôo que caiu na costa brasileira.

Talvez eu deva ter mais tolerância com o senhor que tentou me humilhar no cemitério que as pessoas que agora tentam humilhar quem está cobrindo o acidente aéreo da vez. Afinal, ele pode muito bem ter sido amigo do pai ou de um dos filhos, estava revoltado com a tragédia e descontou em mim sem querer. Mas aposto que você leu sobre esse caso. Ou pelo menos se lembra do acidente bizarro em que caiu o pneu do ônibus e matou um homem que estava no ponto esperando a condução. Pois é, também me mandaram cobrir essa pauta.

Um acidente aéreo tem mais destaque que o acidente de ônibus da equipe do Sertaãozinho por dois motivos, um válido e outro inválido: os acidentes ganham importância de acordo com o número de mortos, e de acordo com o envolvimento de pessoas da classe dominante. O motivo válido quem provoca são as circunstâncias. A culpa do motivo inválido é toda sua, classe dominante. Porque é você que compra o jornal, e é para você que os jornalistas escrevem.

Você, que está pouco se lixando para assuntos muito sérios, mas depois tenta mobilizar a blogosfera com uma campanha contra a operadora de telefonia que te tratou mal.

Você, que sabe o nome do único tripulante do avião que tinha nacionalidade brasileira. Que criticou a futura notícia que fariam com os passageiros que iam pegar esse vôo, mas por vários motivos se salvaram. E que depois leu essa notícia do começo ao fim. Sinto dizer, mas os jornalistas, nesse caso, não são os urubus. Você é o urubu que terceiriza o trabalho da busca pelos detalhes sórdidos que tanto te atraem. Está na hora de todo mundo começar a assumir sua responsabilidade.

Quer solucionar esse problema? A palavra-chave é uma só: boicote. Não compre o jornal. Leia pela internet só as notícias sobre política, cultura e, vá lá, pode ler sobre o seu time de futebol. Mas não clique na manchete do jornal. Faça com que o quadro com as notícias mais lidas do seu portal preferido esteja limpo do nome “Air France”. Durante a rodinha no bebedouro, se alguém mencionar o acidente, mude de assunto, em vez de repetir o que acabou de ler, muitas vezes com algum dado errado (porque rigor jornalístico só se aplica a jornalistas, os fofoqueiros estão isentos, certo?).

Faça com que os jornais tenham que se redesenhar e repensar seu conteúdo. Para que a próxima novata que chegue ao jornal e proponha uma pauta que investigue para onde foram todas as pessoas despejadas de terrenos privados, mas abandonados, pela Prefeitura, no último ano, nao tenha que escutar dos chefes a seguinte resposta: “fizemos um extenso focus group com assinantes do jornal e eles disseram que nao se interessam pelos problemas habitacionais da classe baixa”.

Eu me demiti para salvar a minha alma. Para poder dormir à noite. Por culpa das 90% de pautas que o leitor me forçava a cobrir, abandonei os 10% de pessoas que eu realmente ajudei. Como a esposa de um pintor que foi assassinado em uma chacina supostamente praticada por policiais, porque estava fora de casa na hora errada. Pai de sete filhos, o mais velho tinha 12 anos e por pouco não morreu junto.

Também me enviaram ao velório do pintor (chacina é coisa de pobre, mas rico adora ler sobre elas). Uma sala minúscula, abarrotada de gente, com muito menos “parentes e amigos” entre aspas, porque todos naquele bairro já tiveram um parente ou amigo morto dessa forma e já não necessitam de detalhes sórdidos. Quando eu me preparava para ir embora, a esposa do pintor me pegou pelo braço e disse: “muito obrigada por vir até aqui, vocês são as únicas armas que nós temos”.

A sorte das esposas dos pintores é que nem todos os jornalistas são tão fracos como eu.

—–

Atualização: escrevi esse texto após um impulso, e só depois descobri que meu amigo Yassuda (blogueiro e publicitário) havia publicado um com a sua perspectiva sobre os urubus. Acho que, no fim, eu e ele pensamos de maneira igual, e muita gente que comentou aqui também: todos, produtores e consumidores de informação, temos responsabilidade pela lama em que vivemos hoje. Como não posso responder sozinha se vamos todos dar as mãos para sairmos juntos da pocilga, antes de descobrir que se trata de areia movediça, vou simplesmente mudar a categoria desse texto de “jornalismo” para “utopias”.

Boletim da Articulação Mulher e Mídia

Clique para ver o boletim ampliado

Clique para ver o boletim ampliado

Vamos mudar a nossa imagem nos meios de comunicação!

Vamos mudar a nossa imagem nos meios de comunicação!
Vamos mudar a nossa imagem nos meios de comunicação!

Oficina “Mulher e mídia: participação e controle social”

A Sapataria – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bisseuxais do DF e as mulheres do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social convidam os coletivos de mulheres, as organizações feministas e as mulheres de movimentos sociais do Distrito Federal para a oficina Mulher e mídia: participação e controle social, que acontecerá no dia 9 de agosto.

Nesse espaço, vamos conversar sobre a forma como os meios de comunicação nos tratam e discutir ações que podemos fazer para mudar esta situação.

Esta oficina faz parte dos eventos do Mês da Visibilidade Lésbica e também será uma atividade de preparação e mobilização para o Seminário Nacional da Articulação e Mídia, que acontecerá em São Paulo, entre os dias 21 e 24 de agosto.

No mesmo dia, pela tarde, a Sapataria e o Projeto Lacuna convidam para a Oficina de Vídeo-Ativismo, onde vamos aprender um pouco sobre como fazer vídeos que questionem a imagem das mulheres na mídia, dando voz ativa às mulheres e outros segmentos discriminados da sociedade.

A partir das 17h, serão exibidos alguns vídeos-ativistas realizados por mulheres ou que tratem das questões de gênero, sexualidade e mulheres.

Confira a programação abaixo. Esperamos você!

 

9 DE AGOSTO

Auditório do Espaço Magela: W3 Sul, quadra 505, Bloco A, loja 27 – entrada pela W2

Oficina “Mulher e mídia: participação e controle social”

Horário: 9h às 13h

 

Oficina de Vídeo-Ativismo

Horário: 14h às 17h

 

Mostra de Vídeos Ativistas

Horário: 17h às 18h

 

 

Para mais informações contactar:

Jandira Queiroz – 8455 6913 ou 8186-0668

Lidia Neves – 9973 9533

Marcy Picanço – 9979-70 59

 

 

FICHA DE INSCRIÇÃO

(envie para sapatariadf@gmail.com preferencialmente até o dia 7 de agosto)

 

Nome:

Entidade:

Telefone: Celular:

E-mail:

 

Vou participar da:

( ) Oficina “Mulher e mídia: participação e controle social” – 9h às 13h

( ) Oficina de Vídeo-Ativismo – 14h às 17h

( ) Mostra de Vídeos Ativistas – 17h às 18h