M.A.S.T.U.R.B.A.Ç.Ã.O. Quem tem medo de si mesma?

por Tate em cotidiana (no portal Parada Lésbica)

diária querida,

hoje decidi escrever sobre masturbação. nunca é demais falar sobre isso, né não? vivemos num pedaço de mundo que interdita o prazer a nós, mulheres: servimos muito bem como objetos do prazer de um outro (e até mesmo de uma outra), mas calaboca quando é pra falar da própria buceta, de como a gente gosta de gozar com ela.

enquanto o patriarcado for a norma social, vamos ter que fazer um esforço pra romper tabus. masturbação é um deles. eu demorei um tempão pra me encontrar nessa bela arte do auto-encontro, e, na verdade mesmo, só depois que me entendi lésbica e descobri que era capaz de dar prazer pra outra mulher é que aprendi a dar prazer pra mim mesma.

a primeira vez que toquei uma mulher e ela gozou, fiquei maravilhada/espantada! maravilhada porque é um dos momentos mais lindos possíveis de viver, pra mim: compartilhar o orgasmo de outra mulher. e espantada porque, se eu tinha conseguido com ela, por que nunca conseguia comigo?

eu até tentava me masturbar, mas não rolava aquela gana… pensava em alguma coisa que me excitasse, mas geralmente parecia mais interessante estar com outra pessoa do que pensar em estar com outra pessoa. a primeira vez que gozei me masturbando foi pensando em como tinha sido uma delícia estar com determinada guria. e como eu queria muito estar com ela, mas não tava, foi ótimo me masturbar.

depois tive que aprender a gostar de me dar prazer por mim mesma, sem precisar das fantasias ou lembranças. que podem ser legais, ótimas – sem problemas em fantasiar. mas não dava pra ficar escrava disso, porque nem sempre eu tô super a fim de alguém. então essa parte foi mais difícil, mas foi um processo muuuito importante, porque culminou na consolidação de um outro processo: entender que eu vivo melhor comigo mesma estando bem apaixonada por mim.

porque amar eu já me amava fazia tempo, me respeitava, me cuidava etc. mas não era APAIXONADA por mim. me achava muito bonita, mas não necessariamente muito gostosa. me sabia muito interessante, mas não necessariamente muito SENSUAL. a primeira coisa que eu entendi como muito sensual, em mim, foram minhas pálpebras. diária, vamo combinar que não é muito fácil ser uma mulher gorda e se achar linda E gostosa quando todo mundo te diz coisas como “nossa, você tá mais bonita, o que houve? emagreceu?”, ou “gente, ela tem um rosto tão lindo… pena que não emagrece” etc.

mas, eventualmente, assumi minha gostosice. aprendi também uma outra coisa muito importante, que eu já sabia mas ainda não tinha experimentado de verdade eu mesma: a gente não tem que aprender a se gostar pra que outras pessoas gostem da gente. a gente tem que aprender a se gostar porque se não, não sobrevive. outras pessoas gostarem da gente é uma experiência maravilhosa, e amplificada quando nós mesmas nos gostamos, mas não tem que ser a meta (nem o passo seguinte à meta, justificando ela!).

cotidiana29_01bom, tenho pensado de forma parecida sobre masturbação. não aprendi a gozar comigo mesma pra poder dizer, pra outra mulher, como eu gosto de gozar quando estamos juntas. aprendi porque acho tão gostoso estar comigo mesma e experimentar esse tipo de auto-contato e derramamento de/em mim mesma, que não admito mais viver sem esse tipo de experiência de plenitude e mergulho íntimo. gozar é uma questão de saúde sexual, mental, física…

obviamente, quem me conhece sabe que tenho essa pala de “a experiência”, “o mais profundo”, “o mais especial”, “a mais bonita” – então, nem sempre que me masturbo eu gozo. às vezes fico um tempão experimentando as texturas, as velocidades, os tipos de toque… só clitorianamente, clitorianamente e vaginalmente, com penetração ou sem, com estímulo anal ou sem… e quando vou quase gozar, experimento outra forma, outro toque, outro jeito.

às vezes fantasio alguma coisa, às vezes não. quando não fantasio é muito mágico, porque a sensação que tenho é que o orgasmo é uma ponte de carinho, membranas e umidade me levando até eu mesma, num lugar em que me deito sobre mim pra me esparramar…

depois fico vários minutos bem quieta e em silêncio gozando da cabeça aos pés. ali comigo mesma. me vendo e me sentindo desde dentro. é muito louco, porque agora reconheço isso como orgasmo, mas tenho essa experiência, esse conjunto de sensações e arrepios, faz muito tempo, mesmo sem me estimular sexualmente. e eu chamava isso de “dançar sem me mexer”.

acho muito bonito eu ter achado essa possibilidade de auto-contato depois de conhecer e me apaixonar por outra mulher, e pra mim faz muito sentido que ambas sermos negras é outra fonte de laços. por achar ela tão importante e especial, ainda que tenhamos nos afastado, eu me entendi mais especial e importante. e esse encontro, breve, confuso, intenso e referencial, me trouxe ao encontro dessa mulher que, cada vez mais, eu sou.

lembro que antes de me entender lésbica eu achava masturbação uma chatice! não “dava certo”, parecia que não funcionava: eu não sentia prazer. e ainda achava que era, de alguma forma, errado e egoísta ter prazer comigo mesma. veja bem, diária, que o dispositivo da moral judaico-cristã, de abominação do feminino e que o condena como sujo, pecaminoso, errado, funciona até com pessoas não-cristãs, como eu.

cotidiana29_02hoje, olhando com essa sabedoria que comecei a abraçar, entendo com bastante nitidez, e também serenidade, que eu tinha medo de gozar, da mesma forma que tinha medo de ser lésbica, porque tinha medo de ser eu mesma: intensa, profunda, abissal. internalizando, obviamente, o medo que o patriarcado tem do gozo e do prazer das mulheres, porque o erótico é, afinal, uma de nossas grandes fontes de poder, conexão e integridade.

lembrei de Audre Lorde, no lindo “Os usos do erótico: o erótico como poder”, quando ela diz  que o erótico

“é um lugar entre a incipiente consciência de nosso próprio ser e o caos de nossos sentimentos mais fortes. É um senso íntimo de satisfação ao qual, uma vez que o tenhamos vivido, sabemos que podemos almejar. Porque uma vez tendo vivido a completude dessa profundidade de sentimento e reconhecido seu poder, não podemos, por nossa honra e respeito próprio, exigir menos que isso de nós mesmas.”

não estou dizendo que toda mulher que não se masturba e/ou goza tem medo de si mesma. talvez a gente não precise ficar procurando motivos e explicando tudo tão minuciosamente. provavelmente algumas mulheres ainda têm medo delas mesmas, de ser plenas em seus desejos, mas se masturbam e gozam maravilhosamente. vai saber? não estou querendo dar fórmula de nada, só compartilhar com vocês como fiquei mais inteira comigo mesma depois que aprendi a gozar comigo mesma, me derramar.

(recentemente, uma amiga com seus quase 60 anos disse, numa roda de conversa, que tava tomando seu banho quando deu ‘umas coisas na cabeça’ e foi atrás de achar ‘seu ponto’. e achou! esse texto é uma homenagem pra ela, e pra primeira mulher que compartilhou seu orgasmo comigo, me ajudando a aprender sobre nosso poder erótico, “fêmeo e auto-afirmativo”, nas palavras lindas de Audre Lorde. axé! vida longa de litros de gozo às negras feministas! as imagens desse texto são do site ifeelmyself.com, que tem vários vídeos bonitos de mulheres gozando, apesar de serem muito produzidos e terem poucas pessoas não-brancas)

Anúncios

I Jornada Lésbica Feminista debate violência e feminismo

Uma série de eventos culturais e políticos marcarão a I Jornada Lésbica Feminista, lançada este ano pela Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), para marcar o mês do Orgulho LGBT e a VII Caminhada de Lésbicas. A programação terá início sábado, 6/6, às 9h com o seminário de formação “Lesbianidades e Feminismos”. No dia 12, às 14h, a LBL promove o debate “Violências: um enfrentamento urgente e necessário”. A programação também incluirá a Mostra “Lésbicas em cena”, com a exibição da peça ´Flores Brancas’, no espaço Satyros (ver endereço) e sessões de filmes no Cine Olido (Ver programação). No dia 13 será realizada a VII Caminhada Lésbica, com o tema “O Combate à violência contra a mulher e a defesa de um mundo feminista”, a partir das 13 horas na praça Oswaldo Cruz, seguindo pela Avenida Paulista, até o MASP. A LBL também montará uma tenda na feira da diversidade cultural, que ocorre no dia 11 de junho, no Vale do Anhangabaú.

Clique e confira a programação:

06/06 Seminário de Formação: Lesbianidades e Feminismos
08/06 Mostra Lésbicas em Cena – Teatro
09/06 Mostra Lésbicas em Cena – Teatro
09/06 Mostra Lésbicas em Cena – Cinema
10/06 Curso de Defesa Pessoal – WenDo
11/06 9ª Feira da Diversidade Cultural – Tenda da LBL
12/06 Debate: Violências, um Enfrentamento Urgente e Necessário
13/06 VII Caminhada Lésbica e Bissexual de SP
14/06 13ª Parada do Orgulho LGBT

I Jornada Lésbica Feminista


06 a 14 de junho de 2009
Participe!

______________________________________________________________

Seminário de Formação: Lesbianidades e Feminismos


Dia 06 de junho sábado – 9h às 18h
Local: Rua Condessa de São Joaquim, 215
(próx. Metro São Joaquim – trav. da Av. Liberdade e Brig. Luiz Antonio)

manhã

dinâmica do abraço

exposições e debates

convidadas: Regina Facchini (Unicamp), Lúcia Xavier (Criola/RJ), Lurdinha Rodrigues (LBL)

tarde

convidadas: Simone Diniz (Rede Feminista), Alcilene Cavalcanti (CDD), Ariane Meireles (LBL)

18h – apresentação musical Grupo Quintal de Iaiá (voz, violão e percussão)

informações:
www.lbl.org.br
www.lblsp.blogspot.com – e-mail: lblsp@uol.com.br

Participe!

fonte: http://www.paradasp.org.br/caminhadalesbica

Divulgado o tema da VII Caminhada Lésbica de São Paulo

Tema adverte a importância de não se calar sobre a violência contra a mulher

Do DykeramaParada Lés SP 2008. Foto: Jandira Queiroz
Publicado em 23/5/2009 às 03:26

VI Caminhada reuniu cerca de 2500 pessoas

“Não se cale! Ser lésbica é um direito! Não à violência contra a mulher, por um mundo feminista” é o tema da VII Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, que acontecerá no dia 13 de junho, véspera da Parada do Orgulho LGBT.

No ano passado a Caminhada reuniu cerca de 2500 pessoas e foi marcada pela diversidade e caráter político.

O Dykerama.com anunciou que ainda hoje (25/5) trará mais informações sobre a VII Caminhada Lésbica. Fique ligada!

calendária feminista versus a imprevisibilidade dos dias

por Tate em Cotidiana

25 Janeiro 2009 as 1:58 am

 

querida diária, “aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia.” essa frase tá na minha cabeça há dias, querendo ser escrita. tentando ser conectada com minha vontade de fazer mais um capítulo desse caderno, essa vez conversando sobre uma calendária feminista. já que começou 2009 – contagem feita pelo calendário gregoriano, cristão, que aceitei meio por solidariedade a muitas pessoas amadas ao meu redor (pra não falar das burocracias que acabam colocando nossa vida em seus labirintos…) –, já que essa coluna é sobre feminismos, pensei que podia ser massa esboçar uma calendária feminista. dando um rolé pelas datas que algumas/uns coletivos e organizações tão planejando, pensando a calendária do confabulando, tentando desenterrar um gás pro ‘ano novo’, e também servindo como recurso de organização dessa diária, como uma rede temática que inspirasse alguns escritos por aqui. então veio 2009 com suas promessas novas tentando vencer aquelas do ano anterior, quebradas ou fracassadas ou decepcionadas. 2008 foi um ano particularmente denso pra mim – muito aprendizado, muito auto-conhecimento, muita partilha, mas muita muita tristeza, muita perda, muitas lágrimas. mas além de querer que 2008 terminasse logo, eu não tinha grandes expectativas pra 2009. nem com a mudança, nem com o final do curso, nem com a oferta de um trampo fera, nem com a retomada das atividades do fórum. fiquei achando que aquele verso de “do fundo do nosso quintal”, que diz “pra quem não desencantou”, não era mais meu y da bornú – era só dela, agora, porque tenho me sentido completamente desencantada. ok, algumas coisas me fizeram pensar muito, como a posse de barack obama nos u$a*, ou o xou dos racionais marcado pra 17 de janeiro. mas pensamento sem movimento… fiquei dias torcendo pro dia 17 chegar logo, que nem as crianças ricas ficam esperando o natal. mas quando chegou eu y ellen tínhamos marcado nossos chás de casa nova, justamente no mesmo final de semana. porque eu achava que ia começar no tal maravilhoso trampo novo (auxiliar de cozinha num restaurante vegetariano) no dia 19, então tava com pressa pra receber as amigas na casa “nova”. não vou mentir que foi dureza escolher entre ficar na festa até o final ou sair na tora, no meio, pra ir nos racionais. mas fiquei em casa. minha mãe tava aqui, várias amigas queridas também… ficamos. teve pagode feminista, comidinhas veganas, sorvete, muitos presentes, afetos, trocas… foi ótimo. me senti num aniversário de 08 anos de idade, nessa mesma casa, quando minha irmã ia fazer 05 e minha mãe, minha tia y meu pai faziam uma festa só pras duas (15 dias de diferença entre o aniversário de uma y de outra). até acontecer o chato. eu tava no quarto “yoko ono” tardão já, improvisando uma cortina com um retalho lilás que comprei em salvador, patches de bandas que não ouço mais com tanta freqüência – crass, disrupt, doom… –, alfinetes tirados de um projeto-de-saia-pra-uma-amiga (minha máquina de costura ainda não veio pra cá), um pedaço de fita plástica imitando laço de cetim, cor: amarela. chega uma de minhas amigas com uma cara péssima. ela, uma pretinha fodida de periferia. a outra, uma branquinha classe média. ela, comunista, sapatão, feminista. a outra com seus clichês agressivos ambulantes: “meu povo tem as coisas porque trabalhou pra isso! o que mais as pessoas negras querem com essas cotas? vocês já conseguiram tudo que queriam!”. eu não tava na sala nessa conversa. nem queria estar. essa casa aqui é uma casa de duas feministas negras, lesbianas. não quero ouvir isso na casa em que moro. não acho que tô, nesse exato momento de minha vida, com alguma capacidade de ter que ter uma conversa tão pesada na casa nova pra onde me mudei pra me afastar de um monte de mágoa, intranqüilidade, neurose, monotema – mesmo sabendo que, apesar de cansar muito, a militância não tem férias… mas gente! era inauguração da casinha nova! 3 horas da manhã! só não me arrependi de ter perdido os racionais porque minha mãe tinha vindo. tinha ficado até tardão com a gente. tinha me ajudado as duas semanas anteriores com a mudança, com coisinhas reutilizadas pra casa – emprestou rodo, vassoura, cabide, trouxe mil caixas, carregou coisa comigo, foi em loja de material de construção me ajudar a comprar coisas… ela é sensacional. mas mesmo assim, até pra ela ia sobrar. porque no dia seguinte, de manhã, minha parceira de casa nova foi acordada com duas vizinhas conversando entre os portões. coisas como “não vou admitir esse tipo de comportamento”, “vou chamar a polícia”, “vou falar com a mãe dela”… a casa não é minha só porque moro nela, mas porque sou legalmente a dona da casa. então, falar com minha mãe nem ia resolver – só tentar me infantilizar. quanto ao comentário da não-admissão, relacionei à bandeira do arco-íris que deixamos pendurada no portão – a mesma vizinhança homofóbica de quando saí daqui, com uns 20 anos. o que me irritou particularmente foi o “vou chamar a polícia”. mais um indício de que no brasil há esse vício em instituições repressoras como única possibilidade de resolução de conflitos, como autoridade de intercessão nas relações entre pessoas… porque no brasil questão racial virou caso de polícia. transporte público virou caso de polícia. tudo é caso de polícia? que tipo de herança ditatorial é essa da qual não conseguimos (ou não queremos) nos livrar? é uma herança-prognóstico? mais um signo de que um sistema que se pensa democrático a partir de delegação de interesses coletivos a instâncias supostamente representativas formadas por cúpulas se afunda na inviabilidade, refletida em ou fundante de nossa incapacidade de gerenciar nossa vida por nós mesmxs? é outra evidência de que nosso modelo de democracia é essencialmente fascistóide, porque nunca abriu mão dos sistemas de repressão y punição primeiramente tidos como método de consolidação de si (pela imposição do medo ao terror se justifica o terrorismo de estado) mas depois, freqüentemente, como ferramenta sempre a mão (pela mera sugestão da ameaça, às vezes realizada, o controle é exercido)? as ferramentas de um poder que é uniforme, mas distribuído em categorias de desamor, racismo, sexismo y lesbofobia, viadofobia, transfobia, gordofobia, classismo, especismo, degradação ambiental, mental, espiritual y íntima – pra colocar algumas – funcionam muito didaticamente. doutrinam por escolas. a novela ensina como sermos românticas, monogâmicas, rivais de outras mulheres. a escola ensina quais conhecimentos são bons y quais não são. a polícia ensina quem deve transitar em que lugar, a que horas, como, com que roupa, com que pele. a igreja ensina que tipo de relação estabelecer com um único sobrenatural legitimado. o estado ensina como não podemos aprender a nos organizar por nós mesmxs. tradições fundamentadas em mitos sem lastro nos ensinam quem matar pra comer, nos convencem de que aquelas pessoas assassinadas ou torturadas não são pessoas, porque são animais, y só animais humanos é que são pessoas não-passíveis de virar comida. são muitas escolas. mas não é surpreendente que mais meninas saibam conjugar o verbo haver no pretérito mais-que-perfeito do que se masturbar, gozar, porque há várias escolas de gramática contra nenhuma de educação sexual pra mulheres. não surpreende que homens brancos saibam mais sobre nossas vaginas do que nós mesmas. não surpreende a surpresa de minha vizinha ao ver que a nova vizinha antiga virou sapatão, só tem amiga sapatão, e elas cantam, dançam, se beijam até de madrugada (o que não é muito surpreendente em festas…). não culpo a vizinha porque culpa é um sentimento formatado pelo cristianismo, mas a responsabilizo por ter feito escolhas que excluem, condenam ou não compreendem as escolhas das outras pessoas. como também me responsabilizo por exclusões do tipo dar uma festa sem chamar nenhuma das vizinhas, além de um casal lesbiano que mora na rua. de qualquer forma, era uma abertura-de-casa pra pessoas amadas, amigas. eu não amo a vizinha, nem sou amiga dela. ia ser massa se tivéssemos uma convivência mais transparente y direta, em que as conversas se estabelecessem por meio de diálogos ao invés de portões, e em que os pedidos de “você pode diminuir o barulho?” fossem feitos sem ameaça de polícia. acho que isso tem a ver com outra daquelas escolas, a do desamor. ou desafeto, se amor tem uma carga muito romântica: a escola que ensina o afeto máximo pelo terror, pela intervenção de instituições, ao mesmo tempo em que ensina o terror pelo afeto. tenhamos medo de amor, de afeto, de carinho, da dádiva. porque é mais fácil ter medo, que depois vai servir de justificativa pra uma decepção quase aguardada: “eu não falei que ela não prestava? eu já sabia. por isso eu nunca consegui confiar nela de verdade”. é bizarro como polícia possa ser tão facilmente relacionada a afeto? acho mais bizarro como vivemos em um pedaço de mundo que consegue separar tão facilmente todas as coisas, compartimentalizando, classificando, categorizando, dissecando. outro vício do pensamento iluminista ocidental: positivismo em todas as práticas, cientificismo como estrutura de análise, rigor asceta como filtro de legitimidade, cartesianismo como sistema de inteligibilidade compreensão (acho ainda mais bizarro que essas coisas estejam todas tão entranhadas na gente que até pra escrever mal delas eu não consiga me libertar de uma forma de escrita que é completamente mergulhada nelas! vou parar de escrever? vou escrever só poemas? vou fazer música, pintar, gritar, espernear, chorar, ou só ficar sorrindo rindo mesmo dando muitas gargalhadas até… cansar? vou deitar pra dormir, sonhar y pensar em nunca mais acordar?) querida diária, sei que esse texto tá louco. sei que fiz uma proposta de escrever uma calendária e acabei fugindo dela. mas sei também que a imprevisibilidade do texto tem a ver com a própria imprevisibilidade da rotina que tento relatar aqui. como estou suficientemente convencida de que cotidiano é uma questão feminista, posso tentar dividir esse convencimento com quem tá lendo isso aqui. mas se não der certo não tem problema nenhum, porque uma diária pode ser válvula de escape, uma tentativa solitária de romper a solidão da escrita, uma tentativa minha de conexão – comigo mesma, com meus desejos, mas também com quem vai ler essas palavras. não tem que ser um tratado dialético linear. porque tenho sentido a vida acontecer em processos, não em hipótese-antítese-síntese. não quero! como ninguém além de mim esperava a calendária feminista, então ela fica pra próxima: já que o ano gregoriano acabou de começar, mesmo pra mim sendo janeiro mais um prelúdio. começar, mesmo, começa em fevereiro. dia 07. o começo do meu retorno de saturno. não sei porra nenhuma de astrologia, mas um planeta que tem bambolês y luas só pode ser especial. como a lua negra do céu que tenho no peito é. esse capítulo confuso, torto, esquisito, reclamão, tem a ver com minha preta. o desafeto dela. a evasão linear. o medo do amor. mas sempre ela, que tava comigo quando abri meus olhos pro céu. é pra ela y pra mim qu

e termino com Andrea Canaan: “EU PROCLAMO: uma guerreira, uma sereia, uma mulher que finalmente se ergue com firmeza, uma mulher que toca seu íntimo e as estrelas no céu. Sou uma mulher que já não é uma criança, uma mulher que se torna inteira e sã. Está feito. Então deixe acontecer.” — * uma pequena homenagem à pouco saudosa cena hardcore do df. especialmente pela Lice, pelo silente, pelo carnissa, pelo barulho, por estarmos juntas.

29 DE AGOSTO – DIA NACIONAL DA VISIBILIDADE LÉSBICA

Pronunciamento de Daniela Marques – militante da Sapataria – na Sessão Solene em homenagem ao Dia Nacinal da Visibilidade Lesbica, dia 29 de agosto, na Câmara Legislativa do DF.
 
O dia de hoje – 29 de agosto – marca o início do primeiro Seminário Nacional de Lésbicas, o SENALE, ocorrido em 1996 na cidade do Rio de Janeiro, reunindo cerca de 100 mulheres lésbicas e bissexuais de todo o país.
 
O SENALE é um marco na história do movimento de lésbicas no Brasil. Surgiu a partir da necessidade de se criar um espaço para discussão das questões específicas de mulheres lésbicas e bissexuais, de forma ampla e democrática, porque em atividades mistas esse espaço era praticamente inexistente. E, não nos iludamos, continua sendo. Sendo assim, o SENALE passou a ser o espaço próprio e legítimo de proposição e deliberação das lésbicas organizadas no Brasil.
 
O que queremos quando nos organizamos e vamos à luta – literalmente – por aquilo que acreditamos? Em que acreditamos, afinal?
 
Acreditamos, acima de tudo, que o mundo à nossa volta pode ser mais justo e eqüitativo. Acreditamos ser possível superar as desigualdades incrustadas na cultura machista, racista e heteronormativa que oprime, desrespeita e violenta mulheres, pessoas LGBT, pessoas negras, crianças, pessoas pobres, e assim por diante.
 
Sabemos que o modelo político e econômico que está colocado já não atende às necessidades da comunidade global no século 21, assim como nunca atendeu às nossas necessidades e desejos. Por toda a nossa existência, tivemos que nos adaptar a um mundo feito por homens e para homens – independente do objeto de nosso amor e desejo ser mulher ou homem! Não é assim a Democracia, por exemplo? Feita por e para homens?
 
Por isso, desde sempre, vimos buscando alternativas para um mundo verdadeiramente possível, com oportunidades de vida justa e digna para todas as pessoas, sem discriminação por orientação sexual, raça, classe ou outro tipo qualquer.
 
Um exemplo dessa busca é a teoria da Economia Política Feminista, desenvolvida durante as últimas décadas. Acreditamos nela e não desistiremos de implantá-la em todos os níveis da sociedade, por acreditarmos que esta é uma alternativa concreta viável. Não nos sentimos contempladas pelas obras do PAC, pela reforma superfaturada da via EPIA ou do viaduto de Águas Claras, e muito menos pela descoberta da camada de petróleo pré-sal.
 
Acreditamos em um sistema público de transporte que seja eficiente, limpo e pontual, com motoristas educados e conscientes, que pratiquem a direção defensiva e não esta que conhecemos – a ofensiva; acreditamos na frota abastecida com biodísel fabricado a partir da mamona ou outro produto complementar da agricultura familiar, gerando distribuição de renda e economizando poluição.
 
Assim, todo o cimento utilizado para a construção de viadutos inúteis e a fina camada de piche que recapeia nossas pistas ano após ano poderiam ser aplicados, muito mais justamente, na construção de casas, escolas, hospitais, pistas de skate, quadras de basquete… E este é só um exemplo, no vasto leque de possibilidades já comprovadas para um desenvolvimento sustentável e justo.
 
Apesar de tudo isso, atuando em linha de frente paralela, ainda em 2008 as lésbicas lutam pelo seu espaço nas esferas de elaboração de políticas públicas, buscando serem consideradas e respeitadas como cidadãs de direitos. Os 508 anos de história do Brasil reservaram às mulheres que amam mulheres um lugar à margem da sociedade, em plena era de globalização e “desenvolvimento social”. Para nós, mulheres lésbicas e bissexuais, não há política de saúde, educação, emprego e renda, cultura, capacitação profissional, nem mesmo de prevenção a DST e Aids – só para citar alguns exemplos de exclusão e desigualdade.
 
No DF, as entidades de lésbicas organizadas promoveram no mês de agosto uma ampla programação de debates políticos e eventos culturais com o objetivo de promover a cidadania e a visibilidade lésbica. Mas a nossa luta continua durante todo o ano, todos os dias, até o dia em que todas as mulheres – lésbicas, bissexuais e heterossexuais – tenham as mesmas oportunidades, o mesmo respeito e o mesmo direito a uma cidadania plena que todas as pessoas.
 
Se você é lésbica ou mulher bissexual, procure os grupos e ONGs organizadas na sua cidade. No Distrito Federal, contamos com duas entidades de lésbicas organizadas, que são a:
 
Associação Lésbica Feminista Coturno de Vênus; e a
 
Sapataria – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais do DF
 
Organize-se!! Exija seus direitos e viva sua liberdade de expressão afetiva e orientação sexual. Acompanhe as programações. Demande que sua deputada ou deputado distrital, que o Governador e todas as Secretarias do GDF façam e regulamentem leis que atendam às suas necessidades.
 
Lembre-se: SUA BOCA É FUNDAMENTAL CONTRA FUNDAMENTALISMOS! Não fique calada, exija seus direitos!!
 
Obrigada, e até domingo na Parada Lésbica!

MULHER COM MULHER DÁ: POLÍTICA!!!

Estamos chegando ao final do Mês da Visibilidade Lésbica no Distrito Federal, e contamos com a mesma alegria, orgulho e apoio de todas as mulheres lésbicas e bissexuais para embelezar a programação dessa semana, que promete!! Teremos filmes, festa, oficina sobre violência contra mulher e, domingo, a nossa PARADA LÉSBICA, que esse ano traz o tema MULHER COM MULHER DÁ: POLÍTICA!! Confira dias, locais e horários abaixo:

Terça-feira (26/ago) – Tem III Mostra Lésbica de Cinema e Vídeo, no teatro da administração de Planaltina (em frente a rodoviária), às 19:30h.
Filme: Fogo e desejo. Fire. Deepa Mehta, 1997, Canadá e Índia, 1h44min.
Vídeo: Histórias Lésbicas. Maria Angélica Lemos, Brasil, 26 min. Aberto ao público, grátis!
Realização: Coturno de Vênus

Quarta-feira (27/ago) – Tem Encontro das Jacaroas e Encerramento da III Mostra Lésbica de Cinema e Vídeo, na Casa Roxa (QE 28 – conj B – Casa 13 – Guará 2), às 20h, só para mulheres! Grátis!
Filme: Itty Bitty Titty Committee. Jamie Babbit, 2007, EUA, 1h27 min.
Vídeo:
X Encontro Feminista Latino Americano e do Caribe. X EFLAC, Kaka, 2004, Brasil, 25 min.
Realização: Coturno de Vênus

Quinta-feira (28/ago) – Tem Festa das Lésbicas!! Uma festa áudio-visual!! No Espaço Galleria(Conic), a partir das 22h, mulher R$10,00, homem R$15,00. Com as DJs She-ra e Xena; Lee e Ana; Karla Araújo; Háll.
A grana da festa será usada para pagar as despesas da IV Parada Lésbica, colabore, vá e chame as amigas, ajude a realizar a Parada Lésbica!!!
Realização: Coturno de Vênus

Sexta-feira (29/ago) – Sessão Solene da Visibilidade Lésbica, na Câmara Legislativa, Asa Norte, às 15h.
Realização: Gabinete da Deputada Érika Kokay

Sábado (30/ago) – Oficina “Utilização da Lei Maria da Penha nos casos de lesbofobia”, das 10h às 13h, e oficina de “Wen Do – técnicas de defesa pessoal para mulheres” das 14:30h às 17h.
Na Associação Sócio – Cultural Radicais Livres SA – São Sebastião-DF (Sede Provisória dos Radicais Livres S/A, Rua 49, Casa 90, bairro Vila Nova – rua da papelaria Preferida próximo ao supermercado União).
Realização: Sapataria – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais do DF.


Domingo (31-ago) – IV Parada Lésbica de Brasília. Mulher com Mulher dá POLÍTICA!!!
Na EQS 505/506, a partir das 14:30h.

A política é muito importante! É participando da política nos movimentos sociais, nos partidos políticos, nos espaços de controle social do Estado e dos governos, e na escolha consciente de nossos parlamentares, que nós mulheres lésbicas podemos transformar o mundo e construir uma sociedade que nos respeite e garanta nossos direitos. Vamos fazer política!!!
Mulher com Mulher dá POLÍTICA! E juntas vamos exigir leis e políticas públicas que afirmem e promovam cidadania plena para as mulheres lésbicas!!