RedeTV e Superpop: lesbofobia reparada

JUSTIÇA CONDENA PROGRAMA SUPERPOP POR OFENSAS E DANOS MORAIS A LÉSBICAS

A apresentadora barraqueira explora a sensibilidade de pessoas comuns para aumentar sua audiência e sua fortuna.O Juiz Mario Sergio Leite, da 2ª. Vara Cível de Barueri-SP, proferiu no último dia 8 de julho uma sentença condenatória à Rede TV e ao advogado Celso Vendramini, no processo movido contra eles pela psicóloga e escritora Valéria Melki Busin, 42, e pela servidora pública Renata Junqueira de Almeida, 44, determinando o pagamento de uma indenização por danos morais a ambas no valor de 80 salários mínimos.

Em março de 2002, Valéria e Renata compareceram ao Programa Superpop da Rede TV, apresentado por Luciana Gimenez, para participar de uma entrevista ao vivo sobre união estável entre pessoas do mesmo sexo, com o objetivo de reduzir a discriminação e o preconceito contra homossexuais. Ao contrário do alegado no convite, entretanto, ambas foram surpreendidas com a realização de um “barraco”, em que foram ofendidas verbalmente em razão de sua orientação sexual.

Na sentença o juiz afirmou que o advogado Celso Vendramini atuava como um preposto da Rede TV e que o programa Superpop era “destinado a clamor publico”, “um “show de mau gosto, pré-estabelecido”. Disse também que “as autoras foram vítimas de uma encenação, para causar escândalo e segurar o público através do tom apelativo e grotesco”.

A cantora, compositora e colunista Vange Leonel e a advogada Ana Elisa Lolly foram testemunhas das autoras, e seus depoimentos embasaram e auxiliaram a decisão condenatória. Um outro ponto que também convenceu o juiz da encenação do programa foi que a vinheta: “BARRACO: GAYS BRIGAM PARA ADOTAR FILHOS” fora gerada no começo do programa, antes mesmo de se iniciar o suposto debate e a série de ofensas. Ou seja, a produção havia premeditado um “barraco”.

A ação judicial foi proposta pelo advogado Eduardo Piza Gomes de Mello, do escritório PIZA DE MELLO E PRIMERANO NETTO ADVOGADOS ASSOCIADOS, que declarou que “esta sentença é importante para ajudar a criar uma nova cultura de respeito à diversidade sexual como elemento constitutivo da dignidade da pessoa humana” e que, doravante, “os profissionais de comunicação deverão ser mais cautelosos ao abordar o tema da orientação sexual”.

Para Valéria Melki Busin, apesar de a experiência ter sido muito traumática, a condenação dos réus contribui para reparar os danos sofridos por toda a comunidade LGBTT. “Nossa maior preocupação era não deixar que tamanho desrespeito aos direitos humanos das pessoas homossexuais ficasse impune. Agora, esperamos que essa sentença sirva como exemplo e que as pessoas homossexuais, bissexuais e trans se sintam ainda mais estimuladas a lutar por seus direitos, inclusive na justiça.”

Renata Junqueira de Almeida declarou: “Sinto que a justiça foi feita e me traz alegria imaginar, em função disto que aconteceu com a gente e de todas as outras conquistas que os LGBTTs vem realizando, que nossa sociedade caminha para uma convivência mais equilibrada e respeitosa com o diferente”.

Contatos:
Valéria Melki Busin – valerinhamb@uol.com.br
Renata Junqueira de Almeida – rejunqs@yahoo.com.br

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A rede educacional brasileira começa a enfrentar o preconceito contra alunxs homossexuais

Por Ana Aranha

No começo do ano, Daniel foi recusado em sete escolas particulares de São Paulo. Ele é transexual, um menino que se sente e age como uma menina. Só conseguiu vaga em uma escola especial, para alunos com alguma deficiência.

Quando era aluno de colégio federal do Rio de Janeiro, Pedro Gabriel Gama fez um protesto na escola contra a falta de água. No dia seguinte, ouviu do diretor: “Isso é coisa de veado!”.

Em uma escola particular de Araguaína, Tocantins, Lídia Vieira Barros brigou com uma aluna que a chamava de “sapatão”. No dia seguinte, Lídia foi mandada à orientação psicológica. A outra, não.

Em Piracicaba, interior de São Paulo, um aluno move ação contra a Secretaria de Educação. No meio de uma aula sobre fotossíntese, no ano passado, o professor se recusou a lhe entregar uma apostila. “As bichinhas não precisam desse material”, disse.

Os quatro episódios narrados acima ilustram um grande problema da rede educacional brasileira: a falta de preparo da escola para lidar com a homossexualidade e os preconceitos que ela provoca. Entrevistas feitas por ativistas gays em seis capitais mostram que a escola é o primeiro ou o segundo lugar no qual homossexuais e transexuais mais sofrem preconceito. E não é só. Duas pesquisas feitas pela Unesco em 2004 ilustram a gravidade do preconceito nas escolas: uma delas, entre os alunos, descobriu que 40% dos meninos brasileiros não querem um colega homossexual sentado na carteira ao lado; outra, com professores, mostrou que 60% deles consideram “inadmissível” que uma pessoa mantenha relações com gente do mesmo sexo. “Há um muro de preconceitos que impede as pessoas de aceitar os homossexuais: eles são promíscuos, não têm família, morrem de aids. Quando se veem diante de um aluno gay, os professores e diretores simplesmente não sabem como agir”, diz o educador Beto de Jesus, da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

Beto de Jesus é um dos coordenadores de um projeto financiado pelo Ministério da Educação para formar professores e ajudar as escolas a lidar com a diversidade sexual de seus alunos. O grupo vai produzir um kit didático para 6 mil escolas. Nele, haverá orientação para diretores e professores e material para os alunos. Como parte do mesmo projeto, estão sendo realizados encontros regionais com secretarias da Educação, ONGs e universidades. A ideia é coletar experiências de sucesso para ajudar a formular uma política nacional para o problema. O grupo também realiza, neste momento, a maior pesquisa qualitativa sobre homofobia nas escolas de dez capitais brasileiras, com a intenção de mapear os principais conflitos e soluções. “As escolas não estão preparadas nem para identificar esse preconceito. Enquanto os professores não podem aceitar que um aluno chame o outro de ‘negrinho’, ‘veadinho’ ainda é considerado brincadeira”, diz Carlos Laudari, diretor da Pathfinder Brasil e um dos coordenadores do projeto junto com Beto.

O Daniel ou a Dani?

Aos 8 anos, Daniel (o nome foi trocado) espalhava para os amiguinhos do colégio que era obrigado a ir disfarçado para a escola. “Meu pai quer um filho homem e me faz usar essas roupas e esse nome. Mas eu sou menina.” Aos 13, começou a passar base, usar brinco e fazer as unhas. Daniel é transexual, pessoa que nasce com um sexo, mas se sente e age como o sexo oposto. Na escola, pediu a professores que o chamassem de Dani, com pronome feminino. Queria ser “a” Dani. Mas só duas professoras concordaram. Uma semana depois que colocou mega-hair (aplicação de mechas no cabelo), sua mãe foi chamada à escola. Os pais de uma colega de classe ligaram indignados: “Não queremos nossa filha perto dessa aberração”. A solução encontrada pela diretora foi proibir a produção: o cabelo deveria estar preso e nada de maquiagem, brinco ou esmalte. Dani continuou a usar esmalte branco e brincos pequenos, mas tinha de tirar tudo quando cruzava com a diretora. No dia em que foi pego usando o banheiro feminino, levou uma bronca tão grande que nunca mais fez xixi na escola. Segurava até a hora de chegar em casa.

No ano em que saiu do armário, Dani repetiu pela primeira vez. Começou a faltar às aulas semanas seguidas e tirar nota vermelha em quase todas as matérias – menos nas duas em que as professoras concordaram em chamá- lo de Dani. A mãe se mudou para São Paulo, atrás de escolas que soubessem lidar com a diferença. Um mês depois da mudança, Dani havia sido recusado por sete colégios. Só foi aceito em uma escola especial, dirigida a alunos com dificuldade de aprendizagem e deficiência física ou mental.

É muito comum alunos transexuais abandonarem os estudos. Eles se sentem rejeitados por professores que se recusam a chamá-los pelo nome do sexo oposto e pelas restrições a seu modo de vestir. Para evitar que parem de estudar, algumas secretarias de Educação estão criando uma portaria para orientar as escolas. A primeira delas foi aprovada no Pará, no ano passado. Desde janeiro, alunos transexuais podem escolher o nome e o sexo, que fica registrado em sua matrícula. Assim, professores, diretores e funcionários têm de chamá-los e tratá-los pelo sexo de sua escolha. Em um mês, a secretaria contou 111 transexuais e travestis matriculados. “São jovens de 19 a 29 anos que tinham abandonado a escola e agora estão voltando”, diz a psicóloga Cléo Ferreira, uma das coordenadoras das mudanças na secretaria.

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Pedro e o diretor

Aluno de um dos colégios federais mais disputados do Rio de Janeiro, Pedro Gabriel Gama passou os primeiros anos do ensino médio tomando coragem para se assumir gay. Ele testava a aceitação dos amigos com pequenas revelações sobre sua personalidade. Levou meses para ter coragem de cruzar a perna e colocar um brinco. As amigas reagiam: “Que brinco ridículo é esse?”, “Descruza essa perna, parece uma moça!”. A cada pequeno tabu que quebrava, vibrava com a conquista pessoal. Cansado de jogar futebol na educação física, simulou um problema no joelho para conseguir atestado médico. Conseguiu ser liberado. Mas, no intervalo, aumentavam as risadinhas abafadas. Depois de cruzar com meninos no corredor, ouvia-os imitar: “Ai, ai”.

Pedro sempre achou que a maior resistência para aceitar sua homossexualidade viria dos alunos. Até o dia em que entrou em conflito com o diretor. Líder do grêmio escolar, ele mobilizou uma greve por um dia para protestar contra a falta de água na escola. No dia seguinte, viu o diretor se aproximar dele, furioso, no pátio. “Na frente de todo mundo, ele disse: ‘Isso que você fez não é coisa de homem, é coisa de veado’.” O aluno não reagiu. “Eu não tinha base para argumentar, nem sabia que aquilo se chamava homofobia”, afirma Pedro. Ele só se assumiu na faculdade.

“A homofobia está ligada ao machismo. Os meninos desclassificam o gay para mostrar que são machos”, afirma o educador Lula Ramires, especialista na formação de professores para lidar com a diversidade sexual. Para tentar formar uma geração mais flexível, educadores estão tentando quebrar a divisão entre os sexos na escola. Já no pré, colocam meninas e meninos para usar o mesmo banheiro e brincar nas mesmas atividades. Nas fábulas, às vezes o príncipe salva a princesa, às vezes a princesa salva o príncipe. “A flexibilidade e a capacidade de se relacionar com pessoas diferentes são habilidades importantes para essa geração, que a escola não pode deixar de trabalhar”, diz o educador Beto de Jesus.

Lídia e a psicóloga

Quando estudava em uma escola particular de Araguaína, Tocantins, Lídia Vieira Barros ouvia comentários de amigos e professores sobre o fato de usar camisetão, tocar violão e não se preocupar em ser delicada. Um dia, foi pega beijando outra menina no banheiro. A notícia rapidamente se espalhou. “Ela era uma das mais bonitas da escola. Os meninos vieram me cumprimentar”, diz Lídia. O preconceito contra as lésbicas é diferente. Ele se manifesta mais contra os modos e as vestimentas masculinizadas e menos contra a opção sexual propriamente dita. Um dia isso explodiu contra Lídia. Cansada de uma aluna que gritava “sapatão” toda vez que se cruzavam no pátio, ela chamou a menina para briga. Elas se atracaram na saída do colégio, e as mães das duas foram chamadas para conversar. Na frente das quatro, a coordenadora orientou a mãe de Lídia a procurar uma psicológa para sua filha. “A outra menina saiu no crédito. Eu é que precisava de tratamento”, diz.

É comum a reação das escolas que ainda tratam o homossexual – e não o preconceito – como o problema. “A falta de preparo é grande. Os professores e diretores precisam saber separar o que pensam do modo como agem quando a questão é alunos homossexuais”, diz Alexandre Bortolini, coordenador do Projeto Diversidade Sexual na Escola, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Geraldo e as apostilas

Em Piracicaba, interior de São Paulo, um aluno de 17 anos, Geraldo (o nome foi trocado), move uma ação contra a Secretaria de Educação. Ele conta que o professor de biologia se recusou a entregar uma apostila para ele e seus amigos, com a seguinte alegação: “As bichinhas não precisam deste material”. Foi reclamar na direção e fez um boletim de ocorrência. O professor foi recriminado verbalmente e pediu uma semana de licença. Depois voltou a dar aulas. Ao contrário do racismo, que pode dar cadeia, a homofobia é crime civil. Quem é condenado paga uma multa. Nesse caso, se houvesse condenação, quem pagaria a multa seria o governo, porque o professor estava em horário de trabalho.

Para tentar evitar esse tipo de confronto, uma ONG da mesma cidade ensina os professores a lidar com a diversidade sexual. O Centro de Apoio e Solidariedade à Vida faz oficinas no horário de planejamento dos professores ao longo de três anos. Primeiro, levam textos e vídeo sobre o que já foi estudado na área. “Eles ficam sabendo dos mitos que já foram quebrados e refletem sobre seus valores e preconceitos”, diz Anselmo Figueiredo, diretor da ONG e coordenador do projeto. No segundo ano, levam materiais para o professor trabalhar com os alunos e, no terceiro, vão para as salas de aula aplicar as atividades. “O professor fica assistindo para ver que não é um bicho de sete cabeças.”

ÉPOCA acompanhou uma dessas oficinas e notou como é difícil tratar o tema com os adolescentes. “É possível uma pessoa nascer com pênis e se sentir mulher?”, perguntou Anselmo a uma turma de 1o ano do ensino médio. Um aluno respondeu em voz alta: “Todo homem que gosta de homem se sente mulher!”. E continuou em voz baixa: “O Henrique (o nome foi trocado) se sentia mulher…”. O comentário foi seguido por risadinhas a seu redor. Ele se referia a um colega que estudou na mesma sala. Gay assumido, Henrique foi cercado e agredido por dez alunos mais velhos no ano passado. Anselmo continuou: “Vamos repensar nosso comportamento. Por que homem não pode gostar de balé?”. Os alunos responderam em coro: “Hummm…”. O próprio Anselmo riu com os alunos. Ele sabe que apenas uma oficina não vai mudar a cabeça de ninguém. “Precisa de trabalho constante, cartazes, atividades e intervenção do professor quando o preconceito aparecer.”

 

Published in: on 27/04/2009 at 19:11  Comments (3)  
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Preconceitos e estereótipos: invertendo a situação

Questionário para heterossexuais:

O jornalista Renato Pompeu apresenta um questionário distribuído a alunos de 14 anos, no terceiro ano do secundário no Instituto Móstoles (Madri), e que fez parte do seminário “Preconceitos e Estereótipos – Inverter a Situação”. As perguntas ajudam a ‘desnaturalizar’ o modelo heterossexual, que alguns equivocadamente supõem ser válido para todo ser humano. Esta suposição equivocada é a fonte da homofobia e da intolerância.
Fonte: Caros amigos (maio de 2008)

1. O que você pensa que causou a sua heterossexualidade?

2. Quando e como você decidiu que era heterossexual?

3. É possível que a heterossexualidade seja apenas uma fase que você possa superar?

4. É possível que a sua heterossexualidade derive de um medo neurótico em relação às pessoas do seu próprio sexo?

5. Se você nunca teve relações com uma pessoa do seu próprio sexo, não pode ser que o que você precisa é de um bom amante do seu próprio sexo? (…)
8.Por que você insiste em ostentar sua heterossexualidade? Por que você não pode ser simplesmente quem é e ficar numa boa? (…)

10. Parece haver muito poucos heterossexuais felizes. Foram desenvolvidas técnicas que podem ajudá-lo a mudar. Você já considerou a possibilidade de fazer terapia de reversão?

11. Considerando a ameaça que constituem a fome e a superpopulação, a raça humana poderia sobreviver se todos fossem heterossexuais como você?

O preconceito está no sangue!

mao-sangue

 

Mesmo tendo parceiro estável, HOMOSSEXUAL é rejeitado como doador pelos
hemocentros, com base em norma da Anvisa. Para especialistas, regra se
prende a questões superadas e estimula a estigmatização.

 

– O senhor tem parceira fixa?

– Não. Tenho parceiro fixo.

– Parceiro? Então, infelizmente, não poderá ser doador de sangue.

(silêncio)

– Fique calmo, isso aqui não é discriminação.

– É o quê, então?

O diálogo acima ocorreu na manhã da última quinta-feira, em uma clínica do
Setor Hospitalar da Asa Sul. O empresário de 34 anos, HOMOSSEXUAL assumido,
não compreendeu o que a médica lhe disse. Explicou que há quatro anos mantém
um relacionamento estável com outro homem, tem hábitos saudáveis e nunca
teve doenças venéreas ou qualquer outro tipo de empecilho que tirasse a sua
condição de doador. A médica, desconcertada, falou sobre a resolução RDC 153
da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamenta os
procedimentos da Hemoterapia Brasileira. Entre outros pontos, no documento
consta que homens que tiveram relações sexuais com pessoas do mesmo sexo nos
últimos 12 meses, ou suas parceiras, não podem doar sangue (veja quadro).

Era a primeira vez que o sentimento de discriminação lhe tocava. Não soube o
que fazer diante da colocação da especialista e preferiu não alongar a
conversa. Ligou para o namorado logo depois de deixar o escritório. Do outro
lado da linha, a revolta de quem se vê apartado do convívio social pela
opção sexual. “Ela sequer perguntou sobre o nosso comportamento na relação.
Confio no meu parceiro e sei que poderíamos ajudar as pessoas que precisam
de sangue nos hospitais”, contou o empresário, que decidiu procurar o
Correio para retratar o ocorrido. Para evitar a exposição, ele pediu para
não ter o nome revelado. Mas, durante a conversa, não escondeu o incômodo
que passou naquela manhã: “Não tenho receio de assumir minha sexualidade,
mas nunca tinha passado por isso”.

A iniciativa de doar sangue pela primeira vez surgiu após convite de um
sócio, heterossexual e casado. Como todos os doadores, o empresário passou
por uma primeira avaliação – medição de peso, altura, pressão arterial e
teste para detectar anemia – para depois seguir para a triagem, onde ocorre
uma série de perguntas sobre a vida do voluntário. A responsável pelo setor
de coleta da clínica da Asa Sul, Fernanda Andrade, explicou que
especialistas formulam os questionamentos com base na resolução da Anvisa.
“Seguimos a legislação para eliminar o risco de contágio para os
receptores”, justificou a assistente social. Perguntas do tipo: “Você tem
uma vida promíscua?” ou “já teve relação com homem, viciado ou portador do
vírus HIV?” procuram selecionar doadores com menor chance de infecção.

Estigma

O risco de contaminação pelo vírus não está ligado ao gênero, mas ao
comportamento das pessoas nas relações sexuais. Essa é a opinião do
professor do departamento de serviço social da Universidade de Brasília
(UnB), Mário Ângelo Silva, que há 10 anos estuda o vírus HIV. Segundo ele, a
divisão em grupos de risco ficou no passado. No início da epidemia, em
meados da década de 1980, as pessoas não sabiam prevenir a doença. “Hoje, a
situação é outra. Estudos mostram que o índice de contágio entre
homossexuais diminui a cada ano. Deve-se levar em conta se o doador tem
parceiro fixo e usa CAMISINHA”, observou. Para o especialista, um
heterossexual promíscuo ou uma mulher traída pelo marido, por exemplo, pode
representar uma ameaça maior aos receptores e passar pela triagem.

Mário explicou que a justificativa para a discriminação de homens que têm
relação com outros homens – mulheres homossexuais podem doar – diz respeito
à facilidade de contágio pelo sexo anal. Nesse caso, é maior a possibilidade
de ruptura de vasos sangüíneos durante a penetração, o que aumenta as
chances da contaminação após a ejaculação. “Por acaso mulheres não fazem
sexo anal? O argumento é falho por si mesmo e só aumenta a estigmatização
dos homossexuais”, insistiu o psicólogo. Ele explica que a exigência do
período de 12 meses sem relação com outro homem diz respeito à janela
imunológica, tempo necessário para o exame acusar o vírus. “A janela é
menor, de 16 dias, mas determinaram esse tempo por medida de segurança”,
complementou.

O promotor do Ministério Público do Distrito Federal (MPDF), Diaulas
Ribeiro, contou que em diversos estados brasileiros correm na Justiça
processos contra a resolução da Anvisa. No entanto, os tribunais têm mantido
a resolução. “Considero uma violência e sou contra a medida. Na minha
opinião, ela se prende a situações que já foram superadas e estimula o
preconceito”, afirmou. O representante do MPDF fez uma recomendação ao
HEMOCENTRO de Brasília, em 2005, para que médicos não questionassem os
doadores com relação à opção sexual. Mas, segundo a direção do local, a
recomendação não foi seguida e as perguntas sobre a sexualidade do
voluntário continuam, assim como em outras clínicas e hospitais do DF
contatados pelo Correio.

Restrição é sustentada por estudos

Instruções mantêm os homossexuais nos grupos em situação de risco

O Correio procurou a Agência de Vigilância Ambiental (Anvisa) para
esclarecer os motivos que levaram à inclusão de homens que fizeram sexo com
outros homens na lista de pessoas que não podem doar sangue, conforme a
resolução RDC 153. O órgão reconhece a complexidade da questão, mas
justifica a medida com uma série de estudos nacionais e internacionais que
comprovam a maior presença do vírus HIV entre homossexuais do sexo
masculino. No entanto, dados do Ministério da Saúde sobre a incidência da
doença na última década, divulgados em 2007, revelam que o número de casos
cresceu entre heterossexuais e se estabilizou entre homo e bissexuais.

A maioria dos estudos usados pela Anvisa data do fim da década de 1990 ou
início dos anos 2000. Boletim epidemiológico do Programa Nacional de
DST/AIDS, de 2005, revelou que homossexuais masculinos tem 11 vezes mais
chances de contrair o vírus da AIDS, se comparados a homens que têm relações
com mulheres. Outra pesquisa, do Centro de Controle de Doenças
norte-americano, publicada em 2001, mostrou que 37% dos homens aidéticos
tiveram relação HOMOSSEXUAL. Nos Estados Unidos, bem como em países
europeus, o grupo é excluído definitivamente do quadro de doadores,
independentemente do tempo da última relação sexual com o parceiro.

A Anvisa esclarece ainda, por meio da assessoria de imprensa, que,
efetivamente, não existe o “direito” de doar sangue. Segundo a agência,
qualquer pessoa pode se candidatar como doador, mas a aceitação depende de
uma série de fatores que levam em conta o risco para a saúde do receptor. O
presidente da ONG Estruturação, que luta pelo direito dos homossexuais em
Brasília, Welton Trindade, reconhece que há maior incidência da AIDS entre
gays. Mas afirma que a resolução é discriminatória: “Não pedimos regalias,
queremos que seja igual para todos. Se um hetero que usa CAMISINHA pode
doar, um HOMOSSEXUAL também pode”.

Segundo boletim do Ministério da Saúde, dos casos de AIDS registrados na
população masculina brasileira em 1996, 29,4% ocorreram entre homo ou
bissexuais, 25,6% em heterossexuais e 23,6% em usuários de drogas
injetáveis. Dez anos depois, em 2006, o mesmo boletim evidencia a mudança de
comportamento. Também considerando a população masculina, o documento mostra
que 27,6% dos casos da doença atingiram homo ou bissexuais, 42,6%
heterossexuais e 9,3% usuários de drogas. (JC)

Regras da doação:

Resolução define os excluídos

A resolução RDC 153 da Anvisa, de junho de 2004, determina que sejam
excluídos do quadro por um ano os candidatos a doadores de sangue que, nos
últimos 12 meses, tenham sido expostos a uma das situações abaixo.

  • Homens que tiveram relações sexuais com outros homens e/ou as parceiras
    sexuais destes
  • Homens e ou mulheres que tenham feito sexo em troca de dinheiro ou de
    drogas, e os parceiros sexuais dessas pessoas
  • Pessoas que tenham feito sexo com um ou mais parceiros ocasionais, sem uso
    do PRESERVATIVO
  • Pessoas que foram vítimas de estupro
  • Homens ou mulheres que tenham tido relação sexual com pessoa com exame
    reagente para anti-HIV, portador de hepatite B, hepatite C ou outra infecção
    de transmissão sexual e sangüínea
  • Pessoas que estiveram detidas por mais de 24 horas em instituição carcerária
    ou policial
  • Pessoas que tenham feito piercing ou tatuagem sem condições de avaliação
    quanto à segurança
  • Pessoas que sejam parceiros sexuais de pacientes de hemodiálise ou com
    história de transfusão sangüínea
  • Pessoas que tiveram acidente com material biológico e, em conseqüência,
    apresentaram contato de mucosa e ou pele com o referido material biológico.

 

Fonte: 

Correio Braziliense 
23/NOVEMBRO/08
http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_13/2008/11/23/noticia_interna,id_sessao=13&id_noticia=51097/noticia_interna.shtml

 

Published in: on 23/11/2008 at 22:55  Comments (1)  
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Preconceito: a razão dos imbecis

rayuela

por Juliana Monteiro, jornalista e sócia-proprietária da Rayuela Livraria e Bistrô – 412 sul, Brasília
Publicado no “Sala de Cronópios”, vol. 3, 2008

As guerras dizem que ocorrem por nobres razões: a segurança internacional, a dignidade nacional, a democracia, a liberdade, a ordem, o mandato da civilização ou a vontade de Deus. Nenhuma tem a honestidade de confessar: ‘Eu mato para roubar’. Essa afirmação é do escritor Eduardo Galeano.

rayuela-livrariaDa mesma forma que não assume que mata para roubar, nenhuma nação – ou indivíduo – em guerra usa o argumento do preconceito para justificar um conflito. Mato porque não gosto de você, da forma como você pensa, da forma como você vive, da forma como professa sua fé. Mas, sim, o preconceito é a pólvora de muitos dos conflitos que assistimos passivamente em nossa aldeia e em nosso planeta.

“Não me diz respeito”. Será? Olhe ao redor. São tristemente comuns comentários e atitudes preconceituosas. Sejam contra negros, mulheres, idosos, gordos, gays (e lésbicas), pobres, ricos, comunistas, capitalistas, religiosos. Contra quem fuma, contra quem come carne, contra quem simplesmente vive de forma diferente da nossa. Não há limite para a intolerância.

O preconceito distorce, deturma, convence. Cria ódios, acirra disptas, transforma consciências. A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito, escreveu o escritor americano Denis Diderot. O filósofo Voltaire foi ainda mais contundente ao afirmar que os preconceitos são a razão dos imbecis. Maquiavel também não se esquivou do assunto: Os preconceitos têm raízes mais profundas que os princípios. E é triste constatar que, enquanto os valores são cada vez mais flexíveis em nossa sociedade, os preconceitos permanecem imutáveis.

Uma vez recebemos na Rayuela um cliente que nos chamou, cheio de indignação, para reclamar de uma pouca vergonha na mesa ao llado. A pouca vergonha eram duas moças, com as mãos entrelaçadas. A nós, da Rayuela, custa entender o afeto como falta de vergonha em nosso mundinho tão carente de carinho.

rayuela_rExplicamos para o cliente que em nossa casa separamos briga; faltam-nos argumentos para separar carinho. O cliente não mais voltou à nossa casa. É uma pena que nossa atitude tolerante seja julgada por alguns. Para estes o conflito é facilmente assimilado. Não entendem que se ama apesar de… e que o diferente é o maior barato!

É urgente se premitir a convivência com o diferente. Mesmo sendo incompreendida por alguns, a Rayuela continua sua missão de difundir a tolerância. Nossa casa continua aberta para todos (e todas), sem istinção. E nos solidarizamos com o lamento de Albert Einstein: Triste época a nossa! É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito.

Intolerância entre alunos

Radiografia da rede pública do DF realizada por pesquisadores indica que mais da metade dos alunos presenciaram discriminação por causa da cor nos colégios e 63% testemunharam preconceito sexual

Por Erika Klingl e Diego Amorim Da equipe do Correio, Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Correio Braziliense/DF

Aluno da 7ª série do ensino fundamental, Rafael* é negro. “Só que um dia o professor chamou ele de preto de sangue ruim. Daí, ele nunca voltou para a escola”, conta o colega de turma do adolescente. “É comum eu ouvir: ‘Olha, ela veio com a mesma roupa de novo.’ E eu finjo que ignoro”, desabafa uma menina do 1º ano do ensino médio. “Aqui, se a pessoa tiver um jeito estranho já é gay e acaba sendo zoada”, afirma Carolina*, da 8ª série. Em comum, essas histórias têm o cenário – salas de aula da rede pública de ensino – e o preconceito.

“A escola é um ambiente cheio de conflitos, o que não é ruim. Mas quando eles não são mediados de forma adequada acaba resultando em violência, mesmo que simbólica”, explica a socióloga Miriam Abramovay, responsável por uma pesquisa que, pela primeira vez, diagnosticou a violência da rede pública de ensino no DF. O levantamento, feito com mais de 11 mil pessoas, entre alunos e professores, abordou o problema nas escolas de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental e no ensino médio. A análise reflete um universo de mais de 186 mil estudantes e outros 20 mil docentes. Os dados relacionados ao preconceito são assustadores.

Nada menos que 55% dos estudantes já viram discriminação nas escolas por causa da cor e quase 13% contam que sofreram. Em números absolutos, isso representaria 24 mil adolescentes. Mas o que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a discriminação por causa da pobreza, sentida por 6,1% dos estudantes e vista de perto por 42%. “A gente não imagina que os números sejam tão altos”, observa Miriam. Nas entrevistas, ela ouviu expressões que a chocaram. “Assentamento Haiti é nome de rua de Santa Maria. Churrasquinho é apelido de negros.” Para a educadora Beatriz Castro, o fato preocupa. “Fica a dúvida se a escola cumpre o papel de formar cidadãos”.

Desmaio

Quando o assunto é preconceito por ser ou parecer homossexual, os casos são ainda mais freqüentes: 63% dos alunos dizem que já viram discriminação. Dos estudantes do ensino médio, 4,3% já sentiram na pele a discriminação. Maurício* foi um deles. Tanto ouviu que um dia não agüentou tanta zombaria. Durante a apresentação de dança na feira cultural do Centro de Ensino Médio 3 de Ceilândia, duas semanas atrás, até tentou abstrair os xingamentos que ouvia, os gritos de veado e baitola. Mas, quando acabou a música, desmaiou. “Ele já estava nervoso. Com o povo zoando, ficou mais ainda. Aí desceu do palco, foi andando até o fim do auditório e caiu”, descreve um aluno da 7ª série. O episódio ainda é comentado entre os estudantes. Maurício, segundo a turma, é homossexual assumido.

Os que gostam de ser os “malandrões” do colégio são os que mais zoam os colegas. Para sustentarem o status, costumam atingir os mais fracos, os negros, os gordos, os mais pobres, os baixinhos. Agridem com palavras, comentários, risadas. “O pessoal fica mangando de mim direto, me chamando de ‘limpador de aquário’, essas coisas. Mas deixo quieto. Um dia ou outro eles vão cair na real”, diz um garoto de 14 anos, 1,51m de altura, aluno da 8ª série do Centro de Ensino Fundamental 4 de Ceilândia. Na cidade em que mora e estuda, os xingamentos já foram ouvidos por 42% dos estudantes. Isso porque Ceilândia está longe de estar entre as piores. De acordo com a pesquisa, em Brazlândia e Santa Maria, metade dos estudantes costumam sofrer violência desse tipo. 

 

Pesquisa mostra intolerância entre estudantes da rede pública de ensino
Pesquisa mostra intolerância entre estudantes da rede pública de ensino

Cadernos Pagu – Resenha: Masculinidade, feminilidade e a reprodução das desigualdades

Guita Grin Debert
Coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu, Unicamp, professora do Departamento de Antropologia do IFCH/UNICAMP e pesquisadora do CNPq. ggdebert@uol.com.br

Declarando que não teve muita sorte na loteria genética, Ilana Löwy abre L’ emprise du genre com uma das descrições mais densas e penetrantes do que é a discriminação racial. Morena de olhos escuros e cabelos pretos e ondulados, ela conta, no prólogo do livro, com tiradas em que não falta senso de humor, que bastava haver um anti-semita num lugar público, na Polônia do pós-guerra, para que sua aparência, invariavelmente, atraísse observações discriminatórias sobre os judeus.

Conhecemos bem a violência física, moral e psicológica que o racismo produz, levando desde o extermínio de diferentes grupos sociais até o deslocamento de populações por todo o planeta. Menos evidente é a forma pela qual a opressão pode ser interiorizada ou negada pelas vítimas do preconceito.

Os relatos de suas experiências ao longo da infância somados à apresentação de uma bibliografia que indica o interesse recente pela história e cultura judaicas na Polônia oferecem uma nova dimensão à compreensão das dificuldades de ser membro de um grupo minoritário.

Manter secreta a origem judaica é uma possibilidade que depende, em grande medida, da fisionomia e da aparência de cada um, mas é surpreendente a ineficácia das estratégias elaboradas para minimizar os efeitos da discriminação. Mesmo depois da queda do regime comunista, denunciar as origens judaicas de um candidato era uma arma na luta política, que levava alguns deles a agitarem em suas campanhas eleitorais certificados de batismo ou fotos do enterro de suas mães para se defenderem dessas acusações. A inutilidade das tentativas de negar ou minimizar a importância de suas origens acabou por deixar os indivíduos sem uma folha de parreira para cobrir uma dupla vergonha: vergonha de suas origens e da negação de suas origens.

Para minimizar os efeitos da discriminação racial, o poder comunista também declarou que o “problema judeu” deixara de existir na Polônia e que restavam apenas relíquias de anti-semitismo propagadas pelos adversários do regime ou por pessoas incultas. Impediu-se, assim, o debate das relações entre judeus e poloneses no século XX, do significado do Shoah e da violência contra os judeus que se seguiu no pós-guerra polonês, favorecendo a manutenção dos piores estereótipos anti-semitas, mesmo entre os setores mais jovens da população.

Essa ausência de debates e o papel ativo do silêncio na reprodução das desigualdades marcam o tratamento que será dado à questão de gênero neste livro.

Essa volta à dominação masculina é ousada, particularmente no caso da leitora encarregada da resenha ser, como eu sou, antropóloga e feminista. É praticamente um instinto profissional dos antropólogos se precaverem de estranhamentos fáceis e identificações apressadas. Aprendemos que gênero não é sinônimo de diferença sexual, nem de valores e comportamentos que se constituem numa base tida como biologicamente natural. Antes, é uma noção que ganha força quando chama a atenção para as formas específicas que a dominação assume em contextos muito bem determinados. Falar assim da opressão da mulher, mesmo se a referência for as mulheres nas sociedades ocidentais contemporâneas, “educadas e vivendo acima do nível de pobreza”, como é afirmado neste livro, é estar atenta à uma generalização excessiva.

A ousadia de Löwy é, no entanto, bem vinda, porque tratar da dominação masculina não é reiterar o discurso da vitimização da mulher que a noção de gênero obrigou as feministas a reverem. O desafio do livro é descrever uma mistura particularmente opressiva que envolve a existência de atitudes discriminatórias e sua negação. É ela que permite a passagem do modo como o anti-semitismo foi vivido na Polônia do pós-guerra à discriminação da mulher, posto que, cada vez mais, torna-se raro encontrarmos pessoas que se dizem, com todas as letras, racistas ou homofóbicas.

O livro propõe, assim, uma reflexão sobre as formas de reprodução da discriminação das mulheres nas sociedades que proclamam forte e em bom som a igualdade entre os sexos.

… continua

Para ler a resenha na íntegra, clique aqui.

Para acessar o índice do Caderno Pagu nº 30 (jan/jun 2008), onde está publicada esta resenha e que traz um dossiê sobre “Gênero e Islã”, clique aqui.

Maluf e Lula: discursos diferentes, mas iguais

Hetero… o quê?

do blog Bota Dentro

Você já ouviu falar do termo ‘heteronormatividade’? Não? Mas, com certeza, em algum momento da sua vida já se viu em uma situação completamente influenciada por ela. Eu explico: este termo é usado para descrever situações nas quais as variações da sexualidade são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas.

Vem daí aquele argumento mais que manjado e combatido pelos gays e pelos simpatizantes: aquela idéia de que os seres humanos recaem em duas categorias distintas e complementares, macho e fêmea, e que relações sexuais e maritais são normais somente entre pessoas de sexos diferentes. Assim, segundo essa norma (que significa esquadro em latim), sexo físico, identidade de gênero e papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa em padrões integralmente masculinos ou femininos, heterossexuais.

Duas declarações publicadas nesta quarta-feira pela imprensa mostram bem o quanto a nossa sociedade é feita para heterossexuais, mesmo quando quem fala não tem a menor intenção de ser preconceituoso. Vejamos: o ex-prefeito e atual deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), mais uma vez candidato à Prefeitura de São Paulo, disparou: “Eu tenho um profundo sentimento cristão. O normal é homem gostar de mulher. Homem com homem não é normal. Não vou dizer que é normal só para ganhar votos de gays”.

Em situação completamente oposta, mas com alguma coisa em comum, está a entrevista concedida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à Agência Brasil, empresa estatal de comunicação. Não é segredo para ninguém que o presidente já fez várias vezes comentários positivos em relação às uniões homoafetivas. E desta vez, ele foi direto no ponto: Presidente, o senhor é a favor do casamento gay?

A resposta: “Eu a vida inteira defendi o direito à união civil. Acho que nós temos de parar com hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária. Constroem uma vida juntos, trabalham juntos e por isso eu sou favorável. Eu acho que nós temos que parar com esse preconceito.”

O problema está no trecho seguinte: “Olha, nós temos que tratar sem nenhuma discriminação a vida que cada um leva dentro de casa, o parceiro que quer ter a mulher ou homem é problema deles. O importante é que sejam cidadãos brasileiros, respeitem a Constituição e cumpram com seu compromisso com a Nação. O resto é problema deles e eu sou defensor da união civil.”

Desculpe, presidente. Mas, eu não quero ser gay só dentro de casa. Esse trecho me lembra aqueles discursos: “Quer dar a bunda em casa? Tudo bem. Só não me vem dar beijinho na rua, tá?”

Tropeço de Lula ou não, eis a influência da heteronormatividade.

Acrescento algo mais aqui. Além de reivindicar o respeito dentro e fora da minha casa, ou seja, da esfera privada, ser lésbica ou gay não é “problema” nosso, é condição, orientação, e até pode ser opção em alguns casos. Agora… problema, não é. Torna-se um problema de saúde pública quando tantas e tantos de nós somos agredid@s violentamente a cada dia, simplesmente porque amamos e nos relacionamos de modo que foge à regra da heteronormatividade.

Definitivamente, já que o Presidente Lula anda se aventurando a dar declarações sobre direitos de homossexuais (parabéns pra ele!!) precisa de uma boa assessoria em assuntos LGBT, alguém que explique essas coisas pra ele, senão vai ser gafe atrás de gafe. Não adianta muito levantar a bandeira em Conferência Nacional, sem saber o que ela representa para cerca de 10% da população brasileira. Essa frase do “é problema de cada um o que faz dentro de casa” ele proferiu também na Conferência Nacional LGBT, no meio de outras pérolas, e muita gente fez cara de limão azedo na platéia, mas era o Presidente apoiando a causa… Obrigada, Presidente! Mas se o apoio não for consciente e consistente, pode até atrapalhar…

Todavia, nem tudo são críticas. O Presidente saiu-se muito bem fazendo o seguinte questionamento:

“Por que os políticos que são contra [a união homoafetiva] não recusam os votos deles, por que o Estado brasileiro não recusa os imposto de renda que eles pagam?”, questionou Lula.

Por quê?

Segundo a Agência Brasil, para o presidente, a sociedade e o Estado brasileiros têm que parar de agir com hipocrisia.

Para nós também, Presidente!

Postado por Jandira Queiroz

KATITA: medo de altura

Quadrinhos de Anita Costa Prado

Quadrinhos de Anita Costa Prado