Acusado de racismo pega um ano de prisão.

por Luísa Medeiros
Acusado de cometer crime de racismo na internet, Marcelo Valle Silveira Mello, 23 anos, foi condenado ontem pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a cumprir pena de um ano e dois meses de reclusão em regime aberto(1) e a pagar multa de sete dias do valor do salário mínimo vigente à época da acusação, em 2005. O rapaz respondeu ao crime por escrever, sistematicamente, mensagens ofensivas contra os negros e o sistema cotista da Universidade de Brasília (UnB) no site de relacionamentos Orkut. Ele chamava os negros de “burros, macacos subdesenvolvidos, vagabundos”, entre outros termos preconceituosos. A decisão unânime de condená-lo a um ano e dois meses é da 2ª Segunda Turma Criminal, que aceitou o recurso do Ministério Público do DF contra a absolvição do acusado concedida em primeira instância da Justiça. No entanto, a sentença será substituída em penas alternativas a serem decididas pelo juiz da Vara de Execuções Penais do DF. Relator responsável pelo caso em segunda instância, o desembargador Roberval Belinati afirmou na decisão que o direito constitucional de manifestar o pensamento livre não pode ser utilizado para acobertar prática de conduta criminosa. Num dos trechos escritos por Marcelo Valle no Orkut, em 14 de junho de 2005, ele diz que “esses pretos vão eh estragar a universidade pública mais do que já estragaram”, e ainda, “preto no céu é urubu, preto correndo é ladrão e preto parado é bosta”. Em entrevista concedida ao Correio, em agosto de 2006, Marcello Valle negou que era racista e disse que as mensagens foram inscritas para irritar as pessoas e se tornar popular. Em seu voto, o magistrado discorda da interpretação da juíza de primeira instância, Geilza Fátima Cavalcanti Diniz, que, em sua sentença, alegou que Marcelo Valle sofria de distúrbios psicológicos e, portanto, não teria intenção de praticar o racismo. Para o desembargador, essa interpretação não é mais adequada, já que o próprio acusado confessou ser o autor das declarações e os exames psicológicos mostraram que ele é capaz de entender o caráter lícito do fato. O preconceito de Marcelo Valle na internet foi denunciado ao Ministério Público de São Paulo por um internauta paulista. O órgão investigou o acusado brasiliense, constatou o racismo(2) e remeteu o inquérito para o MP do Distrito Federal.

Fonte: http://aposentadoinvocado1.blogspot.com/2009/09/acusado-de-racismo-pega-um-ano-de.html

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onde você guarda seu racismo?*

Copiando de: cotidiana, número 13: auto-ajuda feminista y dicas de beleza parte 01.

diária querida,

inventei de publicar semanalmente, agora, ao invés de a cada quinzena.

ando bem ocupada – envolvida em 4 coletivos, com um emprego de 8h/dia, o máximo de créditos no meu semestre de formatura, mudança de casa, mudança de estação… por dentro ando um turbilhão de pensamentos/sentimentos/emoções-conflituosas/saudades-pegajosas/resoluções-difíceis/presenças-fantásmicas(fantásticas!), mas por fora ando bem tranqüila como todo mundo anda dizendo, e muito bonita.

bonita como sempre, porque entendi que boniteza é um tipo de destino. algumas pessoas ficam chocadas com minhas afirmações contundentes sobre mim mesma, uma altíssima auto-estima, me sinto muito gostosa e interessante e inteligente e maravilhosa e tem gente que realmente se espanta em me ouvir dizer isso, afinal, sou uma mulher gorda, que não se depila, que veste roupas com combinações lindamente esdrúxulas (muito calculadas, que sou bem vaidosa), cheia de tatuagem tosca; e afinal sou uma mulher negra – todxs sabemos que a negritude tem sido forçada a andar do lado da contra-beleza, e já escrevi sobre isso (na dicionária da confabulando).

é por isso mesmo que acredito e sinto, do fundo de meu coração negro como o coração negro que tenho tatuado no peito, do fundo de meu útero vermelho, do fundo de minha cabeça que às vezes dói de pensar, do fundo de minhas veias mas também em toda minha superfície, do fundo de meu coração cheio de saudade da minha amor, minha preta, o que sinto transbordantemente que é justamente porque a negritude tem sido o lugar por excelência da abjeção que afirmar e celebrar minha beleza contundentemente, escandalosamente, sensual e sensorialmente é ação direta contra o patriarcado racista .

quem se incomoda que se enxergue. e se veja maravilhosa também.

mulheres todas que somos, vivemos num regime patriarcal secular que tenta sufocar qualquer expressão de felicidade plena e liberdade que exerçamos. mulheres todas que somos, se não nos achamos lindas como ferramenta de luta contra esse patriarcado, o que vai nos restar pra acharmos de nós mesmas?

passei muito tempo achando que minha pele era feia, que meu corpo gordo era feio, que minha voz era feia, que o que eu pensava era feio, que o que eu sentia era feio e errado. aí eu lembro de baby suggs, recontada pela melhor contadora de histórias de todos os tempos: toni morrison. tem uma pregação que baby suggs, escravizada liberta e pregadora, faz no meio do bosque. o livro é “amada” (beloved, de 1987):

“Aqui”, ela disse, “nesse lugar mesmo, somos carne; carne que chora, gargalha; carne que dança descalça na grama. Amem isso. Amem isso com força. Porque lá eles não amam sua carne. Eles desprezam ela. Eles não amam seus olhos; eles arrancariam eles assim que pudessem. Amam menos ainda a pele de suas costas. Lá eles esfolam vocês. E oh, gente minha, eles não amam suas mãos. Essas eles só usam, amarram, acorrentam, decepam e largam vazias. Amem suas mãos! Ame elas. Levantem elas e beijem elas. Toquem outras pessoas com elas, batam palmas com elas, esfreguem elas no rosto, porque eles também não amam elas não. Vocês têm que amá-las, vocês! E não pensem que eles adoram a boca de vocês. Eles, lá fora, eles vão vê-la quebrada e vão quebrá-la de novo. O que você fala com ela eles não vão prestar atenção. O que você grita com ela eles não vão ouvir. O que você coloca nela para nutrir seu corpo, eles vão arrancar e te dar as sobras no lugar. Não, eles não amam sua boca. Vocês têm que amá-la. É da carne que estou falando aqui. Carne que precisa ser amada. Carne que precisa descansar e dançar; costas que precisam de apoio; ombros que precisam de braços, braços fortes é o que eu digo. E oh, gente minha, lá fora, me escutem, eles não amam seu pescoço livre e ereto. Então amem seu pescoço; ponham uma mão nele, façam carinho e toquem ele e o mantenham firme. E todas as suas vísceras, que eles iam usar como lavagem pra porcos se pudessem, vocês têm que amá-las. O fígado escuro, escuro – ame ele, ame ele, e o coração cansado e pulsante, amem ele também. Mais que os olhos ou os pés. Mais que os pulmões que ainda vão sorver ar livre. Mais que seu útero segurador de vida e as partes íntimas que plantam vida, me escutem agora, amem seu coração.”

cotidiana13_02_toni-morrison

auto-estima não é conversa fiada de revista feminina. é questão de sobrevivência, é ação direta contra o racismo e a misoginia, é uma arma de guerra!
nessa semana vai ser votada a ação de inconstitucionalidade das cotas que o dem ajuizou no stf. estou apreensiva mas “durmo pronta pra guerra”. salve, racionais.

nessa semana a programação do Mês da Visibilidade Lésbica de Brasília ficou pronta. estou cansada e muito satisfeita. salve, aliança sapataria e coturno.
nessa semana eu comecei cantando e acordei sorrindo. meu coração sabe porquê. é um motivo que faz rir mas também tem feito chorar. e como fico mais bonita rindo, vamos lá retomar as gargalhadas. salve, minha amor. pra você, meu olhar de infinito.

psiu. agradeço às pessoas que postaram comentários que nos permitem conversar e debater sobre racismo e ação afirmativa pro enfrentamento dele no brasil, mas às pessoas que tentam esconder a perversidade do racismo afirmando que ele não existe e querem resolver um problema racial com um disfarce raso de pobreza, galera, isso não resolve nem o racismo nem a pobreza. é contra essas vozes da dissimulação que estendo a minha. “fraternidade universal” porra nenhuma, eu quero é sororidade negra, respeito às particularidades… eu sei contra quem minha voz se eleva. cada qual que aprenda a dirigir a sua contra quem incomoda. oras!

* Por Tate, integrante da Sapataria – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais do DF

Published in: on 24/08/2009 at 11:44  Comments (1)  
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Ato em defesa das/os alunas/ cotistas na Universidade de Brasília nesta semana

Convidamos a todas e todos para comparecer nos próximos dias 23 e 24 de julho no Ceubinho na UnB, onde recepcionaremos as/os alunas/os cotistas em seu primeiro dia de registro como universitárias/os. 

Estas/es estudantes estão correndo o risco de perder sua matrícula conquistada de forma legítima e legal pela ação do Partido Democratas, que “entrou com ação no Supremo Tribunal Federal, nesta segunda-feira (20/7), para suspender a matrícula dos aprovados no vestibular da Universidade de Brasília, que destina 20% das vagas para as cotas raciais. O partido afirma que a UnB “ressuscitou os ideais nazistas” e que as cotas “agravam o problema da desigualdade”. A matrícula dos aprovados no vestibular acontece na quinta-feira e, por isso, o DEM pede a análise do caso em caráter liminar.  Como o STF está em recesso, caberá ao presidente Gilmar Mendes a análise do caso. 

(…) Para o reitor da Universidade de Brasília, José Geraldo de Sousa Júnior, a ação do DEM é descabida. “É muito pouco provável que possa prosperar uma ação contra uma medida que tem amparo constitucional. Em última análise, as políticas de cotas são ligadas aos valores que foram construídos na pauta dos direitos humanos. Uma medida como essa (do DEM), pelo contrário, é que transmite os ideais nazistas de segregação. Lutar contra isso (as cotas) é o ir contra o principio de igualdade das pessoas e isso é segregação”, disse o reitor da UnB à revista Consultor Jurídico.”

Engraçado que ao invés de algumas pessoas invetirem sua disposição e luta para reivindicar direitos para outras pessoas, investem toda essa energia para tirar direitos já adquiridos de outras pessoas. A Sapataria deixa a questão: o que move alguém a se dedicar em tirar direitos das outras?

Pessoas, vamos nos reunir e gritar contra essa ação reacionária, pois sabemos o quanto as cotas podem mudar nossa cultura e efetivar aquilo que está só no papel, a igualdade de brasileiras e brasileiros.

Published in: on 22/07/2009 at 22:15  Comments (1)  
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Marcha contra o racismo da mídia

PARTICIPE!Ato contra a intolerância da imprensa brasileira às questões que envolvem gênero e etnia nesta sexta-feira (26), em DF

A CUT-DF e as entidades do Movimento Social Negro convocam o conjunto da classe trabalhadora a participar de manifestação contra a intolerância da imprensa brasileira às questões que envolvem gênero e etnia. O ato será no dia 26 de junho, sexta-feira, às 9h, com concentração no Colégio Sagrado Coração de Maria (SCRN 702/702 Norte – W3 Norte).

A grande mídia, em geral, tem se posicionado contra políticas afirmativas como as cotas raciais no ensino e no serviço público, o tratamento dado ao Estatuto da Igualdade Racial em discussão no Congresso Nacional desde 2006, o decreto 4.887 que regulariza as terras quilombolas e da lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africanas e das populações negras brasileiras nas escolas de todo o país.

A mesma mídia que não tem interesse em pautar as questões do movimento negro, fez um grande lobby para derrubar recentemente a obrigatoriedade do diploma de jornalismo no STF, com o objetivo de precarizar salários e o mercado de trabalho destes profissionais.

Fonte: CUT-DF

“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”

Revista Época – 19/06/2009
A mais importante atriz de Moçambique diz ter sofrido discriminação racial em São Paulo
por Eliane Brum

Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”. Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho. Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse. A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.” A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam? Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ” Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva. Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo. Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto. Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia. “Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.

Published in: on 21/06/2009 at 12:03  Comments (1)  
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Racismo – bola fora!

Published in: on 28/01/2009 at 14:16  Deixe um comentário  
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Novembro é o mês da Consciência Negra

Novembro começou, e a Sapataria está engajada nas atividades do Mês da Consciência Negra. Vejam, a partir de hoje, uma série de textos, fotos e vídeos que fazem uma reflexão acerca da negritude, racismo, discriminação, machismo e outras formas de opressão. Abaixo você encontra um texto do Jornal Ìrohìn sobre a construção da identidade e dos mitos de raiz africana através dos contos.

Construção da identidade étnica através de contos e mitos de matriz africana.

No decorrer da humanidade, as obras da literatura universal veiculadas e narradas por Andersen, Charles Perrault, Irmãos Grimm, La Fontaine, entre outros, apenas nos trouxe referências identitárias a partir de um segmento étnico, os europeus. Diante desse fato não estou querendo preconizar a desvalorização ou desmerecimento dessas obras ou da cultura desses povos. O que se pretende ao utilizar os contos e mito de matriz africana é promover uma reparação no que diz respeito aos marcos civilizatórios africanos e seus bens materiais e imateriais que foram e são tão importantes quanto a dos demais povos que contribuíram para a formação da nação brasileira.

É fato inconteste que a população negra é maioria no Brasil. “De acordo com a pesquisa, feita com base nos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil terá a maioria de sua população negra, ou seja, mais da metade dos brasileiros, em 2010. A pesquisa considera negros os brasileiros que se declaram pretos (termo utilizado pelo IBGE) e pardos”. (LORENA RODRIGUES). (Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u401394.shtml&gt;).

Apesar deste fato, a maioria das obras literárias sobre literatura infantil e infanto – juvenil veiculada nos sistemas de ensino contemplam apenas valores eurocêntricos (valores referenciados a partir da cultura ocidental). Sendo assim, a criança afro-brasileira não tem acesso a uma literatura que exponha os valores e a história dos seus ancestrais. Por isso concordo com Francisca Sousa quando em seu artigo “Linguagens Escolares e Reprodução do Preconceito”, faz o seguinte relato: “observamos, ainda, que quando os textos, livros ou histórias se referem à pobreza, violência e outras mazelas sociais, geralmente, os negros aparecem nos personagens, nas ilustrações e no conteúdo do texto, não raro como protagonistas. Isto vale também para os programas de TV, jornais e revistas. Já nos livros de contos de fada, com príncipes, princesas e heróis, a presença negra é praticamente inexistente, predominando aí os personagens brancos, não raros loiros”.(SOUSA, 2005, p.110). Essas referências acabam não contribuindo para a auto-estima das crianças negras. Contudo, para que de fato a reparação com relação às mazelas que a escravidão ocasionou aos povos africanos e seus descendentes possam também ser intensificada no âmbito da literatura, recomenda-se a utilização de um estilo literário que promova com muita eficiência as relações entre o eu e o outro.

De acordo com a pesquisadora Marly Amarilha (2004 p.19).

Essa estrutura, portanto, atinge o receptor do ponto de vista emotivo e cognitivo. Nesse processo, o receptor da história envolve-se em eventos diferentes daqueles que está vivendo na vida real e, através desse envolvimento intelectual, emocional e imaginativo, experimenta fatos, sentimentos, realizações de prazer, frustrações podendo assim, lembrar, antecipar e conhecer algumas das inúmeras possibilidades do destino humano. Pelo processo de viver temporariamente os conflitos, angústias e alegrias dos personagens da história, o receptor multiplica as suas próprias alternativas de experiências do mundo, sem que com isso corra algum risco.

Dessa forma a utilização de contos e mitos africanos é de grande importância tendo em vista que os leitores poderão identificar-se com as narrativas que trarão aspectos que condizem com a sua realidade e com personagens que vivem problemáticas semelhantes as suas, podendo assim reelaborar e refletir sobre o seu papel social a partir de uma identidade étnico-racial. A utilização desse modelo textual também irá romper com os estereótipos da literatura dominante que impunham um discurso discriminatório onde as crianças negras eram maciçamente obrigadas a se reconhecerem como: “feia, preta, fedorenta, cabelo duro”, iniciando o processo de desvalorização de seus fenótipos individuais, que interferem na construção da sua identidade de criança.

Nesse sentido a educadora e pesquisadora baiana Ana Célia da Silva, (2004, p.57) afirma que:

Ao veicular estereótipos que expandem uma representação negativa do negro e uma representação positiva do branco, o livro didático está expandindo a ideologia do branqueamento, que se alimenta das ideologias, das teorias e estereótipos de inferioridade/superioridade raciais, que se conjugam com a não legitimação do Estado, dos processos civilizatórios indígena e africano, entre outros, constituintes da identidade cultural da nação.

Atentando à observação apresentada acima, diríamos também que a utilização de contos e mitos de matriz africana é um material didático que possibilitará aos educandos negros uma interação com conteúdos que vão despertá-los para uma revisão com relação aos conceitos e preconceitos a cerca do continente africano, compreendendo a importância do mesmo para a humanidade. Esse aprendizado, certamente elevará a sua auto-estima, pois a partir dos conteúdos históricos dos contos os aprendizes vão saber que são oriundos de uma civilização que contribuiu muito para os estudos relacionados à medicina, astronomia, arquitetura, matemática, literatura, entre outros.

Os contos por serem uma obra literária de caráter simbólico e significativo possibilitam uma comunicação dinâmica com as simbologias imaginárias, atuando como desbravadores da conquista de uma auto-estima pautada pela visibilização positiva com relação à cultura dos povos de matriz africana, tendo em vista que, na maioria das vezes, as obras infanto – juvenis literárias veiculadas eram carregadas de textos discriminatórios onde os personagens negros exerciam papéis de subserviência, escravizados, ocupando cargos e funções de menos prestígio no contexto social. As imagens ilustrativas caricaturadas, associando a figura dos povos africanos a animais reforçavam os estereótipos de que em África existe apenas uma referência civilizatória habitada apenas por animais selvagens. E o que fazer acerca dos prejuízos causados historicamente pela negação das heranças culturais afro-brasileiras?

Diante dessas reflexões segue umas das obras literárias analisadas A mesma poderá ser encontarda no livro Ilê Ifé O Sonho do Iaô Afonjá (Mitos Afro-brasileiros) de Carlos Petrovich e Vanda Machado, publicado pela EDUFBA, no ano de 2000.

CONTO – I

OXUM NA ORGANIZAÇÃO DO MUNDO
Era uma vez, no princípio do mundo, Olodumaré mandou todos os orixás para organizarem a terra. Os homens faziam reuniões e mais reuniões. Somente os homens, as mulheres não foram convidadas. Aliás, as mulheres foram proibidas de participar da organização do mundo. Deste modo nos dias e horas marcadas, os homens deixavam em casa as suas mulheres e saiam para tomar as providências indicadas por Olodumaré.
As mulheres não gostaram de ficar de lado. Contrariadas foram conversar com Oxum. Oxum era conhecida como a “Iyalodê”. “Iyalodê” é um título que se dava à pessoa mais importante entre as mulheres do lugar.
Na verdade parece que os homens tinham esquecido do poder de Oxum para a água doce. E sem a água doce, com certeza, a vida na terra seria impossível.
Oxum estava aborrecida com a desconsideração dos homens. Afinal ela não poderia de forma alguma ficar longe das deliberações para o crescimento das coisas da terra. Ela sabia de tudo que estava acontecendo. Era preciso compreender que todos são importantes para construção do mundo.
Procurada por suas companheiras, conversaram durante muito tempo e por fim a “Iyalodê” comunicou: _De hoje em diante, vamos mostrar os nossos protestos para os homens. Vamos chamar atenção porque somos todos responsáveis pela construção do mundo. Enquanto não formos consideradas, vamos parar o mundo!
– Parar o mundo? O que significa isto? Perguntaram as mulheres curiosas.
– De hoje em diante, falou Oxum, até que os homens venham conversar conosco, estamos todas impedidas de parir. Também as árvores não vão mais dar frutos e as plantas não vão mais florescer, nem crescer. Isto foi dito e isto aconteceu.
Aquela foi uma reunião muito forte. A decisão foi acatada por todas as mulheres. E os resultados foram imediatos. Os planos que os homens faziam começaram a se perder sem nenhum efeito.
Desesperados, os homens se dirigiam a Olodumaré e explicaram como as coisas iam mal sobre a terra. As decisões tomadas nas assembléias não davam certo de forma nenhuma.
Olodumaré ficou surpreso com as más notícias.
Depois de meditar por alguns instantes perguntou:
– Vocês estão fazendo tudo como eu mandei?
Oxum está participando destas reuniões? Os homens responderam: _Veja senhor, estamos fazendo tudo “direitinho” como o senhor mandou. Agora, este negócio de mulher participando das nossas reuniões… isto aí, a gente não fez assim não. Coisa de homem tem que ser separado de coisa de mulher.
Olodumaré falou forte:
– Não é possível. Oxum é a orixá da fecundidade. É quem faz desenvolver tudo que é criado. Sem Oxum o que é criado não tem como progredir. Por exemplo, vocês já viram alguma coisa plantada crescer sem água doce?
Os homens voltaram correndo para a terra e cuidaram logo de corrigir aquela grande falha. Quando chegaram à casa de Oxum, ela já esperava na porta, fazendo jeito de quem não sabia o que estava acontecendo. Aí os homens foram chegando e dizendo:
– Agô Nilê! (com licença).
– Omo Nilé ni ka agô (filho da casa não pede licença).
Desse jeito ela os convidou a entrar em sua casa. Conversaram muito para convencer a Oxum. Eles pediram que ela participasse imediatamente dos seus trabalhos de organização da terra. Depois que ela se fez bem de rogada, aceitou o convite.
Não tardou e tudo mudou como por encanto.
Oxum derramou-se em água pelo mundo. A terra molhada reviveu. As mulheres voltaram a parir. Tudo floresceu e os planos dos homens conseguiram felizes resultados. Daí por diante, cada vez que terminavam uma assembléia, homens e mulheres cantavam e dançavam com muita alegria, comemorando o reencontro e suas possíveis realizações:
” Araketo ê Faraimará”

O conto Oxum na organização do mundo mostra outra perspectiva com relação ao lugar que a mulher ocupa na sociedade, ele desmonta a ideologia da mulher submissa às deliberações masculinas e traz à tona uma reflexão que nos remete à ancestralidade tendo em vista que as mulheres negras sempre foram guerreiras a exemplo de Rainha Nzinga de Angola, embaixatriz em Luanda, durante o reinado do seu irmão e travou luta sem quartel durante trinta anos contra os portugueses, pela independência/sobrevivência do seu povo. ; Dandara uma das guerreiras do quilombo de Palmares, primeira república democrática do Brasil,mantendo a resistência de um quilombo que sobreviveu por mais de 100 anos; Luiza Mahin mãe do poeta abolicionista Luiz Gama e possivelmente uma das articuladoras da Revolta dos Malês, movimento de 1835 que é assim conhecido,por serem chamados de Malê os negros muçulmanos que a organizaram. A expressão malê vem de imalê, que na língua iorubá significa muçulmano. Portanto os malês eram especificamente os africanos que professavam o islamismo, a religião de Maomé. (Cf ILÊ AIYÊ, 2002, p.12.).

Ao olhar o entorno das comunidades onde as crianças negras residem e estudam, geralmente são comunidades populares, localizadas em bairros periféricos. É possível observar que na maioria das vezes as mulheres são as chefas de família. São elas que sempre vão às reuniões da escola, acompanham os filhos nas festinhas da escola e dos amigos e ao mesmo tempo criam estratégias de sobrevivência, quando não compõem o mercado de trabalho formal, atuando como quituteiras, lavadeiras, comerciantes, empresárias, assim como, Dinha do Acarajé (in Memória), Alaíde do Feijão entre outras. Contudo, dentre as estratégias de luta pela sobrevivência de combate ao sistema escravista e as desigualdades, a literatura também vem sendo um veículo propagador da resistência como explica a pesquisadora Florentina Souza em seu ensaio publicado na revista Palmares:

Os afro-brasileiros já vinham de há muito instalando um desconforto na produção textual brasileira através da produção de textos jornalísticos e literários que debruçavam-se sobre suas histórias e a cultura, dialogando com uma tradição político-reivindicatória(…)Assim os escritores e escritoras de origem afro-brasileira vão falando de si, de suas famílias, da história de seu grupo e rasuram a pretensa universalidade/ocidentalidade da arte literária.(2005, p.72)

Essa arte literária citada pela pesquisadora acima sempre esteve presente nas cantigas de rodas, nos cânticos dos orixás, na musicalidade, nas festas populares, nos versos, prosas e prosas de escritores/as como Luiz Gama, Cruz e Souza, Carolina de Jesus, Solano Trindade e atualmente na firmeza e dignidade dos poetas dos Cadernos Negros do grupo Quilombhoje.

 Maria Luísa Passos é educadora do Ceafro e graduada em Pedagogia (BA).

Intolerância entre alunos

Radiografia da rede pública do DF realizada por pesquisadores indica que mais da metade dos alunos presenciaram discriminação por causa da cor nos colégios e 63% testemunharam preconceito sexual

Por Erika Klingl e Diego Amorim Da equipe do Correio, Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Correio Braziliense/DF

Aluno da 7ª série do ensino fundamental, Rafael* é negro. “Só que um dia o professor chamou ele de preto de sangue ruim. Daí, ele nunca voltou para a escola”, conta o colega de turma do adolescente. “É comum eu ouvir: ‘Olha, ela veio com a mesma roupa de novo.’ E eu finjo que ignoro”, desabafa uma menina do 1º ano do ensino médio. “Aqui, se a pessoa tiver um jeito estranho já é gay e acaba sendo zoada”, afirma Carolina*, da 8ª série. Em comum, essas histórias têm o cenário – salas de aula da rede pública de ensino – e o preconceito.

“A escola é um ambiente cheio de conflitos, o que não é ruim. Mas quando eles não são mediados de forma adequada acaba resultando em violência, mesmo que simbólica”, explica a socióloga Miriam Abramovay, responsável por uma pesquisa que, pela primeira vez, diagnosticou a violência da rede pública de ensino no DF. O levantamento, feito com mais de 11 mil pessoas, entre alunos e professores, abordou o problema nas escolas de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental e no ensino médio. A análise reflete um universo de mais de 186 mil estudantes e outros 20 mil docentes. Os dados relacionados ao preconceito são assustadores.

Nada menos que 55% dos estudantes já viram discriminação nas escolas por causa da cor e quase 13% contam que sofreram. Em números absolutos, isso representaria 24 mil adolescentes. Mas o que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a discriminação por causa da pobreza, sentida por 6,1% dos estudantes e vista de perto por 42%. “A gente não imagina que os números sejam tão altos”, observa Miriam. Nas entrevistas, ela ouviu expressões que a chocaram. “Assentamento Haiti é nome de rua de Santa Maria. Churrasquinho é apelido de negros.” Para a educadora Beatriz Castro, o fato preocupa. “Fica a dúvida se a escola cumpre o papel de formar cidadãos”.

Desmaio

Quando o assunto é preconceito por ser ou parecer homossexual, os casos são ainda mais freqüentes: 63% dos alunos dizem que já viram discriminação. Dos estudantes do ensino médio, 4,3% já sentiram na pele a discriminação. Maurício* foi um deles. Tanto ouviu que um dia não agüentou tanta zombaria. Durante a apresentação de dança na feira cultural do Centro de Ensino Médio 3 de Ceilândia, duas semanas atrás, até tentou abstrair os xingamentos que ouvia, os gritos de veado e baitola. Mas, quando acabou a música, desmaiou. “Ele já estava nervoso. Com o povo zoando, ficou mais ainda. Aí desceu do palco, foi andando até o fim do auditório e caiu”, descreve um aluno da 7ª série. O episódio ainda é comentado entre os estudantes. Maurício, segundo a turma, é homossexual assumido.

Os que gostam de ser os “malandrões” do colégio são os que mais zoam os colegas. Para sustentarem o status, costumam atingir os mais fracos, os negros, os gordos, os mais pobres, os baixinhos. Agridem com palavras, comentários, risadas. “O pessoal fica mangando de mim direto, me chamando de ‘limpador de aquário’, essas coisas. Mas deixo quieto. Um dia ou outro eles vão cair na real”, diz um garoto de 14 anos, 1,51m de altura, aluno da 8ª série do Centro de Ensino Fundamental 4 de Ceilândia. Na cidade em que mora e estuda, os xingamentos já foram ouvidos por 42% dos estudantes. Isso porque Ceilândia está longe de estar entre as piores. De acordo com a pesquisa, em Brazlândia e Santa Maria, metade dos estudantes costumam sofrer violência desse tipo. 

 

Pesquisa mostra intolerância entre estudantes da rede pública de ensino
Pesquisa mostra intolerância entre estudantes da rede pública de ensino

Loas a um feminista

No dia 30 de setembro, postamos aqui um relato sobre atos ao redor do mundo – e também em Brasília – pela descriminalização do aborto no Brasil. O Daniel Verde, do site Global Voices em Português, reverberou e se declarou parceiro das mulheres e de pessoas feministas nessa luta. Pois bem, no dia 7 de outubro ele postou no seu blog Novo Alriada Express uma coleção de comentários a respeito do direito da mulher a proceder um aborto no caso de uma gravidez indesejada.

Não fiquei muito surpresa com o nível absurdo das alegações daqueles (homens) que são contra a legalização do aborto. Já estou acostumada… Mas faço aqui um destaque à postura do Daniel que, mesmo sendo homem, entende a importância da descriminalização e que luta pelo fim do machismo, racismo, fascismo e outros tipos de violência.

Parabéns, Daniel! E obrigada pelo apoio na luta!

Jandira Queiroz