sAraU cOm boLACHa!!!!

sarau_com_bolachas_24jan

olá…
boas novas, sábado que vem temos encontro marcado! desejo reencontrar todas lá na casa roxa, trocar poesias, cantar e cantar e cantar sem vergonha de ser uma aprendiz…, idéias, muitas idéias para trocar, saudades para sanar…, muitas possibilidades, novidades, temos um pouquinho disso e keremos trocar com as boas coisas de vocês, que tal?

“então, é assim:

‘dATa:24/01/09
‘DiA: sÁbAdO
‘lOcAL: QE 28 conjunto ‘b’ casa 13 – casa roxa
‘mAPa: http://www.coturnodevenus.org.br
***aTENçãO!
*o sarau com bolachas é um encontro restrito para, confraternizar, bater-papos, trocar de idéias, diversão entre lésbicas, mulheres bisexuais, mulheres curiosas, mulheres atentas, mulheres com ideais, mulheres solteiras, mulheres acompanhadas, mulheres, mulheres, mulheres, mulheres e mulheres, somente mulheres!
associação lésbica feminista de brasília – coturno de vênus
55 61 8187-8929
cx postal 3546 . 700089-970
brasília – df. brasil
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Associação Lésbica Feminista de Brasília Coturno de Vênus
www.coturnodevenus.org.br

Biblioteca em Presídio Feminino

Revolução sem armas

Leitura de romances e poemas em presídio feminino muda rotina de ócio e conflitos e dá asas ao sonho

Marcelo Abreu, Da equipe do Correio
Fotos: Iano Andrade/CB/D.A Press

O pátio de banho de sol que era chamado de ponto cego passou a ser o local preferido de leitura das detentas: descoberta de um novo mundo

Iano Andrade/CB/D.A Press

Era ali que as presas se escondiam e arquitetavam mais um de seus crimes. O nome do lugar? “Ponto cego”, ao lado do pátio, onde elas tomam banho de sol. Hoje, é ali que se mostram. Se deixam ver, se reconhecem e, mesmo com as grades, os enormes cadeados e o eco que transborda, sentem-se mais livres do que nunca. O que era condenação virou libertação. Sonho, perspectiva, alguma chance. A saída. Essa é a realidade do Presídio Feminino da Coméia de Brasília, entre o Gama e Santa Maria. O sonho de um agente de polícia foi ouvido por uma voluntária. A voluntária chamou parceiros, convidou a comunidade. Contou a história para a diretora da cadeia, que se encantou com a idéia e espalhou a boa notícia entre os funcionários. Quarenta e três dias depois, tudo virou realidade.

No “ponto cego” do presídio, em setembro, foi inaugurada a Biblioteca Maria da Penha. Presas lêem, discutem literatura, se emocionam com histórias de amor. E se percebem gente em meio a livros e rumos nunca antes pensados. Enxergam horizontes muito além das grades azuis e dos muros altos com arames mortais. Há três semanas, a imagem do presídio mudou radicalmente. Na hora do banho de sol, presas sentadas nos bancos de concreto, no chão, em cada pedaço de cimento. E o silêncio, antes impensável, grita todos os dias. Nas mãos, livros. Nos olhos, o brilho da descoberta. Na cabeça sem fronteiras, a melhor das viagens: a liberdade.

“Quando eu tô lendo, parece que entro na história. Me sinto parte dela”, diz a detenta Juliane de Souza Vinghote, de 30 anos, 5ª série, presa há 14 meses por tráfico. “Li muito até os 14 anos. Depois, nunca mais li nada, me desinteressei por tudo. Aqui recomecei. Desde que a biblioteca foi inaugurada, já li oito livros”. Juliane prefere os de auto-ajuda. “O que mudou na minha vida? Vejo a superação das pessoas. Aí, digo a mim mesma: ‘eu também posso mudar’. Mudou a minha maneira de ver o mundo, agora posso acreditar num recomeço. Quem lê, muda até o pensamento”, responde a moça.

O acervo da biblioteca conta hoje com cerca de 3 mil livros. As estantes estão cheias. Tudo é doação. E a procura é constante. Quem toma conta da biblioteca é a detenta Maria Luzeni Soares, mineira de 40 anos, presa por estelionato. Advogada criminal, Maria Luzeni viu sua vida mudar com a prisão. “Nunca me imaginei do outro lado. E aqui dentro vi que sou igual a elas. Foi a maior lição da minha vida”, ela constata.

Hora do banho de sol. Uma a uma elas descem para o pátio. Vencem cadeados, corredores, escadas. Pelo portão com grades, as presas escolhem os livros que gostariam de pegar emprestado. Algumas vão atrás de informação com Maria Luzeni, que ali virou uma espécie de psicóloga e bibliotecária da prisão. Há detentas que pedem para ela ler um pedaço de um poema. Um trecho de um romance.

Às vezes, ficam na ponta dos pés para poder ver e ouvi-la melhor. “Algumas se emocionam só em ouvir. Chegam a chorar”, conta, também comovida. Há ainda aquelas que voltam e contam a história que leram para a advogada presa. Querem compartilhar o novo mundo. Em um mês, 1.309 livros foram emprestados. Cada uma pode ficar até cinco dias com o mesmo livro. Informações sobre saída das obras e data de devolução, nome da usuária, tudo é registrado numa folha de papel por Maria Luzeni. Ali, detentas deixam de ser detentas. Viram apenas leitoras. Hoje, 400 mulheres estão trancafiadas. Oitenta por cento delas foram condenadas por tráfico. E a maioria é muito jovem, mal deixou a adolescência.

Silêncio
Os livros fizeram uma verdadeira revolução sem armas na Coméia. A poesia de Drummond encheu o lugar de esperança. Numa das celas, encostada na grade, uma moça de apenas 18 anos, sentada no chão frio, lê O vôo da gaivota. Foi a forma que encontrou para ser livre. A moça, depois que foi presa, não falou mais. Emudeceu. Prefere livros à fala. Usa a escrita para se comunicar. Tem sido acompanhada por uma psicóloga do presídio. E lê muito, todos os dias.

Alessandra Rodrigues, de 21 anos, seis meses presa, virou fã de romances. “Li cinco. Isso é o que me ajuda a viver aqui dentro”, ela diz. Andréia dos Santos, 22, encantou-se pela poesia. “Ocupa a mente, distrai o pensamento. A gente nem sente que tá aqui dentro.” Maria Júnia Barbosa, 20, longos cabelos negros, cara de menina, presa por tráfico, aventurou-se pelos livros de suspense. Mas tem gostado mesmo é do romance. Está quase terminando A marca de uma lágrima. “Eu me imagino dentro daquela história”, diz a moça que parou os estudos na 6ª série. E faz uma mea-culpa: “Se eu tivesse estudado mais, talvez não tivesse entrado nisso”.

O vôlei, o futebol e a queimada tiveram que dar um tempo. Agora, no banho de sol, as presas só desejam livros. “Depois da biblioteca, eu só quero ler”, admite Simone Sales, 22, há 17 meses na prisão. Crime? Tráfico. Lucimar Araújo Lopes, 38, cabelos compridos e pintados de loiros, ensino médio completo, dois filhos adolescentes, é a campeã de leitura. Já leu pelo menos 30 livros. Adora temas espíritas e devora Paulo Coelho. “Cada livro é uma viagem. Aqui dentro somos pássaros com asas mutiladas”, filosofa a moça, presa há 4 anos. E reflete sobre o poder da leitura: “Quem lê fala melhor, escreve melhor e deixa a timidez de lado”.

A vice-campeã de livros emprestados é Maria Lúcia dos Santos Silva, 32, cinco filhos, 14 meses presa. Leu 20 obras em um mês de funcionamento do novo espaço. “Poesia e espiritismo são o que mais pego”, ela diz. E conta, com olhar perdido, a história do último livro que leu: “Um pai rejeita o filho só porque ele nasceu sem braços. Chorei muito”. Depois de um momento de silêncio, Maria Lúcia diz, como se prometesse a ela mesma: “Vou reconstruir meu lar, juntar minha família”.

Trabalho de gente
O começo dessa história fala do sonho de um agente penitenciário em fazer do “ponto cego” uma biblioteca. Pois bem. Daniel Antônio Faria contou o desejo para Carmen Gamacho, 63, voluntária do Projeto Casa do Saber, de iniciativa privada, que tem como objetivo montar bibliotecas em todos os cantos do DF. Carmen foi ao presídio. Falou da vontade de ajudar. A diretora, Suzana de Pennafort Caldas, 44, recém-chegada à Coméia, aceitou o desafio. Convocou os servidores para abraçarem o projeto. Sinal verde. Carmen correu atrás de patrocinadores. Levou a presidente da Associação dos Bibliotecários do DF, Iza Antunes, 69 anos, 47 de profissão. Estava formada a corrente que mudaria a vida daquelas mulheres trancafiadas.

A rede de Postos Gasol, patrocinadora do projeto, doou o mobiliário. A comunidade, livros. Brasília inteira participou. O que era apenas sonho foi, aos poucos, virando realidade. E finalmente chegou o dia da inauguração. Teve festa. Abriram-se as grades do presídio. Pelo menos para o pensamento. Suzana, a diretora visionária, logo constatou: “Mudou o comportamento delas, a rotina. Até as brigas diminuíram”. Ivone Torres Lima, 58, chefe do Núcleo de Ensino, comemora: “O presídio hoje é uma outra realidade”. Antes, apenas 70 presas estudavam. Agora, são 215. Carmen, cheia de emoção, fala em liberdade. “Nem as grades as mantêm mais presas”. Iza, a bibliotecária, está surpresa: “Confesso que jamais pensei que fosse fazer esse sucesso”.

E as presas, protagonistas dessa história? Há um mês não fazem outra coisa: só viajam, cercadas de grades, cadeados, muros altos e homens armados em guaritas. É a viagem do pensamento, a melhor transformação. E, se transforma, é capaz de libertar. No Presídio Feminino da Coméia aconteceu, há um mês, uma grande revolução. Muros e grades caíram. Os agentes penitenciários, anestesiados, não tiveram tempo de usar armas para conter tamanha rebelião. E as sirenes nem tocaram.

SEM GRADES
A Biblioteca Maria da Penha aceita doação de livros. Quem puder ajudar pode deixá-los em qualquer posto da Rede Gasol

KATITA: medo de altura

Quadrinhos de Anita Costa Prado

Quadrinhos de Anita Costa Prado

Katita

Anita Costa Prado produz uma série de quadrinhos lésbicos, cuja personagem principal é a Katita. Para ler entrevista com a artista clique aqui.

Com vocês, Katita!

É LEGAL SER HOMOSSEXUAL

Campanha do Grupo Somos (RS) pelo direito ao casamento para pessoas do mesmo sexo.

Em defesa do Estado Laico!!

Marcos Rolim
Jornalista

Lembram de Vilma Martins Costa, a mulher condenada por ter seqüestrado uma criança (Pedrinho) em Goiânia, há alguns anos?  Semana que passou ela obteve liberdade condicional, o que foi objeto de matérias em vários jornais do país. Um fato, entretanto, não chamou a atenção dos jornalistas e, provavelmente, da maioria dos leitores: o Juiz Éder Jorge, da 4ª Vara Criminal daquela cidade, ao fixar as condições a serem observadas na condicional, determinou que a apenada “freqüente Igrejas de formação cristã”.

Chamando a atenção para o “detalhe”, Daniel Sottomaior do Observatório da Imprensa assinalou que: “Se você leu isso e não se assustou, ao menos ao ponto de se engasgar e cair da cadeira, então um de nós dois tem um problema. Um de nós acha que os juízes de direito podem se comportar como se o Estado fosse confessional, e o outro não. Um de nós vê a “formação cristã” como fonte natural, universal e inquestionável de moralidade – talvez a única -, o outro não. Um de nós sabe que a laicidade do Estado está profundamente ligada à democracia, e que está expressa no artigo 19 da Carta Magna, o outro não. Um de nós sabe o que são garantias constitucionais como liberdade de consciência e crença, o outro não”.

O tema é importante demais para ser ignorado pela mídia e diz respeito à necessidade de enfrentar a ameaça à democracia representada pelo avanço do fundamentalismo religioso. Outro dia, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados aprovou Projeto de Lei que obriga o Poder Público a colocar um exemplar da Bíblia em cada biblioteca do País. Antes disso, aqui mesmo no RS, Vereadores de Entre-Ijuís aprovaram uma lei que torna obrigatória a leitura da Bíblia nas escolas do município. A pergunta, primeira, então é: onde estão nossos liberais?  E aquela turma sempre preocupada em denunciar as estratégias de doutrinação de nossas crianças pelo comunismo internacional?  Nada a dizer sobre as tentativas de doutrinar crianças por uma religião?  Ensinar “luta de classes” não pode, mas que tal explicar às crianças passagens como a de Números, 31, vers. 17 e 18? : Ali o texto sagrado afirma: “Agora então mate todos os machos mesmo as crianças pequenas, e mate toda mulher que tenha conhecido homem e deitado com ele, mas todas as donzelas que não conheceram homem e deitaram com ele, reservem-nas vivas para vocês mesmos”.

Bem, talvez devêssemos cuidar para que livros assim só fossem vendidos para maiores de 18 anos. Seja como for, obrigar alguém a ler a Bíblia ou qualquer outro livro religioso é pretensão liberticida e inconstitucional diante da qual todos deveriam se horrorizar. Assim, se os vereadores de Entre-Ijuís e os nobres deputados da Comissão de Educação sonham com madraçais, deveriam passar um tempinho nos países islâmicos onde se doutrina crianças na palavra de Deus. Aproveitando a viagem, poderiam conversar com familiares de vítimas e sobreviventes do terrorismo. Teriam, então, uma idéia do que madraçais costumam produzir.

Legalizar o aborto: direito ao nosso corpo!

 

O primeiro a falar no terceiro dia de audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF), sobre o polêmico assunto de antecipação do parto de fetos anencéfalos – sem parte do cérebro -, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão parecia ser o destaque do dia, mas foi ofuscado pelo depoimento do casal Michele e Ailton de Almeida. O casal, de Recife, recebeu em 2004 o diagnóstico de que o primeiro filho que esperavam tinha anencefalia. A mãe interrompeu a gestação em um hospital do Sistema Único de Saúde (SUS) quando estava grávida de quatro meses.

Acompanhados das filhas Nicole, de 3 anos, e Vitória, de 2 meses, o casal veio a Brasília para assistir à audiência e para dar um depoimento pessoal sobre o processo pelo qual passa uma família quando recebe o diagnóstico de que o feto esperado tem anencefalia. Ela não teve de pedir autorização da Justiça para ser submetida ao aborto. Na época, vigorava uma liminar concedida pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello que liberou a interrupção de gestações de fetos com anencefalia. Posteriormente, A liminar foi cassada pelo plenário do STF.

“Se eu não estivesse amparada pela lei e pelos médicos, eu acho que talvez eu não tivesse construído uma nova família”, afirmou Michele. Ela disse que teve uma sensação de “paz e alívio” após ter antecipado o parto de seu filho anencéfalo. Ailton contou que o casal queria muito o filho, que chegou a ser concebido após um tratamento para engravidar. “Eu trabalho como vigilante. Tenho de lidar com meliantes”, contou. “Eu quase desabei, não sabia o que fazer (quando recebeu o diagnóstico)”, disse.

Michele é personagem de um filme sobre anencefalia apresentado na audiência pela representante da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, Lia Zanotta Machado. No filme, também é contada a história da jovem Érica Souza do Nascimento, de São Paulo, cujo primeiro filho também tinha anencefalia. Ela também interrompeu a gestação graças à liminar de Marco Aurélio.

[Assista ao trailer do filme de Débora Diniz, “Quem são elas?”, sobre mulheres que interromperam a gestação de bebês anencéfalos amparadas pela liminar concedida pelo Ministro Marco Aurélio de Mello, em julho de 2004.]

Érica disse que na época uma pessoa religiosa chegou a aconselhá-la a manter a gestação porque Deus providenciaria um cérebro para o bebê. Hoje, a jovem tem uma filha saudável e disse que, após o nascimento dela, conseguiu esquecer o drama vivido na primeira gestação. “Foi como se apagasse da minha memória depois que ela nasceu”, afirmou.

Temporão

Para o ministro da Saúde não há sentido em manter gestações de fetos anencéfalos quando a mãe não quer se submeter a uma gravidez que em 100% dos casos resultará em morte. “Há certeza absoluta de morte (dos fetos com anencefalia)”, afirmou.

A socióloga e cientista política Jacqueline Pitanguy defendeu que as mulheres tenham o direito de decidir se querem ou não manter a gravidez de feto anencéfalo. “O direito de escolha é um ato de proteção e solidariedade à dor e ao sofrimento das mulheres que vivenciam uma gravidez de feto anencéfalo, anomalia incompatível com a vida em 100% dos casos”, disse.

Já o medico Dernival da Silva Brandão, que trabalha há 50 anos como obstetra, afirmou que as mulheres que abortam ficam com remorso. Segundo ele, manter uma gravidez de feto com a anomalia aumenta a dignidade da mãe. “A mãe não pode ser chamada de caixão ambulante, como dizem por aí. Pelo contrário, ela tem sua dignidade aumentada por respeitar a vida do seu filho”, afirmou.

Data

O ministro do STF Marco Aurélio Mello, relator da ação que definirá se será ou não liberada a antecipação dos partos de anencéfalos, convocou uma nova audiência pública, para o dia 16. A expectativa da Corte é de que a ação seja julgada pelo plenário do tribunal até o final deste ano.

 

Brasil – Retrocesso na discussão sobre o aborto: Criminalização em massa de mulheres

No dia 18 de junho, Brasília foi sede de uma audiência pública promovida pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para debater a criminalização do aborto no Brasil. Até esse ponto, nenhuma surpresa já que o então Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, tem levantado esse debate em sua gestão, diferentemente de seus antecessores. Ele teria colocado, inclusive, a importância de se realizar um plebiscito no país para verificar a opinião da população brasileira sobre esse polêmico assunto. Tal proposta fez com que a temática do aborto voltasse à tona, reacendendo velhas discussões e também implicando em penalizações espantosas.

Na realidade, o que chama a atenção é o impressionante fato que se apresentou como o principal motivador da citada audiência: quase 10 mil mulheres que foram atendidas numa determinada clínica médica em Campo Grande (MS), no período de 1999 a 2007, estão tendo seus prontuários vasculhados com a suspeita de terem praticado crime de aborto.

[No dia 28 de maio, um grupo de mulheres realizou um ato em frente ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo em protesto à criminalização de quase mil mulheres que realizaram abortamentos no estado de Mato Grosso do Sul. Assista ao vídeo.]

O juiz responsável por tal proeza justifica dizendo que desse total de mulheres, somente mil serão realmente processadas. Coloca ainda que caso não cumpra a lei, pode responder por prevaricação que tem pena maior que o crime de aborto. Fica muito difícil compreender que tipo de função pública está sendo cumprida com a criminalização de quase dez mil mulheres. Segundo dados do CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), 25 mil mulheres cumpriram pena em regime fechado, no país, em 2007. Não há como deixar de questionar qual o real sentido de tal feito.

Apenas a título de contextualização, hoje estão tramitando aproximadamente 15 projetos de lei sobre o tema na Câmara e no Senado. A quase totalidade dessas propostas (13!) apresentam inúmeros retrocessos frente à legislação atual. Para ilustrar o nível do debate atual, uma delas pretende cassar o direito já previsto de aborto em situações de risco de vida para a mãe ou estupro e outra propõe o endurecimento da pena tipificando o aborto como crime hediondo! O absurdo chega ao ponto de um projeto de lei, já apelidado de “bolsa-estupro”, onde a mulher que aceitar não fazer o aborto receberá um salário mínimo até o filho completar 18 anos.

O fato é que toda essa discussão está muito comprometida do ponto de vista da suposta imparcialidade e laicidade do Estado. Por trás desses projetos, temos fortes bancadas religiosas que estão tumultuando o parlamento e desviando o eixo da discussão. O aborto precisa ser debatido enquanto questão da saúde pública, tirando de foco seus aspectos morais e religiosos. Há parlamentares que fazem citações bíblicas em seus discursos e perdem toda e qualquer isenção enquanto sujeitos políticos, supostamente representantes do povo.

Infelizmente, com esse nível de amadurecimento, o debate sobre o tema fica comprometido e milhares de mulheres continuam morrendo, em função de abortos clandestinos, no Brasil. De acordo com estudo realizado pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com o apoio do Ministério da Saúde, estima-se que o número de abortos realizados no país passe de um milhão ao ano, resultando em 220 mil complicações hospitalares. Além disso, constitui-se como uma das principais causas de mortalidade materna.

Nesse sentido, torna-se imprescindível aprofundar o debate junto à população brasileira e buscar meios de fazer valer os compromissos que o Brasil assumiu junto à ONU nas Conferências do Cairo, em 1994, e de Beijing, em 1995. Resumem-se à revisão de textos legislativos que sejam punitivos para as mulheres que decidem interromper a gravidez.

Não resta dúvida de que a criminalização do aborto representa um tipo de discriminação contra a mulher. A denúncia envolvendo quase 10 mil mulheres no Mato Grosso do Sul termina por retratar o quanto o Brasil está longe de considerar essa questão como de saúde pública. E mais, o episódio só demonstra o quanto essa difícil escolha – que algumas mulheres acabam fazendo – ainda é confundida com caso de polícia, como se a lógica criminal fosse dar conta de uma problemática muito maior. É preciso entender que a aplicação penal apenas reforça a desigualdade e a discriminação de quem já se encontra em situação de vulnerabilidade.

C.A.B.I.D.E.

Quem não gosta de samba é ruim da cabeça ou doente do pé
Especialmente se for um samba da Mart’nália!!!

Published in: on 04/09/2008 at 22:23  Deixe um comentário  
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COISAS DE MINHA VIDA LÉSBICA

por Mariana Miranda Tavares

Algumas coisas que vivenciamos ou que temos na vida são resultados de escolhas nossas outras são resultados das famosas “coisas da vida”. Vou chamar de “coisas da vida” aquilo que não escolhemos, mas que é da nossa natureza, da nossa essência, do nosso jeito de ser, ou situações que aconteceram ou que fazem parte da nossa vida sem que tenhamos escolhido isso!

A grande maioria das minhas “coisas da vida” me faz muito feliz, ou me fizeram chegar até aqui e ser quem eu sou! Mesmo aquelas que eu já esqueci ou não vou conseguir esquecer e que são muito tristes, mesmo essas foram fundamentais para a Mariana que me tornei. Posso colocar nesse grupo o meu jeito bagunceiro que garante à minha faxineira uma bela diária, ou o meu jeito brincalhão que muitas vezes me coloca em situações complicadas. Mas tudo isso faz parte de mim.

Também é uma coisa da vida o fato de eu ser homossexual. Sim, não sou eu que escolho por quem eu quero me apaixonar. Se fosse assim eu seria… homossexual… porque com certeza escolheria a Camila Pitanga ou a Jodie Foster. E é isso que efetivamente que me faz homossexual, eu tenho tendência a me envolver afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo que o meu, o feminino.

Mas entre eu ser uma mulher homossexual e ser lésbica existe uma grande diferença. E é nessa diferença que reside não apenas “coisas da vida”, mas essencialmente minhas escolhas. Ser lésbica é definitivamente uma escolha minha! E é uma escolha de todos os dias.

Ser lésbica não é ser sapatão! Ser lésbica não é ser gay! Ser lésbica não é ser homossexual! Ser lésbica não é ser sapa! Ser lésbica é ir além desses rótulos. É antes de qualquer outra coisa ser mulher! Ser lésbica é escolher a porta do armário aberta, escancarada algumas vezes, porque para uma mulher ser lésbica ela precisa escolher isso! Ser lésbica é escolher a verdade e a oportunidade de mudar sua vida e seus caminhos pelo amor, pelo afeto, pelo sexo e pela política.

O fato de uma mulher amar outra pode fazê-la amiga, mãe, filha, avó, neta, prima, tia, sobrinha, madrinha, afilhada e até amante ou companheira. Uma mulher que se relaciona sexualmente com outra pode ser sapatão, sapa, cola velcro, bolacha, gay, homossexual, bissexual e até lésbica. Só a escolha pelos dois caminhos junto com a coragem garante a uma mulher a lesbianidade!

Porque?!, podem me perguntar alguns desavisados. Simples, porque ser lésbica é ser antes de qualquer coisa sujeito político de suas escolhas. Para uma mulher ser lésbica tem que se aceitar e vivenciar sua homossexualidade, abrir as pesadas portas de seus próprios armários e revelar o amor guardado a sete chaves. É claro que não posso ser ingênua ou até mesmo rebelde e dizer que toda lésbica é aquela mulher que sai berrando aos quatro ventos que ama outra mulher. A mulher lésbica é aquela que luta pelos seus direitos, em especial pelo mais sagrado deles: o direito a vida! E luta mesmo no silêncio, ou na beleza de atos singelos como um simples olhar, um toque diferente ou um jeito diferente de dizer que aquela “amiga” é também sua companheira, sua amante, sua mulher.

A mulher lésbica luta do primeiro ao último minuto de seus dias pelo direito ao amor, à vida e à liberdade. A mulher lésbica não ouve, ou responde a cada vez que a desconsideram pelo simples fato de amar outra mulher. A mulher lésbica olha com ternura sua companheira lutar diariamente para manter seu emprego, sua dignidade, sua coragem e sua essência nessa sociedade machista, sexista e heteronormativa. Ela luta com palavras, mesmo quando sabe que “lutar com palavras é a luta mais vã”. A mulher lésbica luta não para entrar de véu e grinalda na igreja, porque um casamento não é apenas um ritual, ela luta pelo direito de acompanhar sua mulher ao médico, de ver seu filho nascer, de poder dizer às pessoas que ama quem ela é.

A mulher lésbica luta todos os dias pelo direito de dormir junto com sua companheira, pelo direito sagrado de ter onde morar quando sua companheira parte e deixa o vazio no seu coração. Luta diariamente não apenas pelo direito a uma casa, a uma família, a um amor, mas essencialmente pelo direito de ser uma mulher lésbica sem que isso signifique ser violentada verbal, social, sexual ou fisicamente. A mulher lésbica luta pelo direito ao simples direito de ser gente, pessoa, cidadã, luta pelo direito de ser vista assim, luta pela visibilidade!

E é por essa luta que o dia 29 de agosto é importante! O dia da visibilidade lésbica não está no calendário apenas para preencher mais um dia, está no calendário para lembrar vidas perdidas, sonhos massacrados, histórias destruídas, pessoas esquecidas que por amor e coragem um dia acordaram e fizeram o que eu um dia também fiz: se olharam no espelho, e no fundo de seus olhos encontram mais um pedaço, mais um pouco de suas “coisas da vida”: o amor por elas e por outras mulheres! Mas o mais importante é que desse encontro elas buscaram a coragem e o amor para lutar e viver e fora das coisas da vida escolheram o que eu também escolhi: eu mesma, uma mulher lésbica!