BBB10: Cultura de massa e sexualidade

Cultura de massa e sexualidade

Ao ser perguntado por um dos participantes do Big Brother Brasil sobre o que representavam os 77 milhões de votos da eliminação do programa de 23/02/2010 – em que estavam “no paredão” um gay, uma lésbica e um homem heterossexual machista – o jornalista Pedro Bial, apresentador da atração, respondeu: “Eu não sei”. O Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM) buscou conversar com diferentes pessoas – pesquisadores, militantes e telespectadores do programa – para entender como o programa mobilizou tão amplamente a sociedade nesse episódio que excedeu outras eliminações.

Na análise de muitos, o resultado – a saída de Angélica, a protagonista lésbica –reafirmou a vigência de valores conservadores acerca da sexualidade entre o público que assiste o programa da TV Globo. Certamente deu pano para a manga e rendeu diversas manifestações

A escolha dos participantes desta décima edição do BBB, iniciado em janeiro, por si só já apontou para uma intensa polarização entre visões de mundo, ao juntar um gay “mais feminino”, uma drag queen, uma jovem lésbica assumida, um homem heterossexual já conhecido do público como misógino e homofóbico, mulheres heterossexuais sensuais, uma intelectual que se afirmava discrepante do modelo hegemônico de beleza magra e um negro de cabelos afro-étnicos. A separação destes em “grupos” (“coloridos”, “sarados”, “belos” e “ligados”) de antemão prenunciava o tipo de polarização a ser estimulada. A nova lógica implementada cumpre o papel de estratégia para ampliar os índices de audiência, objetivo último de um produto midiático comercial.

Contudo, o “paredão”, formado pela tríade de elementos tão diversos, provocou polêmicas que captaram a imaginação do público e levantou diversas questões. Este paredão, que logo vai ser esquecido pelo de hoje à noite (02/03/2010), confrontou a possibilidade de permanência no jogo de uma mulher lésbica (eliminada com 55% dos votos) com a do jogador cuja personalidade vem expressando uma performance agressiva e ambiguamente discriminatória – veja-se a interdição de se conversar sobre certos assuntos no horário das refeições em troca do rapaz (chamado Dourado) se refrear na emissão de arrotos. A “pequena ética” do grupo, como afirmou Pedro Bial em uma de suas aparições, parece agradar a uma enorme variedade de fãs que resolveram dar um basta ao respeito à diversidade sexual. Dourado parece emergir como modelo do machão heterossexual, destemido, “autêntico”, que “não leva desaforo para casa”.

Em e-mails e telefonemas, o CLAM buscou entender o que parte da audiência entende ou o que se pode ler entre imagens, votos e falas:

Uma editora carioca, assídua telespectadora do programa, afirmou não ter visto qualquer manifestação de homofobia na decisão do público. Afinal, segundo ela, a votação do gay também “emparedado” foi muito baixa e a polarização mostrou que havia muita gente disposta a “detonar” a participação de Dourado. A telespectadora atribui o resultado final ao fato de Angélica ter se envolvido em fofocas de “leva e traz”, o que comprometeu sua popularidade.

Para muitas ativistas lésbicas, porém, o que está por trás da saída da moça é, sim, a lesbofobia. Segundo essas vozes, o problema da personagem foi demonstrar o desejo por outra mulher em pleno programa (outra participante), causando um incômodo no público, o qual tem sido mascarado por outras críticas a ela, como a chamar de “fofoqueira” ou “encrenqueira”. “Ela desafiou a virilidade masculina do homem brasileiro, ao tentar se ‘intrometer’ em uma relação heterossexual, expressando seu desejo pela namorada de um outro participante. Vivemos em uma sociedade androcêntrica e, por conseguinte, falocêntrica”, avalia Jandira Queiroz, assistente de projetos do Observatório de Sexualidade e Política (SPW).

Na análise de Jandira, a moça desafiou a heteronormatividade e o patriarcado, especialmente por encarnar um tipo de lésbica não masculinizada, mas extremamente feminina. “A lésbica bonita e feminina incomoda muito mais. O homem heterossexual ainda entende a lésbica masculinizada, sem entender como ela se construiu ou o quanto esta imagem foi construída como uma forma defensiva de se colocar no mundo”, alinhava a ativista Gilza Rodrigues, presidente do Grupo de Conscientização Homossexual Arco-Íris, entidade responsável pela Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro, segunda maior do mundo em número de participantes.

Para muitas das pessoas ouvidas, o resultado era esperado, considerando o padrão brasileiro de uma sociedade repleta de preconceitos. “A maneira que a homossexualidade feminina veio sendo tratada no programa – referida através de estereótipos masculinos, com a clara intenção de ridicularizar a sua orientação sexual, reforçando as concepções tradicionais de gênero e sexualidade – denota o quanto a questão de gênero perpassa a orientação sexual na experiência cotidiana dos sujeitos.

Com base nessas premissas, sua exclusão do programa leva, sim, a que se possa pensá-la como produto da dominação simbólica. Sua eliminação reforça a idéia de que a mulher não pode impunemente violar as regras de seu estilo de gênero tradicional, tampouco a orientação heterossexual. As lésbicas, mais ainda do que as mulheres heterossexuais, ‘precisam saber o seu lugar’, parece ser a mensagem transmitida com a eliminação da moça”, analisa a historiadora e mestre em Política Social Rita Colaço, responsável pelo blog “Comer de Matula”, dirigido a lésbicas, gays, travestis e transexuais.

Porém, se a eliminação da participante lésbica era esperada, como explicar a permanência de alguém que se assume como “o machão da casa”, afirma que homens heterossexuais não contraem HIV e diz que homossexualidade é opção? Na opinião da psicóloga Vanessa Leite, pesquisadora do CLAM, o relativo sucesso do personagem se ancora na saudade de uma “masculinidade perdida”. “Não existem outros homens heterossexuais que se posicionem como ele no programa. Ele ocupa um lugar no imaginário social do “macho ideal”: autoritário, homofóbico e misógino”, diz ela.

“Ele é um exemplo do machismo no Brasil, mas é apenas a ponta de um iceberg que ainda associa os homossexuais à Aids e que trata a mulher como objeto. A suástica que ele carrega tatuada no corpo já demonstra o que ele pensa em relação à diversidade. Sua manutenção no programa sinaliza que, em parte, a sociedade comunga com as suas opiniões. Isso é preocupante, uma vez que pode vir a prejudicar o trabalho de visualização de direitos e de cidadania realizado por diversas organizações da sociedade civil brasileira”, afirma o ativista Cláudio Nascimento, Superintendente de Direitos Coletivos, Individuais e Difusos da Secretaria de Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro.

Outras vozes fazem coro com Nascimento. “Por sua elevadíssima audiência, o programa pode tanto contribuir para o esclarecimento a respeito de visões preconceituosas e estigmatizadoras, quanto para contribuir justamente para o seu reforço, estimulando personalidades violentas e com dificuldades em se relacionar com a alteridade, como está parecendo ser o caso nesta versão do programa”, salienta Rita Colaço.

“Programas como o Big Brother Brasil, como qualquer cultura de massa, formam opinião, podendo trazer conseqüências tanto positivas quanto negativas. As discussões que são geradas pelas atitudes das pessoas podem tanto diminuir quanto reforçar preconceitos”, diz a jornalista Daniela Novais, que se define como lesbofeminista e atua como articuladora e mobilizadora política no LesBiBahia, articulação autonomista de lésbicas e mulheres bissexuais baianas que discute agenda política e demandas para o movimento em prol dos direitos das lésbicas.

Segundo o jornalista paulista João Marinho, administrador do blog “Gospel LGBT: homossexualidade sem preconceito”, o problema é que, “desde o começo, a emissora ‘marcou’ a sexualidade dos ‘coloridos’ como sua principal característica e diferencial de ‘grupo’. Os grupos da casa não foram formados naturalmente, foram ‘impostos’ pela produção por características que esta considerara como diferenciais. Por esse motivo, quaisquer outras características individuais dos participantes foi ‘mascarada’ – e parece que quase tudo que acontece com eles se remete àquele diferencial. No caso dos coloridos, a sexualidade. Com isso, a emissora gera polêmica e audiência, mas não é possível apontar que a homossexualidade tenha sido o motivador principal da eliminação da moça, especialmente num programa que já teve um homossexual como vencedor”.

O gay em questão foi o professor universitário Jean Wyllys, vencedor da quinta edição do programa. Porém, parece que gays discretos (como Jean) ou menos discretos e mais femininos (como dois dos atuais participantes, que demonstram bons índices de “aceitação” junto ao público) ganham mais facilmente a empatia do público, razão apontada por muitos como um dos motivos da vitória de Wyllys, que se “assumiu” dentro da casa. Por sua vez, João Marinho particularmente não vê como positiva a exposição dos homossexuais nesta edição em particular.

“Seria interessante se a emissora tivesse incluído participantes assumidos, mas não interferisse diretamente na formação dos grupos dentro da casa. Isso, sim, discutiria o preconceito de forma positiva. Não foi o que aconteceu. De certa forma, os ‘coloridos’ – e não apenas eles, mas todos os demais – foram ‘segregados’, ‘marcados’ por uma característica sua, e isso começou a pautar os diálogos, as manifestações de preconceito por parte de outros participantes, e a visão de que somos ‘seres à parte’. Por que uma pessoa não pode ser, por exemplo, ao mesmo tempo ‘sarada’ – um outro ‘grupo’ da casa – e ‘colorida’? Ao evidenciar a sexualidade como característica tão diferencial, talvez com a justificativa de trazer o diálogo, a emissora, na verdade, acaba por reforçar gays e lésbicas como pessoas ‘não-pertencentes’, excluídas de outros grupos por sua sexualidade. Isso é bem negativo”, conclui o jornalista.

Nessa busca de opiniões acerca dos participantes, o comentário da antropóloga Paula Lacerda centra-se na análise da dinâmica do programa – muito intensa – o que faz com que vários episódios façam, desfaçam e reconstruam a imagem dos candidatos: “No início do programa, Dourado compartilhou, com um outro participante, a encarnação do ‘forte e rude’. No entanto, só este último não foi estigmatizado e objeto de discriminação pelo grupo trancafiado na casa”, diz. Ela não entende por que Dourado encarne o signo pleno da discriminação contra a diversidade sexual dentro do BBB10. Para a antropóloga, a cena armada por outro participante depois que a namorada (aquela, por quem a participante lésbica se sentiu atraída) supostamente o chamou de gay (ou bissexual?) foi a grande homofobia desse programa. “Não bastasse a revolta desencadeada com a brincadeira, ele considerou um problema adicional o fato da namorada ter conversado sobre isso justamente com um dos colegas gays”.

Há um outro tipo de público que acompanha as vicissitudes do programa sem necessariamente assisti-lo: são os fãs dos blogs e comentários on line. Segundo a antropóloga e professora do Museu Nacional Adriana Vianna, o que parece estar havendo é a vitória da “tosquice” e uma reação das pessoas a não torcer pelos participantes “só” pela sua orientação sexual, antepondo-se ao que parece “politicamente correto”.

Não resta dúvida, as cenas de homofobia se inserem em muitos planos e cenas do programa e a magia dessa discriminação, tal e qual outras formas de preconceito, é fazer parecer que elas não são efeito de uma moralidade heteronormativa, mas sim de características dos indivíduos. Como a de Marcelo Dourado, que ressalta a máxima cavalheiresca de que ele não bate em mulher. A questão, assinala um fisioterapeuta gay, é que “ele não deveria bater em ninguém – nem homem, mulher, cachorrinho etc…”

IMS/UERJ – R. São Francisco Xavier, 524, 6º Andar, BL E-20550-013-Rio de Janeiro-RJ-Brasil-Tel:(21)2568-0599

Vereadora transexual toma posse vestida de rosa

Do portal CEN Brasil.

leo-kretSALVADOR – Vereadora do Partido Republicano, a transexual Léo Kret do Brasil tomou posse na Câmara da capital baiana cumprindo a promessa que havia feito aos seus eleitores: ir vestida de roupas da cor rosa.

– Essa é uma homenagem minha para a cidade de Salvador. Quero mostrar a todos que sou transexual e respeitada – afirmou. O modelo escolhido foi um terninho e sapato bico. – Estou chique, hem? É preciso estar elegante em um dia tão importante como esse.

Léo Kret revelou que uma das prioridades durante o governo será dada para comunidade Gay de Salvador.

– Fui eleita pelo povo e vou lutar pelos LGBTs. Tenho um compromisso especial com quem tanto me apoiou para que eu pudesse chegar à Câmara de Vereadores e desempenhar minhas funções. Quero acabar com a homofobia e o preconceito – disse.

Durante a campanha, a vereadora afirmou ter sofrido atos de discriminação social, por mais que se sinta respeitada dentro de seu novo ambiente de trabalho.

– Na campanha sofri muito. O preconceito infelizmente ainda existe. Aqui dentro não vejo isso. As pessoas me olham com seriedade.

Batizada como Alessandro Sousa Santos, a vereadora luta ainda para oficializar a mudança de nome.

– Minha identidade social é feminina. Não vejo porque não assinar como Leo Kret do Brasil.

Fonte : JB Online

25 de novembro: ABL e D’Ellas lembram FannyAnn Eddy

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Dentro de mim mora um anjo

Ivan Martins e fotos de Ricardo Corrêa – Revista Época – 04/09/2008

Ele é pai, marido e homem de negócios. Debaixo da camisa, esconde seios e o desejo irrefreável de vestir-se de mulher. Como entender o universo ambíguo de um “crossdresser”?

 

Quem me vê assim cantando
Não sabe nada de mim
Dentro de mim mora um anjo
Que tem a boca pintada
Que tem as unhas pintadas
Que passa horas a fio
No espelho do toucador

Trecho da música de Suely Costa e Cacazo.

 

Identidade Secreta
Márcia se exibe, mas esconde sob a máscara o rosto de Márcio. Tem sido assim desde os 4 anos de idade.

Por qualquer ângulo que se olhe, o advogado Márcio é um homem de sorte. Tem uma mulher linda, filhas amorosas, saúde e boa aparência. Aos 45 anos, por força do próprio trabalho, é dono de um sólido patrimônio. Seus negócios lhe asseguram o que se costuma chamar de independência financeira. Márcio trabalha no escritório que montou em casa, viaja quando deseja e pode dar-se ao luxo de passar uma tarde inteira, no meio da semana, fazendo a lição de casa com a filha mais velha, de 12 anos. Tem uma vida tranqüila, invejável mesmo, exceto por aquilo que ele chama de “meu problema”. Duas vezes por semana, Márcio sai do apartamento onde mora e vai para outro, no centro velho de São Paulo, onde se veste, dos pés à cabeça, das sandálias de salto 12 à longa cabeleira castanha, como mulher.

Com quase 1,90 metro de altura, 90 quilos e ombros de remador, a figura feminina que ele compõe nessas ocasiões não é muito delicada. Mas isso não faz diferença. Márcio é “crossdresser”, palavra que designa um grupo de homens que sofrem a compulsão de trajar-se e portar-se como mulher. “Montado”, quer dizer, vestido de mulher, Márcio transforma-se em Márcia. E parece perfeitamente feliz. Na pele dela, de minissaia e blusa justinha, pode passar a noite no computador, exibindo-se pela câmera web em sites de encontros. Ou pode sair e jantar fora com amigos crossdressers como ele. Em ocasiões mais raras, tem encontros sexuais com homens.

Essa é sua vida secreta, de que apenas sua mulher e algumas poucas pessoas têm conhecimento.

Numa enorme prova de confiança, Márcio permitiu que eu acompanhasse seu cotidiano durante três semanas. Abriu as portas de suas duas casas, me apresentou sua mulher, mostrou-me retratos do casamento e fotos das filhas. Fui com ele a um encontro de trabalho, conheci o grupo de que ele participa – o Brazilian Crossdresser Club, ou BCC – e conversei, autorizado por ele, com um dos psicólogos com quem se tratou. O resultado dessa convivência está exposto a seguir, com mudanças e omissões que permitem proteger a identidade de Márcio e de sua família.

Foi uma exigência dele e da mulher, e faz sentido. Em setembro de 2000, a revista Marie Claire publicou a foto de um casal que vivia de forma semelhante. Apesar de escondida por um leque, a mulher foi reconhecida. Seu marido, exposto, foi demitido da multinacional em que trabalhava.

Márcio não pode ser demitido porque é patrão, mas tem muito a perder. “Minha intimidade com meu marido está perfeitamente resolvida”, diz Priscilla, de 27 anos, casada com Márcio desde 2003. “Meu único medo é a exposição e o escândalo. As pessoas não entendem. Tratariam a ele como doente e a mim como louca ou oportunista. Isso atrapalharia um relacionamento que é muito bom”.

Márcio e Priscilla vivem protegidos por uma redoma de segredo e, dentro dela, levam uma vida que não é fácil nem simples. Há dois anos, desde que começou a tomar hormônios, Márcio não pode mais ir à praia ou partilhar a piscina dos amigos. Seus mamilos cresceram e se transformaram em seios, que ele torna ainda mais femininos com a marca de biquíni do bronzeamento artificial. A cintura grossa de esportista foi afinada com lipoescultura. As nádegas, arredondadas por um implante. Pêlos no rosto já não há. Assim como as axilas, as faces sofreram depilação a laser, permanente. Cabelos compridos e lisos, sobrancelhas delineadas e as unhas longas e tratadas completam o personagem. Na maior parte do tempo, quando não está travestido, Márcio usa faixas ou coletes cirúrgicos sob a camisa folgada para esconder os seios.

Isso tem de ser feito mesmo em casa, por causa dos empregados.

Na manhã em que fui trabalhar com ele, Márcio vestia uma camiseta e uma jaqueta de couro. Não se percebia nada. Os cabelos, amarrados em rabo-de-cavalo, não chamam a atenção, assim como o brinco. Há muita gente assim nas ruas de São Paulo. O que salta aos olhos é o formato das sobrancelhas e as unhas longas. A advogada com quem ele formalizou a assinatura de um contrato pareceu nada notar. Ou foi discreta. Márcio diz que nas raras ocasiões em que tem de ir ao Fórum, uma ou duas vezes por ano, sua aparência chama a atenção, mas juízes e colegas sabem que a discriminação é ilegal. Limitam-se a olhar discretamente. Ainda assim, ele prefere resolver quase tudo sem sair de casa, por telefone ou internet. Delega a outros advogados a administração diária de seus três negócios. Coisas que outras pessoas fazem normalmente, como ir à academia, estão proibidas para ele, por causa das formas femininas. “Eu teria de usar um top”, diz ele. E acrescenta, com um traço de melancolia: “Não recomendo hormônios para ninguém. O custo pessoal é muito alto”.

Vida Dupla
Duas vezes por semana, o empresário de 1,90m se transforma em mulher e pode terminar a noite com um homem.

Márcio diz que começou a tomar pílulas anticoncepcionais aos 14 anos. Queria uma pele mais feminina, menos pêlos, talvez um pouco de quadris e seios. Foi descoberto pelo pai – e mandado a um psicólogo. Parou por um tempo, mas a pulsão era forte e retornou. Desde pequeno ele se vestia de menina. Adolescente, pôs um cofre no quarto onde guardava seus pertences de mulher: sapatos, vestidos, meias… Márcio afirma que não foi um garoto afeminado, ao contrário. Diz que se destacava nos esportes, chamava a atenção das meninas, participava com sucesso de atividades de grupo. Lutou jiu-jítsu e capoeira e, mais de uma vez, saiu no braço com os colegas da escola de elite na qual estudava, em São Paulo. Esse lado macho convivia, na clandestinidade, com as sessões privadas de travestismo. “Eu me sentia diferente, sabia que era diferente, mas ninguém notava”, afirma. Esse relato confere perfeitamente com a descrição da psicanalista brasileira que mais entende de crossdressers, a paulistana Eliane Kogut. Ela acompanhou os integrantes do BCC por sete anos. Vários deles foram pacientes em seu consultório. Eliane defendeu, em 2006, uma tese de doutorado na PUC de São Paulo sobre esse grupo social. Na tese, diz que eles começam a se vestir de menina por volta dos 4 anos e que essa compulsão irrefreável – e inexplicável – os acompanha pelo resto da vida. Sem prejuízo, diz ela, da masculinidade. Os crossdressers, também chamados CDs, não foram meninos delicados nem são homens afeminados. Namoram, casam, têm filhos e sofrem com o desejo de se vestir de mulher. “Antes da internet a vida deles era um inferno”, afirma Eliane. “Viviam isolados, cada um deles sentindo-se uma aberração”.

O senso comum sugere que esses homens são homossexuais reprimidos. Eliane afirma que o senso comum está errado. “Não há registro, na literatura médica ou na minha experiência, de crossdresser que tenha se revelado homossexual”, diz ela. O caso de Márcio é exemplar. Quando está de sapo – isto é, vestido como homem na gíria dos crossdressers -, ele não se distingue, pelos modos, de um sujeito qualquer de sua classe social. Talvez seja até um pouco mais assertivo que a média. Fala alto, coloca-se com firmeza, não há sinal de maneirismos em sua linguagem corporal. No trato com a mulher, tem uma postura de macho dominante – fala muito, rouba a cena, às vezes “explica” os sentimentos da parceira. Nada ofensivo ou grosseiro, mas a velha patronagem masculina está lá. Antes de conhecer Priscilla, ele teve dois casamentos e uma fieira de namoradas. Jovem, bonito, bem-sucedido, diz que transitava num universo de festas freqüentado por modelos, artistas e filhas de empresários. Como qualquer homem de meia-idade, adora exibir conquistas passadas. “Eu estava procurando”, afirma, enquanto segura a mão da mulher e a olha de um jeito carinhoso. Toda vez que se envolvia com uma garota, diz Márcio, tentava descobrir os sentimentos dela sobre práticas de sexo menos convencionais. A maioria não passava no teste. Eram conservadoras e, como tais, descartadas. Nas duas vezes anteriores em que se casou, as mulheres sabiam sobre Márcia, sua persona feminina. Era uma precondição.

Com Priscilla, foi diferente.

Mais que tolerar, ela tornou-se cúmplice. Embora 18 anos mais nova, tinha experiência sexual e – nas palavras dela – “vontade de fazer coisas diferentes”. “Na primeira vez em que saímos, ela me disse que tinha a fantasia de vestir-se de homem com um homem vestido de mulher”, diz Márcio.

Segundo Priscilla, era apenas uma brincadeira. Soou como presságio aos ouvidos do futuro marido. Namoraram, noivaram de aliança no dedo e casaram-se rapidamente, com todos os festejos e formalidades: o garanhão que se vestia de mulher às escondidas e a mocinha espevitada com rosto de Mirian Rios. No fim de maio, durante as festas que antecederam a Parada Gay de São Paulo, Márcia e Priscilla foram juntas ao The Week, conhecida balada gay de São Paulo. “Ela estava deslumbrante. Eu estava com uma saia curtíssima, mas ninguém nos deu bola”, diz Márcio.

Há uma chance real de que isso dê certo? É possível que um homem que gosta de se sentir mulher e uma garota de gosto sexual apimentado formem um casal estável? Se depender da opinião dos psicólogos, sim. “Essas pessoas podem ser até mais felizes”, diz Oswaldo Rodrigues, do Instituto Paulista de Sexologia. “Elas têm coragem de fazer coisas que outros não têm coragem de fazer. Isso une e dá sentido a sua vida.” Do ponto de vista dos psicólogos, todo casamento é uma espécie de arranjo existencial mais ou menos precário e não existe um deles que seja igual ao outro. O arranjo de Márcio e Priscilla é de um tipo raro. O tempo de sua duração e a intensa ligação entre os parceiros sugerem que se trata de algo sólido. “Se as pessoas não estão vinculadas, esse tipo de união acaba em dois tempos”, diz Rodrigues. Ele já recebeu em seu consultório, no bairro de Perdizes, vários casais desse tipo. Diz que, tipicamente, a conversa começa com o homem dizendo a ele: “Doutor, explica para a minha mulher que não tem nada de errado comigo”. Claro que não é tão simples. Mas as pessoas, quando se querem e se entendem, costumam arrumar um jeito de organizar a vida. “Não é o sexo que mantém os casamentos. É o cotidiano, é a cumplicidade”, diz Rodrigues.

Sexo, porém, é uma grande questão. Márcio não se furta a discuti-la. Diz que sua relação com a mulher é “perfeitamente normal”, embora haja consenso de que os hormônios femininos que ele toma (progesterona e estrogênio) derrubam a libido. “Eu transava todos os dias. Agora, com os hormônios e com o convívio, a freqüência baixou para um ou dois dias por semana”, afirma. Num casamento de cinco anos, parece perfeitamente normal. Mas a estatística não diz tudo. É por isso que eu sinto intensa curiosidade diante de Priscilla tão logo somos apresentados. Ela tampouco recusa a conversa sobre sexo, embora seja mesquinha nos detalhes. Vestida como a universitária que era até o ano passado, de tênis, jeans e blusa branca, prende os cabelos e acende um cigarro antes de fixar os olhos castanhos em mim. “A Márcia não piorou minha vida sexual”, afirma.

De Boca Pintada
Márcia fica feliz no toucador, mas a aparência feminina é um problema social para Márcio.

Estamos na sala de estar da garçonnière de seu marido, que ela ajudou a decorar. Ao nosso redor estão sete homens de idades variadas, vestidos de mulher. Tratam-se por Kelly, Elisabeta, Márcia… O marido de Priscilla é um deles. Priscilla conta que ficou chocada quando o viu “montado” pela primeira vez, mas acabou se acostumando – embora, ainda hoje, se incomode com os trejeitos femininos de Márcia. “É chato, mas todo mundo tem defeitos”, diz ela. Sim, mas poucos homens depilam as sobrancelhas e fazem crescer seios. “Não me incomoda”, afirma Priscilla. “A aparência dele foi mudando aos poucos. Só percebo quando olho as fotografias”.

Com o perdão da intrusão, a vida sexual do casal não foi destruída pelas formas femininas dele? “Não”, ela responde. “O desejo não vem necessariamente do corpo. Depois de um tempo de casamento, a vida sexual muda muito, mesmo que o corpo não mude.” Pode ser apenas uma racionalização, mas Priscilla a sustenta com convicção. Na tarde em que conversei com os dois na casa deles, dias depois, Márcio gabava-se de que a noite anterior do casal tinha sido “espetacular”. Ela limitou-se a olhá-lo de lado, em silêncio desaprovador, como as mulheres fazem com freqüência diante das gabolices sexuais dos maridos. Era uma cena de casamento perfeitamente corriqueira, até na banalidade.

Os psicólogos dizem que as mulheres de crossdressers têm em comum o pavor de que seus maridos se revelem homossexuais. Priscilla diz que não é seu caso. Mesmo que Márcio saia com homens de vez em quando, ela diz “ter certeza” de que ele gosta de mulher. A tese de doutorado de Eliane Kogut propõe uma abordagem diferente desse assunto. Diz que o erotismo dos crossdressers – aquilo que dispara e sustenta a excitação – é voltado para eles mesmos, não para outros homens ou mulheres. Quando fazem sexo com uma mulher, excitam-se ao se colocar mentalmente no lugar delas. Se estiverem com homens, a excitação sexual vem da confirmação de sua identidade feminina. “O objeto final do desejo deles é a mulher que são capazes de montar”, diz Eliane. “É um erotismo autocentrado.” Há outro argumento robusto contra a tese da homossexualidade reprimida: se o sujeito deseja ocultar desejos homoeróticos, seria improvável fazê-lo vestido de mulher, atraindo ainda mais atenção para sua feminilidade.

No caso de Márcio e Priscilla, o desejo, como quer que ele se manifeste, mistura-se aos cuidados mútuos. Quando ele sai para um encontro com outro homem, ou mesmo quando vai entrevistar um candidato a sócio do BCC, o casal combina códigos de segurança ao celular. “Há muito homófobo por aí”, diz ele. Da mesma forma, quando ela sai para encontros com outros homens, o que também acontece, ele às vezes faz questão de conhecer o sujeito. “Me preocupa a segurança dela”, afirma. Afetivamente, claro, o risco é permanente. A mulher jovem e linda pode se apaixonar por um sujeito mais másculo ou apenas mais simples do que ele, diz Márcio. “Mas eu também posso encontrar outra mulher, não posso? Ninguém está 100% seguro”, afirma.

Quantas pessoas vivem dessa maneira? Na tese de Eliane Kogut cita-se uma estatística do início dos anos 90, segundo a qual algo entre 0,5% e 3% da população seria composta de crossdressers e travestis. O intervalo é grande – e os porcentuais provavelmente não significam nada. Sabe-se que o BCC reúne no Brasil cerca de 350 associados, mas isso também não diz muito. Julga-se, ou melhor, suspeita-se que a maioria dos CDs é casada. Nos Estados Unidos, a mais antiga associação mundial de crossdressers, fundada em 1976 com o nome de Tri-Ess International (ou Sociedade para o Segundo Eu), promove festas anuais gigantescas, mas a organização não informa quantos associados tem. Se faltam estatísticas, existe alguma história. O imperador romano Heliogábalo, que reinou brevemente no século III, vestia-se de mulher publicamente. Chegou a encenar um defloramento ao se casar com um escravo. Foi morto por seus soldados. O Chevalier d’Eon é outra figura famosa no panteão da ambigüidade. Viveu no século XVIII na corte francesa, como nobre e diplomata. Fugiu para a Inglaterra depois da revolução de 1789 e lá morreu sem que se soubesse exatamente a que gênero pertencia. Houve apostas na Bolsa de Londres que terminaram com a autópsia: era homem. Recentemente, foi publicada nos Estados Unidos a biografia de Gregory Hemingway, filho de Ernest, escritor tido como o mais durão do século XX. No livro, escrito por John Hemingway (neto de Ernest), descobre-se que Gregory, além de bipolar e autodestrutivo, tinha um problema insolúvel de identidade de gênero: o mesmo homem que caçava elefantes na África e se atirava sobre as mulheres em toda parte freqüentava os bares do Estado de Montana vestido de mulher. Teve quatro casamentos, os dois últimos em meio a intensas transformações cirúrgicas que fizeram dele (quase) uma senhora.

Casos como esse de Gregory Hemingway sublinham a confusão no mundo das novas sexualidades. Crossdressers se diferenciam de travestis por não se prostituir, por transitar regularmente entre a situação de homem e mulher – os travestis ficam montados permanentemente – e, em certa medida, por ser mais contidos na modificação corporal. CDs raramente fazem implantes de silicone e cirurgias. Márcio, com seios e esculturas corporais, está no limite das duas categorias. Há, por fim, os transexuais, aqueles que se sentem mulheres aprisionadas no corpo de homens. Estes às vezes passam anos na condição de crossdressers antes de se decidir por uma operação de mudança de sexo. Eliane Kogut diz que 6% dos CDs que ela acompanhou em sua pesquisa fizeram a cirurgia e assumiram a identidade de mulher. Tudo isso, claro, é visto pela psiquiatria tradicional por uma lente rigorosa e desaprovadora. Ao contrário da homossexualidade, o travestismo ainda é considerado patologia, um transtorno de identidade de gênero. “Com o tempo, isso vai mudar”, afirma Eliane. “A homossexualidade só deixou de ser considerada doença em 1974”.

Diante de um senhor alto e corpulento, vestido com sandália branca e peruca ruiva, é difícil esconder o desconforto. Estou no apartamento de Márcia, conversando com um grupo do Brazilian Crossdressers Club. A organização foi criada há 11 anos com o objetivo de ajudar os CDs e colocá-los em contato uns com os outros. O grupo se comunica por meio do site http://www.bccclub.com.br. Ali eles trocam literatura, serviços e organizam um grande encontro anual, o Holliday En Femme, durante o qual passam um fim de semana inteiro vestidos de mulher. O senhor alto de peruca ruiva acabou de se integrar ao grupo, com cognome de Márcia Polari.

Tímido, está vivendo as primeiras experiências de sair em público vestido de mulher. Ele é médico, casado, pai de filhos adultos. Diz que costumava montar-se apenas nos Estados Unidos, quando viajava. Comprava roupas íntimas e calçados de mulher no Wal-Mart, trancava-se no quarto do hotel – e ali passava horas imerso em fantasias. Agora é diferente. Desde que conheceu o BCC, tem se “montado” com freqüência. Seu lado feminino está exigindo mais – a ponto de ele se perguntar sobre o futuro de seu casamento. Sua mulher não sabe da vida paralela. Semanas atrás, o grupo de crossdressers contratou um profissional para maquiar a “novata” pela primeira vez. De costas para o espelho, recebeu base, batom e seus olhos foram pintados. Quando a cadeira girou e ele se viu no espelho de maquiagem, soltou um grito: “Esta sou eu!”. Aos 62 anos.

Psicólogos e psicanalistas dizem que a angústia dos CDs será tanto mais grave quanto mais clandestinos eles viverem. “Quanto mais você tem a esconder, maior a angústia”, diz Eliane. A pulsão de vestir-se de mulher emerge com mais força em períodos de ansiedade e frustração, como ocorre com viciados em drogas. É o período que os CDs chamam de “urge”. Quando finalmente se vestem, sentem um prazer que é propriamente sexual, e a ansiedade se reduz. A isso, porém, segue-se um período de culpa, durante o qual tomam a decisão de “nunca mais” se travestir. Ao sentimento negativo, os CDs dão o nome de “purge”. Os períodos opostos, de entrega e negação, parecem se alternar ao longo da vida dos crossdressers. “Conheci um deles que tinha feito quatro guarda-roupas”, diz Eliane. Quando o sujeito encontra um lugar seguro para a persona feminina em sua vida – como ocorreu com Márcio -, a gangorra desacelera e a angústia decresce. A mulher de Márcio diz que ele se tornou muito mais produtivo nos últimos anos, quando Márcia passou a ter um papel importante na vida deles. O que parece difícil é livrar-se definitivamente da pulsão. Os CDs dizem que não há ex-crossdresser, ainda que médicos como Oswaldo Rodrigues relatem casos de pacientes que deixaram essa situação para trás. “O ser humano é o animal mais plástico que existe”, diz ele. “Toda compulsão é mutável”.

O site do Tri-Ess americano contém um documento eloqüente para quem deseja entender o universo dos crossdressers: os 12 direitos das mulheres de CDs. A lista contém coisas engraçadas – “Temos o direito de ser consultadas antes que usem nossas jóias e maquiagem” – e outras de teor sombrio. “Temos o direito ao corpo masculino dos nossos maridos”, diz o documento. “Nenhuma parte no casamento tem o direito de alterar o corpo sem o consentimento do outro”. Esse comentário revela um comportamento dos crossdressers que é motivo de grande ansiedade entre suas esposas: a tendência a avançar na personificação feminina, a ponto de colocar em risco o trabalho, a família e o convívio social. Márcio tinha cabelos curtos, raspava a barba e aparava as unhas quando se casou com Priscilla. Hoje, toma hormônios, se depila e montou um apartamento para seu lado mulher. Os CDs com quem conversei dizem que “testar os limites da transformação” é um clássico entre eles.

Pergunto ao casal Márcio-Priscilla onde a mudança física dele vai parar. Ele, sem hesitar, diz que já parou. Ela faz um gesto de incerteza. “As mulheres são muito importantes na vida dos CDs.

Elas dão o limite”, afirma a psicanalista Eliane. Priscilla usa palavras parecidas para falar de seu casamento: “Eu me sinto a âncora dele”. A filha adolescente de Márcio vem sendo informada aos poucos da situação e, segundo ele, recebe tudo “com naturalidade”. Ela é capaz, por exemplo, de fazer piada com os seios do pai e de rir quando ele, num arroubo de moça, “precisa” comprar uma sandália exposta na vitrine do shopping. Tamanho 41. Parece grotesco? Semanas atrás, eu também acharia. Depois de conviver com Márcio e sua família, depois de conversar com seus amigos e de ouvir os psicólogos, minha opinião mudou. O sujeito é bom pai, bom marido e leva uma vida sexual da pesada. E daí? Tanto quanto eu pude perceber, ele não faz mal a ninguém.

Pesa sobre seus atos, ademais, uma camada de inevitabilidade. Na primeira vez em que conversamos, Márcio me disse: “Se existisse uma pílula que acabasse com a Márcia, eu tomaria. A vida seria mais simples”. Quem duvida?

Juiz argentino autoriza transexual a mudar nome no documento sem fazer operação

Caso inédito no país abre precedentes na América Latina

do portal G1

Em um caso inédito na América Latina, um transexual argentino poderá alterar sua identidade sem precisar realizar uma operação para mudar de sexo.

Tania Luna, de 25 anos (foto), ganhou na Justiça o direito de adotar a identidade feminina depois que o juiz Pedro Hooft deferiu uma sentença em favor dela.

 Em entrevista à BBC Mundo, Tania disse que sempre se sentiu mulher. Aos 16 anos, escolheu o nome que carrega atualmente – ela não quis revelar sua identidade anterior, porque “não a representa” – e começou a tomar hormônios e criar uma aparência feminina.

Aos 18 anos, aplicou silicone nos glúteos e, aos 21, sua família a presenteou com uma operação de implante de mamas.

“Sei que a frase soa batida, mas sempre me senti no corpo equivocado”, disse Tania na sede da Comunidade Homossexual Argentina (CHA).

“Minha família sempre me apoiou, de modo que a advogada que me representa é minha irmã”, diz orgulhosa.

“Esta sentença é essencial para mim, porque muda meus direitos a nível trabalhista e social. Agora posso me casar, ter um filho e direito à licença maternidade. Além disso, abre portas para que outras pessoas como se animem a fazer o mesmo”.

Precedentes

O secretário da Comunidade Homossexual Argentina, Marcelo Suntheim, diz que a sentença do juiz argentino abre precedentes em toda a América Latina e Caribe. A associação apoiou a jovem ao longo do processo jurídico e planeja agora apresentar ao Congresso argentino um projeto de lei nacional de identidade de gênero que permita a muitas pessoas como Tania a mudar de nome.

“Um dos grandes problemas enfrentados pelos transexuais é que, desde adolescentes, quando entram na escola, sofrem um grande assédio porque têm aspecto feminino quando seus documentos dizem o contrário”.

Segundo Suntheim, mais de 95% dos transexuais e travestis não terminam a escola na Argentina, o que contribui para os níveis de desemprego entre este grupo. A própria Tania é um exemplo deste caso. A jovem conta ter sido expulsa da escola e que com o novo documento pretende retomar os estudos e cursar medicina. 

A sentença do juiz Pedro Hooft se soma a uma série de medidas adotadas recentemente pela Argentina em defesa dos direitos homossexuais. Além disso, entrou em vigor no mês passado o direito de pensão por viuvez para parceiros gays.

Maluf e Lula: discursos diferentes, mas iguais

Hetero… o quê?

do blog Bota Dentro

Você já ouviu falar do termo ‘heteronormatividade’? Não? Mas, com certeza, em algum momento da sua vida já se viu em uma situação completamente influenciada por ela. Eu explico: este termo é usado para descrever situações nas quais as variações da sexualidade são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas.

Vem daí aquele argumento mais que manjado e combatido pelos gays e pelos simpatizantes: aquela idéia de que os seres humanos recaem em duas categorias distintas e complementares, macho e fêmea, e que relações sexuais e maritais são normais somente entre pessoas de sexos diferentes. Assim, segundo essa norma (que significa esquadro em latim), sexo físico, identidade de gênero e papel social de gênero deveriam enquadrar qualquer pessoa em padrões integralmente masculinos ou femininos, heterossexuais.

Duas declarações publicadas nesta quarta-feira pela imprensa mostram bem o quanto a nossa sociedade é feita para heterossexuais, mesmo quando quem fala não tem a menor intenção de ser preconceituoso. Vejamos: o ex-prefeito e atual deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), mais uma vez candidato à Prefeitura de São Paulo, disparou: “Eu tenho um profundo sentimento cristão. O normal é homem gostar de mulher. Homem com homem não é normal. Não vou dizer que é normal só para ganhar votos de gays”.

Em situação completamente oposta, mas com alguma coisa em comum, está a entrevista concedida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à Agência Brasil, empresa estatal de comunicação. Não é segredo para ninguém que o presidente já fez várias vezes comentários positivos em relação às uniões homoafetivas. E desta vez, ele foi direto no ponto: Presidente, o senhor é a favor do casamento gay?

A resposta: “Eu a vida inteira defendi o direito à união civil. Acho que nós temos de parar com hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária. Constroem uma vida juntos, trabalham juntos e por isso eu sou favorável. Eu acho que nós temos que parar com esse preconceito.”

O problema está no trecho seguinte: “Olha, nós temos que tratar sem nenhuma discriminação a vida que cada um leva dentro de casa, o parceiro que quer ter a mulher ou homem é problema deles. O importante é que sejam cidadãos brasileiros, respeitem a Constituição e cumpram com seu compromisso com a Nação. O resto é problema deles e eu sou defensor da união civil.”

Desculpe, presidente. Mas, eu não quero ser gay só dentro de casa. Esse trecho me lembra aqueles discursos: “Quer dar a bunda em casa? Tudo bem. Só não me vem dar beijinho na rua, tá?”

Tropeço de Lula ou não, eis a influência da heteronormatividade.

Acrescento algo mais aqui. Além de reivindicar o respeito dentro e fora da minha casa, ou seja, da esfera privada, ser lésbica ou gay não é “problema” nosso, é condição, orientação, e até pode ser opção em alguns casos. Agora… problema, não é. Torna-se um problema de saúde pública quando tantas e tantos de nós somos agredid@s violentamente a cada dia, simplesmente porque amamos e nos relacionamos de modo que foge à regra da heteronormatividade.

Definitivamente, já que o Presidente Lula anda se aventurando a dar declarações sobre direitos de homossexuais (parabéns pra ele!!) precisa de uma boa assessoria em assuntos LGBT, alguém que explique essas coisas pra ele, senão vai ser gafe atrás de gafe. Não adianta muito levantar a bandeira em Conferência Nacional, sem saber o que ela representa para cerca de 10% da população brasileira. Essa frase do “é problema de cada um o que faz dentro de casa” ele proferiu também na Conferência Nacional LGBT, no meio de outras pérolas, e muita gente fez cara de limão azedo na platéia, mas era o Presidente apoiando a causa… Obrigada, Presidente! Mas se o apoio não for consciente e consistente, pode até atrapalhar…

Todavia, nem tudo são críticas. O Presidente saiu-se muito bem fazendo o seguinte questionamento:

“Por que os políticos que são contra [a união homoafetiva] não recusam os votos deles, por que o Estado brasileiro não recusa os imposto de renda que eles pagam?”, questionou Lula.

Por quê?

Segundo a Agência Brasil, para o presidente, a sociedade e o Estado brasileiros têm que parar de agir com hipocrisia.

Para nós também, Presidente!

Postado por Jandira Queiroz